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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
04
Fev22

HOJE HÁ VAGAS! - Mª João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues

Maria João Brito de Sousa

aguarela naif.jpg

HOJE HÁ VAGAS!

*
Coroa de Sonetos
*

Mª João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
*

1
*


No mundo dos versos nascidos de humanos

Descubro um poema que cheira a suor,

Que pode trincar-se, que fede a bolor,

Que treme de frio coberto de panos,
*

 

Que pinga das bicas, que escorre dos canos

De esgoto da casa de um trabalhador

Que ostenta as mazelas sem qualquer pudor,

Que geme de dor, que desmente os enganos...
*

 

No mundo dos versos dos homens reais

Se sonhos encontro, procuro bem mais

Do que fantasias com asas douradas
*

 

E se por achá-lo todos vós me achais

Inconveniente ou rebelde demais,

Replico,"hoje há vagas"; portas arrombadas!
*

 

Mª João Brito de Sousa

03.02.2022 - 15.45h
***

2.
*

"Replico "hoje há vagas", portas arrombadas!"

Eterno retorno: as salas vazias,

Paredes sem cor, janelas fechadas,

Imenso silêncio com palavras frias...
*


Procuro pelos cantos. Onde estão as fadas?

Ou apenas há monstros para nos inspirar?

Encontro-te a ti, cantando baladas

Que me fazem rir, depois de chorar.
*


Quero arrebatar-me da tua loucura

que atravessa o céu nesta noite escura

onde o chamamento é apenas som.
*


Se somos diferentes na mesma leitura,

Se tanto ganhamos na sorte mais escura,

A vida é um sonho mas um sonho bom!
*


Laurinda Rodrigues
***

3
*

"A vida é um sonho mas um sonho bom",

Quando se acredita, quando cá no fundo

Sabemos ter dedos pra moldar o mundo

E a vontade imensa de mudar-lhe o tom
*


Que asas têm penas, não só de "crepon"

Os meus versos cubro quando del`s me inundo;

Por vezes recuso, lanço um NÃO rotundo

Aos que me acenderem luzes de Néon
*

 

Quando um outro fogo me aquece as entranhas

E Simon dedica versos às montanhas

Enquanto Garfunkel faz vibrar as notas... *
*

 

Quem escuta o silêncio dos que não se atrevem

A afrontar os grandes que tudo lhes devem?

Sorrirão as fadas aos das roupas rotas?
*

 

Mª João Brito de Sousa

03.02.2022 - 18.25h
*

* The Sound of Silence - Paul Simon/Art Garfunkel
***

4.
*

"Sorrirão as fadas aos das roupas rotas"?

Por dentro de tudo, que estranha visão:

Crateras na carne como Aljubarrotas

Ou regresso, em sonho, D. Sebastião?
*


Me agarro às amarras que têm as frotas.

Navego sem norte. Regresso ao porão.

Aqui não te encontro nem sequer me notas

É o tal silêncio. Maga escuridão.
*


Quem quiser saber o mistério denso

Que se avulta em mim quando te pertenço

Envolta nas sombras de um gesto parado...
*


Pergunte aos desenhos escritos no lenço

Que vou oferecer-te e julgo que venço

Essa solidão que me evoca Fado.
*


Laurinda Rodrigues

***

5
*

"Essa solidão que me evoca Fado"

Mas Fado não sendo, pode ser trincheira

Onde habita a Musa minha companheira

E nela a encontro (se acaso lhe agrado)
*


Pois é caprichosa, há que ter cuidado!

Se vem de bom grado, toma a dianteira,

Escreve tão depressa que "vai de carreira"

C´o pouco que apenas tinha começado...
*


Ela é sempre jovem, nunca teve idade,

E eu vou tropeçando na velocidade

Que ela impõe aos versos de que mais gostar
*

 

Nem Aljubarrota nem Sebastião

Podem ser mais fortes do que as musas são

Quando se decidem a poetizar...
*

 

Mª João Brito de Sousa

03.02.2022 - 20.08h
***

6.
*

"Quando se decidem a poetisar",

Humanos caminham com outros p'la mão

Que, ao ser conscientes, fazem recordar

Como o sonho é vago e vaga a razão.
*


No espelho da alma retratam a mão

Com linhas dispersas, que dão p'ra pensar,

Sobre este destino que é o nosso chão

Onde, sem escolher, temos de pisar.
*


Cobertos de medo, preparam a fuga.

De olhos abertos (que o saber enxuga)

vão a caminhar para o fim da existência...
*


Conhecem a voz de longe, que os suga,

Mas o som dos versos, que o vento madruga,

Será, certamente, a sua referência.
*


Laurinda Rodrigues
***

7
*

"Será, certamente, a sua referência"

Tal como o será a vida que acolheram

E os passos que somam aos passos que deram,

Desde que esses passos marquem a cadência
*


Porque aos passos dados soma-se a consciência

Do que vão perder e do que já perderam

E ganharam força (toda a que puderam)

Nos sons que se esmeram nessa mesma urgência...
*


Se é velho, o guerreiro que andar não consegue,

Não será por isso que os passos renegue,

De outra forma avança pela mesma estrada
*


E vai-se esquecendo da dor que o persegue;

Se a velhice pesa, que a Musa a carregue,

Que ela bem mais pode não podendo nada.
*

 

Mª João Brito de Sousa

04.02.2022 - 11.15h
***

8
*

"Que ela bem mais pode não podendo nada"

Um nada que encobre o Todo da vida

Presa nos seus dedos na palma fechada

Que, em tempos de guerra, serve de guarida.
*


Nessa luta inglória onde já foi ferida

mas sempre cantou a sombra, encarnada

De palavras doces mas sempre temida

Por quem não conhece pr'além da fachada...
*


Retornemos ora, na luz e na paz!

