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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
10
Jan24

ADAGIO PARA VELHOS SONETISTAS (e não só)- Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes

Maria João Brito de Sousa

orquestra.png

 

ADAGIO

Para Velhos Sonetistas
e
Não Só
*

Coroa de Sonetos
*

Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes
*
1.
*
Caminhamos curvados pelas ruas

Geladas e brilhantes como espelhos,

Nós desgastados, nós que estamos velhos,

Nós cujos ossos ferem como puas...
*


Cá vamos nós, trocando sóis e luas

Por veias que azularam nos artelhos

E se multiplicaram quais coelhos

Multiplicam no solo as tocas suas...
*


Tentamos proteger-nos do contágio,

Que este Janus* vai estando rigoroso

E nós chegámos ao mais alto estágio
*


Do Inverno da Vida, o mais penoso,

Que apenas nos concede um lento "Adagio"

Em vez de um "Presto" firme e vigoroso.
*

 

Mª João Brito de Sousa

08.01.2024 - 16.47h
***

2.
*
“ Em vez dum “Presto” firme e vigoroso"

Que trouxe a juventude ao começar

Que agora vai embora sobre o mar,

Deus do ocaso, um velho langoroso
*


No começo o jardim era formoso

Com papoilas e rosas ao luar

Sol nascente e cantigas pelo ar

Agora um astro breu, velho e moroso
*


E vemos primaveras a florir

Jovens belas que passam mesmo ao lado

Com força no andar e no sorrir
*


E num banco um idoso ali sentado

Sem réstias de sonho no porvir

Como sol a deixar o povoado
*


Custódio Montes
9.1.2024
***

3.
*
"Como sol a deixar o povoado"

Nos vamos, nós também, desvanecendo,

As mãos sobre os joelhos que, mordendo,

Nos trazem mais memórias do passado
*


E enquanto os nossos dedos no teclado

Ainda produtivos vão escrevendo,

Ao som do lento Adagio iremos tendo

Um Inverno mais suave e animado
*


Nenhum de nós conhece a hora exacta,

Só sabemos que aos poucos se aproxima

Sem que possamos adiar-lhe a data
*


Mas antes que essa data nos suprima

Vamos mostrar ao frio que nos maltrata

O tanto que este Adagio nos sublima!
*


Mª João Brito de Sousa

09.01.2024 - 11.00h
***

4.
*
“O tanto que este adágio nos sublima”

E também nos ajuda a ter cuidado

Na minha terra o tempo está gelado

Fico em Braga que há neve lá em cima
*


E para que esse frio não me oprima

Fico na minha “toca” resguardado

Agasalho-me bem agasalhado

Torneio deste modo tão mau clima
*


A vida que fazia não se faz

Temos que ter cuidado, tem que ser

Sair, andar na borga satisfaz
*


Mas cria-me problemas a valer

Gostava de aventuras em rapaz

Mas agora a aventura é o bom viver
*
Custódio Montes
9.1.2024
***

5.
*
"Mas agora a aventura é o bom viver"

E bem melhor cantar as nossas vidas

Que vão longas mas nada aborrecidas,

Embora muitos não o queiram crer
*


E ao ver-nos assim, a envelhecer,

Nos julguem pela vida já vencidos...

Mas sorrimos ainda! Os tempos idos

Passaram por nós dois sempre a correr
*


Deixando pouco mais do que as memórias

Que docemente agora recordamos

Entre tristezas e pequenas glórias...
*

Somos a soma do que conquistamos:

Se houve derrotas, houve mais vitórias,

E haverá futuro, se o sonhamos!
*


Mª João Brito de Sousa

09.01.2024 - 12.15h
***

6.
*
“E haverá futuro, se o sonhamos!”

Vida é isso mesmo: é arquitectar

Visitar jardins para os vislumbrar

E não os vendo, nós imaginamos
*

Sempre em frente, parados não ficamos

Ser-se poeta é ir até ao mar

Mas se não se for, basta imaginar

Um mundo novo e belo que criamos
*


Se nos cai o cabelo e nascem papos

O que nós escrevemos tem valor

Merecemos louvor e somos guapos
*


Que tão criativos, nós temos valor

Não somos velhos, velhos são os trapos

Ser-se poeta é ter vida e amor
*

Custódio Montes
91.2024
***

7.
*

"Ser-se poeta é ter vida e amor"

Tocando até ao fim o suave Adagio

E se é inevitável o naufrágio,

Naufraguemos com arte e com fulgor
*


Que há sempre quem acabe bem pior

E venha a ser banido por sufrágio:

Alguém que trema a cada mau presságio

Em cada pedra encontra o Adamastor...
*


Não me assusta a velhice. O que me assusta

É não poder escrever, nem poetar,

E naufragar da forma mais injusta
*

Que um bom poeta possa imaginar...

É isso que me dói, que mais me custa:

Ser só vetusta não me irá calar!
*


Mª João Brito de Sousa

09.01.2024 - 15.35h
***

8.
*
“Ser só vetusta não me irá calar”

Que quem cala o que sabe é infiel

À sua natureza e ao seu papel

De dizer o que sente e de ensinar
*

Um mestre não fraqueja que parar

É pôr de lado a pena e o pincel

É não mostrar aos outros o cinzel

Com que se adorna a obra a poetar
*


O que interessa é ter o pensamento

E a mente em seu lugar e organizada

Que a obra se verá e o seu talento
*

Com enfeites e forma emalhetada

Que a arte quando existe é um portento

E a artista fica eterna e afamada
*

Custódio Montes
9.1.2024
***

9.
*

"E a artista fica eterna e afamada"

Mas não será a fama que a fascina,

E sim poder voltar a ser menina

Por um instante e por coisa de nada
*


Que às vezes basta um verso de uma quadra

Pra transportá-la, envolta em seda fina,

Aos tempos da criança cuja sina

A levaria a ir por esta estrada...
*


Mas voltemos de novo ao andamento

Do suave Adagio que nos guia os passos,

Suavíssimo e melódico, mas lento
*


A criar entre nós profundos laços,

Que toda a poesia é sentimento

E quase sempre acaba em dois abraços.
*

 

Mª João Brito de Sousa

09.01.2024 - 20.45h
***

10.
*
“E quase sempre acaba em dois abraços”

Que o poema é alegria e amizade

Estimula o carinho e a vontade

Para juntos criarem fortes laços
*


O poema preenche e ocupa espaços

Enfeita com fulgor, luz, claridade

Ornamenta os dizeres na cidade

E liga dois amores entre braços
*


O idoso imagina-se menino

As agruras transformam-se em poesia

E, com gáudio, encontra o seu destino
*

A tristeza é um mal que, por magia,

Nem sempre dura, ri, entoa um hino

E, como o adágio diz, vira alegria
*

Custódio Montes
10.1.2024
***

11.
*

"E, como o adágio diz, vira alegria"

Que estoutro Adagio tenta acompanhar,

Correndo, mas correndo devagar,

Mostrando o que lhe resta de energia...
*

Ao Presto não chegou, mas a harmonia

É tanta que parece suscitar

Um Allegro Vivace a culminar

A nossa inacabada sinfonia...
*


Seja o soneto o piano em que compomos

Este Adagio pra cordas. O violino

Virá depois contar tudo o que fomos
*


E ambos falarão sobre o destino...

