Maria João Brito de Sousa
ESCREVESSE EU SONETOS GAGOS... *
Coroa de Sonetilhos *
Maria João Brito de Sousa e Helena Teresa Ruas Reis ***
1. * Escrevesse eu sonetos gagos,
Ou mal falados, ou mudos...
Sonetos machos, barbudos,
Mas tão ternos quanto afagos *
Que, em tocando, fazem estragos
Nos corações mais sisudos...
Mas não, os meus são veludos
Já pelo tempo esgaçados... *
Cantasse eu versos que mordem
Como quem com fome beija,
Soubesse eu criar desordem, *
Drama, ciúmes, inveja...
Acordes meus, não me acordem,
Se nenhum de vós gagueja! *
Maria João Brito de Sousa - 23.06.2021 - 13.06h *
Ao Fernando Ribeiro
*** 2. *
“Se nenhum de vós gagueja”,
Coisa de somenos vista,
Já eu roo-me de inveja
Porque a gaguez é de artista. *
Curioso, que ao cantar
Sai-nos tudo de uma vez…
E melhor do que a rimar,
Que aí é que é ver “gaguez”! *
Embalada em melodia
Pensáveis que eu escrevia
Mas, afinal, só cantava. *
Porque se eu ga - gaguejasse
Haveria quem não esp’rasse
Para ler esta estopada! *
Helena Teresa Ruas Reis - 27/06/2021 ***
3. *
"Para ler esta estopada(!)"
Garanto que pagaria
E até ga-gaguejaria
Não sendo gaga nem nada, *
Só pra marcar a toada
Da rima que se recria
Dia e noite ou noite e dia,
Conforme a hora marcada *
Se isto soa a pleonasmo,
Ou talvez contradição,
Não me liguem! Eu só pasmo *
Que, com tanta produção,
Inda não sentisse um espasmo
Dos fatais... no coração. *
Maria João Brito de Sousa - 27.06.2021 - 17.45h
*** 4. *
“Dos fatais... no coração”
É lá coisa que se diga!
Acaba-se a produção,
Fica fome na barriga. *
Se soa a comparação,
É que o lanche já marchava
Mas a tal de inspiração
Chovia se Deus a dava… *
Mas vou-me já à cozinha
Perdoem-me os vates todos
Se não se acharem cómodos. *
Cenoura, courgette em linha,
Coentros, alguma aguinha,
O meu jantar é sopinha! *
Helena Teresa Ruas Reis - 27/06/2021 ***
5. *
"O meu jantar é sopinha"
Que não "marcha" antes das dez,
Já que almocei - outra vez... -
Bem tarde, quase à noitinha *
E isto de jantar sozinha
Tem vantagens, traz mercês,
Porquanto, às duas por três,
Viro costas à cozinha *
E sem razões nem porquês
Vou treinando esta gaguez
Que, por ora, está fraquinha, *
Mas, bem treinada, talvez
Ganhe aquela solidez
Que, creio, já se avizinha... *
Maria João Brito de Sousa - 27.06.2021- 19.30h ***
6.
*
“Que creio já se avizinha”
Pelo cheiro que aqui sinto…
E podem crer que não minto,
Que a sopa se acha prontinha.
*
Não sofro já de gaguez
E fome não passo eu já.
Sem comer fico “gagá”
E então gaguejo outra vez!
*
Não queremos ficar fracas
Como velhas matriarcas
Num encontro obsoleto.
*
Nem que use como “muletas”
Esta sopita de letras,
Sonetilho e não soneto.
*
Helena Teresa Ruas Reis - 27/06/2021 ***
7. *
"Sonetilho e não soneto"
Se chama a esta estrutura,
Mais curtita na largura
Mas igualmente completo. *
Será do soneto neto
Mas mantém-se à sua altura;
Belo como uma escultura,
De muitos será dilecto *
E mantém toda a lisura
Do avô cuja postura
Vai imitando, discreto. *
Não gagueja, nem descura
Ser um marco prá Cultura
E, para o poeta, um repto! *
Maria João Brito de Sousa - 27.06.2021 - 21.30h ***
8.
*
"E para o poeta, um repto",
Provocação, desafio
Que só provoca arrepio
De usá-lo como um inepto.
*
Ancestralmente falando
Não sei onde fui buscar
Tal forma de versejar
Que ando para aqui usando.
*
Enfim, ao correr da pena
Vem-me à tona outro tema:
A poesia multiforme.
*
Se eu gaguejasse em poesia
Nem sei que graça acharia
Essa Musa que não dorme...
