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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
29
Jun21

NÃP SEI - Custódio Montes, Maria João Brito de Sousa e Helena Teresa Ruas Reis

Maria João Brito de Sousa

NÃO SEI.jpg

NÃO SEI
*

Coroa de Sonetos
*

Custódio Montes, Maria João Brito de Sousa e Helena Teresa Ruas Reis
***


1.
*
Não sei o que fazer…. o que farei ?

Divago lentamente ao som da avena

Escrevo o que sair da minha pena

E aquilo que escrever logo verei
*


Avanço linha a linha mas não sei

Se a peça que vier, trazida à cena

Será grande essa obra ou pequena

Para me envergonhar perante a grei
*


Não sei não sei não sei…vou escrever

E tu leitor amigo vais dizer

Depois de ver e ler com atenção
*


Se merece um aplauso este poema

Se só merece encomio pelo tema

Ou se nem vale dar opinião
*

Custódio Montes

27.6.2021
***


2.
*

"Ou se nem vale dar opinião",

Pergunta-me o poeta companheiro

Do verso que criado a tempo inteiro,

Traz no celeiro do seu coração.
*


E está pronto a glosar, que em profusão

Se vai multiplicando, bem ligeiro,

Épico às vezes, noutras mais brejeiro,

Mas jamais sem sentido e nunca em vão!
*


Não sente o tal "bichinho-carpinteiro"

Que sempre exige um verso e, feiticeiro,

Faz renascer o espanto e a paixão?
*


Estou certa de que o sente vir, certeiro,

Pedir verso que nasça do primeiro

E outro e mais outro... até à exaustão!
*

 

Maria João Brito de Sousa - 27.06.2021- 13.42h
***

3.
*

"E outro e mais outro... Até à exaustão!"

Porém, a exaustão não chega aqui.

Se há um que mal vê ou dói-lhe a mão,

Há outro que aparece qual escanção...
*


E saboreia assim o melhor bago,

Depois de já maduro para o dente.

Poeta só degusta, num afago,

Palavras que se escapam do que sente.
*


Na mesa de um café pus-me a teclar

Sorvi o dito cujo sem dar conta

Mas sei que o que paguei foi pouca monta.
*


Antes que uma razão me possa achar

Agora, sem rever o que escrevi,

Receio ver-me já sair daqui.
*

Helena Teresa Ruas Reis - 15.20h
***

4.
*

“Receio ver-me já sair daqui”

Não fuja amiga Ruas que é bem-vinda

Porque se eu não sabia bem ainda

O que ia escrever, agora vi
*


Porque este belo encontro tido aqui

É conjugar poesia bela e linda

E pôr os três autores na berlinda

E nela aqui estou, já a senti
*


Poema é mesmo assim, como cereja

Seguindo-se um ao outro em peleja

Combate sim mas só de amizade
*


Discute-se a palavra com certeza

Mas sendo alinhada com beleza

Com graça e também simplicidade
*

Custódio Montes

27.6.2021
***

5.
*

"Com graça e também simplicidade"

Não faltando o tempero do talento,

Os versos voam mais que o próprio vento

Que hoje açoita os telhados da cidade.
*


Em cada verso, um gesto de amizade

Vem galgar a distância, sempre atento,

Não vá algum de vós perder alento,

Ou eu, a habitual temeridade...
*


Um verso chama o outro que, ao ouvi-lo,

Corre para o soneto e faz aquilo

Que um verso melhor faz, quando liberto;
*


Se achar lugar no peito de um irmão,

Logo o abraçará num gesto são

Deixando, para os mais, um espaço aberto.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 27.06.2021 - 19.05h
***

6.
*

“Deixando, para os mais, um espaço aberto”

Onde o talento possa prorromper

Sem nunca se cansar ou se perder,

Mesmo tendo passado pelo deserto.
*


Que há mãos e pensares na amizade

Para te retirar à inacção,

Levando a construir, na emoção,

Por laços fraternais e de vontade.

*

Um verso atento a outro e a outros chama.

A muda e calma voz que assim proclama

Só ouves no bater do coração…

*

Sonoro, dentro em ti porque palpita,

É vida, e se procria, Deus permita

Que seja sempre eterna a criação.

*

Helena Teresa Ruas Reis - 27/06/2021
***

7.
*

“Que seja sempre eterna criação”

E há-de ser pois nele há liberdade

E diz o que quiser e à vontade

Pois não tem o poema um travão
*


Diz o que quer e sempre com razão

Imagina e descreve a realidade

Escreve sobre o campo e a cidade

E cria um mundo novo em construção
*


E a gente lê o texto que se cria

Todo o seu conteúdo e fantasia

E acha graça e fica-se contente
*


E nesta criação e a inovar

O mundo ganha forma e outro andar

Com isso ganha muito toda a gente
*

Custódio Montes

27.6.2921
***

8.
*

"Com isso ganha muito toda a gente"

Porquanto esta arte a todos nos eleva

E não será apenas a quem escreva,

Pois quem o ler alegra-se igualmente
*


E aprende a sentir... pois quem não sente

Aquilo que um poema a ninguém nega?

Ah, todos nós sentimos esta entrega

Que o verso faz brotar, como semente.
*


Assim se multiplica a poesia

Como se uma infindável sinfonia

Fosse, de geração em geração,
*


Galvanizando toda a humanidade;

Reparem bem no verso que se evade,

Que voa e vem pousar nesta canção!
*


Maria João Brito de Sousa - 27.06.2021 - 22.07h
***


9.
*

“Que voa e vem pousar nesta canção”

Qual pássaro nos ramos do arvoredo,

Que esconde, no seu ninho, mais segredo

Que aquele que fez esta construção.

*

E as penas pequeninas a forrá-lo

De conforto e de amor bem maternal,

A terra feita em barro filial

Como argamassa forte a preservá-lo,

*

Nada são, comparand’ à fantasia

Que surge como nova melodia

Nas palavras que irrompem em registo.

*

Ficará sempre mais do que se escreve

Do que a frase ou o verso quase breve,

Riscos, rimas saídas de um rabisco.

*

Helena Teresa Ruas Reis - 28/06/2021
***
10.
*


“Riscos, rimas saídas de um rabisco”

Mas feito com a arte e a mestria

De quem olhando as coisas vê e cria

Como construção feita em obelisco
*


Palavra ornamentada posta em disco

Canção que integrada em sinfonia

Enche e engrandece a alma de alegria

E sabe tão bem como um petisco
*


Poemas que umas vezes divertidos

São outras bem mais sérios e sentidos

Com arte com destreza com glamor
*


Tem tudo a poesia é ingente

Tem graça, sentimento anima a gente

E é também ternura paz e amor
*

Custódio Montes

28.6.2021
***

11.
*

"E é também ternura paz e amor"

Isto que os nossos dedos vão criando

Enquanto os vamos, nós, (des)comandando,

Já que ninguém comanda um verso em flor
*


Que voa como o vento e, ao seu sabor,

Pode ser ora forte, ora tão brando

Quanto o que a poesia for ditando

E conseguirmos, nós, depois compor...
*


Então, por um momento, o tempo pára

Para dar tempo ao verso que dispara

Como uma flecha rumo ao ponto exacto
*


Em que outro verso o espera e, sem saber,

Sabe contudo como o preencher,

Concretizando o que antes fora abstracto.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 28.06.2021 - 14.08h
***

12.

*

“Concretizando o que antes fora abstracto”,

Há coisas que a poesia nos ensina

Por vezes, não fosse ela feminina,

Tem um sexto sentido imenso e lato.

*

E vem assim amena, p’la tardinha

Na hora de uma sesta disfarçada

Em sonho bem real, duma assentada,

Trar-te-á a cor-de-rosa numa linha.

*

Tal linha contornada a ponto flor

Borda tudo a seu jeito e com amor

Remata esse bordado à perfeição.

*

Artífices dos bilros, finas rendas,

Desejo de um artista é que aprendas

E que nunca se canse a tua mão!

*

Helena Teresa Ruas Reis - 27/06/2021
***
13.
*

“E que nunca se canse a tua mão”

Mão sem género não só feminina

Masculino o poema e que rima

Da poesia gémeo e seu irmão
*


Macho e fêmea a mesma condição

O poeta é assim que nos ensina

E não temos que sair dessa doutrina

Que une e agiganta o coração
*


Mas mais “não sei” agora o que dizer

O pensamento está-me a esmorecer

E vou deixar que outrem esclareça
*


Talvez eu já não veja ao redor

E quem venha a seguir veja melhor

Dando a opinião que lhe pareça
*

Custódio Montes

28.6.2021
***

14.
*

"Dando a opinião que lhe pareça"

Mais própria deste tema e do momento,

Chega o próximo verso muito atento

(que um verso sempre cumpre uma promessa!)
*


Isto vos comunica e vos confessa

O verso - ora em sorriso, ora em lamento -

Que ainda que fervilhe em sentimento,

É fiel à harmonia que professa.
*


E agora que está quase a terminar

O soneto que assim o fez cantar

Bem mais alto e melhor do que eu sonhei,
*


Não pára o verso de me pressionar

E a cada instante me vem perguntar;

"Não sei o que fazer... o que farei?"
*

 

Maria João Brito de Sousa - 28.06.2021 - 18.42h
***

 

(Reservados os Direitos de Autor)

 

 

 

 

17
Jun21

SEM ÁGUA - CUSTÓDIO MONTES E MARIA JOÃO BRITO DE SOUSA

Maria João Brito de Sousa

SEM ÁGUA.jpg

SEM ÁGUA
*
Coroa de Sonetos
*
Custódio Montes e Maria João Brito de Sousa
***

1.
*
Sem água não há vida não há nada

Água pura de rio a correr

De fonte cristalina a nascer

Da serra altaneira iluminada
*


Freáticos lençóis de água filtrada

Reserva de nascentes e do ser

Que dessenta quem nelas vai beber

Irriga o campo e a horta cultivada
*


Ri-se a flor com as chuvas a cair

A papoila regada e a florir

No jardim anda a abelha divertida
*


Os rapazes no lago a brincar

A gente na cozinha a cozinhar

Água pura ….sem ela não há vida
*

Custódio Montes

15.6.2021
***

2.
*

"Água pura... sem ela não há vida"

Sobre o planeta azul em que nascemos;

Barcos tristes sem velas e sem remos,

Nem porto de chegada ou de partida,
*


São tão inúteis quanto a despedida

De algo que nunca vimos nem tivemos...