Porque toda a idade mostra que é capaz

De tecer a arte e criar do Nada.
*


E, em palcos humanos, em gesto tenaz,

Aceita o que é e não é capaz

Canta a despedida, cantando balada.
*


Laurinda Rodrigues
*

9
*

"Canta a despedida, cantando balada"

E sempre seguro, dando o seu melhor,

Quer, enquanto vivo, ver que dão valor

Ao que é construído na sua empreitada
*


E do pão cozido naquela fornada

Nascerão poemas com melhor sabor,

Que um travo de raiva traz outro de amor,

Fatia a fatia, dentada a dentada
*

 

E se o gás é caro, se o arroz escasseia,

Se o feijão não cabe onde o poema ateia

Chamas tão fugazes que se desvanecem,
*

 

Prefiro a modesta chama da candeia

Que, sendo real, toda me incendeia

Sempre que a aproximo dos fios que me tecem.
*

 

Mª João Brito de Sousa

04.02.2022 - 13.50h

***

10.
*

"Sempre que a aproximo dos fios que me tecem",

Deixo que essa vela me encha de calor...

E as almas alheias, nesse gesto, aquecem

Relaxando o corpo à espera do amor.
*


P'ra que tantos choros agora acontecem?

Não querem esperar que se acabe a dor?

Não sabes que a mente nossos erros tecem

Parecendo que são versos de amador?
*


Posso dar-te pão, cozido na aldeia

Onde há forno aceso, ao ser lua cheia

e os lobos pressentem o cheiro a comer...
*


Assim conjugadas em voz, numa teia,

Esperamos que alguém nos ouça ou nos leia,

Nos faça sentir, pensar ou viver.
*

Laurinda Rodrigues
***

11
*

"Nos faça sentir, pensar ou viver"

Quem nada sentindo em viver pensasse

E em ventos de proa que a barca enfrentasse,

Pudesse algum sonho tomar forma e ser
*


Já desmaia o dia num entardecer

Sem ter de aguardar por pintor que o pintasse

E o Sol que esmorece fica num impasse

Que a noite depressa virá resolver...
*

 

Vão cozendo os versos que amassámos juntas

Feitos de incertezas, cheios de perguntas

Que ou terão resposta, ou nunca a terão
*

 

Quando tudo pronto, será partilhado

Inteiro, um poema, bocado a bocado,

Que para poetas também isto é pão...
*

 

Mª João Brito de Sousa

04.02.2022 - 17.45h
***

12.
*

"Que para poetas também isto é pão"

Cheiroso, macio, para regalar

Os olhos, a boca e o coração

de quem nossos versos queira partilhar.
*


Depois, esvaídas com tanta paixão,

Olhamo-nos nuas sem véus a tapar

O que fez de nós um forte cordão

Que a força do tempo não pode quebrar.
*


Somos atrevidas, rebeldes, profundas

Quando assim tecemos nossos versos juntas

E, sem pretensões, abrimos caminhos...
*


Na estrada há veredas que são as perguntas

Mesmo que as respostas sejam desconjuntas

Ficamos felizes: criamos os ninhos.
*


Laurinda Rodrigues
*

13
*

"Ficamos felizes: criamos os ninhos"

Onde haverá vagas para toda a gente

Quando esse futuro se tornar presente,

Depois de um passado crivado de espinhos
*


Das mãos dos pisados, dos que estão sozinhos,

Dos muitos que lutam por algo diferente,

Nascerá um dia o que se pressente

Ser o mais humano dos nossos caminhos
*


E enquanto isto escrevo, porque mais não posso,

Vai-te preparando que o poema nosso

Veio arrombar portas que estavam fechadas...
*

 

Uma que arrombasse e que bom seria

Termos apostado nesta parceria

Que acolhe palavras rotas e suadas!
*

 

Mª João Brito de Sousa

04.02.2022 - 29.50h
***

14.
*

"Que acolhe palavras rotas e suadas"

Em vírgulas, pontos, em linhas e espaços

Onde cabem risos, choros e abraços

E a filosofia de sábias mimadas.
*


Tu teimas, insistes. Ficamos caladas.

Depois, só os gestos. Os gestos em traços

de provocações feitas de embaraços

que os outros perdoam por sermos aladas.
*


Memória do tempo liberto da vida

Agora suspensa, agora perdida

Pelos desencantos, pelos desenganos...
*


Por muito que esqueça nunca são esquecidas:

Todos são eternos, todas são queridas

"no mundo dos versos nascidos de humanos."
*


Laurinda Rodrigues
***

NOTA IMPORTANTE PARA A COMPREENSÃO DESTE LONGO TEXTO POÉTICO - O primeiro soneto desta Coroa foi inspirado no poema NÃO HÁ VAGAS, de Ferreira Gullar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

08
Jun21

TELA - Coroa de Sonetos - Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues

Maria João Brito de Sousa

MENINA EM MONOCROMIA VERDE - MJBS.jpg

TELA
*
Coroa de Sonetos
*

Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
***

1.
*


"Chama que a cada gesto espelha a alma"

Ou mesmo alma que em chamas se acendeu,

Assim seremos nós, pintor e eu,

Que em tal labor ninguém nos leva a palma
*


Numa exacerbação que nos acalma

Porquanto ao paradoxo se rendeu,

Nada se perde quando se aprendeu

A tudo ver, mesmo sem ver vivalma...
*


Pintei ideias que de mim nasciam

E é dessa mesma forma que hoje escrevo;

Não sei se via além do que outros viam,
*


Nem sei se digo mais do que o que devo...

Não vendo o que os meus olhos prometiam,

A pouco, ou nada mais, hoje me atrevo.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 01.06.2021 - 15.40h

*

Soneto criado a partir do verso final do soneto PALETA de Gil Saraiva.

***

2.
*
"A pouco, ou nada mais, hoje me atrevo"

não sabendo se existe um amanhã...

