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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
19
Ago23

LANTERNA QUE ILUMINA - Reedição

Maria João Brito de Sousa

lanterna (2).jpg

lanterna (1).jpg


LANTERNA QUE ILUMINA
*

Coroa de Sonetos
***

 

Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
*

 

1

*

 


Conceitos nossos, os de bem e mal,

Tão naturais quanto água cristalina

E tão inevitáveis quanto o sal

Da rocha que no mar o dissemina.
*

 

Nossos porque nos é fundamental

Explicar espantos que a vida determina

Desde o tempo remoto e ancestral

Em que o medo nasceu. Quem o domina?
*

 

Demos e deuses no mesmo bornal;

Era a razão ainda uma menina

Que a cada descoberta acidental
*

 

Crescia no saber. Esmorece a sina

Na explicação do mundo e do real;

A razão é lanterna que ilumina!
*

 


Maria João Brito de Sousa - 14.10.2020 - 15.38h
***

 

2
*


"A razão é lanterna que ilumina"

quando os sentidos exigem perceber

o porquê de nascer e de ter sina

que traçou o caminho a percorrer.
*

 

Acaso tens "razão" naquilo que sentes

nas emoções que explodem no momento?

Percebes a "razão" ao ver que mentes

se te impunhas verdade a cem por cento?
*

 

Negaste a todo o corpo ter "razão"

quando adoece, num súbito apagão

do teu desejo "racional" de ter bem-estar?
*

 

Olha ao fundo de ti e está lá tudo

quando sorris, ou ris, ou estás sisudo,

mesmo quando a lanterna se apagar.
*

 

Laurinda Rodrigues

***

3
*

 


"Mesmo quando a lanterna se apagar"

Terei estado segura que a razão

Me acompanhou nas horas de sonhar

Ou de saber conter a frustração,
*

 

 

Sempre que navegando neste mar

Soube enfrentar a negra escuridão

E, vez por outra, até soube amansar

As mais brutais rajadas de um tufão...
*

 

 

A pulsão que aqui vês canalizada,

Por nós foi decidida e avaliada:

Com ela conto quando aqui me atrevo
*

 

 

Que ela me ampara ainda que estragada

(desde que eu nunca minta... ou quase nada),

E tudo o que escrevi, a ela o devo.
*

 

 


Maria João Brito de Sousa - 15.10.2020 - 15.30h
*


4
*

"E tudo o que escrevi a ela o devo!"

Lá vai uma mentira! Não faz mal!

Porque a tua poesia é o relevo

de seres intensidade emocional:
*

 

Pois a cultura, que subjaz ao verso,

nasceu, cresceu e acabou adulta

num balanço vital e controverso

no seio de uma Família que a exulta.
*


Podes, por isso, invocar "razões"

para esquecer o gosto das paixões

que vibram nas palavras da poesia... 
*

 

Mas eu, enquanto Irmã sem ser de peito,

vou vigiando da "razão" o jeito

de, "sem razão" de ser, ser fantasia.

*

 

Laurinda Rodrigues
***


5
*

 

"De "sem razão" de ser, ser fantasia"

Que é algo que jamais a antagoniza

Porque a razão é livre e também cria

Quando em verso se faz e se harmoniza
*

 

Com toda a emoção que em si cabia...

Sabes bem que a razão idealiza

Que pega na meada, a tece, a fia

E não desiste até que a finaliza!
*

 

Porque as separas e dizes que minto

Se eu digo (quase) tudo quanto sinto

E as trago equilibradas no meu peito?
*

 

Vemos as coisas de um modo distinto:

Vês-me perdida nalgum labirinto

Só por trazer congénito defeito?
*

 

Maria João Brito de Sousa - 15.10.2020 - 16.36h
***


6
*

 

"Só por trazer congénito defeito"

é uma frase que à "razão" reduz:

quem julga quem e afirma desse jeito

talvez não veja para além da luz.
*

 

A lua às vezes tem forma de corcunda

quando está prestes a ser a lua cheia

e alguém ousa dizer que ela se afunda

numa figura estranha que a desfeia?
*

 

Pensar o mundo por meio da razão,

rejeitando o oculto, o secreto, a ilusão

que só a alma vê, pressente, reconhece,
*

 

é como caminhar apenas num sentido

e nunca acreditar que vale ter vivido

sem a razão dizer aquilo que acontece.
*

 