Talvez nos caibam fadas, elfos, gnomos,

Ou mesmo o génio que coube a Aladino...
*


Mª João Brito de Sousa

10.01.2024 - 12.20h
***

12.
*
“Ou mesmo o génio que coube a Aladino…”

Na lâmpada e no estro musical

Em andamento era genial

Com toque em dó menor de violino
*


Suave, em andamento muito fino

Trinava o seu acorde em arraial

Dançava todo o mundo e o maioral

E também badalava ao alto o sino
*


Nessa intensa harmonia e fulgor

Ficava alegre o povo com a gesta

E dava à sinfonia mais valor
*


Ficava a gente idosa bem mais lesta

Havia muitos beijos, muito amor

E toda a aldeia andava sempre em festa
*

Custódio Montes
10.1.2024
***

13
*

"E toda a aldeia andava sempre em festa"

Sendo que nós não fomos excepção

E embora sem violino ou violão

Cantámos- e bem alto! - a nossa gesta
*


Alguns tocavam música mais lesta,

Houve até quem trouxesse acordeão:

Toda esta sinfonia era emoção

Porque este Adagio à comoção se presta
*


Soam agora as notas musicais

Das harpas melancólicas, chorosas,

Logo seguidas plo som dos metais
*


Que sopram notas tão melodiosas

Que nos fascinam e até os pardais,

Enfeitiçados, pousam sobre as rosas.
*

 

Mª João Brito de Sousa

10.01.2024 - 15.45h
***
14.
*
“Enfeitiçados, pousam sobre as rosas”

Que nós bem os ouvimos chilrear

Andamos nos jardins a passear

E vemos coisas lindas, valorosas
*


Que mesmo com passadas vagarosas

Com vista nós bem vemos ao olhar

Toda a beleza à volta a espelhar

Além de moças lindas e formosas
*


Idoso, mas ainda a espairecer

Avança, vai em frente, não construas

Altos muros ao nosso envelhecer
*


Verdade que se foram sóis e luas

Mas cantemos alegres sem dizer:

“Caminhamos curvados pelas ruas”
*


Custódio Montes
10.1.2024
***

 

 

 

 

25
Fev23

FILHO DAS TEMPESTADES - Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes

Maria João Brito de Sousa

filho das tempestades (1).jpg

FILHO DAS TEMPESTADES
*
Coroa de Sonetos
*

Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes
*

 

Andou perdido por remotas plagas

Sem bússola nem vela. Era a Paixão

Quem o mantinha à tona sobre as vagas

Do mar da sua imensa solidão
*


Cerrava as mãos. Fechadas como garras

As levava do leme ao coração

Quando da barca soltava as amarras

Aos primeiros sinais de um furacão
*


E assim se fazia à tempestade

Como à bonança os outros se faziam

Mal o vento amainava o seu furor
*


Pra si, porém, o vento é liberdade

E os raios são pendões que o desafiam

A vencê-los em espanto e garra e cor.
*

 


Mª João Brito de Sousa

21.02.2023 - 10.00h
*

2.
*
"A vencê-los em espanto e garra e cor"
E o vento bem soprava ao desafio
Mas ele como as mães tinha valor
E como seu filhote, força e brio
*

Por sobre as ondas viu-se o seu fulgor
Andava contra o vento em corrupio
Com força mais depressa que um vapor
Singrando sem ter medo ou arrepio
*

Elas, as tempestades, com orgulho
Paravam para verem o seu filho
Correr desde o Alentejo até ao mar
*

Saltavam sempre a dar-lhe o seu arrulho
Via-se nos seus olhos tanto brilho
Que, destras, o aplaudiam sem parar
*

Custódio Montes
22.2.2023
***

3.
*


"Que, destras, o aplaudiam sem parar"

Sorrindo com sorrisos maternais

Que até um furacão aprende a amar

E talvez este amasse até demais
*


Ou vendo o filho quase a soçobrar

Soprasse até deixá-lo junto ao cais...

O que sabemos nós do que é ser-se ar

E ter-se um filho vivo entre os mortais?
*

Quis este filho dos ventos em fúria

Domar o mar imenso e encapelado

Num simples lugre/escuna. Assim o fez,
*

E eu sei que não o fez por mera incúria:

Fê-lo como quem canta ou toca um fado,

Fê-lo por ser poeta e português!
*


Mª João Brito de Sousa

22.02.2023 - 17.40h
***
4.
*
"Fê-lo por ser poeta e português"
Cantando a terra e o mar com o desejo
De mostrar seu jardim, seu Alentejo
Na caravela ao leme uma outra vez
*

Singrou o mundo inteiro lés a lés
Saltando da estepe ao rio Tejo
Vogando sem cessar com o almejo
De brilhar na palavra como o fez
*

E venceu a tormenta. A tempestade
Orgulhou-se do filho e da paixão
Com que ele também dobrou o bojador
*

E rompeu pelo ar com tal vaidade
Que até lhe fez saltar o coração
Redobrando por ele o seu amor
*

Custódio Montes
23.2.2023
***

5.
*

"Redobrando por ele o seu amor"

Mais um vez se fez ao mar imenso

E não cabendo nele amor maior

Sentiu-se a flutuar, no ar suspenso
*


Ainda que sem asas de condor

Sentiu ser mais veloz que vento intenso:

- Ó vento, meu irmão de amor e dor,

Será que sou mais leve do que penso?
*


Olhou o mar que manso lhe sorria,

Depois o horizonte e finalmente

Olhou a sua barca ora vazia
*


Qual berço balouçando suavemente

E, de repente, só a barca via,

Só a barca existia realmente.
*

Mª João

23.02.2023- 17.30h
***

6.
*

"Só a barca existia realmente"
Mas ele mesmo assim continuou nela
Andando pelo mar e sempre em frente
Na barca a que chamou a barca bela
*

A tempestade olhou e de repente
Sentiu imenso orgulho e os olhos dela
Molhados se encontravam e, contente,
Acalmou e não houve mais procela
*

O filho navegava plo mar fora
Descrevendo a mãe, a tempestade,
Com encómios e vénia filial
*

Louvando-à por ser mãe tão protectora
Singrando a mostrar felicidade
Sempre assim, sem parar, até final
*

Custódio Montes
24.2.2023
***

7.
*

"Mesmo assim, sem parar, até final"

Se fez no grande mar tal calmaria

Que, do vento, não houve nem sinal

Enquanto a Tempestade assim dizia:
*


"Que bom foi ter-te tido, ó ideal

Filho da minha imensa fantasia,

E descobrir-te assim, vivo e real,

Bem mais real do que eu te sonharia!
*


Foi a barca o teu berço, filho meu,

Que docemente embalo até que a lua

Venha roubar à noite o negro véu
*


Com que te quer cobrir essa alma nua...

