Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

poetaporkedeusker

poetaporkedeusker

UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
26
Jan21

COROA DE SONETOS - Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues

Maria João Brito de Sousa

dia-cinzento-wallpaper-21873.jpg

A SANGUE-FRIO
*

Longos, longos dias de cinza vestidos
São tão mais compridos quão mais são vazias
As horas tardias dos tempos perdidos
Sem versos corridos e sem melodias.
*

Sem fugas, sem vias, nem novos sentidos,
Alastram sofridos tédios, agonias,
Neutras sinfonias de sons repetidos
Tão só pressentidos, se acaso os ouvias.
*

Eis as pandemias tiranas e cruas
Que invadem as ruas, as casas, os quartos...
Medrosos mas fartos, lançamos-lhes puas,
*

Compramos gazuas, sonhamos com partos,
Sofremos enfartos gemendo em cafuas;
Ó almas já nuas, seremos lagartos?
*


Maria João Brito de Sousa - 23.01.2021 - 11.50h

***

2.

"Ó almas já nuas, seremos lagartos?"

Porque subvertemos o quente no frio?

Porque, dos abraços, já ficamos fartos?

Porque esvaziamos as horas a fio?
*

Temos inda alma, que gerou os partos

de belos poemas, que falam do rio

que corre para o mar, sem medo de enfartos,

porque enfrenta a vida como um desafio.
*

E, todas as noites, que cruzam as ruas,

onde corpos sonham com as almas nuas

e contam relatos de um segredo eterno,
*

são esboços de luz em pinturas cruas

de mãos que procuram encontrar as tuas

para apagar o mal que vem do inferno.
*

Laurinda Rodrigues

***

3.

"Para apagar o mal que vem do inferno"

No castigo eterno, supremo e total,

Deduzo, afinal, que esse vírus hodierno

Seja o subalterno de algo mais letal.
*

Procuro um sinal neste gélido inverno

Manchando o caderno de esboços sem sal...

Não mais que o normal de um sorriso fraterno

Que às vezes alterno com algo irreal
*

E um astro ideal, um lampejo, um fulgor

Engendra o calor onde o frio era a lei!

As coisas que eu sei transformar em amor
*

Retomam vigor como tanto esperei

Assim que as soltei sem ter medo ou pudor...

O inferno era a dor à qual não me verguei!
*


Maria João Brito de Sousa - 23.01.2021 - 16.03h

***

4.

"O inferno era a dor à qual não me verguei"

com força subtil, que cresceu num espaço

no qual fui nascida e mais tarde testei

lutando com a mente para criar o laço
*

com a humanidade, a quem sempre honrei,

mesmo quando, só, lhe pressinto o passo

à beira da casa, onde pernoitei,

quando, dentro dela, não havia espaço.
*

E assim caminhando, sem saber porquê,

para onde me leva a minha amargura

de aqui estar parada e quase não vê...
*

Sou ainda luz numa noite escura

que ouve o destino, porque não o lê,

bebendo-lhe o sangue, de tanta secura.
*

Laurinda Rodrigues

***

5.

"Bebendo-lhe o sangue, de tanta secura"

Que cresce e matura deixando-a exangue;

Mesmo que se zangue com tanta tortura,

Nenhum mal tem cura se é qual bumerangue...
*

Perdida no mangue apenas procura

Fugir à loucura, escapar-se do gangue;

Derrama o seu sangue por medo ou bravura?

Não sabe ser dura, por mais que se zangue
*

E ainda que o mangue seja o seu abrigo,

Ao ver-se em tal perigo, procura a saída;

Fará pela vida, com ou sem castigo!
*

Rejeita o jazigo, despreza a jazida

Que lhe era devida. Espreitou ao postigo

Quando o inimigo perdeu a corrida.
*


Maria João Brito de Sousa - 23.01.2021 - 19.05h

***

6.

"Quando o inimigo perdeu a corrida"

tu estavas presente, com aclamações:

tinhas uma túnica de negro vestida

e, ao peito, flores, símbolo de brasões.
*

Brilhavas ao sol, como divertida

embora sofrendo loucas emoções

e fazias versos de elegia à vida

onde, resguardadas, vibravam paixões.
*

A tua alma dança num desejo ardente

de voltares a ser Aquela que eras

num corpo sadio e olhar diferente...
*

Que não teme pragas que se tornam feras

e arroja para longe os dramas da gente

porque entoa a voz das grandes Esferas.
*

Laurinda Rodrigues
*
7

"Porque entoa a voz das grandes Esferas"

Fruindo as esperas, desfazendo os nós,

Descobrindo os prós nas contra-quimeras,

Sondando outras eras, voando em cipós,
*

Guiando os trenós por atalhos de feras,

Fintando as panteras que em salto veloz

Serão teu algoz se as não vês, nem superas;

Tão só te esconderas e a sorte era atroz...
*

Mas nós somos nós! Em catorze versos

Há mais universos dos que os já sonhados,

Que os sonhos são fados nos astros dispersos
*

E às vezes imersos vulcões conturbados

Do chão levantados; gigantes perversos,

Ou crias em berços recém conquistados?
*


Maria João Brito de Sousa - 24.01.2021 - 18.30h

***

8.

