QUE PODE O VENTO FAZER?
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PARTIR SEM TER SONHADO
*
Sou apenas um bicho, um bicho humano,
Diurno, persistente, ensolarado,
De corpo estoicamente habituado
À dor do desconforto, ao desengano
*
Às coisas que me vão causando dano
E a outras que me vão criando enfado,
Mas comigo convivem, lado a lado,
Ao longo do percurso, ano após ano...
*
Se o digo, é por senti-lo e, sem cuidado,
Dispenso-me indagar se, sendo, agrado,
Ou se erro por não ter traçado um plano
*
Mas caia, ou não, a nódoa em alvo pano,
Nunca direi que estou sem ter cá estado,
Nem que daqui me vou sem ter sonhado.
*
Maria João Brito de Sousa
19.01.2015 -23.45h
***
Na pastelaria Paris, no dia do meu septuagésimo terceiro
aniversário
*
O GRANDE BANQUETE DO SONETO
*
- Convite -
*
Bem-vindas ao soneto, ó ruas velhas,
Ó portas antiquíssimas, ó escadas,
Ó casas pela vida abandonadas,
Ó telhados sem gatos e sem telhas
*
É entrar, ó banheiras que sois selhas,
Ó janelas sem vidros nem portadas,
Ó cortinas de tela empoeiradas,
Ó espelho fosco que ainda me espelhas!
*
É entrar verso a verso e com cuidado
Na estrofe que vos cedo por momentos,
Que eu tenho a mesa posta e colocado
*
Sobre a condicional dos meus intentos,
Prontinho, à vossa espera, o meu teclado
E, ao abrigo do sonho, os meus talentos.
*
Maria João Brito de Sousa
12.01.2017 -19.22h
***
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MEMÓRIA(S)
DE UM
NÁUFRAGO-PERFEITO
*
*
Do vento que sopra, da proa que afunda,
Do mastro partido, do leme encravado,
Dos roucos gemidos do velho costado
Da barca que oscila, bojuda, rotunda,
*
Na crista da onda, no mar em que abunda
Escolho traiçoeiro que espreita, aguçado,
Escondido na espuma, submerso, acoitado
Em zona que a Barca julgava profunda...
*
De tudo me lembro, se bem que já esteja,
No tempo passado, submerso também
E seja esta imagem longínqua o que eu veja
*
Da Barca afundada nos sonhos de alguém,
Apenas a sombra que passa e festeja
Não ter existência, nem ser de ninguém.
*
Maria João Brito de Sousa
11.01.2017 - 10.52h
*
Ao meu avô, o poeta António de Sousa.

Tela de minha autoria
fotografada e digitalizada
por
Vítor Martinez
*
ANJO IMPREVISTO
*
Sinto-te vir, mais suave que uma prece...
Volteias sobre mim, Anjo imprevisto,
Como o jorro de um néctar que conquisto
No culminar de um corpo que adormece
*
De tudo o que na vida me acontece,
Sempre que ao sono cedo e não resisto,
És bem mais improvável – nisso insisto! –
Do que um dia a romper quando anoitece...
*
Portanto, anjo impossível, não te impeço:
Adeja sobre mim quando adormeço,
Conquista-me este sonho e vai-te embora!
*
Pois tu não sabes que não tenho preço,
Que mal acorde logo te despeço?
O meu espanto é fugaz, não se demora!
*
Maria João Brito de Sousa
20.11.2010 – 18.03h
***
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Imagem Pinterest
*
ADAGIO
Para Velhos Sonetistas
e
Não Só
*
Caminhamos curvados pelas ruas
Geladas e brilhantes como espelhos,
Nós desgastados, nós que estamos velhos,
Nós cujos ossos ferem como puas...
*
Cá vamos nós trocando sóis e luas
Por veias que azularam nos artelhos
E se multiplicaram quais coelhos
Multiplicam no solo as tocas suas...
*
Tentamos proteger-nos do contágio,
Que este Janus* vai estando rigoroso
E nós chegámos ao mais alto estágio
*
Do Inverno da Vida, o mais penoso,
Que apenas nos concede um lento Adagio
Em vez de um Presto firme e vigoroso.
*
Mª João Brito de Sousa
08.01.2024 - 16.47h
***
* Referência à figura da mitologia romana, Janus, deus do começo, que dá nome ao primeiro mês do ano no calendário Juliano - Janeiro
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BALAS DISPERSAS
*
"Corpos esquecidos no meio da guerra",
Na morte que encerra sonhos desmedidos
Hoje adormecidos, jazendo por terra
E uma dor que berra nas chagas dos f`ridos
*
Magoando os ouvidos do que se desterra
Dessa mesma guerra de corpos caídos
Ou f`rindo os sentidos do que os desenterra
E que nisso erra, que estão já perdidos...
*
Dos mal-entendidos - estratégias perversas -
Surgem controversas brigas sem consenso
Que, de modo intenso, esgrimem nas conversas
*
Razões tão diversas que o verbo, de tenso,
Torna-se mais denso que as balas dispersas,
Ocultas, imersas neste logro imenso...
*
Mª João Brito de Sousa
05.03.2022 - 14.30h
***
Soneto em verso hendecassilábico com rima entrançada criado a partir do primeiro verso do soneto CORPOS ESQUECIDOS de Custódio Montes.
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Fotografia de Luís Rodrigues
*
FOME(S) II
*
Se tens fome do pão que ao rico sobra,
A força da razão está do teu lado
Quando acusas traído o resultado
De tudo o que é produto de mão de obra
*
E se, do que criaste, outrem te cobra
O fruto inteiro ou o maior bocado
E a ti te deixa pobre e esfomeado
Certo de que te cala e que te dobra
*
Mal sabe que te entrega a força toda,
Que essa força em ti cresce e se denoda
Indo acender-se em chama renovada
*
Porquanto se agiganta, alastra em roda,
Incendeia-se toda e mais te açoda
Quando do que estuou lhe sobra um nada.
*
Mª João Brito de Sousa
In A CEIA DO POETA
***
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Tela de Luís Rodrigues
*
DEIXAI QUE A NOITE ENTRE
*
Deixai que a noite entre, que eu morro de sono
E em doce abandono me entrego a Morfeu
Que por ser ateu nunca quis ser meu dono
Só dono do sono que me adormeceu...
*
Num berço só meu, neste suave abandono,
Se gemo ou ressono, que o faça só eu
Na noite de breu em que ao dia me abono
Sem dor, sem patrono, sem sonhos, sem véu
*
Nem o medo incréu de fantasmas no escuro...
Não sei que futuro, mas trago um passado
E ao que era arriscado tornei mais seguro
*
Pois transpus o muro e deixei-o de lado,
Sumido, olvidado. Amigos, vos juro
Que um tal sono é puro, nunca amargurado!
*
Maria João Brito de Sousa
28.12.2017 – 13.59h
***
Soneto em verso hendecassilábico com rima entrançada escrito
na sequência do soneto homónimo de Maria da Encarnação Alexandre (MEA)
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