Nós que existimos, dessa água viemos,

Sopa primordial, berço e guarida
*


Daquilo que antes fomos, sem sabê-lo;

Qualquer pocinha d`água era um castelo

Prós nossos diminutos ancestrais
*


E aí fomos crescendo, evoluindo,

Multiplicando enquanto dividindo

Esse líquido, informe e velho cais.
*


Maria João Brito de Sousa - 15.06.2021 - 14.36h
***

3.
*

“Esse líquido, informe e velho cais”

Que bom querida amiga em responder

Assim podemos nós desenvolver

O tema e falarmos muito mais
*


A água não faz mal aos animais

Que, mesmo impura, podem-na beber

O homem não que para o fazer

Só pura sem resíduos fecais
*


Mas esta nossa gente do governo

Vai buscar argumentos ao inferno

Para poluir a água que nós temos
*

 

Em nome de negócios de milhões

Prejudicando a gente e regiões

E sem água nós não sobrevivemos
*

Custódio Montes

15.6.2021
***

4.
*

"E sem água nós não sobrevivemos"

Por mais que um dia ou dois, é bem sabido,

Mas o imperialismo empedernido

Pouco se importa desde que paguemos
*


Cada gotinha de água que bebemos

Antes de sede termos nós morrido...

Mas isto não fará qualquer sentido

Para quem não veja aquilo que nós vemos
*


Nem vislumbre o fascismo a renascer

Gritando por justiça pra esconder

A crueza que move os seus sequazes
*


E há lobos que de ovelhas mascarados

Juram vir defender os desgraçados

Que esmagarão depois como a torcases.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 15.06.2021 - 20.42h

***

5.
*

“Que esmagarão depois como a torcazes.”

E dizem defender a nossa terra

Mas só produzem mal e causam guerra

Ocultos através de capatazes
*

 

Fazem-no lentamente só por fases

Mentindo no valor que o chão encerra

Esventram-nos as águas e a serra

Com loa mentirosa e lindas frases
*


Na minha terra há água nas barragens

Freáticos lencóis lindas paisagens

Campos verdes giestas a florir
*


Em vez de primavera é o inverno

Que augura para aqui este governo

Com lamas para a água poluir
*

Custódio Montes
*

15.6.2021
*

6.
*
"Com lamas para a água poluir"

E as eternas prebendas à mistura,

Em vez de termos água fresca e pura,

Vemos marés de espuma a confluir
*


Num rio que ninguém pode garantir

Ser benesse presente... nem futura!

Ah, pobre rio coberto da loucura

De quem nunca hesitou em destruir
*


O que ao povo pertence por direito

E, desprezando as águas do teu leito,

Te enlameia, conspurca e abandona
*


Como se foras coisa descartável...

E tu que todo foste água potável

Trazes agora espuma e lodo à tona.
*


Maria João Brito de Sousa - 16.06.2921 - 09.05h
***
7.
*

“Trazes agora espuma e lodo à tona”

E os caciques em grupo a conversar

Com esses maiorais a escavar

As fontes e à volta dessa zona
*


Sem juízo sem tino e sem mona

Só pensam no seu bolso acumular

Aquilo que é do povo e a tirar

O que é da natureza, sua dona
*


Há já guerras por água disputadas

Não se bebem as águas salgadas

Evaporam-se e vão para a natura
*


Cai no solo e depura-se ao chover

E ninguém deve andar a desfazer

Este modo de termos água pura
*

Custódio Montes

16.6.2021
***

8.
*

"Este modo de termos água pura"

Cuja viab`lidade é garantida,

Deve ser respeitado para a vida

Porque é vida, afinal, o que assegura,
*


Mas quando a própria chuva se satura

De enxofres e de azotos, poluída,

Decerto há que encontrar uma saída

Ou essa mesma vida pouco dura...
*


Sem água não há vida, é ponto assente,

E o que é essencial a toda a gente

Tem de, por todos, ser salvaguardado.
*


Poupá-la é importante, mas não basta

E sendo um bem que toda gente gasta,

Justo é que a todos seja assegurado.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 16.06.2021 - 18.20h
***

9.
*

“Justo é que a todos seja assegurado”

Não se deve ceder à economia

A pureza da água na sangria

De ver o monte inteiro esburacado
*


Com tiros e veneno infiltrado

E não termos a água dia a dia

A correr como a gente dantes via

Com o cheiro e sabor purificado
*

O homem deve ser um zelador

Do bem comum, do ar exterior

Da água e dos bens que se consomem
*


Nós somos passageiros nesta vida

Nossos actos que dêem guarida

Ao futuro do bem de todo o homem
*

Custódio Montes

16.6.2021
***

10.
*

"Ao futuro do bem de todo o homem"

Deve esse mesmo Homem estar atento

E deve garantir quanto é sustento

Da pureza da água que consomem
*


Antes que outros int`resses a transformem

Num bem que em vez de puro é virulento

E acabe o pobre por morrer sedento

Das águas que eram suas mas se somem
*


Nas mãos da meia dúzia que as controlam;

Neste mundo há cobiças que desolam

E contra as quais teremos de lutar.
*


Quem poderá ficar indiferente

A esta distorção do meio ambiente

Sem mesmo erguer um dedo pró salvar?
*

 

Maria João Brito de Sousa - 17.06.2021 - 09.30h
***

11.
*

“Sem mesmo erguer um dedo pró salvar”

Ministros há que não deviam ser

Eles sem mais ninguém a escolher

O que em cada local ir minerar
*


Deviam os peritos consultar

O modo, as pessoas, o viver

E o maior cuidado também ter

Com a água e não a conspurcar
*


Potável pouca existe pelos canos

E a salgada vem dos oceanos

Com tantos barcos lá a ir e vir
*


Ora a pouca que temos que é potável

Devia resguardá-la o responsável

E não a conspurcar e poluir
*

Custódio Montes


17.6.2021
***

12.
*

"E não a conspurcar e poluir",

Nem deixá-la à mercê dos insensatos

Peritos nos maiores dos desacatos

Que já vieram e que estão por vir...
*


Da responsab`lidade, não fugir

Tal como dos naufrágios fogem ratos,

Ter a coragem de enfrentar os factos

E a capacidade de assumir
*


A gestão desse bem essencial

Que a todos cabe e deve, por igual,

Por cada um de nós ser partilhada.
*


Sim, há que defender a natureza

Dessa insensata predação burguesa

Que a tenta reduzir a... tudo e nada!
*

 

Maria João Brito de Sousa - 17.06.2021 - 11.37h
***

13.
*

“Que a tenta reduzir a tudo e nada”

E, claro, aproveitar-se do minério

Por modo esquisito e não sério

Com gente pelos media enganada
*


Com o monte a a serra profanada

A céu aberto la vai o desidério

Por culpa do governo e ministério

Com a água, que é vida, conspurcada
*

Lutemos com a força que pudermos

Por forma a impedir que nestes termos

Se poluam as fontes e os ribeiros
*


A água deve andar no coração

Assim de geração em geração

Porque é nossa e também é dos herdeiros
*

Custódio Montes

17.6.2021
***

14.
*

"Porque é nossa e também é dos herdeiros"

Daquilo que nós fomos construindo,

Deve essa água ser recurso infindo

Que se renova em ciclos de aguaceiros.
*


Se os prepotentes, como arruaceiros,

Tentarem subverter o que é tão lindo,

Saibamos nós mostrar não ser bem-vindo

O disfarce que envergam, de "aguadeiros",
*


Para esconder a pura realidade

Que os torna geradores de insanidade

E predadores furtivos na caçada
*

 

Que roubam, que conspurcam, que nos mentem...

Mas por mais falsidades que eles inventem,

"Sem água não há vida não há nada"!
*

 

Maria João Brito de Sousa - 17.06.2021 - 13.25h
***

 

*

RESERVADOS OS DIREITOS DE AUTOR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

08
Jun21

TELA - Coroa de Sonetos - Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues

Maria João Brito de Sousa

MENINA EM MONOCROMIA VERDE - MJBS.jpg

TELA
*
Coroa de Sonetos
*

Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
***

1.
*


"Chama que a cada gesto espelha a alma"

Ou mesmo alma que em chamas se acendeu,

Assim seremos nós, pintor e eu,

Que em tal labor ninguém nos leva a palma
*


Numa exacerbação que nos acalma

Porquanto ao paradoxo se rendeu,

Nada se perde quando se aprendeu

A tudo ver, mesmo sem ver vivalma...
*


Pintei ideias que de mim nasciam

E é dessa mesma forma que hoje escrevo;

Não sei se via além do que outros viam,
*


Nem sei se digo mais do que o que devo...

Não vendo o que os meus olhos prometiam,

A pouco, ou nada mais, hoje me atrevo.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 01.06.2021 - 15.40h

*

Soneto criado a partir do verso final do soneto PALETA de Gil Saraiva.

***

2.
*
"A pouco, ou nada mais, hoje me atrevo"

não sabendo se existe um amanhã...