*
Helena Teresa Ruas Reis - 27/06/2021 ***
9. *
"Essa Musa que não dorme"
E que nunca foi "gágá"
Pode achar graça - eu sei lá...-
A quem gagueje ou performe *
Verso gago que transforme
Uma graçola em maná...
Ou essa gaguez será
Coisa que muito a transtorne? *
Só nos resta exp`rimentar
E se a Musa se irritar,
Assobiamos pró lado; *
Eu nem sequer ga-gaguejo...
Foi talvez um bo-bocejo
De um verso mais ensonado *
Maria João Brito de Sousa - 28.06.2021 - 11.25h ***
10.
*
“De um verso mais ensonado”
Fica a “gaguez” de um bocejo
Que sem pedir ou ter pejo
Surge, sem ser desejado.
*
Mas se vem à revelia,
Verdade é que se finou…
Pois depois que descansou
Acordou em novo dia.
*
Se a Musa se transtornar,
Depressa a vamos lembrar
Que dormir é bom remédio
*
Pois, ficar a bocejar
É pior que gaguejar:
Dá-te sono e dá-te tédio.
*
Helena Teresa Ruas Reis - 28/06/2021 ***
11. * "Dá-te sono e dá-te tédio"
Tanto bo-bo-bocejar
E Morfeu, sempre a rondar,
Faz-me pensar em assédio... *
Contudo, neste meu prédio,
Toda a gente é de fiar...
Morfeu que se vá lixar;
Está na hora do remédio! *
Engulo duas pastilhas
Mais rijas do que cavilhas
Que "empurro" c`um copo d`água *
E, do almoço esquecida,
Ve-versejo embevecida;
Vem o verso e vai-se a mágoa ;) *
Maria João Brito de Sousa - 28.06.2021 - 14.36h
***
12
*
“Vem o verso e vai-se a mágoa”,
Que se lixem gargarejos,
P’ra eles os meus bocejos
Ferventes na pouca água!
*
Ora, não querem lá ver?!
Se eu tiver dor de cabeça
Não será porque mereça
Mas porque estou a ferver...
*
Pastilhas eu não engulo…
Podem colar-se ao casulo
Da minha pobre garganta.
*
Porém, se for necessário,
Deixo aqui um corolário
Que ajude a pintar a “manta”
Helena Teresa Ruas Reis - 27/06/2021 ***
13. *
"Que ajude a pintar a manta"
Com cor que seja bem viva
Pois, se é viva, a cor cativa
Quem pela manta se encanta *
E se acaso essa cor espanta
Por ser muito apelativa,
Ga-ga-gagueja a comitiva
Que, ao olhá-la, se ataranta; *
- Mas que pre-preciosidade!
Nada vi que mais me agrade!
Que manta tão-tão-tão bela! *
Se não a confeccionou,
Di-di-diga onde a comprou,
Quanto pa-pagou por ela? *
Maria João Brito de Sousa - 28.06.2021 - 17.42h ***
14.
*
“Quanto pa… pagou por ela?”
Paguei por ela… eu sei lá
Se aquilo que valerá
Faz jus a coisa tão bela!
*
Eu até fico amarela
Por estar quase a gaguejar
Que p’ra manta apregoar
Até me falha a goela…
*
Tem colorido a preceito!
A nossa manta tem jeito
‘Inda que feita aos bocados.
*
Quem quiser igual assim
Aprenda porque aqui vim:
“Escrevesse eu sonetos gagos”!
*
Helena Teresa Ruas Reis - 27/06/2021 ***
NOTA - Tema inspirado no "Fado Mal Falado" de Hermínia Silva e no "Fado Gago" de Sérgio Godinho *
RESERVADOS OS DIREITOS DE AUTOR
publicado às 09:40
Maria João Brito de Sousa
NÃO SEI *
Coroa de Sonetos *
Custódio Montes, Maria João Brito de Sousa e Helena Teresa Ruas Reis ***
1. * Não sei o que fazer…. o que farei ?
Divago lentamente ao som da avena
Escrevo o que sair da minha pena
E aquilo que escrever logo verei *
Avanço linha a linha mas não sei
Se a peça que vier, trazida à cena
Será grande essa obra ou pequena
Para me envergonhar perante a grei *
Não sei não sei não sei…vou escrever
E tu leitor amigo vais dizer
Depois de ver e ler com atenção *
Se merece um aplauso este poema
Se só merece encomio pelo tema
Ou se nem vale dar opinião *
Custódio Montes
27.6.2021 ***
2. *
"Ou se nem vale dar opinião",
Pergunta-me o poeta companheiro
Do verso que criado a tempo inteiro,
Traz no celeiro do seu coração. *
E está pronto a glosar, que em profusão
Se vai multiplicando, bem ligeiro,
Épico às vezes, noutras mais brejeiro,
Mas jamais sem sentido e nunca em vão! *
Não sente o tal "bichinho-carpinteiro"
Que sempre exige um verso e, feiticeiro,
Faz renascer o espanto e a paixão? *
Estou certa de que o sente vir, certeiro,
Pedir verso que nasça do primeiro
E outro e mais outro... até à exaustão! *
Maria João Brito de Sousa - 27.06.2021- 13.42h ***
3. *
"E outro e mais outro... Até à exaustão!"