Laurinda Rodrigues
***
7
*

 

"Sem a razão dizer aquilo que acontece"

Só serve a quem por tudo se confunde;

Provavelmente a alma desconhece,

Não sabe que a razão na luz se funde.
*

 

A esse fio, nem toda a gente o tece,

Por muito que a meada em luz abunde:

Há-de haver sempre um nó que o fio empece

E que fuja ao confronto que contunde.
*

 

Sei que muito bem sabes que te entendo,

Mas saberás da luz que eu vou tecendo

Dentro desta minha alma racional?
*

 

Pega então na meada que te estendo

E diz-me, sem rodeios, se estás vendo

O despontar do velo original?
*

 

Maria João Brito de Sousa - 15.10.2020 - 20.02h
*


8
*

"O despontar do velo original"

vi-o nascer no campo entre o rebanho

e não há outra luz que se lhe iguale

nem força visceral do seu tamanho.
*

 

Não tem de ter "razão" nessa energia

que intuitivamente o alimenta:

agasalha no peito a sua cria

e é o grupo coeso que o sustenta.

*

 

Se os humanos pudessem entender

que são corpos de luz a florescer,

calando muitas vezes a "razão",
*

 

talvez não fossem escravos da tristeza

nem estivessem tão cegos para a beleza

e ouvissem mais a voz do coração.

 

Laurinda Rodrigues

***

9
*

 

"E ouvissem mais a voz do coração"

Que nunca desprezei porque a mantenho

Bem livre e de mãos dadas co`a razão

Que também viu nascer esse rebanho.
*

 

Sentes mais do que eu? Creio que não,

Que igualmente sentimos... mas é estranho

Que separes razão e coração

Quando ambos devem ter igual tamanho.
*

 

Se bem equilibrados, movem mundos,

Mergulham juntos nos lagos profundos,

Juntos sobem ao céu que os não limita
*

 

E lado a lado serão mais fecundos;

Aquecerão até os vagabundos

Que andem por estradas de alcatrão e brita.
*

 

 

Maia João Brito de Sousa - 16.10.2020 - 11.33h
***

 

10.

*

 

"Que andem por estradas de alcatrão e brita"

serão uns vagabundos bem saudáveis

porque esta reclusão até irrita

e torna os pacifistas vulneráveis.
*


É difícil manter a coesão

entre aquilo que se pensa e o que se sente:

os estímulos bons para o coração

não são aceites pela razão da gente.
*

 

Assim, mesmo que queira partilhar

a união do sentir e do pensar, 

reconheço que não passa de teoria...
*

E prefiro brincar, sem preconceito,

aos opostos entre cabeça e peito

e fazer, dessa luta, alegoria.
*

 

Laurinda Rodrigues 

***

 

11
*

 

"E fazer dessa luta alegoria"

Também eu posso e faço certamente

Mas não me digas que é só teoria

O que em prática ponho honestamente.
*

 

Manter os dois coesos na harmonia

Pode bem conseguir-se facilmente;

Se assim não fosse eu não conseguiria

Escrever, sorrir, amar, seguir em frente...
*

 

Opostos, sim, mas só na brincadeira,

Que esta união é mesmo verdadeira

E se um desaguisado acontecer
*

 

Virá a ansiedade, bem certeira,

Desesperar-nos à sua maneira:

Ambos terão muitíssimo a perder!
*

 

 

Maria João Brito de Sousa - 16.10.2020 - 15.14h
 ***

 

12
*

 

"Ambos terão muitíssimo a perder":

mas "perder" qual dos dois é que avalia? 

lá estamos novamente a submeter

ao juízo, à razão, a tirania.
*

 

Eu não fechei as portas à "razão"

mas a ela prefiro o termo "mente"

que tem a ver com a compreensão

de tudo o que se pensa e que se sente.
*

 

Pode ser só  semântica a falar

mas confesso que gosto de brincar

às "coroas" sem princesas ou rainhas...
*

 

E, depois, no final, apoteose

em que duas mulheres fazem osmose

a entoar, em coro, as ladainhas.