Mas é aqui e agora que me enlevo

jogando ao claro-escuro com afã.
*


Pinturas ou palavras, as que levo

em vibrações da minha mente sã,

são as pétalas de uma flor de trevo

que desflorei numa atitude vã...
*


Procurava a resposta: "muito ou pouco"

que faz da minha vida um mundo louco

que nem eu sei porque caminho assim...
*


Badaladas de sinos, som já oco

que repõe a música do ronco

que a minha voz ecoa sem ter fim.
*

Laurinda Rodrigues
***

3.
*

"Que a minha voz ecoa sem ter fim"

Por vales e montanhas sem começo

E sendo exactamente o que pareço,

Sou quem regula a chama acesa em mim,
*


Grata, talvez, por ter nascido assim,

Mas menos grata quando pago o preço

De cada queimadura que não peço

Aos deuses que expulsei do meu jardim.
*


Do muito, passo ao pouco... ao quase nada...

De quase nada, muito e pouco faço;

Se me desgraço, torno-me engraçada
*


E se amorosamente aqui te abraço,

Podes sentir-te, ou não, tão enredada

Quanto as fiadas em que me embaraço...
*

 

Maria João Brito de Sousa - 03.06.2021 - 17.14h
***

4.
*

"Quanto as fiadas em que me embaraço"

eu quero partilhar os fios desse novelo

e seja só em verso que há o abraço

sinto o deslumbramento de tecê-lo.
*


E pondo mais enredo nesse elo

que é apenas da história mais um passo

vai soneto mutar romance e, ao lê-lo,

percebe-se que é tudo tempo e espaço.
*


Sofridas - não doridas - mas libertas

de escolher estar fechadas ou abertas

num mundo que nos lê ou nos ignora,
*


Glorifico as paisagens, já desertas

de medos e lamentos, como alertas

de quem caminha em frente enquanto chora.
*

Laurinda Rodrigues
***

5.
*

"De quem caminha em frente enquanto chora"

Deixando atrás de si um mar de sal,

Vejo, longínquo, o vulto no final

Da estrada em que o seu choro se demora.
*


Olhando um mar que é céu naquela hora,

Esboço num breve impulso gestual

O voejar modesto de um pardal

E o de uma exuberante ave canora.
*


Junto a uma paleta, a minha a tela

Jaz, por falta de espaço, à beira tempo

E já não vivo eu no mundo dela
*


Que é outro o universo em que me invento;

Mudou-se-me esta casa em caravela

E em leme esta cadeira em que me sento.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 04.06.2021 - 10.04h
***

6.
*

"E em leme esta cadeira em que me sento"

onde flutua a minha inspiração

navegando naquele rio que invento

para, de vez, curar meu coração.
*


Gritar bem alto como grita o vento

os temas da alegria e da paixão...

Sendo mais uma a sofrer tormento

acabando os tormentos sem razão.
*


Se estou febril, a febre é o sinal

de que todo o meu Ser percorre o mal

de uma humanidade em insanidade...
*


Somos a fruta da estação estival

que pode apodrecer sendo real

o sabor de uma luta pela verdade.
*


Laurinda Rodrigues
***

7.
*

"O sabor de uma luta pela verdade"

É doce como o mel mas de repente

A ssume uma acidez quase adstringente

Que surpreende pela intensidade
*


Mas mais nos alimenta essa vontade

De encontrar a verdade em quem nos mente...

Amadurece o fruto inda recente

Da nossa muito humana identidade,
*


Veste-se a tela nua à nossa frente

De quanto houver de criatividade

- porque essa nunca morre, é ponto assente -
*


E, enfim, se entende a transitoriedade

Daquilo que se pensa e que se sente,

Quando se sente e pensa em liberdade.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 04.06.2021 - 12.21h

***

8.

"Quando se sente e pensa em liberdade"

cresce o deslumbramento de existir

de ter nascido Gente de verdade

e não ter de lutar para fugir.
*


Porque ter de fugir cria ansiedade

que destrói aquele sonho de partir

p'lo prazer de encontrar noutra cidade

apenas um lugar para divertir.
*


Fomos tão nacionais pela raiz

reconhecendo em nós essa matriz

de descobrir, sem ser um navegante...
*


E olhamos este mar que apenas diz:

já nada corresponde aquilo que quis!

Estou presa de mim mesma a cada instante.
*

Laurinda Rodrigues
***
9.
*

"Estou presa de mim mesma a cada instante"

Em que tentar deixar de ser quem sou,

Que a liberdade só me conquistou

Por ser rebelde, utópica e distante...
*


De mim, serei eterna navegante

Porque o tempo das fugas já passou;

Mal esta minha tela naufragou

Passei a navegar no verso errante.
*


No verso sempre encontro o que procuro

E mais que o que procuro encontrarei

Assim que colha um fruto mais maduro
*


Dentre os que ainda agora semeei;

Onde cada colheita for futuro,

Há-de haver espaço para o que eu criei.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 05.06.2021 - 20.37h

***

10.
*

"Há-de haver espaço para o que eu criei"

pois espaço é relação de mim com alguém...

O tempo não existe: eu o sonhei

sempre presente, agora, aqui e além.
*


Vivo comigo, sabendo aquilo que sei.

Quem me visita só virá por bem

alertando para um mundo que deixei

ficar lá fora, a rodar num trem,
*


Onde já não viajo há muitos anos

porque viajam nele os muito insanos

que usam os milhões por vestimenta,
*


escondendo, no porão, os muitos danos

que são esquecidos, depois de muitos anos

sem ninguém lhes ter dado reprimenda.
*

Laurinda Rodrigues
***

11.
*
"Sem ninguém lhes ter dado reprimenda"

Vivem os amos/servos da riqueza

Vestindo a "caridade" e a "nobreza"

Que num vídeo viral põem à venda
*


E assim prosseguem nessa sua senda

De conquistar as graças da pobreza;

Mentiras são anzóis cuja agudeza

Escapa a quem de vileza pouco entenda...
*


Assim tornei concreta a tela abstracta;

Mais pincelada, menos pincelada,

Nesta estância da tela se delata
*


A grande, a gigantesca mascarada

Em que o capitalismo se retrata;

Todos o servem e nem dão por nada!
*

 

Maria João Brito de Sousa - 06.06.2021 - 11.21h

***

12.

"Todos o servem e não dão por nada"

porque, no seu inconsciente cultural,

resguardam o segredo da montada

num cavalo feito em pérolas e cristal
*


Expõem-se então à fúria da nortada

que os submete ao medo de animal

simbolizando o grande camarada

que veio salvá-los da desgraça e mal.
*


Esqueceram que são a trilogia

que podem alcançar no dia-a-dia

sem ter de denegar a sua crença...
*


Será esse o motivo da poesia

quando deixa de lado a alegoria

que não é sua a voz que a si pertença.
*

Laurinda Rodrigues
***

13.
*

"Que não é sua a voz que a si pertença"...

Mas agora é só minha a decisão;

Camaradas não são o "grande irmão"

E a minha ideologia não é crença
*


Que me assegure privilégio ou tença...

Trago-a na mente e diz-me o coração

Que ao nascer filha da revolução

Me compete cantá-la até que vença
*


E, vez por outra, a minha branca tela

Pode encher-se dos traços realistas

De quem morreu lutando, não por ela,
*


Mas pelos objectivos humanistas

Cuja memória, morta numa cela,

Ainda me sussurra; "Não desistas!"
*

 

Maria João Brito de Sousa - 07.06.2021 - 12.04h
***

14.
*

"Ainda me sussurra: "Não desistas"

porque tudo na vida é transição

e mesmo o mais fatal nos mostra pistas

p'ro reencontro com o nosso coração.
*


Ouço falar em histórias de revistas

cheias de sentimentos e emoção...

São, afinal, desfiles em que vistas

o melhor para mostrar à multidão.
*


Somos trapos caídos a um canto

onde não chega o riso, nem o pranto,

que dê o privilégio de ter calma?
*


Aos chutos, pontapés do desencanto

acendemos o fogo como um manto,

"chama que, a cada gesto, espelha a alma".
*

Laurinda Rodrigues
***

(Reservados os direitos autorais)

20
Mai21

ACRÓSTICOS A FLORBELA ESPANCA

Maria João Brito de Sousa

florbela.jpg

ACRÓSTICOS A FLORBELA ESPANCA
*

Primeiro poema gentilmente cedido pelo seu autor, o poeta José Manuel Cabrita Neves.
*

ACRÓSTICO
*

Fui a tristeza, a mágoa, a solidão!
Longe da felicidade e da alegria,
Ostentei um caminho que sabia,
Reverso e controverso de paixão…
*
Bebendo silenciosa a nostalgia,
Enquanto eu era toda adoração,
Lia nalguns olhares condenação,
A esse amor tão puro que sentia…
*
Errei pois por amar quem não devia,
Seguindo a terna voz do coração,
Peregrina fiel duma ilusão,
Alimentando a cega idolatria…
*

Não creio haver sequer comparação,
Com esta minha entrega doentia,
Ao dedicar-me inteira ao próprio irmão!...
*
José Manuel Cabrita Neves
*

ACRÓSTICO- RESPOSTA
*

Fui, sim, tristeza e mágoa e solidão,
Lamento de insondável nostalgia
Ornato de candura e poesia,
Remate de perfeita (in)confecção
*

Bordado a ponto-cruz sobre aflição,
Errando, ou não, - conforme a disforia... -,
Louca, talvez, pois muito bem sabia
A que conduziria tal paixão...
*

Estou livre, no entanto - quem diria? -
Singrando uma outra estranha imensidão,
Passando, sem passar de mão em mão,
Adivinhando, agora, o que antes qu`ria
*

Não posso responder-te - ó decepção! -,
Cuidando, embora, que te respondia...
Ah, que te importa? Nunca amaste em vão?
*

Maria João Brito de Sousa - 09.02.2016 - 17.21h
*
Reservados os direitos autorais
***

22
Nov20

VIAGEM - COROA DE SONETOS

Maria João Brito de Sousa

viagem.jpg

VIAGEM
*

COROA DE SONETOS

*

 