Mas se essa força é minha, o verbo é teu,

E teu é cada sonho que eu construa! "
*


Mª João Brito de Sousa

24.02. 2023 - 11.00h
***

8.
*

"E teu é cada sonho que eu construa"
Com calma ou com força destemida
Porque sondas o sol sondas a lua
E a tua barca vai de proa erguida
*

E tens uma mestria que é só tua
Com poesia bela e escolhida
Espalhada ao sol vista na rua
E que engrandece tanto a tua vida
*

Meu filho, és o máximo, eu quero
Levar-te nos meus braços sobre o mar
E abraçar-te mais e sempre mais
*

Na calmaria vem porque te espero
Para seres só meu e te beijar
E livrar-te dos fortes vendavais
*

Custódio Montes
24.2.2023
***

9.
*

"E livrar-te dos fortes vendavais"

Se os fortes vendavais te apoquentarem

Porém sendo esses ventos os teus pais

Pedir-lhes-ei tão só pra se afastarem
*


Até que a tua barca aporte ao cais

E os teus humanos pés o chão pisarem...

Isto te dou, que não sei dar-te mais

E tão só se esses ventos concordarem...
*


Tempestuosa sou por natureza

E tu, aventureiro e sonhador,

Trazes nos olhos teus a chama acesa
*


De quem é santo sendo pecador,

Tomo, por isso, em mãos tua defesa

Pra te livrar de um mal muito maior...
*


Mª João Brito de Sousa

24.02.2023 - 16.00h
***

10.
*
"Pra te livrar dum mal muito maior"
Vou descansar enquanto tu versejas
Para ser o poema bem melhor
Ficando encantador como desejas
*

Não fales em ciúmes ou invejas
Anda em voos altos à condor
Alarga as tuas asas pra que sejas
Um mestre em poesia, um senhor
*

Porque te quero ao pé….sou tua mãe…
Vou amainar o vento sobre o mar
Podes andar na barca aqui e além
*

Sem haver tempestade a incomodar
Escreverás poemas mais que cem
Que te eternizarão a relembrar
*

Custódio Montes
24.2.2023
***

11.
*

"Que te eternizarão a relembrar"...

E, no entanto, muito poucos são

Os que me quererão acompanhar

Montando um raio em vez de um alazão
*


Como se um demiurgo a atravessar

O mar imenso ao som de um só trovão...

Vem, tempestade, e deixa-te abraçar

Ou pelo menos dá-me a tua mão
*


Vem, deixa que te leve aonde eu queira

E ainda que depois nos separemos

Quero-te aqui e agora à minha beira
*


Não viste ainda que tudo o que temos

É esta fantasia derradeira

E, no mundo real, um bote a remos?
*


Mª João Brito de Sousa

24.02.2023 - 17.45h
***

12.
*

"E no mundo real um bote a remos"
Anda com lentidão e devagar
Com ele nunca mais o mar vencemos
E ocupamos as mãos só a remar
*

No bote tão só água é o que nós vemos
E o poeta quer mais quer ver, voar
Ver céus, ver luzes, deuses e até demos
Para um belo poema enramalhar
*

Por isso, tempestade, deixa o filho
Dá-lhe asas, dá-lhe um barco com motor
Para que possa andar sem empecilho
*

Circundar todo o mar ao seu redor
Para maior encanto e maior brilho
Enfeitando o poema com primor
*

Custódio Montes
24.2.2023
***

 

 13.
*
"Enfeitando o poema com primor"
No mundo destas nossas fantasias
Porquanto no real há pouca cor
E muita guerra e fome e avarias...
*
 
Não quer nem nunca quis barco a motor:
Se do nada lhe nascem poesias
E se nasceu poeta e sonhador
Escolherá sempre as rotas mais vadias
*
 
Este filho da grande tempestade,
Como ela imprevisível e severo
E crítico mordaz da realidade,
*
 
Tendo a fraternidade por tempero
E amando até à morte a liberdade,
Ri-se até do seu próprio desespero.
*
 
Mª João Brito de Sousa
24.02.2023 - 20.30h
***
 

14.
*

"Ri-se até do seu próprio desespero"
Ao ver virada a barca sobre o mar
E a mãe dizer-lhe ao longe: filho eu quero
Ficar ao pé de ti e ajudar
*

Mas ele disse-lhe não em tom severo
A minha rota sigo-a sem parar
Vencer as altas vagas eu espero
Tal como um campeão sempre a ganhar
*

O poeta lá foi e sem demora
Andou com todo o brio sobre as vagas
Já não se vendo ao longe ao ir-se embora
*

Enfrentou inimigos com adagas
Destemido seguiu pelo mar fora
“Andou perdido por remotas plagas”
*

Custódio Montes
25.2.2023
***

24
Mai22

NUNCA (DES)ENCANTES UM SAPO! - Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes

Maria João Brito de Sousa

 

Batráquio Filosófico.jpg

NUNCA DESENCANTES UM SAPO!
*

Coroa de Sonetos
*

Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes
*


1.
*
Quebra-se a magia do beijo assombrado

Que magicamente fez, do sapo, humano...

Quanta angústia emerge, quanto desengano

Pra quem fora um simples sapo descuidado!
*

 

Vá lá! Nunca beijes um sapo encantado!

Lembra-te que podes causar-lhe tal dano

Que o pobre batráquio, de bichito ufano,

Passe a ser humano. Coitado, coitado!
*

 

Pobre desse sapo que estando inocente

De culpa, de intriga, de ódio e de traição,

Se torna consciente das falhas que tem
*

 

Quando, por um beijo, se transforma em gente

E perde inocência. Que desilusão...

Tu, quando o beijaste, sabia-lo bem!
*

 

Maria João Brito de Sousa

19.06.2008 - 08.53h

***

2.
*

“Tu, quando o beijaste, sabia-lo bem”

Enganaste o sapo, fizeste-lo gente

Perdeu a candura, não é inocente

Maldizem o beijo que ao sapo convém
*


O encanto quebrou-se e agora ninguém

O olha assapado na água envolvente

O beijo espalhado na coxa carente

Passa por humano e o sapo também
*


Que se vá o encanto que fique a pureza

Do coaxar belo no meio do lago

Que mesmo sem beijo a gente agradece
*


No meio do campo vendo a natureza

Sente-se alegria, alegria e afago

E o coaxar do sapo entoa em prece
*

Custodio Montes

23.5.2022
*


3.
*

"E o coaxar do sapo entoa em prece"

Na toada exacta que à espécie convém

E em versos que um sapo conhece tão bem,

Quanto aos nossos versos sequer reconhece...
*


Batráquio que o seja, não fia, não tece,

Nem sabe de beijos que lhe of`reça alguém

E encontra fartura no pouco que tem,

Porque de mais nada precisa ou carece...
*


No seu charcozinho ou na sua lagoa,

Há sempre um coaxo que vibra e ressoa:

O seu hino à Vida é mais belo que o nosso
*


E mais espontâneo e mais verdadeiro...

É mestre, o batráquio, no canto certeiro

E eu falho, por vezes. Só canto o que posso...
*

 

Mª João Brito de Sousa

23.05.2022 - 14.10h
***

4.
*

“E eu falho, por vezes. Só canto o que posso…”

Mas canto que cante é sempre engraçado

O sapo não canta tão emalhetado

Embora o que cante seja sem esforço
*


O sapo no canto canta fino e grosso

E é um encanto ouvi-lo espaçado

À beira do charco quieto sentado

Com as mãos no queixo sem grande alvoroço
*


Também no poema se ouve a canção

Que nos prende a alma e o coração

Descrevendo o lago e o sapo a cantar
*


E por essa forma o coaxar e o canto

Só dão alegria nunca desencanto

Não beijo assombrado se o quiser beijar
*

Custódio Montes

23.5.2022
***

5.
*

"Não beijo assombrado se o quiser beijar"...