*

 

Laurinda Rodrigues

***

13
*


"A entoar, em coro, as ladainhas"

De encanto musical e singular,

Pois também eu deponho as tais rainhas

E me entrego à justiça popular
*

 

 

Que estas estrofes, sendo muito minhas,

São escritas para quem delas gostar

E pra quem saiba ler nas entrelinhas

Do tanto que por cá se ousou cantar!
*

 

 

Quanto ao juízo... para que é preciso

Se é o "todo" que sofre o prejuízo

Do desentendimento do dueto?
*

 

 

Seja o meu coração forte e conciso,

Rebente-me a razão em espanto e riso

Que a mente já me fecha este terceto 
*

 

 

Maria João Brito de Sousa - 16.10.2020 - 18.50h
***

 

14

*

"Que a mente já me fecha este terceto"

numa união perfeita com o oposto:

são o sol e a lua num dueto

da lua nova que escondeu o rosto.
*

 

Simbologia que a poesia tece

em melodia feita de palavras:

tem sentido no céu o que acontece

sincronia com a terra que tu lavras.
*

 

É serena a paisagem deste outono

evoca o inconsciente no seu sono

que obriga a ver o real e o irreal...
*

 

Afinal, somos nós que fabricamos

todos aqueles arquétipos que invocamos:

"conceitos nossos os de bem e mal".
*

 

Laurinda Rodrigues

***

 

 

 

19
Jul22

RAZÃO - Mª João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues

Maria João Brito de Sousa

O SONO DA RAZÃO PRODUZ MONSTROS - GOYA (1).jpg

"O SONO DA RAZÃO PRODUZ MONSTROS"

Francisco de Goya

***

RAZÃO - Coroa de Sonetos

*
Mª João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
*


1.
*
Chegaste escondida nas asas do tempo:

És ré sem sentença nem culpa formada

E germe da força que (in)gere o talento

Duma humanidade confusa e cansada
*


Encontro-te sempre. Não te oiço um lamento

Que a raiva - até ela! - se quer registada

Num ficheiro próprio e num só documento

Conquanto te nasça por tudo e por nada...
*


Chegaste e provaste de todos os frutos:

Exultaste os partos, choraste os teus lutos,

Sonhaste os teus sonhos, lavraste o teu chão...
*

 

Hoje destronada, Razão que aqui canto,

Quem ousa remir-te envergando o teu manto

Que sempre foi pródigo e fértil, Razão?
*

 

Mª João Brito de Sousa

16.07.2022 - 12.40h
***

Gravura de Francisco de Goya
***

2.
*

"Que sempre foi pródigo e fértil, Razão?"

um manto de luz pejado de estrelas

ou apenas triste, magra escuridão

que nem tua Musa se oferece p'ra vê-las.
*


Porquê tanto encómio na mente/razão

se ela funciona, em nós, como trelas

prendendo o sentido da nossa emoção

que ela se nega demais por contê-las?
*


Razão, ó razão, que és "razão pura"

não estragues dos versos a linda figura:

deixa extravasar o medo de Ser!
*

Porque, sendo mente, és pura estrutura

pejada da história que vem da cultura

e vai perseguir-te, depois de nascer.
*

Laurinda Rodrigues
***

3.
*

"E vai perseguir-(me) depois de nascer",

Sem medos, que medo não sinto... que queres?

Seduzem-me os monstros que deito a perder

No poço sem fundo dos fracos prazeres...
*


À Razão não perco e pretendo-a manter

Dialéctica eterna dos meus afazeres...

Não a quero pura nem estática ver,

Porque ela só pára se a não entenderes
*


E viva se espelha nas mãos proletárias,

De maneiras tantas, de formas tão várias,

Que os seus belos frutos sempre irão brotar
*


Ao longo de ramas reais, necessárias

Às almas obreiras e extraordinárias

Que entendem ser justo a Razão resgatar.

*

Mª João Brito de Sousa

18.07.2022 - 13.08h
***

4.
*

"Que entendem ser justo a Razão resgatar"

e dar-lhe o estatuto de criatividade

mesmo que, depois, a mente larvar

só produza ideias da posteridade.
*


Ó ervas daninhas, crescidas no ar,

da vossa presença não tenho saudade.

Quero enlouquecer e me apaixonar

sem ter normativos de terceira idade.
*

 

E, como uma onda, cobrir os sentidos

de torpes palavras e agudos gemidos

deixando na terra o gosto das águas...
*


Talvez sejam gestos, há muito esquecidos

em sono acordado de sonhos dormidos,

de uma alma insana nascida de mágoas.
*

Laurinda Rodrigues

***
5.
*

"De uma alma insana nascida de mágoas"

Nasceram dif`rentes posturas de classe:

Conspira o burguês, cria montros e fráguas

Que amansem "proletas", vencendo esse impasse
*

 

Cruzam-se os seus barcos. Vão mansas as águas...

