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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
22
Nov20

VIAGEM - COROA DE SONETOS

Maria João Brito de Sousa

viagem.jpg

VIAGEM
*

COROA DE SONETOS

*

 

Laurinda Rodrigues e Maria João Brito de Sousa

*
1
*

Desço ao fundo de mim, ao inconsciente
onde dormem vivências esquecidas.
Sei que naquilo que sou já fui diferente
e que hei-de ser diferente noutras vidas.
*

Sou toda um Uni-verso entrelaçado
de peças materiais que vão expandindo.
Fico parada a olhar o céu alado,
sentindo uma pulsão que está abrindo.
*

Meu outro Ser perdurará na luz
que me envolveu na terra feita em cruz
que não pode fugir ao seu destino...
*

Mas é aqui e agora que me afirmo:
mesmo que o corpo caia no abismo  
a alma cantará, convosco, um Hino.
*

Laurinda Rodrigues
*

2
*

"A alma cantará, convosco, um hino"

Até depois da vida anoitecer

Enquanto se souber que fui menino,

Enquanto alguém lembrar que fui mulher
*

Na memória persiste o tal destino

Que bem longo será se alguém me ler;

Assim o vejo há muito, assim defino

Viagem, vida e espanto de viver.
*

De mim, da minha própria identidade,

Terá sobrado o verso que se evade

À decomposição inexorável
*

Do que foi o meu corpo passageiro;

Cigarro aceso à beira de um cinzeiro

De porcelana breve e descartável.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 19.10.2020 - 13.43h

*

3
*

"De porcelana breve e descartável"

ouço cair estilhaços pelo chão

e um riso perverso insaciável

atravessou o espaço da Razão.
*

Talvez seja o diabo em sintonia

com a nossa condição de ser mortais

ele é sempre julgado à revelia

no tribunal dos loucos amorais.
*

Mas não se iludam! Esse demo existe

bem no fundo de nós, onde persiste

uma história de erros, frustrações...
*

Afinal, a loucura pouco importa

se é, com ela, que o poeta exorta

o mundo turbulento das paixões.
*

Laurinda Rodrigues
*

4
*

"O mundo turbulento das paixões"

Faz do Olimpo um nada, uma sequela;

No palco dos heróis e dos vilões

Desta realidade paralela
*

Há gigantes que fogem dos anões

E a Fera é perseguida pela Bela

Enquanto os anjos brincam com dragões

E a bruxa se transmuta em Cinderela.
*

No mais fundo de mim, se o demo existe,

Procuro descobrir-lhe o vulto triste

Mas não lhe encontro rasto e nem o faro
*

Me dá qualquer sinal de outra presença

Que de mim mesma não seja pertença;

Será a sua ausência um caso raro?
*


Maria João Brito de Sousa - 19.11.2020 - 16.22 h
*

5
*

"Será a sua ausência um caso raro?"

ou o transporte ao Olimpo é de avião

e não viu lá de cima o exemplo claro

da luta do gigante com o anão?
*

É preciso esperar pousar na pista

sem muita turbulência na aterragem

para que o piloto hábil lhe resista

sem medo de entrar em derrapagem.
*

Porque isto de emoções tão reprimidas

que fogem ao arbítrio do Rei Midas

na decisão de ser um demo ou anjo
*

é, mesmo, o velho tema do destino

(porque nasceu mulher e não menino)

porque toca piano em vez de banjo?
*

Laurinda Rodrigues
*

6
*

"Porque toca piano em vez de banjo"

Quem no trompete ou na guitarra é ás?

Quem lhe imporá tamanho desarranjo

Ao afastá-lo do que mais lhe apraz?
*

Nestas perguntas, mais tempo não esbanjo;

Não quero incomodar, sendo tenaz,

Quem disto saiba mais que quanto abranjo

E, em coisas destas, nunca fui sagaz...
*

Às emoções, porém, nunca reprimo

Que a toda a hora as rondo, sondo e esgrimo

Com grande habilidade e destemor
*

E aos temas nunca escolho. O meu escolhido

É sempre um som que aflora ao meu ouvido

E me enfeitiça e se me sabe impor.
*


Maria João Brito de Sousa - 20.11.2020 - 11.18h

*
7

"E me enfeitiça e se me sabe impor"

como uma vaga que cresce sem aviso

alerta o marinheiro para compor

o sentido que o leva ao paraíso...
*

Ele não está preparado mas aceita

deixar a onda desfazer na praia...