Mas é aqui e agora que me enlevo

jogando ao claro-escuro com afã.
*


Pinturas ou palavras, as que levo

em vibrações da minha mente sã,

são as pétalas de uma flor de trevo

que desflorei numa atitude vã...
*


Procurava a resposta: "muito ou pouco"

que faz da minha vida um mundo louco

que nem eu sei porque caminho assim...
*


Badaladas de sinos, som já oco

que repõe a música do ronco

que a minha voz ecoa sem ter fim.
*

Laurinda Rodrigues
***

3.
*

"Que a minha voz ecoa sem ter fim"

Por vales e montanhas sem começo

E sendo exactamente o que pareço,

Sou quem regula a chama acesa em mim,
*


Grata, talvez, por ter nascido assim,

Mas menos grata quando pago o preço

De cada queimadura que não peço

Aos deuses que expulsei do meu jardim.
*


Do muito, passo ao pouco... ao quase nada...

De quase nada, muito e pouco faço;

Se me desgraço, torno-me engraçada
*


E se amorosamente aqui te abraço,

Podes sentir-te, ou não, tão enredada

Quanto as fiadas em que me embaraço...
*

 

Maria João Brito de Sousa - 03.06.2021 - 17.14h
***

4.
*

"Quanto as fiadas em que me embaraço"

eu quero partilhar os fios desse novelo

e seja só em verso que há o abraço

sinto o deslumbramento de tecê-lo.
*


E pondo mais enredo nesse elo

que é apenas da história mais um passo

vai soneto mutar romance e, ao lê-lo,

percebe-se que é tudo tempo e espaço.
*


Sofridas - não doridas - mas libertas

de escolher estar fechadas ou abertas

num mundo que nos lê ou nos ignora,
*


Glorifico as paisagens, já desertas

de medos e lamentos, como alertas

de quem caminha em frente enquanto chora.
*

Laurinda Rodrigues
***

5.
*

"De quem caminha em frente enquanto chora"

Deixando atrás de si um mar de sal,

Vejo, longínquo, o vulto no final

Da estrada em que o seu choro se demora.
*


Olhando um mar que é céu naquela hora,

Esboço num breve impulso gestual

O voejar modesto de um pardal

E o de uma exuberante ave canora.
*


Junto a uma paleta, a minha a tela

Jaz, por falta de espaço, à beira tempo

E já não vivo eu no mundo dela
*


Que é outro o universo em que me invento;

Mudou-se-me esta casa em caravela

E em leme esta cadeira em que me sento.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 04.06.2021 - 10.04h
***

6.
*

"E em leme esta cadeira em que me sento"

onde flutua a minha inspiração

navegando naquele rio que invento

para, de vez, curar meu coração.
*


Gritar bem alto como grita o vento

os temas da alegria e da paixão...

Sendo mais uma a sofrer tormento

acabando os tormentos sem razão.
*


Se estou febril, a febre é o sinal

de que todo o meu Ser percorre o mal

de uma humanidade em insanidade...
*


Somos a fruta da estação estival

que pode apodrecer sendo real

o sabor de uma luta pela verdade.
*


Laurinda Rodrigues
***

7.
*

"O sabor de uma luta pela verdade"

É doce como o mel mas de repente

A ssume uma acidez quase adstringente

Que surpreende pela intensidade
*


Mas mais nos alimenta essa vontade

De encontrar a verdade em quem nos mente...

Amadurece o fruto inda recente

Da nossa muito humana identidade,
*


Veste-se a tela nua à nossa frente

De quanto houver de criatividade

- porque essa nunca morre, é ponto assente -
*


E, enfim, se entende a transitoriedade

Daquilo que se pensa e que se sente,

Quando se sente e pensa em liberdade.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 04.06.2021 - 12.21h

***

8.

"Quando se sente e pensa em liberdade"

cresce o deslumbramento de existir

de ter nascido Gente de verdade

e não ter de lutar para fugir.
*


Porque ter de fugir cria ansiedade

que destrói aquele sonho de partir

p'lo prazer de encontrar noutra cidade

apenas um lugar para divertir.
*


Fomos tão nacionais pela raiz

reconhecendo em nós essa matriz

de descobrir, sem ser um navegante...
*


E olhamos este mar que apenas diz:

já nada corresponde aquilo que quis!

Estou presa de mim mesma a cada instante.
*

Laurinda Rodrigues
***
9.
*

"Estou presa de mim mesma a cada instante"

Em que tentar deixar de ser quem sou,

Que a liberdade só me conquistou

Por ser rebelde, utópica e distante...
*


De mim, serei eterna navegante

Porque o tempo das fugas já passou;

Mal esta minha tela naufragou

Passei a navegar no verso errante.
*


No verso sempre encontro o que procuro

E mais que o que procuro encontrarei

Assim que colha um fruto mais maduro
*


Dentre os que ainda agora semeei;

Onde cada colheita for futuro,

Há-de haver espaço para o que eu criei.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 05.06.2021 - 20.37h

***

10.
*

"Há-de haver espaço para o que eu criei"

pois espaço é relação de mim com alguém...

O tempo não existe: eu o sonhei

sempre presente, agora, aqui e além.
*


Vivo comigo, sabendo aquilo que sei.

Quem me visita só virá por bem

alertando para um mundo que deixei

ficar lá fora, a rodar num trem,
*


Onde já não viajo há muitos anos

porque viajam nele os muito insanos

que usam os milhões por vestimenta,
*


escondendo, no porão, os muitos danos

que são esquecidos, depois de muitos anos

sem ninguém lhes ter dado reprimenda.
*

Laurinda Rodrigues
***

11.
*
"Sem ninguém lhes ter dado reprimenda"

Vivem os amos/servos da riqueza

Vestindo a "caridade" e a "nobreza"

Que num vídeo viral põem à venda
*


E assim prosseguem nessa sua senda

De conquistar as graças da pobreza;

Mentiras são anzóis cuja agudeza

Escapa a quem de vileza pouco entenda...
*


Assim tornei concreta a tela abstracta;

Mais pincelada, menos pincelada,

Nesta estância da tela se delata
*


A grande, a gigantesca mascarada

Em que o capitalismo se retrata;

Todos o servem e nem dão por nada!
*

 

Maria João Brito de Sousa - 06.06.2021 - 11.21h

***

12.