Porém, a exaustão não chega aqui.
Se há um que mal vê ou dói-lhe a mão,
Há outro que aparece qual escanção... *
E saboreia assim o melhor bago,
Depois de já maduro para o dente.
Poeta só degusta, num afago,
Palavras que se escapam do que sente. *
Na mesa de um café pus-me a teclar
Sorvi o dito cujo sem dar conta
Mas sei que o que paguei foi pouca monta. *
Antes que uma razão me possa achar
Agora, sem rever o que escrevi,
Receio ver-me já sair daqui. *
Helena Teresa Ruas Reis - 15.20h ***
4. *
“Receio ver-me já sair daqui”
Não fuja amiga Ruas que é bem-vinda
Porque se eu não sabia bem ainda
O que ia escrever, agora vi *
Porque este belo encontro tido aqui
É conjugar poesia bela e linda
E pôr os três autores na berlinda
E nela aqui estou, já a senti *
Poema é mesmo assim, como cereja
Seguindo-se um ao outro em peleja
Combate sim mas só de amizade *
Discute-se a palavra com certeza
Mas sendo alinhada com beleza
Com graça e também simplicidade *
Custódio Montes
27.6.2021 ***
5. *
"Com graça e também simplicidade"
Não faltando o tempero do talento,
Os versos voam mais que o próprio vento
Que hoje açoita os telhados da cidade. *
Em cada verso, um gesto de amizade
Vem galgar a distância, sempre atento,
Não vá algum de vós perder alento,
Ou eu, a habitual temeridade... *
Um verso chama o outro que, ao ouvi-lo,
Corre para o soneto e faz aquilo
Que um verso melhor faz, quando liberto; *
Se achar lugar no peito de um irmão,
Logo o abraçará num gesto são
Deixando, para os mais, um espaço aberto. *
Maria João Brito de Sousa - 27.06.2021 - 19.05h ***
6. *
“Deixando, para os mais, um espaço aberto”
Onde o talento possa prorromper
Sem nunca se cansar ou se perder,
Mesmo tendo passado pelo deserto. *
Que há mãos e pensares na amizade
Para te retirar à inacção,
Levando a construir, na emoção,
Por laços fraternais e de vontade.
*
Um verso atento a outro e a outros chama.
A muda e calma voz que assim proclama
Só ouves no bater do coração…
*
Sonoro, dentro em ti porque palpita,
É vida, e se procria, Deus permita
Que seja sempre eterna a criação.
*
Helena Teresa Ruas Reis - 27/06/2021 ***
7. *
“Que seja sempre eterna criação”
E há-de ser pois nele há liberdade
E diz o que quiser e à vontade
Pois não tem o poema um travão *
Diz o que quer e sempre com razão
Imagina e descreve a realidade
Escreve sobre o campo e a cidade
E cria um mundo novo em construção *
E a gente lê o texto que se cria
Todo o seu conteúdo e fantasia
E acha graça e fica-se contente *
E nesta criação e a inovar
O mundo ganha forma e outro andar
Com isso ganha muito toda a gente *
Custódio Montes
27.6.2921 ***
8. *
"Com isso ganha muito toda a gente"
Porquanto esta arte a todos nos eleva
E não será apenas a quem escreva,
Pois quem o ler alegra-se igualmente *
E aprende a sentir... pois quem não sente
Aquilo que um poema a ninguém nega?
Ah, todos nós sentimos esta entrega
Que o verso faz brotar, como semente. *
Assim se multiplica a poesia
Como se uma infindável sinfonia
Fosse, de geração em geração, *
Galvanizando toda a humanidade;
Reparem bem no verso que se evade,
Que voa e vem pousar nesta canção! *
Maria João Brito de Sousa - 27.06.2021 - 22.07h ***
9. *
“Que voa e vem pousar nesta canção”
Qual pássaro nos ramos do arvoredo,
Que esconde, no seu ninho, mais segredo
Que aquele que fez esta construção.
*
E as penas pequeninas a forrá-lo
De conforto e de amor bem maternal,
A terra feita em barro filial
Como argamassa forte a preservá-lo,
*
Nada são, comparand’ à fantasia
Que surge como nova melodia
Nas palavras que irrompem em registo.