Beijá-lo não quero que o assustaria

E o seu belo canto não mais se ouviria

Nem nesse seu lago, nem noutro lugar
*


Que sapo assustado deixa de cantar,

Quase não respira, cala a melodia

E por predadora logo tomaria

Qualquer princesinha que o fosse agarrar...
*


Canta, sapo, canta! Fica descansado,

Quero-te batráquio não (des)encantado,

Que de realezas estou há muito farta
*


E se teço c`roas, são de outro jaez,

Nunca as teceria pra nenhum "princês"

E esta minha Musa também mo descarta.
*

 

Mª João Brito de Sousa

23.05.2022 - 16.25h
***
6.
*

“E esta minha musa também mo descarta”

Que a musa é fina não é nenhum sapo

Disso ela foge e também eu me escapo

Que de aventuras a musa está farta
*


O sapo medonho que raios o parta

A não ser que cante com graça e guapo

E não todo imundo sujo como um trapo

Com voz de primeira e não voz de quarta
*


Mas vamos por partes e sem ofender

Não beijar o sapo fui eu a dizer?

A coroa o disse e sem desengano
*


Logo à primeira, mesmo a começar

Prosseguiu a musa e a deambular

Disse: não se faça do sapo um humano
*

Custódio Montes

23.5.2022
***

7.
*

"Disse: não se faça do sapo um humano"

Que são, os humanos, muito complicados

Enquanto os sapinhos vivem sem cuidados

E cuidam das hortas sem causar-nos dano...
*

 

Um seu conterrâneo foi um soberano

A falar de sapos, esses mal amados,

Por quem desconhece que os pobres coitados

Nos são muito úteis quando, ano após ano,
*


Nos livram de insectos e salvam das pragas

Que assolam as folhas e destroem bagas...

Bambo*, o sapo velho, quem pode esquecê-lo
*


Se morto em serviço, firme no seu posto,

Só porque não tinha beleza no rosto,

Só porque não era cativante e belo?
*


Mª João Brito de Sousa

23.05.2022 - 20.15h
***

Vide "Bambo" in "Bichos", Miguel Torga

***
8.
*

“Só porque não era cativante e belo”

Mas sempre a saltar na horta e no canteiro

A comer as larvas limpar o terreiro

Por isso, agrada e é muito bom tê-lo
*


O sapo é útil não é um flagelo

Se feio parece ele é um bom parceiro

Comendo os insectos, limpando o lameiro

Ajuda no campo, dos braços é elo
*


Um “bambo” é verdade mas não é de borga

Descrito em Bichos pelo Miguel Torga

Como nos informa com sua mestria
*


Louvemos o sapo, não lhe quero mal

Sem lhe darmos beijos a esse animal

Nem o endeusarmos com a poesia
*

Custódio Montes

23.5.2022
***
9.
*

"Nem o endeusarmos com a poesia"...

Torga humanizou-o na prosa, contudo,

E fez dele um mestre que, apesar de mudo,

Falava de amor e de Filosofia
*


Como quem faz jus à tal sabedoria

Que da Vida entende um pouquinho de tudo...

Ah, se ao velho Bambo nesta estrofe aludo,

Aludo à amizade e, quem sabe?, à magia
*


Mais bela, decerto, do que a do tal beijo

Que deu a princesa ao sapito do brejo

Julgando que o dito era um rei, nunca um sapo...
*


Tem tino, princesa! Não vês que o encanto

Do nobre batráquio dispensa o teu manto

Que é, pra ele, um pobre e cerzido farrapo?
*

 

Mª João Brito de Sousa

23.05.2022 - 23.00h
***

10
*

“Que é, pra ele, um pobre e cerzido farrapo?”

Isso porque o Bambo é inteligente

Mas mais nenhum sapo é assim cojente

Para distinguir a tal manta de trapo
*


Queria a princesa pensar que o sapo

Era antes Bambo tão nobre e valente

Que, na realeza, parecesse gente

Errou, enganou-se, tirou-lhe um fiapo
*


Nem nós no poema temos gosto insano

De fazer do sapo um príncipe humano

Para a tal princesa o poder beijar
*


Confundiu decerto e ficou em apuro

Por ter confundido o sapo anuro

Com príncipe amado para namorar
*


Custódio Montes

24.5.2022
***

11.
*

"Com príncipe amado para namorar"

Confunde a princesa o tal sapo anuro...

Posso ser insana, mas aqui lhe juro

Que ao sapo prefiro de longe admirar
*


A pensar num homem para me casar:

A um, sim, amei-o, mas mais não aturo,

E se, no passado, previsse o futuro,

Talvez preferisse nem me apaixonar...
*


Bem sei que, consigo, tudo foi dif`rente,

Que esse amor perdura e que vive contente

Com sua princesa num reino encantado,
*


Enquanto eu afirmo que amo a solidão,

Que escrevo o que escrevo nessa condição

E não troco um brejo por trono ou condado!
*

 

Mª João Brito de Sousa

24.05.2022 - 10.15h
***

12.
*

“E não troco um brejo por trono ou condado”

Nem quero princesas tão namoradeiras

Que gozem o sapo só com brincadeiras

Mesmo que o beijem como encantado
*


Mas falar de amor agora é escusado

Para mais falarmos de tantas asneiras

Que a nossa princesa de várias maneiras

Fez passar ao sapo como namorado
*


Se andasse ocupada não tinha desejo

De ao sapo encantado querer dar um beijo

E não nos daria tanta ocupação
*


Mas sem ter trabalho, farta, à boa vida

Quis-se imaginar como sendo a querida

Dum sapo encantado e do seu coração
*

Custódio Montes

24.5.2022
***

13.
*

"Dum sapo encantado e do seu coração"

Tenta uma princesa ser dona e senhora...

Não sabe, a tontinha, que os sapos de agora

São poucos, passaram a espécie em extinção
*


E exigem, portanto, maior protecção...

Cuidado, princesa, que a fauna e a flora

Devem preservar-se bem mais do que outrora

Em nome de um mundo mais limpo e mais são!
*


Esses teus caprichos de dama mimada

São sonhos traídos, não servem pra nada!

(embora eu confesse que os utilizei
*


na C`roa de versos que aqui vou tecendo...)

Princesa, princesa! Tu estás-te é esquecendo:

Tão livre é o Sapo quão nu vai el Rei!
*


Mª João Brito de Sousa

24.05.2022 - 16.15h

***


14.
*

“Tão livre é o sapo quão nu vai el Rei!!”