Laurinda Rodrigues e Maria João Brito de Sousa

*
1
*

Desço ao fundo de mim, ao inconsciente
onde dormem vivências esquecidas.
Sei que naquilo que sou já fui diferente
e que hei-de ser diferente noutras vidas.
*

Sou toda um Uni-verso entrelaçado
de peças materiais que vão expandindo.
Fico parada a olhar o céu alado,
sentindo uma pulsão que está abrindo.
*

Meu outro Ser perdurará na luz
que me envolveu na terra feita em cruz
que não pode fugir ao seu destino...
*

Mas é aqui e agora que me afirmo:
mesmo que o corpo caia no abismo  
a alma cantará, convosco, um Hino.
*

Laurinda Rodrigues
*

2
*

"A alma cantará, convosco, um hino"

Até depois da vida anoitecer

Enquanto se souber que fui menino,

Enquanto alguém lembrar que fui mulher
*

Na memória persiste o tal destino

Que bem longo será se alguém me ler;

Assim o vejo há muito, assim defino

Viagem, vida e espanto de viver.
*

De mim, da minha própria identidade,

Terá sobrado o verso que se evade

À decomposição inexorável
*

Do que foi o meu corpo passageiro;

Cigarro aceso à beira de um cinzeiro

De porcelana breve e descartável.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 19.10.2020 - 13.43h

*

3
*

"De porcelana breve e descartável"

ouço cair estilhaços pelo chão

e um riso perverso insaciável

atravessou o espaço da Razão.
*

Talvez seja o diabo em sintonia

com a nossa condição de ser mortais

ele é sempre julgado à revelia

no tribunal dos loucos amorais.
*

Mas não se iludam! Esse demo existe

bem no fundo de nós, onde persiste

uma história de erros, frustrações...
*

Afinal, a loucura pouco importa

se é, com ela, que o poeta exorta

o mundo turbulento das paixões.
*

Laurinda Rodrigues
*

4
*

"O mundo turbulento das paixões"

Faz do Olimpo um nada, uma sequela;

No palco dos heróis e dos vilões

Desta realidade paralela
*

Há gigantes que fogem dos anões

E a Fera é perseguida pela Bela

Enquanto os anjos brincam com dragões

E a bruxa se transmuta em Cinderela.
*

No mais fundo de mim, se o demo existe,

Procuro descobrir-lhe o vulto triste

Mas não lhe encontro rasto e nem o faro
*

Me dá qualquer sinal de outra presença

Que de mim mesma não seja pertença;

Será a sua ausência um caso raro?
*


Maria João Brito de Sousa - 19.11.2020 - 16.22 h
*

5
*

"Será a sua ausência um caso raro?"

ou o transporte ao Olimpo é de avião

e não viu lá de cima o exemplo claro

da luta do gigante com o anão?
*

É preciso esperar pousar na pista

sem muita turbulência na aterragem

para que o piloto hábil lhe resista

sem medo de entrar em derrapagem.
*

Porque isto de emoções tão reprimidas

que fogem ao arbítrio do Rei Midas

na decisão de ser um demo ou anjo
*

é, mesmo, o velho tema do destino

(porque nasceu mulher e não menino)

porque toca piano em vez de banjo?
*

Laurinda Rodrigues
*

6
*

"Porque toca piano em vez de banjo"

Quem no trompete ou na guitarra é ás?

Quem lhe imporá tamanho desarranjo

Ao afastá-lo do que mais lhe apraz?
*

Nestas perguntas, mais tempo não esbanjo;

Não quero incomodar, sendo tenaz,

Quem disto saiba mais que quanto abranjo

E, em coisas destas, nunca fui sagaz...
*

Às emoções, porém, nunca reprimo

Que a toda a hora as rondo, sondo e esgrimo

Com grande habilidade e destemor
*

E aos temas nunca escolho. O meu escolhido

É sempre um som que aflora ao meu ouvido

E me enfeitiça e se me sabe impor.
*


Maria João Brito de Sousa - 20.11.2020 - 11.18h

*
7

"E me enfeitiça e se me sabe impor"

como uma vaga que cresce sem aviso

alerta o marinheiro para compor

o sentido que o leva ao paraíso...
*

Ele não está preparado mas aceita

deixar a onda desfazer na praia...

Não tem sabedoria nem receita:

o instrumento toca aquilo que ensaia.
*

Mas não esqueceu o tema desta vida:

"em frente camarada" destemida!

não há razão que te perturbe o Ser.
*

Músico ou poeta ou marinheiro

o canto das estrelas cabe inteiro

na mutação que vai acontecer.
*

 

Laurinda Rodrigues
*

8
*

"Na mutação que vai acontecer"

E vai acontecendo a cada instante

Do que a mãe-tecelã está a tecer

No seu velho tear desconcertante.
*

Decerto nos irá surpreender

A criatividade galopante

Que esse velho tear demonstra ter

Na sua actividade que é constante.
*

Viaja a tecelã no fio que fia

E viajamos nós em sintonia

Com trama fiada e por fiar,
*

Que é porfiando que tudo se cria

E a trama é tal qual uma melodia

Quer nasça de um piano ou de um tear.
*


Maria João Brito de Sousa - 20.11.2020 - 15.02h

*
9
*

"Quer nasça de um piano ou de um tear",

a mão, que tece, é sempre a mão que cria,

na inspiração do eterno respirar

de uma alma tremendo em fantasia.
*

Fantasia de fada ou de duende,

de uma ave canora ou imitação...

Aquele, que comunica, fogo acende

seja de amor sublime ou perversão.
*

Não é ardil nem sonho camuflado

de palavras subtis de um Ego inflado

pela competição de seus iguais...
*

O papagaio repete aquilo que ouviu

mas, se for transcendente, conseguiu

despertar o segredo dos mortais.
*

Laurinda Rodrigues
*

10
*

"Despertar o segredo dos mortais"

É dar-lhes um lugar nesta viagem

Na qual sempre há lugar pra muitos mais,

Ainda que alguns pensem ser miragem
*

Viajar-se nas lonjuras dos murais,

Nunca tentando agir como outros agem,

Perdendo o Norte aos pontos cardeais

E levando a Garcia outra mensagem.
*

O guia é sempre um ponto de partida

E nem sempre a viagem concebida

Naufraga em perfeição, tendo sucesso.
*

O que importa é cantar, que um hino à vida

Vem de uma voz que é tanto mais ouvida

Quão mais se perca durante o processo.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 21.11.2020 - 13.51h

*

11.
*

"Quão mais se perca durante o (seu) processo"

em conexão com outros peregrinos

que atravessam o mar do insucesso

por nunca recusarem seus destinos,
*

será uma montanha de ilusões

ascendendo no ar, quando nascer,

mas, quando o sol se esconde nos porões,

vai deitar-se na proa para morrer.
*

Reavalia, então, o ofuscamento

que fez da sua vida esse tormento

de tanto querer e ter como pessoa
*

E vê pontos de luz que vão chegando

à sua consciência, decifrando

o mal que tanto fez e não perdoa.
*

Laurinda Rodrigues
*

12
*

"O mal que tanto fez e não perdoa",

Porque não nasce, o mal, pra perdoar,

Mas pr`aumentar a dor do que já doa

Mesmo antes desse mal se anunciar.
*

Mal fica quem viaja e fica à toa,

Mas pior ficará quem nunca ousar

Seguir o tal tal apelo que destoa

Do que é tido por norma ou por vulgar.
*

Só não se atreve quem de si não gosta

Ou quem é surdo e cego e tudo aposta

Numa rota alheada e comedida;
*

Esse, que à tempestade sempre arrosta,

Pode - quem sabe? - nem chegar à costa,

Mas até no naufrágio encontra vida.
*


Maria João Brito de Sousa - 21.11.2020 - 15.53h
*

13
*

"Mas até no naufrágio encontra vida"

escolhendo livremente naufragar

sem nunca desejar contrapartida

por ter salvo outro ser de se afogar.
*

Com humildade, enfrenta a turbulência

desse vento feroz, que não esperava

destruísse o sentido da existência

a quem só na matéria acreditava.
*

E aporta o barco no porto criador

escondendo na rocha a sua dor

pela dor de outro Eu sobrevivente.
*

E, apelando à coragem e à união,

deixa no mar os restos da ilusão

que possa a humanidade ser diferente.
*

Laurinda Rodrigues
*

14
*

"Que possa a humanidade ser diferente",

Mais justa, igualitária, equilibrada

Do que a que hoje se curva ao prepotente

E que despreza quem já não tem nada.
*


Mas há que navegar, seguir em frente,

Fazer um esforço, dar outra braçada...

Enquanto um sopro houver, há vida, há gente,

Há a luta, há a esp`rança renovada.
*


Homem que navegando naufragaste

Mas que a qualquer destroço te agarraste

Tentando retardar o teu poente,
*


Não há eternidade que nos baste;

No breve instante que à morte roubaste

"Desço ao fundo de mim, ao inconsciente".
*

 

Maria João Brito de Sousa - 21.11.2020 - 21.37h

 

 

 

 

 

13
Nov20

ARTIMANHA - Coroa de Sonetos

Maria João Brito de Sousa

L`IMPORTANT C´EST LA ROSE.jpeg

ARTIMANHA
*

Coroa de Sonetos
*

Laurinda Rodrigues e Maria João Brito de Sousa
*


1
*

O mal faz-se sempre anunciar.

Às vezes, disfarçado, nem se nota.

Poeira venenosa envolve o ar

e um cheiro nauseabundo fica à solta.
*

Não há palavras, gestos ou imagens

que emudeçam, na alma, o medo insano

São sendas de pavor como paisagens

que atravessam a terra e o oceano.
*

Impõe-se a solidão. Ficarmos presos.

