Maria João Brito de Sousa
Imagem gerada pelo Chat GPT a partir da
leitura/processamento do poema
*
MEMÓRIAS DE ABRIL *
Soneto de Coda *
No tempo em que se abriram tantas portas
Que os muros vacilaram e tombaram,
Fomos os alquimistas que assomaram
Do que antes fervilhava nas retortas *
Recolhemos do chão as folhas mortas
Dos medos que secaram e murcharam
E plantámos ideias que vingaram
Enchendo de esperança as nossas hortas *
Fomos meninos que, de extasiados,
Acreditámos ter na nossa mão
A força dos antigos condenados *
Que em tempos libertámos da prisão...
Hoje, meninos velhos e cansados,
Perdemos o vigor, não a paixão *
Que outrora nos tornou, da Paz, soldados
E op`rários em perfeita construção *:
Mortos, talvez, mas nunca derrotados! *
Mª João Brito de Sousa
29.01.2025 - 14.00h ***
* Referência ao poema O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO de Vinicius de Moraes
publicado às 15:11
Maria João Brito de Sousa
(Soneto de coda ou estrambote em decassílabo heróico)
FRACÇÃO
*
O Tempo, esse tirano, esse vilão
A quem, teimosos, nunca aceitaremos,
É quem gere, afinal, tudo o que temos
Na nossa humana bio-condição
*
Mas, longe de aceitar que tem razão,
Que da sua passagem dependemos,
Chegamos a negar quanto aprendemos
Ser fruto dessa vasta produção
*
E contra a própria vida nos erguemos
Se, esquecido o percurso que fizemos,
Cairmos nessa vã contradição
De achar que, por mais voltas que engendremos,
Por mais que o próprio tempo confrontemos
Em busca da perfeita solução ,
*
À Vida pouco importa o que inventemos,
Nem pensa em resolver quanto vivemos;
O Tempo é que o traduz numa fracção.
*
Maria João Brito de Sousa – 21.05.2014 – 20.08h
Imagem - A Persistência do Tempo - Salvador Dali
publicado às 20:18
Maria João Brito de Sousa
(Soneto “de coda” em decassílabo heróico)
Conserto o desconcerto, acerto o passo,
Pinto, esculpindo o verso que me ocorre.
As coisas que aqui faço, ou que não faço,
Vão transcendendo a carne que me cobre…
Mas, se à própria razão retiro o braço
Se o gesto me preguiça, a mão não corre,
Se, já rendida à dor, verga ao cansaço,
Perco o rumo à razão que me socorre.
Que me não faltes, mão dos gestos leves,
Que esculpes, que constróis, que remodelas,
Que, sem hesitações, aqui te atreves
A dissecar miséria e coisas belas
E a arder nos mil pavios do que não deves,
Porque há quem vá negar-te a luz das velas,
Quem queira dar-te fama e voz, tão breves
Que ocultem o sentido ao barro, às telas,
Para honrar com néons quanto nem escreves!
Maria João Brito de Sousa – 09.02.2014 – 17.07h
Imagem - "Genesis" - Jacob Epstein
publicado às 16:16
Maria João Brito de Sousa
À Dona Elite de Oligarquia & SA
(Em verso eneassilábico)
Das migalhas que ao povo deixava
Dona Elite, pensando melhor,
Entendeu que era muito o que dava
E que ao povo sobrava vigor
Porque, quando a migalha abundava,
Ele podia crescer, ser maior
E atrever-se a sonhar que mandava
Em si próprio, apesar de “inferior”…
Dona Elite, prevendo o pior,
Sem cuidar do que ao povo faltava
Foi comendo o que, a si, lhe sobrava;
Comeu pobre e criado e senhor
E, por fim, sem notar quanto inchava,
Engoliu quanto mundo restava
Até ver que mais nada, em redor,
Preenchia o vazio que gerava
Onde, inútil, rotunda, orbitava
Em função do seu próprio fedor…
Maria João Brito de Sousa – 09.10.2013 – 18.42h
NOTA – Soneto com dupla “coda” ou “estrambote”
publicado às 00:10
Maria João Brito de Sousa
(Em decassílabo heróico)
Quando o verso desponta e, de repente,
Sinto que o Tejo vem, de vaga em vaga,
Depor, nas rochas que em meu peito traga,
Em líquido compasso, o comburente
Deste fogo maior, insano, urgente,
Que ateia a poesia em qualquer fraga
E, sem hesitações, rejeita e esmaga
Razões de outra razão bem mais urgente
Eu, bicho, ao descobrir que o não comando,
Que, sabendo porquê, nunca sei quando
O fluxo se me impõe com força tal
Que dele brote o poema, agreste ou brando,
E, com força de grito ou murmurando,
Se afirme, em rebeldia, um bicho igual,
Deixo aberto esse espaço em que, voando,
Se imponha livremente e vá brotando
De geração espontânea e natural…
Maria João Brito de Sousa – 17.09.2013 – 17.05h
Nota – Este é o meu primeiro “soneto de coda”.
Dedico-o ao poeta Frassino Machado pois, ao contrário do que ele imaginava, não conhecia esta “modalidade” até me deparar com alguns sonetos de coda, de sua autoria.
Nasceu da forma espontânea que tão naturalmente me foi surgindo e descrevo no corpo do poema. Nunca planeei escrever um soneto deste tipo. Friso bem que foi o próprio poema que se foi impondo, ao longo da concepção, enquanto “soneto de coda”.
O último terceto – que caracteriza esta modalidade – nasceu da absoluta necessidade de tornar inteligível a estrutura de uma simples mensagem que, desde o início, pressupus poética.
Também não fiz qualquer pesquisa sobre o tema e não sei se me voltará a nascer mais algum.
Maria João
publicado às 22:52