"Todos o servem e não dão por nada"

porque, no seu inconsciente cultural,

resguardam o segredo da montada

num cavalo feito em pérolas e cristal
*


Expõem-se então à fúria da nortada

que os submete ao medo de animal

simbolizando o grande camarada

que veio salvá-los da desgraça e mal.
*


Esqueceram que são a trilogia

que podem alcançar no dia-a-dia

sem ter de denegar a sua crença...
*


Será esse o motivo da poesia

quando deixa de lado a alegoria

que não é sua a voz que a si pertença.
*

Laurinda Rodrigues
***

13.
*

"Que não é sua a voz que a si pertença"...

Mas agora é só minha a decisão;

Camaradas não são o "grande irmão"

E a minha ideologia não é crença
*


Que me assegure privilégio ou tença...

Trago-a na mente e diz-me o coração

Que ao nascer filha da revolução

Me compete cantá-la até que vença
*


E, vez por outra, a minha branca tela

Pode encher-se dos traços realistas

De quem morreu lutando, não por ela,
*


Mas pelos objectivos humanistas

Cuja memória, morta numa cela,

Ainda me sussurra; "Não desistas!"
*

 

Maria João Brito de Sousa - 07.06.2021 - 12.04h
***

14.
*

"Ainda me sussurra: "Não desistas"

porque tudo na vida é transição

e mesmo o mais fatal nos mostra pistas

p'ro reencontro com o nosso coração.
*


Ouço falar em histórias de revistas

cheias de sentimentos e emoção...

São, afinal, desfiles em que vistas

o melhor para mostrar à multidão.
*


Somos trapos caídos a um canto

onde não chega o riso, nem o pranto,

que dê o privilégio de ter calma?
*


Aos chutos, pontapés do desencanto

acendemos o fogo como um manto,

"chama que, a cada gesto, espelha a alma".
*

Laurinda Rodrigues
***

(Reservados os direitos autorais)

08
Mai21

QUANDO VIERES POR MIM - Coroa de Sonetos - Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues

Maria João Brito de Sousa

o último anjo.jpg

QUANDO VIERES POR MIM
*
Coroa de Sonetos
*

Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
*
1.
*


Quando vieres por mim, logo à noitinha,

Com o teu negro manto aveludado,

O teu trágico ceptro de rainha

Não me acharás tremendo ajoelhado;
*

 

Estarei escrevendo a derradeira linha

Do terceto final deste meu fado

Que mais ninguém lerá. Quem adivinha

O futuro de um verso assim negado?
*

 

- Volta num outro dia... ou mês, ou ano!

Olhar-me-ás atónita, bem sei,

Pois nada disto estava no teu plano...
*


Pressuporás que também eu sou rei

E partirás pra não causar-me dano;

Se dano houve, eu próprio o provoquei.
*

 


Maria João Brito de Sousa - 05.05.2021 - 13.12h

***

2.

"Se dano houve, eu próprio o provoquei"

morbidamente quase, quase louca...

Que sensação perversa que inventei

quando, em vez de beijar, mordi a boca.
*

E, com os lábios fechados, intentei

dizer palavras que tem eco a ôca

porque, sem ter pincel, assim pintei

as telas que da vida são já pouca.
*


Se querem ver-me apenas na roupagem

no corte de um cabelo, estilo pagem

e na curva da anca desnudada,
*


Recomendo que venham de passagem

porque eu sou vento, nunca fui aragem:

Voo sem asas seja bruxa ou fada.
*

Laurinda Rodrigues
***

3.
*

"Voo sem asas seja bruxa ou fada",

Far-te-ei levitar quando eu quiser

E quando me trespassa a tua espada,

Só por instantes me verás sofrer;
*


Terei morrido um pouco, um quase nada,

Pra noutro quase nada reviver...

Sei bem que voltarás, que é denodada

A tua força e enorme o teu poder.
*


Venci-te quatro vezes, mas sei lá

Qual de nós vence a próxima batalha...

Sei bem que não és boa nem és má,
*


Que, ao matar, não cometes uma falha,

A menos que te encontres com quem vá

Tecendo a própria Vida, malha a malha.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 05.05.2021 - 15.50h
***

4.
*

"Tecendo a própria Vida, malha a malha"

é o que fazemos todos, distraídos...

Às vezes, serenidade é que nos falha

para saudar a morte, divertidos.
*


Tratam a morte como fora tralha

porque acabou o gozo dos sentidos;

mas afinal o corpo é que atrapalha:

o corpo é o centro dos gemidos.
*

 

Glorifiquemos, pois, a nossa alma

que tem, em si, potencial da calma

que atravessou o medo de morrer...
*


Não tratemos o medo como um trauma!

Olha a linha da vida em tua palma

e vais contar os anos para viver!
*


Laurinda Rodrigues
***
5.
*

"E vais contar os anos pra viver(!)"

Embora esteja, a minha, retalhada

E tão sumida que a mal posso ver,

Se bem que já não veja quase nada...
*


Só nestes dedos meus posso inda crer

Já que, encontrando a tecla procurada,

Vão imprimindo o verso que nascer

Da minha mente sempre apaixonada
*


Por palavra plasmada numa ideia

Cuja sonoridade ecoe em mim,

Depois... de novo a chama me incendeia
*


E tudo ocorre exactamente assim;

Qual borboleta em torno de candeia,

Vou viver deslumbrada até ao fim!
*


Maria João Brito de Sousa - 05.05.2021 - 20.53h

***

6.
*

"Vou viver deslumbrada até ao fim":

O caminho é tão belo, que antevejo

reencontrar, bem perto de mim,

aqueles a quem quisera dar um beijo.
*


E, numa dança nua, sem que o pejo

venha repudiar-me ser assim,

eu, a deslumbrada, só desejo

ter o perfume doce de um jasmim.
*


E, perfumada a flor, mesmo distante,

irão reconhecer-me nesse instante

porque a morte não mata a identidade.
*

 

Medo? Afinal, é medo de um mutante

que percorreu a vida como errante

sem saber até hoje O QUE É VERDADE.
*

Laurinda Rodrigues
***

7.
*

"Sem saber até hoje o que é VERDADE"

Vivemos todos nós, ó morte certa;