Tão só de aparência pois quem as olhasse

Sondando o que cresce para além das tábuas,

Veria o que eu vejo... e talvez não gostasse...
*


Mas para que o saibas, aqui te confesso

No Pós-Modernismo ter visto progresso...

Cresci seduzida por ele. E contudo,
*


Amadurecida, só vi retrocesso...

Ser escriba ou poeta é todo um processo

De talento - é certo! - mas também de estudo.
*


Mª João Brito de Sousa

18.07.2022 - 16.50h

***

6.
*

"De talento - é certo! - mas também de estudo"

criaste teu espírito de Razão letrada.

Eu só partilhei o cinema mudo

onde todo o gesto é gesto de fada.
*


Percebo, no entanto, um pouco de tudo,

um tudo de tudo, um tudo de nada...

e, sempre sonhando, eu nunca me iludo

nem às frustrações eu fico fixada.
*


Se o mundo se arroga o Ser da Razão

deixando que morra o amor e a paixão

que sempre fecunda a terra e o mar,
*

 

Sempre gritarei ao outros meu "não"

por quererem impor essa reclusão

que a Razão impõe, em vez de sonhar.
*

Laurinda Rodrigues
*

7.
*

"Que a Razão impõe, em vez de sonhar"?

És tu quem o diz, que eu nunca o diria,

Já que é pelo sonho que me hei-de guiar

De dia e de noite, de noite e de dia
*

 

E à Razão, coitada, querem-na enterrar

Com sonhos e tudo, junto à mais-valia

Da mão que trabalha pra pouco ganhar

Que o grosso do lucro alimenta a avaria...
*

 

Em boa verdade te digo e repito

Estar ela em extinção neste mundo em conflito

Por ser dela o sonho que se concretiza
*


E tudo isto é fruto de um esquema, de um mito,

Que a quer difamada para que o aflito

Não saiba nem sonhe quanto idealiza!
*


Mª João Brito de Sousa

18.07.2022 - 20.30h

***

8.
*

"Não saiba nem sonhe quanto idealiza"

é imperativo do Código que indica

as razões do jogo, que o jogo precisa

p'ra salvar o Ego, de que nunca abdica.
*


É tal sua força, que julgo exterioriza

que tem de enfrentar o medo, que fica

quando, à noite, só e triste, precisa

dessa mão e colo que o dulcifica.
*


Somos todos sábios e néscios na vida

a querer desvendar sentido à partida

p'ra morte que chega, nunca com razão...
*


E usamos a história, que foi muito lida,

contando o segredo e a mágoa da ferida

por termos matado nosso coração.
*

Laurinda Rodrigues
***

9.
*

"Por termos matado nosso coração",

Dirão alguns néscios e sábios em coro

Não compreendendo que foi a Razão

Que foi despojada da c`roa de louro
*


E logo enterrada em três palmos de chão

Pela burguesia sedenta do ouro,

Senhora da guerra que actua à traição

E nos manipula sem qualquer decoro
*


Não vês que anda o mundo cego e tresloucado,

Que tudo confunde, virtude e pecado,

E que andam os pobres cada vez mais pobres,
*


Que embora pulsando num peito estouvado,

Nem um coração foi detido e julgado

Em nome de causas que se afirmam nobres?!
*

 

Mª João Brito de Sousa

19.07.2022 - 09.10h
***

10.
*

"Em nome de causas que se afirmam nobres",

a Razão declara submissão e paz,

com promessas vãs que sempre descobres

estar pr'além daquilo de que se é capaz.
*


Assim divididos um e outro, encobres

que a sua verdade é mentira e jaz

entre a multidão de ricos e pobres

que acabam iguais, quando a morte apraz.
*


Em nome da honra e do compromisso

brincas à Razão e invocas feitiço,

destino cruél que vem do Além.
*


Mas - ai! - já não escapas e acreditas nisso

pois é com palavras que a maldade atiço

em forma de medo, de raiva ou desdém.
*

Laurinda Rodrigues

***

11.
*

"Em forma de medo, de raiva ou desdém"

Respondes àquilo que serena exponho...

