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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
06
Fev09

TRÊS SONETOS DO DIA II

Maria João Brito de Sousa

 

  FUTURO/FUTUROS...

 

 

Se o futuro se quer entre mentiras,

Oculto em clandestinos ideais,

Eu prefiro sonhar, como outros mais.

Futuro, este sonhar tu não me tiras!

 

 

E se, acaso, Futuro, me surgiras

Carrasco de quem sonha entre os demais,

Se até estes meus sonhos virtuais,

Tu quisesses calar e me puniras,

 

 

Eu calaria, então, a minha voz

Nas mãos certeiras de um futuro algoz

Que nega a liberdade de expressão,

 

 

Mas, antes de calar-me, eu deixaria

Alguém que a ti, depois, te julgaria

Num futuro qualquer, mais nobre e são!

 

 

 

É PARA AMANHÃ...

 

 

Eu hei-de ir amanhã! Amanhã vou

Ao médico, ao mercado, a cada espaço

Onde possa levar-me este cansaço

Que me não deixa ir onde não estou...

 

 

Eu hei-de ir amanhã! Não fui, nem sou,

Mulher de desdizer-se. Eu digo e faço!

Hoje é que já não dou nem mais um passo

E este amanhã de ontem já passou...

 

 

Este meu "amanhã" [sempre inseguro...],

Um dia há-de ser "hoje" e, de futuro,

Eu hei-de, certamente, ter descanso...

 

 

Mas "Amanhã" é sempre um "Outro Dia"

E os passos que a mim mesma prometia

São ilusões de um mundo onde me canso...

 

 

CHAMAR O SOL II

 

 

Amanhã chamo o Sol! Fiquei cansada

Deste céu cinza-escuro em temporais...

Caramba, estou cansada [isto é demais!]

De chuva, vento, frio e trovoada!

 

 

Talvez não vá sair... mas chamo o Sol!

Eu quero um céu azul que me sorria

E pedirei ao Sol que aqueça o dia

Como quem está no mar pede um farol...

 

 

Eu vou chamar o Sol. Quem vem comigo?

[Garanto que não correm qualquer p`rigo]

Cantando, acreditando, ele há-de vir!

 

 

Farei outra cantiga e cantarei...

[As coisas que eu já fiz e nem contei...]

É só acreditar, é só sorrir!

 

 

 

 

Imagem retirada da internet

 

 

17
Jan09

A CARTA MANUSCRITA

Maria João Brito de Sousa

Levantou-se e espreguiçou-se tão demoradamente quanto os latidos do cão lho permitiram. Não teve tempo de passar pelo W.C. Não teve tempo para mais nada. Abriu a porta, segurou o molho de chaves e desceu com o animal que mostrava, agora, a sua impaciência através de estridentes e consecutivos ganidos.

A porta da rua parecia mais pesada do que nunca. Teve de empregar toda a sua força para conseguir abri-la e ficou a olhar o pequeno animal que, entretanto, saíra em disparada.

Faltavam os outros todos, pensou. As manhãs sucediam-se-lhe num ritmo constante mas alucinado… demasiado para os estragos que o tempo conseguira já provocar no seu corpo, admitiu. Ao longe o cão perdera-se entre os buxos que revestiam os canteiros das palmeiras.

Lentamente, como quem levanta o peso insuportável de uma mão que vai em busca da última e inevitável conta, abriu a caixa de correio. Nada de contas, desta vez. Pequeno, ocupando metade do espaço habitual e bem conhecido das cartas do gás e da electricidade, estava um envelope encerrado na mudez intrigante das coisas inesperadas. A mão aventurou-se-lhe ao toque, trouxe-lho até diante dos olhos. Nenhuma marca impressa, nenhum selo, nenhum carimbo dos CTT. Apenas o seu nome escrito numa caligrafia que lhe era perfeitamente alheia.

Baixou sobre o nariz os óculos que trazia sobre a cabeça, segurando a rebeldia dos cabelos soltos, e abriu a missiva com um gesto brusco de profunda curiosidade. Uma folha

apenas. Sobre o azul suave do papel, escritas a tinta preta, em letras bem legíveis, estavam as seguintes palavras;

MUDANÇA, s. f.

acto ou efeito de mudar. Passagem ou transporte de um lugar para outro; “mudança de residência”. Variação, inconstância; “a mudança do tempo”.

 

Era tudo. Nem assinatura, nem remetente.

Sorriu e deixou que os olhos se lhe perdessem, de novo, nos traços negros sobre o azuláceo do papel. Ali ficou,

perdida em reflexões, até o cachorro voltar, manco como sempre.  Sabia que jamais descobriria a origem daquela carta. Não sabia porquê, mas sabia.

 Subiram os dois os quatro pisos que levavam à casa de sempre, onde ambos encontrariam os eternos amigos dos quais só a morte os poderia separar e ela dirigiu-se, finalmente, ao W.C. Olhou-se no pequeno espelho sobre o lavatório e viu-se mudada, como todas as coisas. Mais uns cabelos brancos, o despontar de dois vincos que desciam do nariz ao queixo. Mudava. Sem dúvida mudava. Com excepção do espírito que se lhe mantinha constante na eterna busca por um mundo melhor.

A carta azul ficara pousada sobre a estante do hall de entrada onde os livros se eternizavam à espera de uma releitura.

O eterno caderno repousava, ainda aberto, sobre a cama revolta que, como sempre, partilhara com os gatos.

As mãos reocuparam-se-lhe na escrita de mais um poema.

Só na constância se pode mudar. A construção é sempre uma soma de constâncias… a própria mudança é apenas fruto de uma imensa e fluente constância, pensou. E sorriu enquanto as mãos se lhe continuavam a mover sobre o papel.

 

 

 

 

Imagem retirada da internet

 

Texto semi-ficcionado para a http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/

 

 

 

 

 

 

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