Por isso, Princesa, vê lá se te apoucas

Nessas preferências, que queres tão loucas

Deixa lá o sapo que eu investiguei
*


Que ter tais amores, isso também sei,

Já não é namoro: princesas são poucas

Vestem como as outras e não usam toucas

Não andam em charcos tão fora de lei
*


E já nem o “Bambo” vai nessas cantigas

Que tem bambo fêmea não quer raparigas

Nem por elas fica tão apaixonado
*


Tece, pois, princesa um novo novelo

Que o sapo rejeita, não quer teu anelo

“Quebra-se a magia do beijo assombrado”
*

Custódio Montes

24.5.2022
***

 

10
Mai22

POETA & JURISTA - Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes

Maria João Brito de Sousa

Custódio Montes.jpeg

 


POETA & JURISTA
*

Coroa de Sonetos
*

Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes
*


1.
*
Poeta sou. Jurista nunca fui,

Que para tal não tive formação

E nunca exp`rimentei tal vocação,

Aquela que se sente e que se intui
*


Do que digo depressa se conclui

Que sou poeta por pura paixão

E que nunca me falta a convicção

No verso que, fluído, em mim conflui...
*

Não sei se comporei uma obra-prima

(que importa se com rima, se sem rima?),

Mas sei que sempre dei o meu melhor
*


Desde que comecei, quando menina:

Ser-se poeta talvez seja sina

Que não se ensina, tal como o Amor...
*

 

Mª João Brito de Sousa

06.05.2022 - 12.15h

***
2.
*


“Que não se ensina, tal como o amor”

Mas tendo professor em pequenino

A poesia nasce no menino

Tal como num canteiro nasce a flor
*


E o meu ensinamento foi na dor

Tive na natureza o meu ensino

E na terra lavrei o meu destino

Ao sol à chuva ao frio e ao calor
*


Andei nos tribunais e muito estudei

Depois de me ensinarem, ensinei

E agora descobri uma magia
*


E ando a estudar com quem nasceu

No meio do poema e lá cresceu

A ver se apanho o tom da poesia
*


Custódio Montes

6.5.2022
***

3.
*

"A ver se apanho o tom da poesia",

Ou se por esse tom sou apanhada

Que assim se vai rasgando imensa a estrada

Ao som da mais perfeita melodia
*


E não se pressupõe maior mestria

Que a da sonoridade (in)conquistada

Pela palavra/ideia devotada

Em ir ganhando o pão de cada dia...
*


Jurista/poeta ou pensionista pobre,

Tiraremos do pouco que nos sobre,

O muito que esta estrada vai pedindo:
*


Nenhum de nós conhece onde termina

A estrada onde se aprende, onde se ensina

E à qual garanto que é muito bem-vindo
*


Mª João Brito de Sousa

07.05.2022 - 12.05H

***

4.
*

“E à qual garanto que é muito bem-vindo”

A ver a natureza a espraiar

O sol o vento a aurora e o luar

E o dia ao horizonte, a pôr-se, lindo !!
*


Ver os cravos e rosas colorindo

E as ondas sobre a areia a enrolar

As gaivotas voando sobre o mar

E abraços entre braços e sorrindo
*


A rusga corre bem e bem disposta

Que a aula foi alegre e proveitosa

E o ponto ajudou-me ali à mão
*


E a forma como fala a professora

No ensino é bastante promissora:

Professora, obrigado p’la lição
*

Custódio Montes

07.05.2022
***

5.
*

"Professora, obrigado pl`a lição"

E esta "professora", que o não é,

Sorri, bebe outro gole de café

E mais aspira agora à perfeição...
*


Surge um verso que leva pela mão

A passear um pouco. E vão a pé...

Nunca se sabe aonde, nem se até

Um dia ao fim do mundo chegarão...
*


Há, no passeio, olaias florescendo

E as árvores-de-fogo vão crescendo

Tal qual como esse verso se acrescenta
*


Ao fim do mundo, talvez nunca cheguem,

Mas é provável que, entretanto, o neguem:

Não há fronteiras para o que se inventa!
*


Mª João Brito de Sousa

07.05.2022 - 17.35h

***

6.
*

“Não há fronteiras para o que se inventa!”

Pois é da invenção que vem progresso

E cada pormenor dá-nos acesso

A tudo o que se ganha e que se vença
*


O nosso ego nisso até nem pensa

Só vê no fim de todo esse processo

A enorme grandeza e o sucesso

E com orgulho sente a recompensa
*


Mas todo esse processo é muito agreste

O que vale é o estudo e é o mestre

Até chegar a gente a esse fim
*


E eu sei bastante bem disso que falo

Que a ver e a comparar é um regalo

De ter mestre tão boa para mim
*

Custódio Montes

7.5.2022
***

7.
*

"De ter mestre tão boa para mim"...

E para mim também mestre tem sido

Já que num "pas de deux" descontraído

Vamos plantando versos no jardim
*


Até surgirem luas de marfim

Sobre o poema quase adormecido:

Deixa a mestria de fazer sentido

Se a Musa cabeceia e dorme enfim...
*


Dormem também poetas e juristas

E são seus sonhos tão surrealistas

Quanto os sonhos dos homens podem ser:
*


Amanhã de manhã, quando acordarem,

Esperá-los-ão mais versos pra juntarem

À c`roa que hoje deixam por tecer...
*

 

Mª João Brito de Sousa

07.05.2022 - 23.59h
***

8.
*

“À c’roa que hoje deixam de tecer”

E que depois vai ter continuação

Virá do sonho a veia, a inspiração

E a teia fica como deve ser
*


Mas hoje só agora estou a ver

Aquilo que os versos lhe dirão

Andei na minha aldeia de aldeão

Cheguei agora, estou a escrever
*


Nasci como bem sabe na aldeia

E vou lá sempre, tenho-a na ideia

E sempre que lá vou ficou feliz
*


Misturo a natureza com a alma

Ao ver estas paisagens dá-me calma

E volta a lavrador quem foi juiz
*

Custódio Montes

6.5.2022
*

9.
*

"E volta a lavrador quem foi juiz"

Tal qual volta a poeta a ser pintora

De imaginários, que não pinta agora,

Nem sobre lousa usando um pau de giz...
*


Sobra a lembrança do que em tempos fiz

E que a minh` alma ainda comemora

Como se (re)criasse aquele outrora

Em que a figura humana era a matriz
*


Mas nem sequer rabisco como dantes

Que a rabiscar uns traços hesitantes,

Prefiro não riscar coisa nenhuma
*


E os versos também são figurativos:

Muitas vezes os toco, os sinto vivos,

Apesar de mais leves que uma pluma...
*


Mª João Brito de Sousa

08.05.2022 - 20.35h
***
10.
*

“Apesar de mais leves que uma pluma”

Pintam os dias de hoje e de amanhã

Descrevem o passado com afã

E lembram-nos memórias uma a uma
*


Os versos vão nas ondas sobre espuma

Navegam e combatem à titã

Falam do dia à noite e de manhã

Escondem-nos a dor por entre a bruma
*


No verso vai o nosso encantamento

A tristeza esvazia-a num momento

O verso anda em nós o dia inteiro
*


Falamos com o verso dia a dia

Diálogos tão cheios de alegria

Como com um irmão ou companheiro
*


Custódio Montes

8.5.2022
***

11.
*

"Como com um irmão ou companheiro"