*
Ficará sempre mais do que se escreve
Do que a frase ou o verso quase breve,
Riscos, rimas saídas de um rabisco.
*
Helena Teresa Ruas Reis - 28/06/2021 *** 10. *
“Riscos, rimas saídas de um rabisco”
Mas feito com a arte e a mestria
De quem olhando as coisas vê e cria
Como construção feita em obelisco *
Palavra ornamentada posta em disco
Canção que integrada em sinfonia
Enche e engrandece a alma de alegria
E sabe tão bem como um petisco *
Poemas que umas vezes divertidos
São outras bem mais sérios e sentidos
Com arte com destreza com glamor *
Tem tudo a poesia é ingente
Tem graça, sentimento anima a gente
E é também ternura paz e amor *
Custódio Montes
28.6.2021 ***
11. *
"E é também ternura paz e amor"
Isto que os nossos dedos vão criando
Enquanto os vamos, nós, (des)comandando,
Já que ninguém comanda um verso em flor *
Que voa como o vento e, ao seu sabor,
Pode ser ora forte, ora tão brando
Quanto o que a poesia for ditando
E conseguirmos, nós, depois compor... *
Então, por um momento, o tempo pára
Para dar tempo ao verso que dispara
Como uma flecha rumo ao ponto exacto *
Em que outro verso o espera e, sem saber,
Sabe contudo como o preencher,
Concretizando o que antes fora abstracto. *
Maria João Brito de Sousa - 28.06.2021 - 14.08h ***
12.
*
“Concretizando o que antes fora abstracto”,
Há coisas que a poesia nos ensina
Por vezes, não fosse ela feminina,
Tem um sexto sentido imenso e lato.
*
E vem assim amena, p’la tardinha
Na hora de uma sesta disfarçada
Em sonho bem real, duma assentada,
Trar-te-á a cor-de-rosa numa linha.
*
Tal linha contornada a ponto flor
Borda tudo a seu jeito e com amor
Remata esse bordado à perfeição.
*
Artífices dos bilros, finas rendas,
Desejo de um artista é que aprendas
E que nunca se canse a tua mão!
*
Helena Teresa Ruas Reis - 27/06/2021 *** 13. *
“E que nunca se canse a tua mão”
Mão sem género não só feminina
Masculino o poema e que rima
Da poesia gémeo e seu irmão *
Macho e fêmea a mesma condição
O poeta é assim que nos ensina
E não temos que sair dessa doutrina
Que une e agiganta o coração *
Mas mais “não sei” agora o que dizer
O pensamento está-me a esmorecer
E vou deixar que outrem esclareça *
Talvez eu já não veja ao redor
E quem venha a seguir veja melhor
Dando a opinião que lhe pareça *
Custódio Montes
28.6.2021 ***
14. *
"Dando a opinião que lhe pareça"
Mais própria deste tema e do momento,
Chega o próximo verso muito atento
(que um verso sempre cumpre uma promessa!) *
Isto vos comunica e vos confessa
O verso - ora em sorriso, ora em lamento -
Que ainda que fervilhe em sentimento,
É fiel à harmonia que professa. *
E agora que está quase a terminar
O soneto que assim o fez cantar
Bem mais alto e melhor do que eu sonhei, *
Não pára o verso de me pressionar
E a cada instante vem-me perguntar;
"Não sei o que fazer... o que farei?" *
Maria João Brito de Sousa - 28.06.2021 - 18.42h ***
(Reservados os Direitos de Autor)
publicado às 08:52
Maria João Brito de Sousa
GATILHOS ***
COROA DE SONETOS ***
Helena Teresa Ruas Reis e Maria João Brito de Sousa ***
1 *
Não apontes gatilhos para os céus
Que o pássaro que voa é também teu.
Não sabes porque voa, nem sei eu,
Mas deixa-o voar, até ver Deus… *
À mosca pequenina não a mates,
Enxota-a p’la janela com cautela,
Se existe, haverá quem a use a ela.
P’lo incómodo que dá é que lhe bates? *
Humano ou ser-humano, afinal qu’ és?
Bicho racional… por que razão?
Por ter inteligência, coração? *
À natureza julgas a teus pés,
Que só para ti é tudo o que vês!
Cuidar dela tem eco em teus porquês? *
Helena Teresa Ruas Reis - 16/10/2020 ***
2 *
"Cuidar dela tem eco em teus porquês(?)",
Ou tens empedernido o coração
E não sabes amar nem o que vês?