É essa a solução para estar ilesos

de um ataque fortuito que nos espreita...
*

Não vale a pena dizer "sim" ou "não":

tudo aquilo que se diz é sempre em vão,

se a confusão lançada é tão perfeita.
*

Laurinda Rodrigues
*

2
*

"Se a confusão lançada é tão perfeita"

Que aos mais sábios confunde e desatina,

Cremos, então, que o Mal está sempre à espreita

Atrás de cada porta, em cada esquina
*

São coisas de que a Manha se aproveita;

Bem sabemos que a Manha, essa ladina,

Se quer fazer passar por insuspeita

E aquilo que prescreve, nunca assina.
*

Mas passe a Arte a bem ou passe a mal,

Contorna os riscos e enfrenta o medo

Que a ameaça de forma desleal;
*

Abre as janelas de manhã bem cedo

Bebe do Sol a força universal,

Reduz o Mal a peças de brinquedo.

*

Maria João Brito de Sousa - 09.11.2020 - 12.29h

*

3
*

"Reduz o Mal a peças de brinquedo"

mas - cuidado! - que o sol é enganador:

faz de conta que é Pai e mete medo

quando os filhos lhe estragam o fulgor.
*

Mas, afinal, o sol é apenas estrela

entre tantas estrelas que há no céu

e, quando esta verdade se revela,

uma outra dimensão aconteceu.
*

Juntando as peças, que temos na memória,

vemos que "chefes-sóis" fizeram história

que lhes servem a eles, sem discussão...
*

E, usando o globalismo como lema,

garantem, no poder, o seu sistema,

impondo, sem destrinça, esse padrão.
*

Laurinda Rodrigues
*

4
*

"Impondo, sem destrinça, esse padrão"

Que a Maga-lua acorre a transformar;

Assim que o Sol se rende à escuridão

Impõe-lhe ela o seu manto de luar
*

E assim concede ao mundo a sedução

Que o Chefe-sol se nem lembrou de dar,

Quem sabe se por pura distracção,

Se por puro capricho de mandar...
*

Amo o Sol e concedo-lhe o perdão

(ou penso que o consigo perdoar...)

Porque me acende a imaginação,
*

Porque a todos se entrega sem cobrar,

Porque - confesso! - me enche de paixão

E porque, enfim, assumo; sou solar!
*

 

Maria João Brito de Sousa .
*

5.
*

"E porque, enfim, assumo; sou solar"

presa na rota do ciclo de estações,

mesmo, sem canto, encanto à luz lunar,

esquecendo que há, na lua, mutações.
*

Cresce a lua no céu, depois de prenhe

que o sol, na fase "nova", engravidou,

para correr o "quarto" e se despenhe

na "cheia" exibição que a culminou.
*

Podemos ser solares enquanto humanos

mas é como lunares que cultivamos

o caminho perfeito da união...
*

Nada no cosmo existe sem sentido

e é o olhar do poeta, destemido,

que faz, da lua e sol, inspiração.
*

Laurinda Rodrigues
*
6
*

"Que faz, da lua e sol, inspiração"

E que com Arte e Manha lhes dá voz

Porque Arte quer dizer rebelião

E Manha há sempre um pouco em todos nós.
*

Rebeldes, inventamos a paixão,

Manhosos, transformamos algo atroz

Num enredo ideal cuja ilusão

Nasce purpúrea da explosão de uns pós...

*

Triangulamos Terra, Sol e Lua,

Num passe de magia. A Arte, nua,

Por um momento veste os nossos mantos
*

Para, logo a seguir, mostrar-se crua;

Despindo os astros, muda-se em falua

E faz-se ao Mar, explorando outros encantos.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 10.11.2020 - 12.54h

*
7
*

"E faz-se ao Mar, explorando outros encantos"

porque, se a Arte é arte, é a expressão

seja em poesia, dança, sons ou cantos

do tempo, que traduz a mutação.
*

E a mutação prevê-se nas estrelas

no para além deste planeta terra,

mesmo que tentem colocar-nos trelas

na desculpa de que Isto é uma guerra.
*

Seremos sábios, mas sábios disfarçados

de humildes servidores desnaturados,

que aceitaram nascer para mendigar...
*

E, enquanto os Reis solares clamam razão,

os pobres servidores vão dando a mão

prosseguindo a arte e manha de os calar.
*

Laurinda Rodrigues
*

 

8
*

"Prosseguindo a arte e manha de os calar"

Sempre que as ordens se tornam brutais,

Semeamos a flor que há-de brotar

Nos prados, nos canteiros, nos quintais
*

 

Da Terra inteira, do céu ou do mar

No qual nadam os peixes e os corais

Proliferam, ainda, sem parar;

Nada, pra si, será longe demais
*

 

Porque a Arte não cuida de barreiras

E há-de passar por todas as fronteiras

Mais forte a cada palmo que conquista.
*

 

Escapar-se-á por fendas e soleiras

Mimetizando as coisas costumeiras;

Ninguém pode impedir que ela subsista!
*

 


Maria João Brito de Sousa - 11.11.2020 - 19.24h
*

9
*

"Ninguém pode impedir que ela subsista"

mesmo vendo que a arte é maltratada

e não é com protestos que resista

a tanta confusão já instalada.
*

Na solidão imposta, versejamos

criando a ilusão que vale a pena...

Mas se, por mero acaso, fraquejamos

as imagens cruéis voltam à cena.
*

Atados ao visor dos aparelhos

que são agora os nossos novos espelhos

retratando o olhar da rendição,
*

talvez ainda sobreviva o sonho

de que este pesadelo tão medonho

se transforme num sonho de paixão.
*

Laurinda Rodrigues
*

10
*

"Se transforme num sonho de paixão"

O que hoje nos parece uma utopia

E a mais que condenada aspiração

De algum idealista em distonia
*

 

E surdo, face a esta distorção,

Ou cego, face a esta pandemia...

É o sonho, contudo, evolução

E a essa nenhum vírus contraria.
*

 

Com Arte e Manha enfim se concretiza

O sonho que ninguém desenraíza

Do ser humano que em si próprio o traz
*

 

E que de quase nada se improvisa

Quando sobre si mesmo profetisa

E acerta, pois de tudo ele é capaz!
*

 


Maria João Brito de Sousa - 11.11.2020 - 22.53h

*

11
*

"E acerta, pois de tudo ele é capaz":

salta barreiras com a mente adormecida

porque, na noite, o sonho dorme em paz

diferente da vigília consentida.
*

Das trevas do profundo inconsciente

compõe lembranças do aqui e agora

e, às vezes, quando o corpo está doente

a alma criadora ri e chora.
*

A confusão, que alastra, não entrava

que faças com teu sonho a tua lavra

numa terra de fértil energia...
*

Não fiques agarrada à voz macabra!

talvez seja o silêncio que nos abra

os sonhos mais proféticos da poesia.
*

Laurinda Rodrigues
*

12
*

"Os sonhos mais proféticos da poesia"

Nascem-me assim que acordo e fico alerta;

A Manha é pouca, mas a Arte cria

A partir de uma mente bem desperta
*

Que a toda a voz macabra repudia,

Nem a ouvindo que outra é descoberta

Nos tons cantantes de uma melodia

Que sobre mundo e vida se concerta.
*

É dum sossego desassossegado,

Talvez silêncio de pronto quebrado,

Que o verso nasce e depois se compõe.
*

Mas só em força nasce se acordado;

Se dorme, nasce tão desafinado

Que nem percebe ao certo o que propõe.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 12.11.2020 - 11.35h

*

13.

"Que nem percebe ao certo o que propõe"

seguindo em linha a voz dos ditadores

que a todos nós a submissão impõe

para, depois, nos tratar como traidores.
*

Antigamente três "fs" suportavam

a perda, raiva, medo e frustração;

mas, agora, nem "fs" aguentavam

os espaços vazios da solidão.
*

Todos falam. Ninguém percebe nada.

Fazem-se regras apenas para fachada.

Mais tarde se verá quem vai mandar.
*

Pobre consolação em grande estilo!

Cantam melhor o galo, o melro, o grilo

que a gente entende, mesmo sem escutar.
*

Laurinda Rodrigues
*

14
*

"Que a gente entende, mesmo sem escutar"

Porque esses sabem sempre como e quando

E até entendem que comunicar

É bem mais que dar ordens de comando
*

Pois também será forma de exaltar

A própria vida que lhes vai pulsando

Nos pequeninos corpos, a vibrar,

Enquanto a Terra inteira vai girando
*

E eu, aqui sentada, vou glosando,

Apesar de uma mão me estar sangrando,

Os versos que me deste pra glosar.
*

Enquanto alguns de nós vão acordando,

Outros, sem Arte e Manha, vão tombando;

"O Mal faz-se sempre anunciar".
*

 

Maria João Brito de Sousa - 12.11.2020- 15.26h

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

22
Out20

GATILHOS - Coroa de Sonetos -

Maria João Brito de Sousa

gatilhos.jpg

GATILHOS
***

COROA DE SONETOS
***


Helena Teresa Ruas Reis e Maria João Brito de Sousa
***

1
*

Não apontes gatilhos para os céus

Que o pássaro que voa é também teu.

Não sabes porque voa, nem sei eu,

Mas deixa-o voar, até ver Deus…
*

À mosca pequenina não a mates,

Enxota-a p’la janela com cautela,

Se existe, haverá quem a use a ela.

P’lo incómodo que dá é que lhe bates?
*

Humano ou ser-humano, afinal qu’ és?

Bicho racional… por que razão?

Por ter inteligência, coração?
*

À natureza julgas a teus pés,

Que só para ti é tudo o que vês!

Cuidar dela tem eco em teus porquês?
*

Helena Teresa Ruas Reis - 16/10/2020
***

2
*

"Cuidar dela tem eco em teus porquês(?)",

Ou tens empedernido o coração

E não sabes amar nem o que vês?