Qual de nós conhece tudo o que convém

Ao homem que cresce dentro do seu sonho?
*


Desdenha, enraivece... nada nos detém,

Nem sequer o monstro mais cru, mais medonho

Que afronte e desminta um homem de bem,

Redimido agora, jamais enfadonho
*


Desconheces, creio, que o capitalista

Destrói a Razão pra que ela desista

De ser ferramenta dos trabalhadores
*


Eu, que em mim a trago, tenho-a por benquista

Irmã do explorado, Musa do artista

E um alvo a abater, para os seus censores.
*


Mª João Brito de Sousa

19.07.2022 - 11.26h
***
12.
*

"E um alvo a abater, para os seus censores"

descobres na pele, nos nervos, Razão?

É Razão porquê, se são delatores

e, sem caridade, não estendem a mão?
*


Estarás a ser alvo de estranhos temores

de um planeta exangue, com fome de pão,

sem qualquer resposta de dias melhores

mergulhado apenas na destruição?
*


Nas minhas entranhas, é certo que sei

que todo o presente é fruto da lei

que já vigorou em tempos passados...
*


Não falo, nem escrevo, sobre aquilo que dei,

o que recebi, aquilo que esperei...

Apenas desejo novos seres alados.
*


Laurinda Rodrigues
***

13.
*

"Apenas desejo novos seres alados",

Ícaros - quem sabe? - com asas de cera,

Mais tarde ou mais cedo sendo castigados

Plos deuses irados do topo da esfera
*


Tal qual a Razão foi, por seus jurados

Sem escudo lançada na jaula da fera

De compridas garras, dentes afiados

E a ferocidade sem fim da quimera
*


Tu e eu, burguesas privilegiadas,

Temos perspectivas bem distanciadas:

"Nem guerra entre os povos, nem paz entre as classes!"
*


Sim, são bem bonitas essas tuas fadas,

Mas que sabem elas de bocas esfaimadas,

Dos povos sem terra e dos grandes rapaces?
*


Mª João Brito de Sousa

19.07.2022 - 15.00h
***


14.
*

"Dos povos sem terra e dos grandes rapaces"

sei mais do que pensam ou julgam pensar...

Nasci de outra vida em tempos fugaces

onde não havia Razão para cantar.
*


No entanto cantei, sem temer as classes,

brincando ao poder que quer dominar...

E, sendo mulher de poucos enlaces,

troquei-lhes as voltas e soube singrar.
*


De burguesa tenho poesia editada

que posso exibir, quando estou tentada

a jogar, com os outros, esse passatempo...
*


E, um dia, a Razão há-de estar parada,

abrindo-te as portas quando, p'la calada,

"chegaste(,) escondida nas asas do tempo".
*

Laurinda Rodrigues
***

 

 

 

 

01
Mar22

SONETO À "CHEF" - Mª João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues

Maria João Brito de Sousa

soneto á chef 2.jpg

SONETO À "CHEF"
*

(Sem jaleca, nem estrelinhas)
*

Coroa de Sonetos
*

Mª João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
*

1.
*

Sim, já usei palas, uma em cada olho,

Mas uma jaleca com direito a estrela,

Nunca usei nenhuma, nunca pude tê-la

Por não saber como... bringir um repolho!
*


Não tendo jaleca, estrelinhas não colho

Nem mesmo as que observo da minha janela;

Sou tão só poeta, escrevo à luz da vela,

Mal vou distinguindo espargos de restolho...
*

 

Quem me faz um prato com este soneto

Sem peixe, sem carne, nem sabor concreto?

E acabo eu de ouvir que de um bom cozinhado
*

 

Um "Chef" estrelado faria um poema...*

Que o faça, que eu provo! Salgou-lhe um fonema?

Faltou-lhe a mestria de um vate inspirado!
*

 

Mª João Brito de Sousa

27.02.2022 - 12.00h

 


* Chef Óscar Geadas na finalíssima do programa MasterChef Portugal
***
2.
*

"Falta-lhe a mestria de um vate inspirado"

que tenha no corpo a grande lição

que o cheiro e o gosto, depois de provado

não gosta de expor sua rendição.
*


O "chefe" ou a "chefe" das coisas visíveis

esconde para nós a ponta do véu:

somos atraídos por ecos plausíveis

que brotam perfumes que a terra nos deu.
*

Mas nada é verdade. Verdade que importa?