Não saberás, então o que é razão! *
Um sem a outra, ou um de cada vez,
Não saberão cumprir sua função;
Coração sem razão será talvez,
Um ógão que traz malformação... *
Cuidado, nunca apertes um gatilho
Por muito tentador que seja o brilho
Do troféu que do tiro possa vir *
E tem também cuidado c`o rastilho
Não venhas a arranjar algum sarilho;
Quando activada, a bomba irá explodir. *
Maria João Brito de Sousa - 16.10.2020 - 14.47h ***
3 *
“Quando activada a bomba irá explodir”
E o pobre coração, sem ter razão,
Se vê num descompasso, a decair,
Que o peito sem um pleito é já prisão. *
Enferruja o gatilho e se desarma!
Fibrilhação sem fé, desordenada,
Cá dentro despoleta como uma arma
Um rastilho que explode. Fica o nada. *
Que resta da manhã em seu esplendor
Se nada vês, tolhido já de dor
Tu que ias ainda agora tão lançado. *
Mais vale sossegar desse furor,
Sentir que ter cuidado é amor!
Mais vale sossegar bem sossegado. *
Helena Teresa Ruas Reis - 16/10/2020 - 20.24h *
4 *
"Mais vale sossegar bem sossegado"
E amainar um pouco esse alvoroço
De correr como um tonto apaixonado;
- Senhora, bem sabeis que nada posso *
Contra este meu pulsar descompassado,
Que sempre me apaixono como um moço!
- Ah, coração, que ficas destroçado
E que a mim me transformas num destroço! *
- Que hei-de fazer, senhora, se estou vivo
E se da poesia estou cativo
Por mor de um "fogo que arde sem se ver"? 1) *
- Corre então, coração. Não mais te privo
Desse amor que te aperta como um crivo;
És o gatilho que me irá perder!
*
Maria João Brito de Sousa - 16.10.2020 - 21.02 h *
1) Alusão ao soneto "Amor é Fogo que Arde sem se Ver" de Luiz Vaz de Camões. ***
5 *
“És o gatilho que me irá perder”
N’ aquela triste e leda madrugada
Em que, querendo, já não possa ver
Nem decorrer do dia nem noitada. *
Oh, aves do meu voo p’ra viver
Levai-me! Levantai-me dessa estrada!
Lá do alto tudo posso conhecer,
A águia guerreira ou a cigarra. *
Hei-de ver todo o mundo num começo,
À bela natureza que estremeço,
Ao planar com as asas da aventura. *
Se de novo te usar, ó terra, peço:
Que seja eu perdoada, se mereço,
Mas não mais te darei qualquer tortura. *
Helena Teresa Ruas Reis - 17/10/2020 - 10,18 h ***
6 *
"Mas não mais te darei qualquer tortura"
Disseste, engatilhado coração;
Sei bem que essa intenção é franca e pura,
Mas sabes tu fugir duma paixão *
Se és como fruta que não está madura,
Se vais pulsando em louca incontenção,
Se sobre mim exerces ditadura
E, sem razão, me privas da razão? *
Terás o monopólio da loucura?
Serás senhor da tua própria cura,
Ou escravo dessa eterna frustração? *
Gatilho és... e à beira da ruptura
Com o tempo que, assim, pouco te dura;
Não tarda, acabarás na tal explosão! *
Maria João Brito de Sousa - 17.10.2020 - 10.59h
***
7 *
“Não tarda, acabarás na tal explosão”
Bem como esse planeta já cansado.
Inconsequente e pobre coração,
Tu sempre serás meu apaixonado! *
A ciência é vã como ilusão…
Um só impulso vence o mais letrado.
Pensar que estás em mim é perdição,
Pois és somente um músculo alheado. *
Engatilhar-me-ei? Digo que não!
Dei tempo ao tempo, sou nova estação,
Passei calor e o frio mais gelado. *
Em voos, não temi, cruzei trovão,
Contigo padeci, pássaro irmão,
Assim, hoje me sinto renovado. *
Helena Teresa Ruas Reis - 17/10/2020 - 22,09 h ***
8 *
"Assim hoje me sinto renovado"
Mas se não fosse a Ciência reconheço
Que há muito que estaria condenado;
Dela estou dependente e pago o preço * Que um músculo serei mas, se parado,
Tudo pára comigo. E recomeço...
À ciência devo este pulsar descompassado
Menos mau que a paragem que não esqueço. *
E o longo vôo no qual me despeço
Do muito ou pouco que de mim conheço
E do tanto que amei demasiado. *
Mais do que isto não posso, nem mereço;
Nasci, cresci... estou gasto e já cansado
De impulsionar um sangue velho e espesso. *
Maria João Brito de Sousa - 18.10.2020 - 11.08h
***
9 *
“De impulsionar um sangue velho e espesso”,
Das veias entupir com inclemência?