Não saberás, então o que é razão!
*

Um sem a outra, ou um de cada vez,

Não saberão cumprir sua função;

Coração sem razão será talvez,

Um ógão que traz malformação...
*

Cuidado, nunca apertes um gatilho

Por muito tentador que seja o brilho

Do troféu que do tiro possa vir
*

E tem também cuidado c`o rastilho

Não venhas a arranjar algum sarilho;

Quando activada, a bomba irá explodir.
*

Maria João Brito de Sousa - 16.10.2020 - 14.47h
***


3
*

“Quando activada a bomba irá explodir”

E o pobre coração, sem ter razão,

Se vê num descompasso, a decair,

Que o peito sem um pleito é já prisão.
*

 

Enferruja o gatilho e se desarma!

Fibrilhação sem fé, desordenada,

Cá dentro despoleta como uma arma

Um rastilho que explode. Fica o nada.
*

 

Que resta da manhã em seu esplendor

Se nada vês, tolhido já de dor

Tu que ias ainda agora tão lançado.
*

Mais vale sossegar desse furor,

Sentir que ter cuidado é amor!

Mais vale sossegar bem sossegado.
*

 

Helena Teresa Ruas Reis - 16/10/2020 - 20.24h
*

4
*

"Mais vale sossegar bem sossegado"

E amainar um pouco esse alvoroço

De correr como um tonto apaixonado;

- Senhora, bem sabeis que nada posso
*

Contra este meu pulsar descompassado,

Que sempre me apaixono como um moço!

- Ah, coração, que ficas destroçado

E que a mim me transformas num destroço!
*

- Que hei-de fazer, senhora, se estou vivo

E se da poesia estou cativo

Por mor de um "fogo que arde sem se ver"? 1)
*

- Corre então, coração. Não mais te privo

Desse amor que te aperta como um crivo;

És o gatilho que me irá perder!

*


Maria João Brito de Sousa - 16.10.2020 - 21.02 h
*

1) Alusão ao soneto "Amor é Fogo que Arde sem se Ver" de Luiz Vaz de Camões.
***

5
*

“És o gatilho que me irá perder”

N’ aquela triste e leda madrugada

Em que, querendo, já não possa ver

Nem decorrer do dia nem noitada.
*

Oh, aves do meu voo p’ra viver

Levai-me! Levantai-me dessa estrada!

Lá do alto tudo posso conhecer,

A águia guerreira ou a cigarra.
*

Hei-de ver todo o mundo num começo,

À bela natureza que estremeço,

Ao planar com as asas da aventura.
*

Se de novo te usar, ó terra, peço:

Que seja eu perdoada, se mereço,

Mas não mais te darei qualquer tortura.
*

Helena Teresa Ruas Reis - 17/10/2020 - 10,18 h
***

6
*

"Mas não mais te darei qualquer tortura"

Disseste, engatilhado coração;

Sei bem que essa intenção é franca e pura,

Mas sabes tu fugir duma paixão
*

Se és como fruta que não está madura,

Se vais pulsando em louca incontenção,

Se sobre mim exerces ditadura

E, sem razão, me privas da razão?
*

Terás o monopólio da loucura?

Serás senhor da tua própria cura,

Ou escravo dessa eterna frustração?
*


Gatilho és... e à beira da ruptura

Com o tempo que, assim, pouco te dura;

Não tarda, acabarás na tal explosão!
*

Maria João Brito de Sousa - 17.10.2020 - 10.59h

***

7
*

“Não tarda, acabarás na tal explosão”

Bem como esse planeta já cansado.

Inconsequente e pobre coração,

Tu sempre serás meu apaixonado!
*

 

A ciência é vã como ilusão…

Um só impulso vence o mais letrado.

Pensar que estás em mim é perdição,

Pois és somente um músculo alheado.
*

 

Engatilhar-me-ei? Digo que não!

Dei tempo ao tempo, sou nova estação,

Passei calor e o frio mais gelado.
*

 

Em voos, não temi, cruzei trovão,

Contigo padeci, pássaro irmão,

Assim, hoje me sinto renovado.
*

 

Helena Teresa Ruas Reis - 17/10/2020 - 22,09 h
***

8
*

"Assim hoje me sinto renovado"

Mas se não fosse a Ciência reconheço

Que há muito que estaria condenado;

Dela estou dependente e pago o preço
*

Que um músculo serei mas, se parado,

Tudo pára comigo. E recomeço...

À ciência devo este pulsar descompassado

Menos mau que a paragem que não esqueço.
*

E o longo vôo no qual me despeço

Do muito ou pouco que de mim conheço

E do tanto que amei demasiado.
*

Mais do que isto não posso, nem mereço;

Nasci, cresci... estou gasto e já cansado

De impulsionar um sangue velho e espesso.
*


Maria João Brito de Sousa - 18.10.2020 - 11.08h

***

9
*

“De impulsionar um sangue velho e espesso”,

Das veias entupir com inclemência?

Tudo isso viraria pelo avesso

Se no vício usasse de prudência.
*

 

Terei de dar-lhe um novo recomeço

Ou nem me salvará a providência…

Coragem (!) ou desmaio e desfaleço

À míngua de alento e apetência.
*

 

Como terá um músculo indulgência

Como há-de ‘inda usar de sapiência

Em meio ao sobressalto e ao tropeço?
*

 

Pois digo-lhe: Sou eu, mesmo em demência,

Quem buscará salvá-lo em abrangência.

P’lo lema que adoptei, não desfaleço!
*

 

Helena Teresa Ruas Reis - 18/10/2020 - 17,25 h
***
10
*

"P`lo lema que adoptei, não desfaleço(!)"

Mas engatilha o SAAFs o meu pulsar

Congénito, certeiro e sem apreço

Pelo que eu decidir, ou não, tomar.
*

Sou um ser racional e tudo meço

Mas do que em mim trazia ao despontar

Ninguém me perguntou se tal começo

Estaria, ou não, disposta a enfrentar.
*

Lá trouxe, engatilhado, este defeito

Que não se manifesta só no peito,

Mas todo o corpo deixa em tal mau estado
*

Que só se for tratado com preceito

Vai deixando viver quem está sujeito

Ao defeito que trouxe engatilhado 
*


Maria João Brito de Sousa - 18.10.2020 - 18.15h

***

11
*

 

“Ao defeito que trouxe engatilhado”

Sem para tal ser perdido ou ser achado,

Feia a doença e feio o nome dado

Como se fosse fruto de pecado,
*

 

A toda a natureza que se expressa

Com um tiro zangado que arremessa

Ao local onde atinja bem depressa

Aquele alvo, de culpa não confessa,
*

 

Respondo, que não pode interferir

Esse mesmo que irias atingir.

Pode somente, como bem o sabes,
*

 

Fazer-te ter vontade, ultrapassar,

Querer ainda assim retaliar

E será bem possível que te SAAFS…
*

Helena Teresa Ruas Reis - 18/10/2020 - 22,30 h
*

12
*


"E será bem possível que te SAAFS",

E que, com sorte, vivas uns aninhos

Lucidamente, sem cometer gafes,

Sem que troques os ovos pelos ninhos
*

Ainda que, por vezes, tu agrafes

Desalinhadamente uns papelinhos

E que ao lavar dois pratos tu te estafes

Tanto quanto em escalada aos Capelinhos...
*

Repara, engatilhado coração,

Que ambos vamos na mesma direcção;

Eu não vivo sem ti e tu, sem mim,
*

Não serves pra ninguém. Fosses tu são!

Mas furado e depois cerzido à mão...

Nem para doação serves, assim!
*


Maria João Brito de Sousa - 19.10.2020 - 11.28h
***

13
*

 

“Nem para doação serves, assim!”

E já que és meu, vamos disfrutar.

Se foi pela natureza que aqui vim,

De ti e também dela vou cuidar.
*

 

Perdoa que te estafe só um pouco...

Voando até Paris vou viajar.

Irás à Torre Eiffel quase em sufoco

Nos versos do soneto eu hei-de amar!
*

 

De lá de cima o Mundo. Uma vertigem…

O receio que a tudo nos infringem

Dará visão magnânima da vida.
*

 

Nos versos dirimindo o medo virgem,

Mais alto que montanha as rimas cingem

A força de vontade não contida.
*

 

Helena Teresa Ruas Reis - 20/10/2020 - 10,40 h
***

14
*

"A força de vontade não contida"

Engatilha-me os versos desarmados

E reconduz-me ao longo desta vida

Não sei se inteiro, se feito em bocados
*


Que indomado serei. Vendo saída

Não me detenho sobre estes telhados;

Muito mais alto vôo de seguida

E dou comigo em céus não navegados
*

Sem bússola, nem leme ou capitão

Que dome esta loucura, esta paixão

De voar inda além dos sonhos meus.
*

Humano sendo, esta contradição

Não me impede de impor-te este senão:

"-Não apontes gatilhos para os céus"!
*


Maria João Brito de Sousa - 20.10.2020 - 11.20h

 

 

14
Out20

DIZEM QUE MORREU II

Maria João Brito de Sousa

ESSÊNCIA.jpg

DIZEM QUE MORREU...
*

Coroa de Sonetos
*

Maria João Brito de Sousa e Helena Teresa Ruas Reis
*
1
*


Usado, adulterado, gasto e morto

Está o velho soneto. Dizem, dizem...

Outras mãos haverá que o enraízem

Que as minhas, hoje, pedem-me o conforto
*

 

De uma tarde serena. Olhar absorto,

Peço às horas que passem, que deslizem,

Que, em fraçcões de segundo, mimetizem

A paz da barca que chega a bom porto.
*

 

Desse instante de paz nasce-me um verso

(sei lá quantos segundos já lá vão...)

E agora o que ambiciono é o inverso
*

 

Dessa paz que me vem da reflexão;

Parem, mentiras, de embalar meu berço,

Que o soneto está vivo e forte e são!