É, na verdade, eterna a descoberta

Desta nossa infinita insaciedade.
*


Quanto mais se procura mais se evade

Por uma porta que está sempre aberta;

Tentar segui-la é viver sempre alerta

E conquistá-la é dar-lhe liberdade.
*


Morta, a identidade é transmutada

No bolo alimentar da própria vida;

Só a memória fica, ou não, plasmada
*


Nos que vão adiando essa partida

Pró reino da matéria inanimada

Que, tarde ou cedo, é coisa garantida.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 06.05.2021 - 11.02h

***

8.
*

"Que, tarde ou cedo, é coisa garantida"

pois, antes de nascer, quem perguntou

se eu queria ser um Ser no seio da vida

com forma do humano que é que sou!
*


Terei sido uma forma consentida

que qualquer outro Ser encomendou

e, de repente, viu-se de partida

para um ventre materno que o gerou?
*


Quero saber! Exijo que alguém diga:

tenho direitos que este mundo obriga

e o pensamento apenas não me basta!
*


Ouço uma voz, sem nexo, que desliga

entre ser uma águia ou ser formiga

como um` alma imortal que, em terra, pasta.
*

Laurinda Rodrigues
***

9.
*

"Como um` alma imortal que, em terra, pasta"?

Se é essa a tua busca, já foi minha

Quando era tão, mas tão pequenininha

Que mal recordo a minha imagem gasta...
*

 

Era uma cria humana, ingénua e casta

Filosofando como quem gatinha;

Não perguntava, lia! Quem detinha

Uma mente a quem nunca a crença basta?
*


Bem cedo o descobri; tudo é mudança!

Tudo é passagem, transitoriedade,

E apesar de ser uma criança
*


Abracei logo a relatividade,

Na evolução pus toda a confiança

E entendi que há um fim prá identidade.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 06.05.2021 - 13.17h
***

10.
*

"E entendi que há um fim prá identidade"...

Mas que fim? que razão? onde a encontraste?

É só por seres diferente da unidade

que, em tantos outros tempos, reclamaste?
*


Olhando os demais seres que já olhaste

e aceitando a reciprocidade,

em que parte de ti tu validaste

que és um Ser diferente na verdade?
*


Pergunto tantas vezes o que somos

De onde viemos e porque nos impomos

o ver nos outros o que somos nós,
*


Que já nem sei se só seremos gnomos

ou, pior!, seremos tão só momos

de extra-terrestres com a nossa voz.
*

Laurinda Rodrigues
***
11.
*

"De extra-terrestres com a nossa voz",

Talvez irmãos da Fada-dos-Dentinhos,

Primos do Quebra-Nozes que, sem noz,

Desistiu de dançar pr` assaltar ninhos...
*

 

Podemos até crer em rios sem foz,

No Lobo Mau e até nos três porquinhos,

Mas eu prefiro crer que somos nós

Feitos de nervo e carne sobre ossinhos.
*


Nunca te impus aquilo que aprendi;

Crerás em quanto entendas poder crer

E eu crerei naquilo que escolhi.
*


Extra-terreste? Não, não posso ser!

Foi no planeta Terra que nasci,

Sou, portanto, terrestre até morrer.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 06.05.2021 - 20.38h
***

12.
*

"Sou, portanto, terrestre até morrer"

mas sempre interligada com o luar

que me inspirou a Musa acontecer

sem que deixe de amar a luz solar.
*


Não faço caminhadas a correr

porque o meu corpo desistiu de andar:

estou aqui a cantar e a escrever

até deslumbramento terminar.
*

E, então, deixo invadir serenidade

no espaço do vazio dessa verdade

de ter amado tanto e ser amada...
*


Não tenho nem desejo, nem saudade:

sou toda uma expressão da eternidade

que, depois de se abrir, ficou calada.
*

Laurinda Rodrigues
***

13.
*


"Que, depois de se abrir, ficou calada"

Porque a morte é silêncio e paz imensa,

Mas, quando viva, deixaste pegada,

Como outro qualquer ser que sente e pensa
*

 

E nada disto é coisa imaginada

Que essa pegada é muito mais intensa

Do que o vôo ideal de qualquer fada

E nem o Tempo a torna menos densa...
*

 

Vês as marcas do Tempo no teu rosto?

Tal como a ti os anos te moldaram,

Também moldaste tu. Foi-te isso imposto.
*

 

Sem que o sonhasses, teus rastos ficaram;

Perduram, na alegria e no desgosto,

Os traços que os teu pés e mãos gravaram.
*

 


Maria João Brito de Sousa - 06.05.2021 - 22.32h
***


14.
*

"Os traços que os teus pés e mãos gravaram"

no chão imaginário da poesia,

mesmo depois de Ti no chão ficaram

porque de Ti ficou toda a energia.
*


Uma energia que os dias não contaram

porque não tem relógio a fantasia

nem há tempo para os traços que traçaram

a rede mágica, que ficou vazia.
*


Não há rosto com rugas no Outro Eu

que te acompanha como fosse céu

onde uma lua enorme se avizinha...
*

 

Olhas para mim? Para este corpo meu?

Achas que alguma coisa se perdeu

"quando vieres por mim, logo à noitinha"?
*


Laurinda Rodrigues
***

 

Trabalho em  pré-edição 

Reservados os direitos autorais

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

22
Nov20

VIAGEM - COROA DE SONETOS

Maria João Brito de Sousa

viagem.jpg

VIAGEM
*

COROA DE SONETOS

*

 

Laurinda Rodrigues e Maria João Brito de Sousa

*
1
*

Desço ao fundo de mim, ao inconsciente
onde dormem vivências esquecidas.
Sei que naquilo que sou já fui diferente
e que hei-de ser diferente noutras vidas.
*

Sou toda um Uni-verso entrelaçado
de peças materiais que vão expandindo.
Fico parada a olhar o céu alado,
sentindo uma pulsão que está abrindo.
*

Meu outro Ser perdurará na luz
que me envolveu na terra feita em cruz
que não pode fugir ao seu destino...
*

Mas é aqui e agora que me afirmo:
mesmo que o corpo caia no abismo  
a alma cantará, convosco, um Hino.
*