"Ou crias em berços recém conquistados"

onde vão dormir um sono tranquilo

no abraço doce desses seres alados

cantando baladas para ensaiar o trilo.
*

Crias que nasceram como namorados

escondidos à noite dentro do seu silo

cheio dos perfumes por elas suados

quando de mãos dadas quiseram abri-lo.
*

Quem nos dera ser como as crias puras

que, recém nascidas e de olhos abertos

não aceitam males, nem dores, nem torturas,
*

e caminham fortes mesmo nos desertos

onde a vaguidão provoca tonturas

a todos os seres que dormem despertos.
*

Laurinda Rodrigues
*

9

"A todos os seres que dormem despertos"

Decerto encobertos, esquecidos por Ceres,

Sem quaisquer poderes, sem estarem libertos,

Deixo os desconcertos dos meus afazeres.
*

Ele há tais prazeres a ser descobertos

Por olhos abertos que, por os não teres

Se assim o escolheres, nunca os tens por certos;

Outros, mais espertos, terão quanto queres.
*

Por desconheceres, por tua vontade,

O que a liberdade te pode of`recer

Pouco irás saber sobre a humanidade
*

E que qualidade pode vir a ter

Quem olha sem ver pois de ver se evade

E nem a verdade tenta conhecer?
*

 

Maria João Brito de Sousa - 24.01.2021 - 20.30h

***
10.

"E nem a verdade tenta conhecer"

pois, o que é verdade? Alguém o afirma?

De olhos abertos mas sem poder ver

sem ouvir os sons dos versos que rima?
*

Ou será que a alma a conduz e mima

com dons invulgares que acabo de ler

quando, em conjunção, vêm ao de cima

as grandes virtudes de amar e sofrer.
*

Trago ainda dúvida se devo ser Eu

com a multidão que recusa alguém

só por não rezar os sermões do céu...
*

E, entre risadas, que o medo contém

numa confraria de rendas e véu,

agarro na cruz e levo-a pr' Além.
*

Laurinda Rodrigues
***

11.
*

"Agarro na cruz e levo-a pr` Além"

Daquilo que vem desses dias sem luz...

Não sei onde a pus! Será que outro alguém

Pensou que era um bem de valor, que seduz?
*


Maria! Jesus! Quem perder, nada tem!

Ninguém viu? Ninguém? Como vou fazer jus

Ao que me propus se não tenho vintém

E se julgo, também, que ao vê-la me expus?

*

Se a tal se reduz a tonteira que fiz,

Serei infeliz ou serei distraída?

Às vezes a vida, esquecida a raiz,
*


Faz tal qual eu fiz, deixa a gente perdida

No lar sem saída de um génio-aprendiz...

Ou fui eu que o quis e por mim fui traída?
*


Maria João Brito de Sousa - 26.01.2021 - 15.33h
***

12.
*

"Ou fui eu que o quis e por mim fui traída?"

Serei o carrasco e também a vítima?

Projeto no tempo a vida esquecida

para o meu presente ser apenas rima?
*

Rima de destino com raiz roída?

com tronco curvado na parte de cima?

com folhas caídas, com copa despida?

numa tempestade que sempre me anima?
*

Não sei as respostas. Não ouso sabê-las.

Que me importa o tempo! A glória, o poder!

Dormi ao relento coberta de estrelas...
*

E, tendo entre os dedos teclas a escrever,

Navego em imagens, que servem de velas

para toda a viagem que a vida tecer.
*

Laurinda Rodrigues
*

13.
*
"Para toda a viagem que a vida tecer"

Eu hei-de colher a folha, a fruta, a vagem,

Cada qual imagem do projecto SER

A corresponder com a minha mensagem,
*

Que isto de coragem tem de se viver

Pra se conhecer o que houver na bagagem;

Finte-se a sondagem venha o que vier

E a quem não quiser, faça-se a triagem!
*

Depois da drenagem das águas libertas

Nas folhas abertas dos livros malquistos,

Cresce a olhos vistos a tensão. Alertas,
*

Faces encobertas, mimetizam xistos

Os velhos Mephistos* de intenções incertas;

Ressonam despertas as mães dos ministros.
*


Maria João Brito de Sousa - 28. 01.2021 - 19.00h

***

* Mephisto - ver aqui, sff- https://pt.wikipedia.org/wiki/Mephisto_(aut%C3%B4mato)

***

14.
*

"Ressonam despertas as mães dos ministros"

de barriga cheia de falácias gordas

rezam orações aos pobres dos cristos

que mal podem ler as mensagens tordas.
*

Numa podridão de intenções das hordas

onde, já nascidas, cultivam os quistos

que vão projetar em todas as bordas

pedaços de estrume coroado de xistos,
*

É aqui e agora que renego o traço

que tentaram por-me colado aos sentidos:

não vou fraquejar nem tenho embaraço...
*

Olho no horizonte os sonhos vertidos

que vão relembrando, no imenso espaço,

"longos, longos dias de cinza vestidos".
*

Laurinda Rodrigues
*

("tordas" = bebedeiras

"hordas" = famílias)

 

 

 

 

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Em livro

DICIONÁRIO DE RIMAS

DICIONÁRIO DE RIMAS

Links

O MEU SEBO LITERÁRIO - Portal CEN

OS MEUS OUTROS BLOGS

SONETÁRIO

OUTROS POETAS

AVSPE

OUTROS POETAS II

AJUDAR O FÁBIO

OUTROS POETAS III

GALERIA DE TELAS

QUINTA DO SOL

COISAS DOCES...

AO SERVIÇO DA PAZ E DA ÉTICA, PELO PLANETA

ANIMAL

PRENDINHAS

EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES

ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE POETAS

ESCULTURA

CENTRO PAROQUIAL

NOVA ÁGUIA

CENTRO SOCIAL PAROQUIAL

SABER +

CEM PALAVRAS

TEOLOGIZAR

TEATRO

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2022
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2021
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2020
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2019
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2018
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2017
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2016
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2015
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2014
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2013
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2012
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2011
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2010
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2009
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2008
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D

FÁBRICA DE HISTÓRIAS

Autores Editora

A AUTORA DESTE BLOG NÃO ACEITA, NEM ACEITARÁ NUNCA, O AO90

AO 90? Não, nem obrigada!