Tudo isso viraria pelo avesso
Se no vício usasse de prudência. *
Terei de dar-lhe um novo recomeço
Ou nem me salvará a providência…
Coragem (!) ou desmaio e desfaleço
À míngua de alento e apetência. *
Como terá um músculo indulgência
Como há-de ‘inda usar de sapiência
Em meio ao sobressalto e ao tropeço? *
Pois digo-lhe: Sou eu, mesmo em demência,
Quem buscará salvá-lo em abrangência.
P’lo lema que adoptei, não desfaleço! *
Helena Teresa Ruas Reis - 18/10/2020 - 17,25 h *** 10 *
"P`lo lema que adoptei, não desfaleço(!)"
Mas engatilha o SAAFs o meu pulsar
Congénito, certeiro e sem apreço
Pelo que eu decidir, ou não, tomar. *
Sou um ser racional e tudo meço
Mas do que em mim trazia ao despontar
Ninguém me perguntou se tal começo
Estaria, ou não, disposta a enfrentar. *
Lá trouxe, engatilhado, este defeito
Que não se manifesta só no peito,
Mas todo o corpo deixa em tal mau estado *
Que só se for tratado com preceito
Vai deixando viver quem está sujeito
Ao defeito que trouxe engatilhado *
Maria João Brito de Sousa - 18.10.2020 - 18.15h
***
11 *
“Ao defeito que trouxe engatilhado”
Sem para tal ser perdido ou ser achado,
Feia a doença e feio o nome dado
Como se fosse fruto de pecado, *
A toda a natureza que se expressa
Com um tiro zangado que arremessa
Ao local onde atinja bem depressa
Aquele alvo, de culpa não confessa, *
Respondo, que não pode interferir
Esse mesmo que irias atingir.
Pode somente, como bem o sabes, *
Fazer-te ter vontade, ultrapassar,
Querer ainda assim retaliar
E será bem possível que te SAAFS… *
Helena Teresa Ruas Reis - 18/10/2020 - 22,30 h *
12 *
"E será bem possível que te SAAFS",
E que, com sorte, vivas uns aninhos
Lucidamente, sem cometer gafes,
Sem que troques os ovos pelos ninhos *
Ainda que, por vezes, tu agrafes
Desalinhadamente uns papelinhos
E que ao lavar dois pratos tu te estafes
Tanto quanto em escalada aos Capelinhos... *
Repara, engatilhado coração,
Que ambos vamos na mesma direcção;
Eu não vivo sem ti e tu, sem mim, *
Não serves pra ninguém. Fosses tu são!
Mas furado e depois cerzido à mão...
Nem para doação serves, assim! *
Maria João Brito de Sousa - 19.10.2020 - 11.28h ***
13 *
“Nem para doação serves, assim!”
E já que és meu, vamos disfrutar.
Se foi pela natureza que aqui vim,
De ti e também dela vou cuidar. *
Perdoa que te estafe só um pouco...
Voando até Paris vou viajar.
Irás à Torre Eiffel quase em sufoco
Nos versos do soneto eu hei-de amar! *
De lá de cima o Mundo. Uma vertigem…
O receio que a tudo nos infringem
Dará visão magnânima da vida. *
Nos versos dirimindo o medo virgem,
Mais alto que montanha as rimas cingem
A força de vontade não contida. *
Helena Teresa Ruas Reis - 20/10/2020 - 10,40 h ***
14 *
"A força de vontade não contida"
Engatilha-me os versos desarmados
E reconduz-me ao longo desta vida
Não sei se inteiro, se feito em bocados *
Que indomado serei. Vendo saída
Não me detenho sobre estes telhados;
Muito mais alto vôo de seguida
E dou comigo em céus não navegados *
Sem bússola, nem leme ou capitão
Que dome esta loucura, esta paixão
De voar inda além dos sonhos meus. *
Humano sendo, esta contradição
Não me impede de impor-te este senão:
"-Não apontes gatilhos para os céus"! *
Maria João Brito de Sousa - 20.10.2020 - 11.20h
publicado às 10:19
Maria João Brito de Sousa
DIZEM QUE MORREU... *
Coroa de Sonetos *
Maria João Brito de Sousa e Helena Teresa Ruas Reis * 1 *
Usado, adulterado, gasto e morto
Está o velho soneto. Dizem, dizem...