*


Maria João Brito de Sousa - 09.10.2020 - 12.10h
***

2
*

“Que o soneto está vivo e forte e são”

A Maria João e outros o digam,

Basta olharmos as flores que germinam

Em quadras e tercetos do seu chão
*

Pétalas atiradas por magia

Do caule das palavras que as sustêm

Procurando p’la vida, mal ou bem,

Nos entrançados versos da Poesia.
*

Instantes de surpresa, de sucesso

Adornam um jardim assaz composto,

Voraz e criativo à luz de um verso
*

Qu’ ao lê-lo um outro surge a nosso rosto

E em rimas nos arrima num progresso

Em bagos madurados, fresco o mosto.
*

Helena Teresa Ruas Reis
***

3
*

"Em bagos madurados, fresco o mosto"

Destilando-se o néctar das ideias,

Enreda-me o soneto em suas teias,

Ressurge em graça o formato deposto.
*

Soube-me o seu soneto ao sol de Agosto,

Ao sal do mar, às conchas, às areias

Que são beijadas pelas marés cheias

Deste estuário de que tanto gosto!
*

Cante o soneto, cante-o como um hino

De revolta ou de amor, que tanto faz;

Ninguém pode mudar o seu destino
*

Pois cabe nele o mundo! Em si o traz

Ainda que pareça pequenino,

Mesmo que o julguem velho e incapaz!

*

Maria João Brito de Sousa - 10.10.2020 - 12.25h
***
4
*

“Mesmo que o julguem velho e incapaz”,

Mais insignificante ou alheado

Que pó ou grãos de areia no sobrado

Varridos pelo vento mais voraz
*

Trazidos desde o mar pelas palavras

Em espuma que as fustiga, em desatino,

Como se fossem algo clandestino

E não essa poesia que desbravas
*

Eu juro em boa-fé que o vou cuidar

Tentando pela Musa segurá-lo,

Assim consiga eu não soçobrar
*

Que a onda que mo traz pode levá-lo.

Quando inda muito pouco eu sei nadar

Num pouco só de mim posso afundá-lo…

 

Helena Teresa Ruas Reis
***
5
*

"Num pouco só de mim posso afundá-lo"

Para num outro nada reerguê-lo,

Renovado, pujante, honesto e belo,

Que pela Terra inteira há que espalhá-lo.
*

Paremos um segundo. Este intervalo

Bastará pra gerar novo novelo;

Haverá que fiá-lo e que tecê-lo

Até que ambas voltemos a dobá-lo
*

Treze anos vivi para servi-lo,

Mais treze viveria se pudesse

E a razão me deixasse garanti-lo...
*

Nasce a vida dum fio que se não tece;

Se algumas são tão longas quanto o Nilo

Outras se acabam mal o fio comece.
*

Maria João Brito de Sousa - 10.10.2020 - 16.33h
***

6
*

“Outras se acabam mal o fio comece”

São vidas bem mais breves que um poema

Pois elas dão-se à morte sem problema

E aquele quando finda permanece
*

Pois há um não sei quê que se assegura

Jamais ser olvidado em seu sentido

E parecendo ainda estar contido

Emerge em erupção da cerviz dura.
*

Não sonhe o pensamento em abolir

Aquilo que na alma tem raiz

Ou de si mesmo tinha de sorrir…
*

Na dor ou na revolta em crescimento

Pode um Soneto ter sua matriz

Mas é de Amor e Vida o seu alento.
*

Helena Teresa Ruas Reis
***

7
*
"Mas é de Amor e Vida o seu alento"

E é da força imensa em si contida

Que o soneto renega a despedida

Pra renovar-se em graça e em talento.
*

Em si se abraçam Alma e Pensamento

De uma forma nunca antes conseguida

E cresce a poesia em força e vida

Enquanto amaina o próprio sofrimento.
*

Porém ópio não é que em lucidez

É rico como poucos... tudo of`rece!

Se num momento gera embriaguês
*

Logo a seguir demonstra que não esquece;

Responde a quase todos os porquês,

E quando o repreendem nem estremece.

*

Maria João Brito de Sousa - 11.10.2020 - 13.52h
***
8

*

“E quando o repreendem nem estremece"

Tão certo está de si, do que revela,

Sabendo que nos versos o que sela

É mais do que num todo nos of’rece.
*

A cada qual que lê ele aparenta

Ser coisa tão diversa e solitária

Que ao próprio até surge solidária

Mas, mais que a esse, a outros acrescenta.
*

Entendo como ópio o tal efeito

Que enleia na leitura quem o lê

Tornando-se um anseio já eleito
*

Mas se este é uma droga eu sei porquê:

Apanha-nos a estrofe com seu jeito

Revemo-nos com ela e ela vê!
*

Helena Teresa Ruas Reis
***

9
*

"Revêmo-nos com ela e ela vê "

E perante esse enlevo carinhoso

Torna-se bilha de barro poroso

Em que outrem crê bem mais do que ela crê.
*

Do que recebe, bem certo é que dê

Em dobro, inda que em gesto vagaroso

Faça jorrar um verso já penoso

Porquanto o sol desmaia e pouco vê.
*

Toda dádiva viva se o sol brilha,

Esmorece ao lusco-fusco da tardinha

A estrofe transmutada numa bilha
*

De puro barro que agora se alinha

Para of`recer-te a água da partilha;

Dá-me dessa água, que eu já dei da minha!
*

Maria João Brito de Sousa - 11.10.2020 - 17.11h
***
10
*

“Dá-me dessa água, que eu já dei da minha”…

Aguadeira serei, por quem o manda,

Se o soneto não me der uma desanda

Caindo-me essa água p’la bordinha.
*

Ainda tornarei para a encher

Falando-lhe ao cuidado e ligeirinho,

Pode ser que ao sentir o meu carinho

‘stremecida ela queira se conter.
*

 

Perdoa estrofe, assim estropiada,

De aproveitar o pouco que te sobra

Enchendo-te eu a bilha desse nada…
*

As gotas lacrimejam na manobra

Mas eu sinto-me pura, renovada,

Por fazer através delas uma obra.
*

Helena Teresa Ruas Reis
***

11
*

"Por fazer através delas uma obra"

Feliz fiquei e mais que saciada!

Garanto que não peço hoje mais nada;

Acabo de beber água de sobra!
*

Hoje o soneto nada mais me cobra

Pois sabe bem que estou muito cansada;

Para estes olhos meus é madrugada,

A hora em que Morfeu me vence e dobra...
*

Já o soneto arrulha aos meus ouvidos,

Já o verso se perde em nebulosas

Manchas inacessíveis aos sentidos;
*

Só nuvens, muitas nuvens vaporosas

Sobre os meus versos quase adormecidos

Vêm saudar-me as pálpebras teimosas.
*

Maria João Brito de Sousa - 11.10.2020 - 20.55h

***


12
*

“Vêm saudar-me as pálpebras teimosas”,

Das linhas mais perfeitas as que ousei

Glosar neste jardim em que passei

Buscando um qualquer pão tornado rosas.

*

Milagre que proponho à santidade,

Encíclica que quero publicada.

Soneto é pr’a mim coisa sagrada,

Aquela que nos toca de verdade.

*

Perdoe-me o papado se ajuízo,

Se elevo a voz ao Céu agradecida

Toldada num sentir menos conciso.

*

É que me sinto já embevecida

Por encontrar a forma que preciso,

De elevar, qual Soneto, a minha vida.

*

Helena Teresa Ruas Reis - 11/10/2020
***

13
*

"De elevar, qual soneto, a minha vida"

É um milagre ao qual nunca resisto;

Poucas coisas tão belas tenho visto,

Nenhuma me deixou tão comovida.
*

Sei bem que estou à beira da partida,

Mas se mais um soneto, um só, conquisto

Fico a saber que para isto existo;

Escolhi pelo soneto ser escolhida!
*

Embora sonolenta e fatigada

Vão-me os versos fluindo, formam fios

Que irão depois formar uma meada...
*

São, os sonetos, longos como rios;

Sobre um dos rios flutua uma jangada

Sobre a qual vão meus doces desvarios...
*


Maria João Brito de Sousa - 11.10.2020 - 22.49h

***

 

14

*
“Sobre a qual vão meus doces desvarios”

Arrimados nos remos dum quebranto,

Saboreando, às ondas, o encanto

Marinado por ébrios delírios.

*

 

Desde a nascença, em verso estruturado,

Sou tal qual uma criança que procura

Um pouco de afeição ou de ternura

Que consiga levar a todo o lado.

*

 

E os risos e as dores se confundem,

As traquinices faço, não me importo,

Que o tempo decompõe ou faz que mudem.

*

 

Serei Soneto, ainda em desconforto

Nas pautas musicais que afora fluem,

“Usado, adulterado, gasto e morto”!

*

Helena Teresa Ruas Reis - 12/10/2020

***

 

 

08
Out20

COROA DE SONETOS

Maria João Brito de Sousa

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CHAMAR A MUSA
*
- Coroa de Sonetos -
*

Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes
*

1
*

Onde estás tu, ó Musa por quem nutro

Tanto respeito e tal cumplicidade?

Não te procuro mais porque, em verdade,

Sei que ressurgirás num verso abrupto,
*

Pois num só verso guardas o produto

Do verbo (in)conjugado que me invade;

Passeias-te nas ruas da cidade

Que em tempos idos foi o meu reduto?
*

Por ti nunca desci da luta ao luto,

Contigo fui poeta sem idade,

Em ti depositei a flor, o fruto,
*

E a semente gestada em castidade;

És aquela que sou, em estado bruto,

E terra e mar e sonho e realidade!
*

Maria João Brito de Sousa - 06.10.2020 - 13.31

**
2
*

“E terra e mar e sonho e realidade”

E tudo é a musa: descuidada

Aérea, flor singela e amizade

Também inspiração orientada
*

A musa não tem mãos e é calada

E, claro, só se sente na verdade

Quando traz ao ouvido a charada

Confusa mas com plena eternidade
*

Poeta só quem tem habilidade

E tem inspiração e alma alada

E tem dentro de si acuidade
*

Escuta-se o acorde e a balada

A musa anda aí pela cidade

E anda nos seus versos espelhada
*

Custódio Montes

(6.10.2020)

**

3

*

"E anda nos seus versos espelhada"

Como se irmã lhe fora... e siamesa!