Laurinda Rodrigues
*

2
*

"A alma cantará, convosco, um hino"

Até depois da vida anoitecer

Enquanto se souber que fui menino,

Enquanto alguém lembrar que fui mulher
*

Na memória persiste o tal destino

Que bem longo será se alguém me ler;

Assim o vejo há muito, assim defino

Viagem, vida e espanto de viver.
*

De mim, da minha própria identidade,

Terá sobrado o verso que se evade

À decomposição inexorável
*

Do que foi o meu corpo passageiro;

Cigarro aceso à beira de um cinzeiro

De porcelana breve e descartável.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 19.10.2020 - 13.43h

*

3
*

"De porcelana breve e descartável"

ouço cair estilhaços pelo chão

e um riso perverso insaciável

atravessou o espaço da Razão.
*

Talvez seja o diabo em sintonia

com a nossa condição de ser mortais

ele é sempre julgado à revelia

no tribunal dos loucos amorais.
*

Mas não se iludam! Esse demo existe

bem no fundo de nós, onde persiste

uma história de erros, frustrações...
*

Afinal, a loucura pouco importa

se é, com ela, que o poeta exorta

o mundo turbulento das paixões.
*

Laurinda Rodrigues
*

4
*

"O mundo turbulento das paixões"

Faz do Olimpo um nada, uma sequela;

No palco dos heróis e dos vilões

Desta realidade paralela
*

Há gigantes que fogem dos anões

E a Fera é perseguida pela Bela

Enquanto os anjos brincam com dragões

E a bruxa se transmuta em Cinderela.
*

No mais fundo de mim, se o demo existe,

Procuro descobrir-lhe o vulto triste

Mas não lhe encontro rasto e nem o faro
*

Me dá qualquer sinal de outra presença

Que de mim mesma não seja pertença;

Será a sua ausência um caso raro?
*


Maria João Brito de Sousa - 19.11.2020 - 16.22 h
*

5
*

"Será a sua ausência um caso raro?"

ou o transporte ao Olimpo é de avião

e não viu lá de cima o exemplo claro

da luta do gigante com o anão?
*

É preciso esperar pousar na pista

sem muita turbulência na aterragem

para que o piloto hábil lhe resista

sem medo de entrar em derrapagem.
*

Porque isto de emoções tão reprimidas

que fogem ao arbítrio do Rei Midas

na decisão de ser um demo ou anjo
*

é, mesmo, o velho tema do destino

(porque nasceu mulher e não menino)

porque toca piano em vez de banjo?
*

Laurinda Rodrigues
*

6
*

"Porque toca piano em vez de banjo"

Quem no trompete ou na guitarra é ás?

Quem lhe imporá tamanho desarranjo

Ao afastá-lo do que mais lhe apraz?
*

Nestas perguntas, mais tempo não esbanjo;

Não quero incomodar, sendo tenaz,

Quem disto saiba mais que quanto abranjo

E, em coisas destas, nunca fui sagaz...
*

Às emoções, porém, nunca reprimo

Que a toda a hora as rondo, sondo e esgrimo

Com grande habilidade e destemor
*

E aos temas nunca escolho. O meu escolhido

É sempre um som que aflora ao meu ouvido

E me enfeitiça e se me sabe impor.
*


Maria João Brito de Sousa - 20.11.2020 - 11.18h

*
7

"E me enfeitiça e se me sabe impor"

como uma vaga que cresce sem aviso

alerta o marinheiro para compor

o sentido que o leva ao paraíso...
*

Ele não está preparado mas aceita

deixar a onda desfazer na praia...

Não tem sabedoria nem receita:

o instrumento toca aquilo que ensaia.
*

Mas não esqueceu o tema desta vida:

"em frente camarada" destemida!

não há razão que te perturbe o Ser.
*

Músico ou poeta ou marinheiro

o canto das estrelas cabe inteiro

na mutação que vai acontecer.
*

 

Laurinda Rodrigues
*

8
*

"Na mutação que vai acontecer"

E vai acontecendo a cada instante

Do que a mãe-tecelã está a tecer

No seu velho tear desconcertante.
*

Decerto nos irá surpreender

A criatividade galopante

Que esse velho tear demonstra ter

Na sua actividade que é constante.
*

Viaja a tecelã no fio que fia

E viajamos nós em sintonia

Com trama fiada e por fiar,
*

Que é porfiando que tudo se cria

E a trama é tal qual uma melodia

Quer nasça de um piano ou de um tear.
*


Maria João Brito de Sousa - 20.11.2020 - 15.02h

*
9
*

"Quer nasça de um piano ou de um tear",

a mão, que tece, é sempre a mão que cria,

na inspiração do eterno respirar

de uma alma tremendo em fantasia.
*

Fantasia de fada ou de duende,

de uma ave canora ou imitação...

Aquele, que comunica, fogo acende

seja de amor sublime ou perversão.
*

Não é ardil nem sonho camuflado

de palavras subtis de um Ego inflado

pela competição de seus iguais...
*

O papagaio repete aquilo que ouviu

mas, se for transcendente, conseguiu

despertar o segredo dos mortais.
*

Laurinda Rodrigues
*

10
*

"Despertar o segredo dos mortais"

É dar-lhes um lugar nesta viagem

Na qual sempre há lugar pra muitos mais,

Ainda que alguns pensem ser miragem
*

Viajar-se nas lonjuras dos murais,

Nunca tentando agir como outros agem,

Perdendo o Norte aos pontos cardeais

E levando a Garcia outra mensagem.
*

O guia é sempre um ponto de partida

E nem sempre a viagem concebida

Naufraga em perfeição, tendo sucesso.
*

O que importa é cantar, que um hino à vida

Vem de uma voz que é tanto mais ouvida

Quão mais se perca durante o processo.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 21.11.2020 - 13.51h