Outras mãos haverá que o enraízem
Que as minhas, hoje, pedem-me o conforto *
De uma tarde serena. Olhar absorto,
Peço às horas que passem, que deslizem,
Que, em fraçcões de segundo, mimetizem
A paz da barca que chega a bom porto. *
Desse instante de paz nasce-me um verso
(sei lá quantos segundos já lá vão...)
E agora o que ambiciono é o inverso *
Dessa paz que me vem da reflexão;
Parem, mentiras, de embalar meu berço,
Que o soneto está vivo e forte e são!
*
Maria João Brito de Sousa - 09.10.2020 - 12.10h ***
2 *
“Que o soneto está vivo e forte e são”
A Maria João e outros o digam,
Basta olharmos as flores que germinam
Em quadras e tercetos do seu chão *
Pétalas atiradas por magia
Do caule das palavras que as sustêm
Procurando p’la vida, mal ou bem,
Nos entrançados versos da Poesia. *
Instantes de surpresa, de sucesso
Adornam um jardim assaz composto,
Voraz e criativo à luz de um verso *
Qu’ ao lê-lo um outro surge a nosso rosto
E em rimas nos arrima num progresso
Em bagos madurados, fresco o mosto. *
Helena Teresa Ruas Reis ***
3 *
"Em bagos madurados, fresco o mosto"
Destilando-se o néctar das ideias,
Enreda-me o soneto em suas teias,
Ressurge em graça o formato deposto. *
Soube-me o seu soneto ao sol de Agosto,
Ao sal do mar, às conchas, às areias
Que são beijadas pelas marés cheias
Deste estuário de que tanto gosto! *
Cante o soneto, cante-o como um hino
De revolta ou de amor, que tanto faz;
Ninguém pode mudar o seu destino *
Pois cabe nele o mundo! Em si o traz
Ainda que pareça pequenino,
Mesmo que o julguem velho e incapaz!
*
Maria João Brito de Sousa - 10.10.2020 - 12.25h *** 4 *
“Mesmo que o julguem velho e incapaz”,
Mais insignificante ou alheado
Que pó ou grãos de areia no sobrado
Varridos pelo vento mais voraz *
Trazidos desde o mar pelas palavras
Em espuma que as fustiga, em desatino,
Como se fossem algo clandestino
E não essa poesia que desbravas *
Eu juro em boa-fé que o vou cuidar
Tentando pela Musa segurá-lo,
Assim consiga eu não soçobrar *
Que a onda que mo traz pode levá-lo.
Quando inda muito pouco eu sei nadar
Num pouco só de mim posso afundá-lo…
Helena Teresa Ruas Reis *** 5 *
"Num pouco só de mim posso afundá-lo"
Para num outro nada reerguê-lo,
Renovado, pujante, honesto e belo,
Que pela Terra inteira há que espalhá-lo. *
Paremos um segundo. Este intervalo
Bastará pra gerar novo novelo;
Haverá que fiá-lo e que tecê-lo
Até que ambas voltemos a dobá-lo *
Treze anos vivi para servi-lo,
Mais treze viveria se pudesse
E a razão me deixasse garanti-lo... *
Nasce a vida dum fio que se não tece;
Se algumas são tão longas quanto o Nilo
Outras se acabam mal o fio comece. *
Maria João Brito de Sousa - 10.10.2020 - 16.33h ***
6 *
“Outras se acabam mal o fio comece”
São vidas bem mais breves que um poema
Pois elas dão-se à morte sem problema
E aquele quando finda permanece *
Pois há um não sei quê que se assegura
Jamais ser olvidado em seu sentido
E parecendo ainda estar contido
Emerge em erupção da cerviz dura. *
Não sonhe o pensamento em abolir
Aquilo que na alma tem raiz
Ou de si mesmo tinha de sorrir… *
Na dor ou na revolta em crescimento
Pode um Soneto ter sua matriz
Mas é de Amor e Vida o seu alento. *
Helena Teresa Ruas Reis ***
7 * "Mas é de Amor e Vida o seu alento"
E é da força imensa em si contida
Que o soneto renega a despedida
Pra renovar-se em graça e em talento. *
Em si se abraçam Alma e Pensamento
De uma forma nunca antes conseguida
E cresce a poesia em força e vida
Enquanto amaina o próprio sofrimento. *
Porém ópio não é que em lucidez
É rico como poucos... tudo of`rece!
Se num momento gera embriaguês *
Logo a seguir demonstra que não esquece;
Responde a quase todos os porquês,
E quando o repreendem nem estremece.