Que em simultâneo é sempre nosso filho,

Nasce a canção, ressoa o seu estribilho

E somos uma orquestra a tempo inteiro!
*


O soneto é, por vezes, marinheiro,

Noutras segue o seu rumo de andarilho,

Mas nunca usou algemas nem espartilho,

Nem dele o verso fica prisioneiro...
*


Talvez seja jurista e lavrador,

Mas pinta tal e qual pinta o pintor

E tece e fia como o tecelão
*


Ou como o bom oleiro amassa o barro,

Vai à fonte, descalço, encher o jarro

E volta a casa pra cozer o pão...
*

 

Mª João Brito de Sousa

08.05.2022 - 22.45h
***

12.
*

“E volta a casa pra cozer o pão”

Soneto, companheiro, anda, anda

Que vais comigo sempre a toda a banda

Soneto, companheiro, meu irmão
*


Sou mais velho que os anos já lá vão

Mas agora o meu estro é que ciranda

Contigo debruçado à varanda

Ou em contos velhinhos ao serão
*


Ser poeta é ter gosto e ter amor

Enfeitar o soneto a rigor

Olhar o mundo e ter a quem amar
*


Platónico a adorar a madrugada

Inventar uma linda namorada

Uma aqui outra ali sempre a sonhar
*

Custódio Montes

9.5.2022
***

13.
*

"Uma aqui outra ali sempre a sonhar"

Andam as musas a chamar por nós

E mesmo quando sós não estamos sós,

Que não param, as musas, de chamar
*


Corre, então, o Jurista a formar par

Com a Poeta de mui fraca voz

Que já perdeu as asas de albatroz

E não mais se lembrou de as procurar...
*


Namorados não quero, nem procuro,

Porque um só amor tive e aqui lhe juro:

Saudades não guardei da experiência
*


A amizade é dif`rente e muito a prezo,

Mas queimar-me num fogo ainda aceso,

Só se eu cair nas garras da demência...
*

 

Mª João Brito de Sousa

09.05.2022 - 10.50h
***


14.
*

“Só se eu cair nas garras da demência”

Agora que falamos com verdade

Namoros já se foram noutra idade

Falar neles agora é aparência
*


O que o verso diz é uma evidência

E dizê-lo assim isso não nos há-de

Levar a ter de novo essa vontade

De ver à nossa volta essa envolvência
*


Se na coroa vem ter-se um amor

É porque o poeta é um fingidor

Quem os versos ler, isso mesmo flui
*


Também vos enganei com artimanha

E meti na coroa esta patranha:

“Sou poeta. Jurista nunca fui.”


Custódio Montes

9.5.2022
***

poeta e jurista

 

 

 

 

 

 

 

04
Mai22

ILHA DESERTA - Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes

Maria João Brito de Sousa

ILHA DESERTA
*

Coroa de Sonetos
*

Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes
*

1.
*

Muito cedo perdi uma safena

E, lentamente, a outra foi morrendo,

Mas nunca me rendi que, pena a pena,

Todas as minhas penas fui vencendo...
*


Tinha cabelos negros, pele morena

E centelhas nos olhos que ao loendro

Venciam em candura... ou à açucena

E até às rosas que não fui (es)colhendo...
*

 

Tenho, hoje, o corpo inteiro em derrocada,

Sou uma ilhota velha e desolada

Que atentamente assiste ao próprio fim
*


E, retardando o último suspiro,

Vou rindo do destroço em que me miro

Até que o Tempo(ral) me vença a mim!
*

 

Mª João Brito de Sousa

01.05.2022 - 15.10h
***
2.
*


“Até que o tempo(ral) me vença a mim”

E leve as minhas penas de enxurrada

Não deixarei de ver a alvorada

Iluminar as flores do jardim
*


O corpo destroçado, já ruim

Se ainda permitir que à minha amada

Eu possa usar a veia libertada

Cantar-lhe-ei o amor até ao fim
*


Que a alma jamais morre, permanece

Enquanto o corpo vai e ensandece

Cantando e emoldurando sempre um tema
*


A dor ela persiste dolorosa

Enquanto a alma a vê como uma rosa

E o sofrimento vai-se no poema
*

Custódio Montes

2.5.2022
***

3.
*

"E o sofrimento vai-se no poema"

À luz dos raios, ao som dos trovões,

Ou nos cones dos grandes furacões

Que às vezes fazem com que a ilha trema
*


E que se não contenha e chore e gema

Como todas as ilhas com vulcões

Que não temem as grandes erupções

Mas gemem quando irrompe a dor suprema...
*


E por mais algum tempo a ilha fica,

Primeiro desolada e depois rica

Porque não pára a Vida de irromper
*


E espanta-se a si mesma pois pensava

Que iria sucumbir ao fogo, à lava,

E às cinzas que julgou jamais vencer...
*

 

Mª João Brito de Sousa

02.05.2022 - 12.00h
***

4.
*

“E às cinzas que julgou jamais vencer…”

Mas vence que a vitória já se almeja

Em tudo o que se quer e se deseja

No âmbito do ser e do querer
*


E nunca se desiste de fazer

O que se quer e ao longe a gente almeja

Como em cima do bolo uma cereja

Que nos alegra a vista e dá prazer
*


Em frente, sempre em frente, sem cansaço

Com um ramo de flores no regaço

E seguindo o poema o seu caminho
*

Andemos sempre alegres que a alegria

Enfeita-se com sonho e poesia

Envolta num enredo de carinho
*

Custódio Montes

2.5.2022
***

5.
*

"Envolta num enredo de carinho"

Renasce a vida, tímida primeiro,

Nas inseguras margens de um ribeiro

Que depressa retoma o seu caminho
*


E, gota a gota, bem devagarinho,

Retornou ao seu rumo aventureiro...

Além, despontam fungos num carreiro

Que aparta a cinza e se transforma em ninho
*

 

Um dia a Ilha afundará de vez,

Talvez não dure a festa mais que um mês

Mas, dure o que durar, enquanto viva
*


Irá repondo a vida que a habitava:

A esta Ilha, só a Morte a trava,

Mas nem a Morte a levará passiva!
*

 

Mª João Brito de Sousa

02.05.2022 - 13.45h
***

6.
*

“Mas nem a morte a levará passiva”

Que a morte não apaga o meu passado

Pois fica indelével e marcado

Na musa que me assiste criativa
*


E ao lermos um poema que cativa

O tempo lembrará enamorado

O percurso que fica relembrado

E a morte deixará a vida viva
*


A criação renova no versejo

O tempo dum amor, de dar um beijo

E volta-se de novo ao velho cais
*


Renova-se o caminho e volta a vida

Ao relembrar na forma criativa

Esse halo que não morre nunca mais
*

Custódio Montes

2.5.2022
***

7.
*

"Esse halo que não morre nunca mais"

Neste universo de efemeridades,

Dá-me o afecto e esconde-me as verdades

Que as vidas, todas elas, são mortais
*


Decompõem-se e mudam mas jamais

Retornam a anteriores (id)entidades...

Meu amigo, esse halor de eternidades,

Pouco mais durará que órgãos carnais...
*


Somos, porém, humanos, criativos,

Sonhamos ser eternos, ficar vivos...

Se não nós próprios, fiquem nossos versos!
*

 

Um dia assim pensei, assim escrevi...