Todos pretendemos não ser "cepa torta"

traduzindo o eco de gritos potentes...
*


Talvez esteja longe! Mas cá, entre nós,

espero que haja gente que, ao usar a voz,

traduza razões que sejam diferentes.
*

Laurinda Rodrigues

27.02.2022
***

3.
*

"Traduza razões que sejam diferentes"

Bringidas, seladas ou talvez cozidas

Já que pouco entendo de águas "reduzidas"

E algas polvilhadas de ocres reluzentes...
*


Mas que são bonitas e muito atraentes

As tais obras-primas por lá concebidas,

Disso não duvido porque as vi servidas

Quer estivessem frias, quer estivessem quentes!
*


Eu que mal cozinho, vou fazê-lo agora,

Mas "Chefa" não sou, sou só "comedora"

E um arroz me basta se uma costeleta
*


Bem ou mal passada puder pôr no prato,

Que a barriga sinto roída por rato,

No que toca a pratos, pouco ou nada esteta...
*


Mª João Brito de Sousa

27.02.2022 - 14.00h

***
4.
*

"No que toca a pratos, pouco ou nada esteta"

mas será artista na decoração

da mesa e da louça que são sua meta

trazida do tempo de infância e paixão.
*


Lembranças colhidas de sabores eternos

sentados à volta, com cheiro a lareira.

Não existem guerras nem esses infernos

de quem não tem pão, nem eira nem beira.
*


Histórias mal contadas. Doces reprimendas

que, agora, esquecidas, sabem a merendas

de doces com gestos apaziguadores...
*


Nem sequer importa quem foi cozinheira

porque, na alegria, tu foste a primeira

devorando, ansiosa, todos os odores.
*

Laurinda Rodrigues
***
5.
*

"Devorando, ansiosa, todos os odores"

Vêm-me à memória belas rabanadas,

Açordinhas d`alho, filhós, encharcadas...

E a essas memórias juntam-se os sabores
*


De antigas compotas, de velhos licores,

Das mil iguarias bem confeccionadas

Pela avó Maria ou pelas empregadas

Das casas maternas, meus grandes amores...
*


Três foram as casas em que fui crescendo;

Todas me prenderam, todas fui prendendo

E sou hoje um bairro de três casas só
*


Porque a quarta casa é a que hoje abriga

O corpo que envergo e o da minha amiga,

A Musa incansável, coberta de pó...
*


Mª João Brito de Sousa

27.02.2022 - 19.40h

***

6.
*

"A musa incansável, coberta de pó"

não tem a mania das arrumações

e a cama onde deita para fazer "óó"

é feita de sonhos, crenças, ilusões.
*


Não pede que a dona faça concessões

p'ra que chegue urgente sentada em trenó

como o Pai Natal ou como Papões

que na noite gemem como o som da mó.
*


Ah que sinfonia de gostos infindos

quebrados, esgotados, mas ainda lindos

que, atrás de uma porta, poetas aguardam...
*


E, sempre com medo das reais maldades,

compõem os versos que trazem saudades

de um tempo vivido que mágoas não guardam.
*

Laurinda Rodrigues
***

7.
*

"De um tempo vivido que mágoas não guardam"

Apuram-se as sopas de espinafre ou grão;

Para essas guardo a vara de condão

Cujos bons efeitos decerto não tardam...
*


Sobre o leite creme sempre convém que ardam,

Que flamejem chamas como se um dragão

Lançasse o seu sopro com mais devoção

Do que os mais que o comem, do que os mais que enfardam
*


E, agora, as memórias voltam prá panela

Com açúcar, leite e um pau de canela

A que junto lima para obter frescura
*


As gemas batidas e homogeneizadas

Serão, na mistura, bem incorporadas

Mal este soneto levante fervura...
*


Mª João Brito de Sousa

27.02.2022 - 21.30h
***

8.
*

"Mal este soneto levante fervura"

entornando o caldo tão açucarado

vais lamber a espuma, curando a secura

da espera de um beijo que saiba a pecado.
*


Não é cozinhado que o desejo cura

por muito que seja bem condimentado:

a fome de amor, que a ânsia tortura,

em nada se mata se não for saciado.
*


Transmuta-se a carne. O instinto sobra.