Juíza sábia, jovem camponesa

Cuidando da colheita ameaçada,
*

Tecedeira imparável, mas cansada,

Dona de casa, mulher da limpeza,

Mãe que chama os seus filhos para a mesa

Se fez um prato que a todos agrada...
*

Ah, quantas musas cabem nesta Musa?

Quantas vidas viveu, por onde andou

Esta que tão dif`rentes capas usa
*

E vai cantando as capas que envergou?

A esta, que hoje assim se me recusa,

Devo mais que a ninguém isto que sou.
*

Maria João Brito de Sousa - 06.10.2020 - 17.35h
**


4
*

"Devo mais que a ninguém isto que sou."

A musa é apenas feminina ?

Então bem arrumado eu estou

Que não posso acorrer a essa mina
*


As tarefas que aí enumerou

Retiram-me a graça bem como a sina

De poder versejar e acabou

Com a inspiração que não atina
*

Talvez não: cada um puxa a seu lado

Aquilo que mais quer e mais deseja

E dizer-se sem musa é engraçado
*

Mas sempre que uma ideia se verseja

Deve ter-se a cautela e o cuidado

De não meter a musa na peleja
*

Custódio Montes

(6.10.2020)

**

5
*

"De não meter a musa na peleja"

Não vejo forma nem encontro jeito

Se tem, a C`roa, título escorreito

E cada verso o título coteja...
*

Posso, porém, fazer como deseja

E passará um muso a ser sujeito

Desta conversa em soneto perfeito;

Agora que está dito, que assim seja!
*

Juíz ou lavrador ou engenheiro

Ou, como Aleixo, génio popular

E grandioso poeta-cauteleiro,
*

Médico, pasteleiro, homem do mar,

Caixeiro-viajante ou empreiteiro...

Não sei que encargos deva ao muso dar!
*


Maria João Brito de Sousa - 06.10.2020 - 19.18h

**

6
*

Não sei que encargos deva ao muso dar

Amiga tem piada neste evento

Fartou-se de sorrir e de gozar

Mostrando a sua garra e talento
*

Mas tenho agora mesmo que lembrar

Que um muso, a existir, neste momento,

Não fica a si sujeito ... que mandar

Manda ele e inspira o pensamento
*

Já vi que ao dizer que não tem musa

Não é verdade é uma imprecisão

Queria antes dizer que a tem reclusa
*

E fazer assim dela mangação

Porque se manda nela ela é obtusa

Que musa é musa mesmo, inspiração
*

Custódio Montes

(6.10.2020)
**

7
*

"Que musa é musa mesmo, inspiração"

Que só inspira aquilo que ela entende,

Que nos sopra ao ouvido e que nos prende

Pois toda ela é pura sedução...
*

Digo, porém, que não tive intenção

De brincar tanto quanto disto impende

E penso que, decerto, compreende

Que foi espontânea a minha reacção

*
E é bem verdade que me tem fugido

A musa, minha eterna companheira,

A guardadora do verso perdido
*

Que desde sempre orbita à minha beira;

Ah, nunca percas, Musa, o teu sentido

Pois sozinha não venço esta quebreira!
*


Maria João Brito de Sousa - 07.10.2020 - 10.53h

**

8
*


"Pois sozinha não venço esta quebreira"

Claro que há-de vencer tenho a certeza

Que a gente quando pensa e quando queira

Acaba por vencer a tibieza
*

É preciso acabar com a tristeza

Que mais não é que uma maluqueira

É.bom pensarmos antes na grandeza

Que nos traz um poema à nossa beira
*

Compõe-se uma quimera a alcançar

Rodeia-se de estrelas luminosas

Envolve-se com flores a ondear
*

Conjunto de harmonias glamorosas

De encanto que nos levam a sonhar

E fica-nos à volta um cheiro a rosas
*

Custódio Montes

(7.10.2020)

**

9
*

"E fica-nos à volta um cheiro a rosas"

E a cravos vermelhos e alfazema

Que sempre emana de qualquer poema

Composto em notas muito harmoniosas
*

Porém, num dia cardos, noutro prosas, (1

Que sempre engendra a vida algum dilema

E bastas vezes disso faz emblema

Criando as situações mais dolorosas...
*

Enquanto o tempo nos não cicatriza

A chaga de uma dor que era escusada,

Foge uma musa à sua poetisa,
*

E fica a poetisa desolada

Ao ver que o verso das mãos lhe desliza

Para cair no chão desfeito em nada.
*


Maria João Brito de Sousa - 07.10.2020 - 17.43h

*

1) Referência a um poema de Miguel Esteves Cardoso cantado por Manuela Moura Guedes

**

10
*

"Para cair no chão desfeito em nada."

Mas isso é do desgosto que se sente

Da vida que parece atribulada

Por coisa que aparece de repente
*


Mas o poema fica e a dor passada

Voltamos a reler e ao vê-lo à frente

Não nos lembra a tristeza acorrentada

Ao desgosto que teve então a gente
*

Escreve-se o que a alma nos aponta

Quer quando haja tristeza ou alegria

O estado bem se nota mas não conta
*

A quem lê ou escreve poesia

Quem a lê vê apenas uma ponta

Quem a escreve anda nela dia a dia
*

Custódio Montes

(7.10.2020)

**

11
*

"Quem a escreve anda nela dia a dia"

Como quem desenrola um fio que finda,

Sem saber quanto tempo falta ainda

Para findar-se o fio de quem o fia...
*

Mas tudo tem seu tempo e a alegria

A seu tempo ressurge... e como é linda,

E com que f`licidade ela nos brinda

Com coisas que só ela engendra e cria!
*

Pra ela há espaço... e também prá tristeza

Que bate à porta de todas as vidas

E, ora de manso, ora com rudeza
*

Nos mostra que apesar de haver saídas,

Há que assumir com toda a singeleza

Todas as emoções por nós sentidas.
*


Maria João Brito de Sousa - 07.10.2020 - 19.49h

**

12
*

"Todas as emoções por nós sentidas"

Boas e más mas sempre diferentes

Originais vivências acrescidas

Que ora nos fazem tristes ou contentes
*

Então vive o poeta várias vidas

E em cada uma delas frequentes

Luzes e emoções que assim vividas

Nos trazem versos lindos e excelentes
*

Que a musa a inspire e lhe dê graça

Ou mesmo com a musa adormecida

Escreva seus poemas e nos faça
*

Sentir as emoções na nossa vida

Esquecendo a amargura que nos passa

E queremos bem longe e esquecida
*

Custódio Montes

(7.10.2020)
**

13
*

"E queremos bem longe e esquecida"

Essa memória ainda tão recente

Que me roubou a Musa, essa eloquente

Guardadora dos versos sem guarida.
*

Voltou, porém, de versos guarnecida

E pronta pra cantar, como é corrente

Que as musas façam quando encontram gente

Disposta a encarar de frente a vida
*

Mas se as tristezas tiver que calar

E me mostrar alegre quando triste,

Sei que traio o que entendo por criar...
*

Garanto; não vos quero amargurar

Mas posso lá esconder que a dor existe

Se a dor nalgum momento me esmagar?

*

Maria João Brito de Sousa - 07.10.2020 - 21.57h
*


14
*

"Se a dor nalgum momento me esmagar"

Eu hei-de resistir que a resistência

É bom remédio, pode-nos salvar

Se nós tivermos garra e paciência
*

A gente pode às vezes fraquejar

Mas se lançarmos mão dessa valência

Que dentro de nós temos a morar

Havemos de encontrar resiliência
*

Nessas alturas vem querida musa

Agarra-te ao meu peito impoluto

Mas que à felicidade se recusa
*

Sê minha conselheira, dá-me o fruto

Para eu te adorar como uma deusa

“Onde estás tu ó musa em quem (me) nutro”?
*
Custódio Montes

(7.10.2020)

29
Ago17

GLOSANDO JOÃO MOUTINHO II

Maria João Brito de Sousa

Julio.jpg

 

SONHO SOLTO

 

Sento-me, só, no colo das ideias

Do verso branco que não sei parar…

Sinto o dilatar de todas as veias

Que pulsam em mim, sem me sossegar

 

Todos os elos, todas as cadeias,

Todas as ondas me vão navegar

E desaguar nas mesmas areias

Do mesmo sol-pôr, do mesmo luar

 

Cavalgo as marés da tua ternura

Nas dunas de pele que quero sorver…

Saciando a sede na tua candura

 

O sonho só solto ao anoitecer

No amanhecer da minha loucura

No verso de amor que não vou escrever

 

João Moutinho



POR ELA



“Sento-me, só, no colo das ideias”,

Enlaço-me nos braços da Razão

E, apagada a chama das candeias,

Confronto a minha humana condição;



“Todos os elos, todas as cadeias”,

Todas as formas de escravização,

São coisas que não sabes, mas premeias,

Não por palavras, mas por omissão.



“Cavalgo as marés da tua ternura”

Quando descanso e sempre que puder,

Mas assim que a Razão sonda e perfura



“O sonho só solto ao anoitecer”,

É por ela que aceito esta ruptura

E, por ela, só dela passo a ser.

 



Maria João Brito de Sousa – 28.08.2017 – 11.58h

 

 

Desenho de Júlio (irmão do poeta José Régio)









 

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