*
Maria João Brito de Sousa - 11.10.2020 - 13.52h *** 8
*
“E quando o repreendem nem estremece"
Tão certo está de si, do que revela,
Sabendo que nos versos o que sela
É mais do que num todo nos of’rece. *
A cada qual que lê ele aparenta
Ser coisa tão diversa e solitária
Que ao próprio até surge solidária
Mas, mais que a esse, a outros acrescenta. *
Entendo como ópio o tal efeito
Que enleia na leitura quem o lê
Tornando-se um anseio já eleito *
Mas se este é uma droga eu sei porquê:
Apanha-nos a estrofe com seu jeito
Revemo-nos com ela e ela vê! *
Helena Teresa Ruas Reis ***
9 *
"Revêmo-nos com ela e ela vê "
E perante esse enlevo carinhoso
Torna-se bilha de barro poroso
Em que outrem crê bem mais do que ela crê. *
Do que recebe, bem certo é que dê
Em dobro, inda que em gesto vagaroso
Faça jorrar um verso já penoso
Porquanto o sol desmaia e pouco vê. *
Toda dádiva viva se o sol brilha,
Esmorece ao lusco-fusco da tardinha
A estrofe transmutada numa bilha *
De puro barro que agora se alinha
Para of`recer-te a água da partilha;
Dá-me dessa água, que eu já dei da minha! *
Maria João Brito de Sousa - 11.10.2020 - 17.11h *** 10 *
“Dá-me dessa água, que eu já dei da minha”…
Aguadeira serei, por quem o manda,
Se o soneto não me der uma desanda
Caindo-me essa água p’la bordinha. *
Ainda tornarei para a encher
Falando-lhe ao cuidado e ligeirinho,
Pode ser que ao sentir o meu carinho
‘stremecida ela queira se conter. *
Perdoa estrofe, assim estropiada,
De aproveitar o pouco que te sobra
Enchendo-te eu a bilha desse nada… *
As gotas lacrimejam na manobra
Mas eu sinto-me pura, renovada,
Por fazer através delas uma obra. *
Helena Teresa Ruas Reis ***
11 *
"Por fazer através delas uma obra"
Feliz fiquei e mais que saciada!
Garanto que não peço hoje mais nada;
Acabo de beber água de sobra! *
Hoje o soneto nada mais me cobra
Pois sabe bem que estou muito cansada;
Para estes olhos meus é madrugada,
A hora em que Morfeu me vence e dobra... *
Já o soneto arrulha aos meus ouvidos,
Já o verso se perde em nebulosas
Manchas inacessíveis aos sentidos; *
Só nuvens, muitas nuvens vaporosas
Sobre os meus versos quase adormecidos
Vêm saudar-me as pálpebras teimosas. *
Maria João Brito de Sousa - 11.10.2020 - 20.55h
***
12 *
“Vêm saudar-me as pálpebras teimosas”,
Das linhas mais perfeitas as que ousei
Glosar neste jardim em que passei
Buscando um qualquer pão tornado rosas.
*
Milagre que proponho à santidade,
Encíclica que quero publicada.
Soneto é pr’a mim coisa sagrada,
Aquela que nos toca de verdade.
*
Perdoe-me o papado se ajuízo,
Se elevo a voz ao Céu agradecida
Toldada num sentir menos conciso.
*
É que me sinto já embevecida
Por encontrar a forma que preciso,
De elevar, qual Soneto, a minha vida.
*
Helena Teresa Ruas Reis - 11/10/2020 ***
13 *
"De elevar, qual soneto, a minha vida"
É um milagre ao qual nunca resisto;
Poucas coisas tão belas tenho visto,
Nenhuma me deixou tão comovida. *
Sei bem que estou à beira da partida,
Mas se mais um soneto, um só, conquisto
Fico a saber que para isto existo;
Escolhi pelo soneto ser escolhida! *
Embora sonolenta e fatigada
Vão-me os versos fluindo, formam fios
Que irão depois formar uma meada... *
São, os sonetos, longos como rios;
Sobre um dos rios flutua uma jangada
Sobre a qual vão meus doces desvarios... *
Maria João Brito de Sousa - 11.10.2020 - 22.49h
***
14
* “Sobre a qual vão meus doces desvarios”
Arrimados nos remos dum quebranto,
Saboreando, às ondas, o encanto
Marinado por ébrios delírios.
*
Desde a nascença, em verso estruturado,
Sou tal qual uma criança que procura
Um pouco de afeição ou de ternura
Que consiga levar a todo o lado.
*
E os risos e as dores se confundem,
As traquinices faço, não me importo,
Que o tempo decompõe ou faz que mudem.
*
Serei Soneto, ainda em desconforto
Nas pautas musicais que afora fluem,
“Usado, adulterado, gasto e morto”!
*
Helena Teresa Ruas Reis - 12/10/2020
***
publicado às 10:33