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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
21
Mai14

FRACÇÃO

Maria João Brito de Sousa

 

(Soneto de coda ou estrambote em decassílabo heróico)

 

O Tempo, esse tirano, esse vilão

A quem, teimosos, nunca aceitaremos,

É quem gere, afinal, tudo o que temos

Na nossa humana bio-condição

 

Mas, longe de aceitar que tem razão,

Que da sua passagem dependemos,

Chegamos a negar quanto aprendemos

Ser fruto dessa vasta produção

 

E contra a própria vida nos erguemos

Se, esquecido o percurso que fizemos,

Cairmos nessa vã contradição

 

De achar que - por mais voltas que engendremos,

Por mais que o próprio tempo confrontemos

Em busca da perfeita solução -

 

A Vida – que lhe importa o que inventemos! -

No seu total devolva o que vivemos

Quando o Tempo o traduz numa fracção.

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 21.05.2014 – 20.08h

 

 

Imagem - A Persistência do Tempo - Salvador Dali

27
Fev14

HOLOGRAMA

Maria João Brito de Sousa

 

(Soneto “de coda” em decassílabo heróico)

 

 

Conserto o desconcerto, acerto o passo,

Pinto, esculpindo o verso que me ocorre.

As coisas que aqui faço, ou que não faço,

Vão transcendendo a carne que me cobre…

 

Mas, se à própria razão retiro o braço

Se o gesto me preguiça, a mão não corre,

Se, já rendida à dor, verga ao cansaço,

Perco o rumo à razão que me socorre.

 

Que me não faltes, mão dos gestos leves,

Que esculpes, que constróis, que remodelas,

Que, sem hesitações, aqui te atreves

 

A dissecar miséria e coisas belas

E a arder nos mil pavios do que não deves,

Porque há quem vá negar-te a luz das velas,

 

Quem queira dar-te fama e voz, tão breves

Que ocultem o sentido ao barro, às telas,

Para honrar com néons quanto nem escreves!

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 09.02.2014 – 17.07h

 

 

Imagem - "Genesis" - Jacob Epstein

10
Out13

SONETO DE CODA II

Maria João Brito de Sousa

À Dona Elite de Oligarquia & SA


(Em verso eneassilábico)

 

 

Das migalhas que ao povo deixava

Dona Elite, pensando melhor,

Entendeu que era muito o que dava

E que ao povo sobrava vigor

 

Porque, quando a migalha abundava,

Ele podia crescer, ser maior

E atrever-se a sonhar que mandava

Em si próprio, apesar de “inferior”…

 

Dona Elite, prevendo o pior,

Sem cuidar do que ao povo faltava

Foi comendo o que, a si, lhe sobrava;

 

Comeu pobre e criado e senhor

E, por fim, sem notar quanto inchava,

Engoliu quanto mundo restava

 

Até ver que mais nada, em redor,

Preenchia o vazio que gerava

Onde, inútil, rotunda, orbitava

 

Em função do seu próprio fedor…

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 09.10.2013 – 18.42h


 

 

NOTA – Soneto com dupla “coda” ou “estrambote”


17
Set13

SONETO DE CODA

Maria João Brito de Sousa

 

 

(Em decassílabo heróico)

 

 

Quando o verso desponta e, de repente,

Sinto que o Tejo vem, de vaga em vaga,

Depor, nas rochas que em meu peito traga,

Em líquido compasso, o comburente

 

Deste fogo maior, insano, urgente,

Que ateia a poesia em qualquer fraga

E, sem hesitações, rejeita e esmaga

Razões de outra razão bem mais urgente

 

Eu, bicho, ao descobrir que o não comando,

Que, sabendo porquê, nunca sei quando

O fluxo se me impõe com força tal

 

Que dele brote o poema, agreste ou brando,

E, com força de grito ou murmurando,

Se afirme, em rebeldia, um bicho igual,

 

Deixo aberto esse espaço em que, voando,

Se imponha livremente e vá brotando

De geração espontânea e natural…

 

 

Maria João Brito de Sousa – 17.09.2013 – 17.05h

 

 

Nota – Este é o meu primeiro “soneto de coda”.

Dedico-o ao poeta Frassino Machado pois, ao contrário do que ele imaginava, não conhecia esta “modalidade” até me deparar com alguns sonetos de coda, de sua autoria.

Nasceu da forma espontânea que tão naturalmente me foi surgindo e descrevo no corpo do poema. Nunca planeei escrever um soneto deste tipo. Friso bem que foi o próprio poema que se foi impondo, ao longo da concepção, enquanto “soneto de coda”.

O último terceto – que caracteriza esta modalidade – nasceu da absoluta necessidade de tornar inteligível a estrutura de uma simples mensagem que, desde o início, pressupus poética.

Também não fiz qualquer pesquisa sobre o tema e não sei se me voltará a nascer mais algum.

 

Maria João

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