Hoje entendendo a quanto me atrevi,

Sinto que cedo morrem nos seus berços.
*

 

Mª João Brito de Sousa

02.05.2022 - 16.10h
***
8.
*

“Sinto que cedo morrem nos seus berços”

Mas eu assim não creio, minha amiga

Que gosto do poema na cantiga

E o canto traz-nos sonhos bem diversos
*


E às vezes a chorar, nossos amplexos

Fazem-nos esquecer uma intriga

Voltamos a rapaz ou rapariga

Voamos nesses belos universos
*


E lá do alto logo se desperta

E não vemos a ilha tão deserta

Ao lembrar o amor a despertar
*

 

E vai-se embora o nosso pessimismo

Voltando a ter a força, o dinamismo

Sem esse derrotismo a dominar
*


Custódio Montes

2.5.2022
***

9.
*

"Sem esse derrotismo a dominar"

Falaria, talvez, desta amizade,

Mas nunca do conceito "eternidade"

Porque nada se pode eternizar...
*


Quando na Ilha me quiser espelhar,

Serei muito mais velha, na verdade,

E talvez diga que não tenho idade

Ou que o tempo não chega prá contar ...
*


Talento ou muito amor: o que eterniza

Algo que a nossa mente idealiza,

Se a mesma eternidade é algo abstracto?
*

 

Sim, estou feliz por dar-lhe um novo abraço,

Mas é pouco, tão pouco, o que aqui faço

E o Tempo é quase sempre um grande ingrato...
*


Mª João Brito de Sousa

02.05.2022 - 19.10h
***

10.
*

“E o tempo é quase sempre um grande ingrato”

Que não deixa estender o nosso olhar

Pela noite que vem sem se esperar

E sem fazer connosco qualquer trato
*

 

O tempo às vezes tem um aparato

Que induz a ilusão de não findar

Ficando por momentos a pensar

Que um segundo tem horas e é mais lato
*


O tempo dá ao tempo eternidade

Se num segundo houver felicidade

Para nas horas más o relembrar
*


Se em cada dia isso se fizer

Amaina a nossa dor e o sofrer

Acaba por na onda se afundar
*


Custódio Montes

2.5.2022
***

11.
*

"Acaba por na onda se afundar",

E até a Ilha, mais tarde ou mais cedo,

Se afundará no mar como um penedo

Muito pesado para flutuar...
*

 

Mas compreendo, sim, que é bom sonhar,

Guardar a ilusão, espantar o medo

E criar uns instantes de folguedo

Para que ambos possamos "sonetar"
*


E viva esse segundo inusitado,

Imóvel num momento inacabado,

Ilusório e, contudo, produtivo,
*


Viva o que abraça e viva o abraçado:

Que seja este outro abraço abençoado,

Que se cumpra no Tempo o verso vivo!
*

 

Mª João Brito de Sousa

02.05.2022 - 21.40h
***
12.
*

“Que se cumpra no tempo o verso vivo”

E isso é que bom, deixe-se a mágoa

E os penedos que afundam dentro d’água

Gozemos o momento divertido
*


Demos asas ao estro criativo

Que a alegria não fuja que eu trago-a

Quando faço consigo uma coroa

Porque me afasta a dor, é lenitivo
*


Continuemos, pois, vamos em frente

Que enquanto andar o ânimo contente

Afastamos a dor e a tristeza
*


E às vezes pode ser até que um verso

Nos traga o paraíso e um universo

Desenhado com graça e grandeza
*


Custódio Montes

2.5.2022
***

13.
*

"Desenhado com graça e grandeza"

E achando em cada verso o paraíso,

Caberá num segundo o que é preciso

Pra que se cumpra a nossa natureza:
*


Sente-se a Eternidade à nossa mesa

Pra partilhar o pão do nosso riso

E "vade retro" o Dia do Juízo

(outra mera abstracção, outra incerteza...)
*


Por um segundo... sejamos eternos!,

E pode ser que consigamos ver-nos

Como raios de luz rompendo o escuro
*


A tecer versos líquidos, fraternos,

Para apagar as chamas dos infernos

Na (im)previsib`lidade do Futuro...
*

 

Mª João Brito de Sousa

03.05.2022 - 10.55h
***

14.
*

“Na (im)previsib’lidade do futuro”

Que venha que me acabe o sofrimento

A vida que passei não a lamento

Saltei cada etapa muro a muro
*


Percurso que por vezes foi bem duro

Lutei contra moinhos sós ao vento

Mas também contra feras ao relento

Ainda me mantenho e perduro
*


Se a corda se aguenta a esticar

Ainda vivo a vida a poetar

Mas sem a minha força de pequena
*


Perdi os meus cabelos ondulados

Brancas praias, belos namorados,

“Muito cedo perdi uma safena”
*

Custódio Montes

3.5.2022
***

 

Fotografia de minha autoria

(do tempo em que eu tinha máquina fotográfica)

FERIDA - Fotografia minha MJBS.jpeg

15
Abr22

IDEIAS QUE EM CASCATA SE ENTRETECEM - Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes

Maria João Brito de Sousa

Cascatas.jpg

IDEIAS

QUE

EM CASCATA SE ENTRETECEM
*

Coroa de Sonetos
*
Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes

(verso inicial e final de Laurinda Rodrigues)


1.
*

"Tudo o que os outros sabem já de cor",

Também eu sei mas, sendo provocada,

Não posso senão dar o meu melhor

Para que fique a C`roa coroada
*


Custe o que custe e seja como for,

Ainda que da Musa despojada:

Tu terás muitos "eus" ao teu dispor

E eu, sem Musa, não sou quase nada...
*


Ainda assim, aceito o desafio

E do que de mim sobra, ao arrepio,

Arranco uns versos qu`inda permanecem
*


Embrionários, sim, mas quase prontos

Para enfrentarem todos os confrontos

De ideias que em cascata se entretecem.
*


Mª João Brito de Sousa

12.04.2022 - 16.20h
***

2.
*

“De ideias que em cascata se entretecem”

Em fios de ilusão que se acumulam

Enfeitam-se umas vezes ou se anulam

E noutras vão-se embora e se esquecem
*


Enrolam-se as ideias e envelhecem

Mas há outras que voltam e pululam

Agradam e por vezes nos adulam

E ao lembrá-las até nos envaidecem
*


Ideia puxa ideia e a inovação

Atrai o nosso gosto e atenção

E é tão bom uma ideia aparecer
*


E nascem paralelas ou em cruz

E dessa discussão provém a luz

Que parar, diz o povo, é morrer
*

Custodio Montes

13.4.2022
***

3.
*

"Que parar, diz o povo, é morrer"

Ou vegetar, o que vai dar ao mesmo,

Por isso vivo ainda e escrevo a esmo

Tudo o que a voz da Musa me disser,
*


Se a minha consciência aquiescer

Ao que diga nos versos que aqui resmo

- nisto não sofro nunca de tenesmo... -

Até ficar sem nada pra dizer...
*


Mas, sim, ideia sempre puxa ideia

E assim se torna imensa esta cadeia

De versos que entre si se vão chamando
*


Ou então serão jorros de água pura

Formando longos rios numa planura:

Cascatas se do alto vão tombando...
*


Mª João Brito de Sousa

13.04.2022 - 16.08h
***


4.
*

“Cascatas se do alto vão tombando”

E que lindas se mostram ao cair

Espumas empolgantes a sair

Batendo umas nas outras e saltando
*


Vi as de Nicarágua sempre olhando

A água que p’lo rio estava a vir

Só desviava o olhar para sentir

Aquela espuma branca flutuando
*


Veja bem como a ideia nos flutua

Como ondas que acompanham a falua

A nascer uma aqui e outra acolá
*


Andando uma e outra em companhia

Como esta que me trouxe a fantasia

De falar do distante Canadá!
*

Custódio Montes

13.4.2022
***
"De falar do distante Canadá"

Ou do belo Iguaçu trazer ao verso

Que sob as águas ficará submerso

Ou sobre elas, se ousar, flutuará
*


E agitam-se as ideias, cá ou lá,

Como se as águas fossem o seu berço

E o seu rumo este instante em que converso

Consigo que decerto me ouvirá...
*


Por vezes repousamos quais lagoas,

Paramos de tecer estas coroas,

Cansados flutuamos... mas, em breve,
*


Já subimos aos céus feitos vapor:

Somos agora nuvens ao sabor

De ventos que vos trazem chuva ou neve.
*


Mª João Brito de Sousa

13.04.2022 - 21.00h
***

6.
*

“De ventos que vos trazem chuva ou neve”

Ou simplesmente só o sibilar

Pelos montes, outeiros ao passar

Ora lentos, depressa ou ao de leve
*


A falar sobre os ventos serei breve

Que gosto de me pôr a assoalhar

Ou até junto à areia a ver o mar

E então quero que o vento faça greve
*


E a ideia que sinto a surgir

É a de descansar e de dormir

Essa sim sinto-a bem e com afã
*


Por isso no soneto não avanço

Desejo-lhe também um bom descanso

Retomamos, por isso, amanhã
*

Custodio Montes

13.4.2022
***
7.
*


"Retomamos, por isso, amanhã"

Quer faça chuva quer um Sol brilhante

Desenhe uma cascata cintilante

Exactamente entre um e outro ecrã
*


Não sei se a Musa volta alegre e sã

Ou se se manterá muda e distante,

Mas seja como for serei garante

Desta nossa conversa, em nada vã...
*


O dia é de consulta de enfermagem,

Duvido que me sobre grande margem

Pró nosso versejar de cada dia
*


Antes de dar um jeito à minha sala:

Quem a vir como está, fica sem fala,

Ou julga estar nalguma livraria...
*

 

Mª João Brito de Sousa

13.04.2022 - 23.30h
***

8.
*

“Ou julga estar nalguma livraria”

E julga certamente muito bem

Que ao ver livros no chão aqui e além

Que coisa imaginar ele podia ?
*


Agora que acordei digo bom dia

Para também dizer que hoje ninguém

Se iria acreditar no adeus de alguém

Que em nota me dizia o que dizia
*


Despediu-se de mim e foi-se embora

Eu despedi-me então e vejo agora

Que ao meu adeus voltou a responder
*


Hoje vou à aldeia, vou podar

E só responderei quando voltar

Porque tenho lá muito que fazer
*

Custódio Montes

14.4.2022
***

9.
*

"Porque tenho lá muito que fazer"

E, por aqui, há tanto que arrumar

Que, confesso, começo a duvidar

Que tanto livro aqui possa caber...
*


Pudesse eu estes livros encolher

Ou conseguisse os móveis aumentar

E tudo ficaria em seu lugar

Sem problema bicudo a resolver...
*


São, contudo, estes livros como ideias:

Em estando as prateleiras todas cheias

Há que pô-los em pilhas sobre o chão
*


Ou em pequenas resmas sobre a mesa...

Porém, onde olhos meus vêem beleza,

Vêem, os outros, desarrumação.
*


Mª João Brito de Sousa

14.04.2022 - 09.50h
***

10.
*

“Vêem, os outros, desarrumação”

Mas desarrumação é o que mais vejo

Neste lugar, que tenho, sertanejo,

Que mais ninguém conhece este sertão
*


Estantes levantadas sobre o chão

Durante o dia olhado e que revejo

Às vezes sem vontade nem desejo

Mas que às vezes me prendem a atenção
*


Computador e livros mais diversos

De direito, de prosa e de versos

Por sobre a secretária empilhados
*


Por trás muitos outros em degraus

À minha volta os livros são um caos

Mas na cabeça estão memorizados
*

Custódio Montes

14.4.2022
***

11.
*

"Mas na cabeça estão memorizados"

Junto às ideias que nos vão nascendo

Do muito que nel`s fomos aprendendo

E do mais de que fomos nós dotados...
*

Estão os meus livros já quase arrumados

Mas alguma batota fui fazendo

Pois fui-me da despensa socorrendo

E de outros cantos bem mais recatados...
*


As ideias, porém, não têm fim,

Não as posso arrumar dentro de mim

Por isso as vou espalhando por aí
*


Em versos tantos que lhes perco a conta...

Podem não ter valor, nem ser de monta,

Mas são fruto daquilo que vivi.
*


Mª João Brito de Sousa

14.04.2022 - 20.30h
***

12.
*

“Mas são fruto daquilo que vivi”

E daquilo que sucede dia a dia

Ideias que me nascem de harmonia

Com sonhos ou vivências que senti
*


Que nascem uma aqui e outra ali

Sozinho ou então em companhia

Da tristeza que chega ou da alegria

Dum menino que chora ou que ri
*


Por vezes vê-se força vê-se calma

Mas é difícil ver-se a nossa alma

Onde a ideia medra até brotar
*


E com passado longo e enriquecido

Vai-se ao baú no sótão esquecido

Para lá dentro a ideia encontrar
*

Custódio Montes

15.4.2022
***

13.
*

"Para lá dentro a ideia encontrar"

Ainda em flor, tal qual como nasceu

Num canto recatado do seu "eu"

Onde a irá colher se a relembrar
*


E se a quiser fazer desabrochar

No instante preciso em que a colheu

Ou em que levantou o espesso véu

Com que o Tempo tratou de a ocultar...
*


Ideias são sementes - sempre o foram -

Que às vezes, muitas vezes, se demoram

No fundo do baú das nossas mentes
*


Ou escondidas nas pedras, invisíveis,

Até que, de repente, imprevisíveis

Começam a brotar como nascentes...
*


Mª João Brito de Sousa

15.04.2022 - 14.05h
***


14.
*

“Começam a brotar como nascentes”

Em catadupa jorram sem cessar

E basta uma vir e começar

As outras acrescentam as enchentes
*


E lá vão elas todas nas correntes

Engraçadas a rirem, a cantar

E ao ver esse lindo emalhetar

Os olhos logo se abrem sorridentes
*


Isto que conto aqui a descrever

Duma ideia que outra faz nascer

Tal como da roseira brota a flor
*


Não é como se sabe novidade

Mas eu reitero aqui nesta verdade

"Tudo o que os outros sabem já de cor".
*

Custódio Montes

15.4.2022
***

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