Não tem sabedoria nem receita:

o instrumento toca aquilo que ensaia.
*

Mas não esqueceu o tema desta vida:

"em frente camarada" destemida!

não há razão que te perturbe o Ser.
*

Músico ou poeta ou marinheiro

o canto das estrelas cabe inteiro

na mutação que vai acontecer.
*

 

Laurinda Rodrigues
*

8
*

"Na mutação que vai acontecer"

E vai acontecendo a cada instante

Do que a mãe-tecelã está a tecer

No seu velho tear desconcertante.
*

Decerto nos irá surpreender

A criatividade galopante

Que esse velho tear demonstra ter

Na sua actividade que é constante.
*

Viaja a tecelã no fio que fia

E viajamos nós em sintonia

Com trama fiada e por fiar,
*

Que é porfiando que tudo se cria

E a trama é tal qual uma melodia

Quer nasça de um piano ou de um tear.
*


Maria João Brito de Sousa - 20.11.2020 - 15.02h

*
9
*

"Quer nasça de um piano ou de um tear",

a mão, que tece, é sempre a mão que cria,

na inspiração do eterno respirar

de uma alma tremendo em fantasia.
*

Fantasia de fada ou de duende,

de uma ave canora ou imitação...

Aquele, que comunica, fogo acende

seja de amor sublime ou perversão.
*

Não é ardil nem sonho camuflado

de palavras subtis de um Ego inflado

pela competição de seus iguais...
*

O papagaio repete aquilo que ouviu

mas, se for transcendente, conseguiu

despertar o segredo dos mortais.
*

Laurinda Rodrigues
*

10
*

"Despertar o segredo dos mortais"

É dar-lhes um lugar nesta viagem

Na qual sempre há lugar pra muitos mais,

Ainda que alguns pensem ser miragem
*

Viajar-se nas lonjuras dos murais,

Nunca tentando agir como outros agem,

Perdendo o Norte aos pontos cardeais

E levando a Garcia outra mensagem.
*

O guia é sempre um ponto de partida

E nem sempre a viagem concebida

Naufraga em perfeição, tendo sucesso.
*

O que importa é cantar, que um hino à vida

Vem de uma voz que é tanto mais ouvida

Quão mais se perca durante o processo.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 21.11.2020 - 13.51h

*

11.
*

"Quão mais se perca durante o (seu) processo"

em conexão com outros peregrinos

que atravessam o mar do insucesso

por nunca recusarem seus destinos,
*

será uma montanha de ilusões

ascendendo no ar, quando nascer,

mas, quando o sol se esconde nos porões,

vai deitar-se na proa para morrer.
*

Reavalia, então, o ofuscamento

que fez da sua vida esse tormento

de tanto querer e ter como pessoa
*

E vê pontos de luz que vão chegando

à sua consciência, decifrando

o mal que tanto fez e não perdoa.
*

Laurinda Rodrigues
*

12
*

"O mal que tanto fez e não perdoa",

Porque não nasce, o mal, pra perdoar,

Mas pr`aumentar a dor do que já doa

Mesmo antes desse mal se anunciar.
*

Mal fica quem viaja e fica à toa,

Mas pior ficará quem nunca ousar

Seguir o tal tal apelo que destoa

Do que é tido por norma ou por vulgar.
*

Só não se atreve quem de si não gosta

Ou quem é surdo e cego e tudo aposta

Numa rota alheada e comedida;
*

Esse, que à tempestade sempre arrosta,

Pode - quem sabe? - nem chegar à costa,

Mas até no naufrágio encontra vida.
*


Maria João Brito de Sousa - 21.11.2020 - 15.53h
*

13
*

"Mas até no naufrágio encontra vida"

escolhendo livremente naufragar

sem nunca desejar contrapartida

por ter salvo outro ser de se afogar.
*

Com humildade, enfrenta a turbulência

desse vento feroz, que não esperava

destruísse o sentido da existência

a quem só na matéria acreditava.
*

E aporta o barco no porto criador

escondendo na rocha a sua dor

pela dor de outro Eu sobrevivente.
*

E, apelando à coragem e à união,

deixa no mar os restos da ilusão

que possa a humanidade ser diferente.
*

Laurinda Rodrigues
*

14
*

"Que possa a humanidade ser diferente",

Mais justa, igualitária, equilibrada

Do que a que hoje se curva ao prepotente

E que despreza quem já não tem nada.
*


Mas há que navegar, seguir em frente,

Fazer um esforço, dar outra braçada...

Enquanto um sopro houver, há vida, há gente,

Há a luta, há a esp`rança renovada.
*


Homem que navegando naufragaste

Mas que a qualquer destroço te agarraste

Tentando retardar o teu poente,
*


Não há eternidade que nos baste;

No breve instante que à morte roubaste

"Desço ao fundo de mim, ao inconsciente".
*

 

Maria João Brito de Sousa - 21.11.2020 - 21.37h

 

 

 

 

 

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