Comendo a maçã que te deu a cobra

ficarás p'ra sempre envolta em pecado.
*

E mesmo que escrevas ao tal cozinheiro

os teus belos versos num estilo certeiro

não vai ser a ele que entregas teu fado.
*

Laurinda Rodrigues
***

9.
*
" Não vai ser a ele que entregas teu fado"

E eu logo respondo que tudo o que entrego

É esta amizade que sinto e não nego

Por negar saber o que é o tal... "pecado"
*


E a menos que esteja muito perturbado

Ou surdo dos olhos, ou de ouvido cego,

A ti te o devolvo e em ti o delego;

Errou na morada, chegou atrasado!
*


Julgas que eu poeto para um cozinheiro

Só porque um soneto me nasceu matreiro

De uma frase ouvida? Devo-te dizer
*


Que estás enganada, nada disso eu quis,

Por pura ironia fiz o que aqui fiz;

Escrevo até pra cactos, se tal me aprouver...
*


Mª João Brito de Sousa

27.02.2022- 23.13h

*

10.
*

"Escrevo até para cactos, se tal me aprouver!"

Mas toma cuidado porque catos picam

e sendo, como és, a Grande Mulher

não gosto de ver que dores te salpicam.
*


Assim, é melhor os versos escrever

ao tal cozinheiro (que os petiscos bicam!)

e esperar que ele os venha comer

com sal e pimenta, que tão belos ficam!
*


Mas fico espantada que sejas capaz

de compor sonetos que nos tragam paz

depois de teres sido vítima da gula...
*

Presumo que a Musa já dorme contigo

debaixo da cama, sentada ao postigo,

enquanto teus versos sua boca oscula.
*

Laurinda Rodrigues
***
11.
*

"Enquanto teus versos sua boca oscula"

Ou beija os tais cactos que nunca a picaram;

Ambos têm espinhos que picam, mas saram,

Que a mãe natureza tudo isso regula
*


Enquanto o planeta circula e circula,

Meus olhos há horas que se descerraram

E o Sol já vai alto nos céus que azularam

Sem seguirem ordens, nem lerem a bula
*


Na paz dos meus versos dormi, com efeito;

Vestido o pijama fiquei a preceito

Pra mais uma noite de sono profundo
*


Não fosse o alarme tocar tantas vezes,

Teria dormido talvez uns bons meses

Alheia às desgraças que grassam no mundo...
*


Mª João Brito de Sousa

28.02.2022 - 10.20h

***

12.
*

"Alheia às desgraças que grassam no mundo"

mas nunca indiferente no fundo do Ser

que só a aparência de um medo profundo

rasgou as entranhas p'ra nunca morrer.
*


Se tocam os sinos p'la paz neste mundo

que estranha soada vai acontecer?

Talvez seja o grito desse ódio imundo

perdido no espaço... Iremos viver?
*


Entre cozinhados, com Chefes ou não

Poetas temperados com sonho a carvão

chegamos à meta, quase esmorecidas...
*


Tu cantas vitória e eu não canto, não!

porque esta memória cravou-me no chão

das várias memórias já acontecidas.
*


Laurinda Rodrigues
***

13.
*

" Das várias memórias já acontecidas"

Quem te diz que eu rio e que canto vitória,

Se nunca me esqueço das chagas que a História

Nos mostra - se a lermos - que são cometidas?
*


Minha Luta é outra! Estas, fratricidas,

Funestas, horrendas, trazem-me à memória

Prenúncios de morte; nem honra, nem glória,

Que essas são "fachadas", que essas são fingidas!
*


Deixo os cozinhados de requinte extremo

E evoco o Nautilus do Capitão Nemo

Transmutado, agora, num` arma nuclear...
*


Perco o apetite só de imaginá-lo!

Não cozo as batas, nem grelho o robalo,

Tenho é de esforçar-me pra não vomitar!
*


Mª João Brito de Sousa

28.02.2022 - 11.55h
***
14.
*

"Tenho é de esforçar-me para não vomitar"

quando olho e ouço notícias atrozes

onde o inconsciente está a governar

fazendo verter impulsos ferozes.
*


Já não acredito que apenas são vozes

a espalhar o medo sem o praticar...

Começamos bem com Chefes e nozes

que isto de comer prefiro a matar.
*


Afinal sabias que a poesia serve

para divertir, mas que também ferve

p´ra temperar a vida como fosse molho...
*


E armadas em Chefe, jaleca despida,

perguntas se um dia já fui corrompida:

"Sim, já usei palas, uma em cada olho."
*

Laurinda Rodrigues
***

 

 

 

 

 

 

 

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