*

11.
*

"Quão mais se perca durante o (seu) processo"

em conexão com outros peregrinos

que atravessam o mar do insucesso

por nunca recusarem seus destinos,
*

será uma montanha de ilusões

ascendendo no ar, quando nascer,

mas, quando o sol se esconde nos porões,

vai deitar-se na proa para morrer.
*

Reavalia, então, o ofuscamento

que fez da sua vida esse tormento

de tanto querer e ter como pessoa
*

E vê pontos de luz que vão chegando

à sua consciência, decifrando

o mal que tanto fez e não perdoa.
*

Laurinda Rodrigues
*

12
*

"O mal que tanto fez e não perdoa",

Porque não nasce, o mal, pra perdoar,

Mas pr`aumentar a dor do que já doa

Mesmo antes desse mal se anunciar.
*

Mal fica quem viaja e fica à toa,

Mas pior ficará quem nunca ousar

Seguir o tal tal apelo que destoa

Do que é tido por norma ou por vulgar.
*

Só não se atreve quem de si não gosta

Ou quem é surdo e cego e tudo aposta

Numa rota alheada e comedida;
*

Esse, que à tempestade sempre arrosta,

Pode - quem sabe? - nem chegar à costa,

Mas até no naufrágio encontra vida.
*


Maria João Brito de Sousa - 21.11.2020 - 15.53h
*

13
*

"Mas até no naufrágio encontra vida"

escolhendo livremente naufragar

sem nunca desejar contrapartida

por ter salvo outro ser de se afogar.
*

Com humildade, enfrenta a turbulência

desse vento feroz, que não esperava

destruísse o sentido da existência

a quem só na matéria acreditava.
*

E aporta o barco no porto criador

escondendo na rocha a sua dor

pela dor de outro Eu sobrevivente.
*

E, apelando à coragem e à união,

deixa no mar os restos da ilusão

que possa a humanidade ser diferente.
*

Laurinda Rodrigues
*

14
*

"Que possa a humanidade ser diferente",

Mais justa, igualitária, equilibrada

Do que a que hoje se curva ao prepotente

E que despreza quem já não tem nada.
*


Mas há que navegar, seguir em frente,

Fazer um esforço, dar outra braçada...

Enquanto um sopro houver, há vida, há gente,

Há a luta, há a esp`rança renovada.
*


Homem que navegando naufragaste

Mas que a qualquer destroço te agarraste

Tentando retardar o teu poente,
*


Não há eternidade que nos baste;

No breve instante que à morte roubaste

"Desço ao fundo de mim, ao inconsciente".
*

 

Maria João Brito de Sousa - 21.11.2020 - 21.37h

 

 

 

 

 

13
Nov20

ARTIMANHA - Coroa de Sonetos

Maria João Brito de Sousa

L`IMPORTANT C´EST LA ROSE.jpeg

ARTIMANHA
*

Coroa de Sonetos
*

Laurinda Rodrigues e Maria João Brito de Sousa
*


1
*

O mal faz-se sempre anunciar.

Às vezes, disfarçado, nem se nota.

Poeira venenosa envolve o ar

e um cheiro nauseabundo fica à solta.
*

Não há palavras, gestos ou imagens

que emudeçam, na alma, o medo insano

São sendas de pavor como paisagens

que atravessam a terra e o oceano.
*

Impõe-se a solidão. Ficarmos presos.

É essa a solução para estar ilesos

de um ataque fortuito que nos espreita...
*

Não vale a pena dizer "sim" ou "não":

tudo aquilo que se diz é sempre em vão,

se a confusão lançada é tão perfeita.
*

Laurinda Rodrigues
*

2
*

"Se a confusão lançada é tão perfeita"

Que aos mais sábios confunde e desatina,

Cremos, então, que o Mal está sempre à espreita

Atrás de cada porta, em cada esquina
*

São coisas de que a Manha se aproveita;

Bem sabemos que a Manha, essa ladina,

Se quer fazer passar por insuspeita

E aquilo que prescreve, nunca assina.
*

Mas passe a Arte a bem ou passe a mal,

Contorna os riscos e enfrenta o medo

Que a ameaça de forma desleal;
*

Abre as janelas de manhã bem cedo

Bebe do Sol a força universal,

Reduz o Mal a peças de brinquedo.

*

Maria João Brito de Sousa - 09.11.2020 - 12.29h

*

3
*

"Reduz o Mal a peças de brinquedo"

mas - cuidado! - que o sol é enganador:

faz de conta que é Pai e mete medo

quando os filhos lhe estragam o fulgor.
*

Mas, afinal, o sol é apenas estrela

entre tantas estrelas que há no céu

e, quando esta verdade se revela,

uma outra dimensão aconteceu.
*

Juntando as peças, que temos na memória,

vemos que "chefes-sóis" fizeram história

que lhes servem a eles, sem discussão...
*

E, usando o globalismo como lema,

garantem, no poder, o seu sistema,

impondo, sem destrinça, esse padrão.
*

Laurinda Rodrigues
*

4
*

"Impondo, sem destrinça, esse padrão"

Que a Maga-lua acorre a transformar;

Assim que o Sol se rende à escuridão

Impõe-lhe ela o seu manto de luar
*

E assim concede ao mundo a sedução

Que o Chefe-sol se nem lembrou de dar,

Quem sabe se por pura distracção,

Se por puro capricho de mandar...
*

Amo o Sol e concedo-lhe o perdão

(ou penso que o consigo perdoar...)

Porque me acende a imaginação,
*

Porque a todos se entrega sem cobrar,

Porque - confesso! - me enche de paixão

E porque, enfim, assumo; sou solar!
*

 

Maria João Brito de Sousa .
*

5.
*

"E porque, enfim, assumo; sou solar"

presa na rota do ciclo de estações,

mesmo, sem canto, encanto à luz lunar,

esquecendo que há, na lua, mutações.
*

Cresce a lua no céu, depois de prenhe

que o sol, na fase "nova", engravidou,

para correr o "quarto" e se despenhe

na "cheia" exibição que a culminou.
*

Podemos ser solares enquanto humanos

mas é como lunares que cultivamos

o caminho perfeito da união...
*

Nada no cosmo existe sem sentido

e é o olhar do poeta, destemido,

que faz, da lua e sol, inspiração.
*

Laurinda Rodrigues
*
6
*

"Que faz, da lua e sol, inspiração"

E que com Arte e Manha lhes dá voz

Porque Arte quer dizer rebelião

E Manha há sempre um pouco em todos nós.
*

Rebeldes, inventamos a paixão,

Manhosos, transformamos algo atroz

Num enredo ideal cuja ilusão

Nasce purpúrea da explosão de uns pós...

*

Triangulamos Terra, Sol e Lua,

Num passe de magia. A Arte, nua,

Por um momento veste os nossos mantos
*

Para, logo a seguir, mostrar-se crua;

Despindo os astros, muda-se em falua

E faz-se ao Mar, explorando outros encantos.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 10.11.2020 - 12.54h

*
7
*

"E faz-se ao Mar, explorando outros encantos"

porque, se a Arte é arte, é a expressão

seja em poesia, dança, sons ou cantos

do tempo, que traduz a mutação.
*

E a mutação prevê-se nas estrelas

no para além deste planeta terra,

mesmo que tentem colocar-nos trelas

na desculpa de que Isto é uma guerra.
*

Seremos sábios, mas sábios disfarçados

de humildes servidores desnaturados,

que aceitaram nascer para mendigar...
*

E, enquanto os Reis solares clamam razão,

os pobres servidores vão dando a mão

prosseguindo a arte e manha de os calar.
*

Laurinda Rodrigues
*

 

8
*

"Prosseguindo a arte e manha de os calar"

Sempre que as ordens se tornam brutais,

Semeamos a flor que há-de brotar

Nos prados, nos canteiros, nos quintais
*

 

Da Terra inteira, do céu ou do mar

No qual nadam os peixes e os corais

Proliferam, ainda, sem parar;

Nada, pra si, será longe demais
*

 

Porque a Arte não cuida de barreiras

E há-de passar por todas as fronteiras

Mais forte a cada palmo que conquista.
*

 

Escapar-se-á por fendas e soleiras

Mimetizando as coisas costumeiras;

Ninguém pode impedir que ela subsista!
*

 


Maria João Brito de Sousa - 11.11.2020 - 19.24h
*

9
*

"Ninguém pode impedir que ela subsista"

mesmo vendo que a arte é maltratada

e não é com protestos que resista

a tanta confusão já instalada.
*

Na solidão imposta, versejamos

criando a ilusão que vale a pena...

Mas se, por mero acaso, fraquejamos

as imagens cruéis voltam à cena.
*

Atados ao visor dos aparelhos

que são agora os nossos novos espelhos

retratando o olhar da rendição,
*

talvez ainda sobreviva o sonho

de que este pesadelo tão medonho

se transforme num sonho de paixão.
*

Laurinda Rodrigues
*

10
*

"Se transforme num sonho de paixão"

O que hoje nos parece uma utopia

E a mais que condenada aspiração

De algum idealista em distonia
*

 

E surdo, face a esta distorção,

Ou cego, face a esta pandemia...

É o sonho, contudo, evolução

E a essa nenhum vírus contraria.
*

 

Com Arte e Manha enfim se concretiza

O sonho que ninguém desenraíza

Do ser humano que em si próprio o traz
*

 

E que de quase nada se improvisa

Quando sobre si mesmo profetisa

E acerta, pois de tudo ele é capaz!
*

 


Maria João Brito de Sousa - 11.11.2020 - 22.53h

*

11
*

"E acerta, pois de tudo ele é capaz":

salta barreiras com a mente adormecida

porque, na noite, o sonho dorme em paz

diferente da vigília consentida.
*

Das trevas do profundo inconsciente

compõe lembranças do aqui e agora

e, às vezes, quando o corpo está doente

a alma criadora ri e chora.
*

A confusão, que alastra, não entrava

que faças com teu sonho a tua lavra

numa terra de fértil energia...
*

Não fiques agarrada à voz macabra!

talvez seja o silêncio que nos abra

os sonhos mais proféticos da poesia.
*

Laurinda Rodrigues
*

12
*

"Os sonhos mais proféticos da poesia"

Nascem-me assim que acordo e fico alerta;

A Manha é pouca, mas a Arte cria

A partir de uma mente bem desperta
*

Que a toda a voz macabra repudia,

Nem a ouvindo que outra é descoberta

Nos tons cantantes de uma melodia

Que sobre mundo e vida se concerta.
*

É dum sossego desassossegado,

Talvez silêncio de pronto quebrado,

Que o verso nasce e depois se compõe.
*

Mas só em força nasce se acordado;

Se dorme, nasce tão desafinado

Que nem percebe ao certo o que propõe.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 12.11.2020 - 11.35h

*

13.

"Que nem percebe ao certo o que propõe"

seguindo em linha a voz dos ditadores

que a todos nós a submissão impõe

para, depois, nos tratar como traidores.
*

Antigamente três "fs" suportavam

a perda, raiva, medo e frustração;

mas, agora, nem "fs" aguentavam

os espaços vazios da solidão.
*

Todos falam. Ninguém percebe nada.

Fazem-se regras apenas para fachada.

Mais tarde se verá quem vai mandar.
*

Pobre consolação em grande estilo!

Cantam melhor o galo, o melro, o grilo

que a gente entende, mesmo sem escutar.
*

Laurinda Rodrigues
*

14
*

"Que a gente entende, mesmo sem escutar"

Porque esses sabem sempre como e quando

E até entendem que comunicar

É bem mais que dar ordens de comando
*

Pois também será forma de exaltar

A própria vida que lhes vai pulsando

Nos pequeninos corpos, a vibrar,

Enquanto a Terra inteira vai girando
*

E eu, aqui sentada, vou glosando,

Apesar de uma mão me estar sangrando,

Os versos que me deste pra glosar.
*

Enquanto alguns de nós vão acordando,

Outros, sem Arte e Manha, vão tombando;

"O Mal faz-se sempre anunciar".
*

 

Maria João Brito de Sousa - 12.11.2020- 15.26h

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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FÁBRICA DE HISTÓRIAS

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