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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
12
Dez17

DEUSES SOMOS NÓS!

Maria João Brito de Sousa

Ary dos Santos.jpg

"Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis, homens e poetas"

 

Ary dos Santos

 

 

Glosa

 

"Deuses somos nós!"

 

 

"Pensando nos secamos e perdemos"

Mas, não pensando, iremos na colecta

Do que outrem, mais astuto, nos prometa

E que, no fundo e sem saber, já temos;

 

"Esta força selvagem e secreta"

Em que, hora a hora, nos reacendemos

Já que concretamente a concebemos

Abstracta, de aparência, mas concreta,

 

"Esta semente agreste que trazemos"

Nesta barca de espanto, em seus dois remos,

Na vela que reclama hastes erectas

 

"E gera heróis,(e) homens e poetas"...

Eis quanto nos define. O que seremos?

Dessa mesma matéria o talharemos!

 

 

Maria João Brito de Sousa - 22.06.2017 – 16.48h

 

In “ERA UMA VEZ UM POETA...



ARY DOS SANTOS, UM POETA ORIGINAL”



Antologia Horizontes da Poesia, 2017, Euedito



 

 

 

23
Out17

GLOSANDO A POETISA MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE - LUAS...

Maria João Brito de Sousa

Le Berceau - Berthe Morisot.jpg

 

NA PENUMBRA PINTADA PELA LUA

 

 

É teu corpo um soneto que imagino

Que escrevo tantas vezes e, adormeço

No verso que o percorre peregrino

Por curvas e caminhos que conheço

 

Outros versos me levam ao destino

Quando as horas me acordam e te peço

Que completes um tal verso ladino

E dês ao meu poema recomeço

 

Na penumbra pintada pela lua

Crescem versos da rima quente e nua

Que fazem a beleza dessa escrita

 

Sem haver da manhã sequer vislumbre

Declamo cada verso com deslumbre

Quando de mim se abeiram em visita

 

 

MEA

23/10/2017

 

************

 

NUM RECANTO QUALQUER DO MEU PASSADO

 

 

“É teu corpo um soneto que imagino”

Recolhido num berço, eternizado

Pela minha memória, meu menino,

Num recanto qualquer do meu passado.

 

“Outros versos me levam ao destino”

Desse bercinho em mim cristalizado,

Mas sempre que te evoque, pequenino,

Estarás presente, embora em tempo errado;

 

“Na penumbra pintada pela lua”,

Abres porta e sais comigo à rua

Num gesto rotineiro e natural.

 

“Sem haver da manhã sequer vislumbre”,

Espero que o sono volte e me deslumbre,

Passando, em vez de sonho, a ser real...

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 23.10.2017 – 17.05h

 

 

Imagem - "Le Berceau", Berthe Morisot

 

29
Ago17

GLOSANDO JOÃO MOUTINHO II

Maria João Brito de Sousa

Julio.jpg

 

SONHO SOLTO

 

Sento-me, só, no colo das ideias

Do verso branco que não sei parar…

Sinto o dilatar de todas as veias

Que pulsam em mim, sem me sossegar

 

Todos os elos, todas as cadeias,

Todas as ondas me vão navegar

E desaguar nas mesmas areias

Do mesmo sol-pôr, do mesmo luar

 

Cavalgo as marés da tua ternura

Nas dunas de pele que quero sorver…

Saciando a sede na tua candura

 

O sonho só solto ao anoitecer

No amanhecer da minha loucura

No verso de amor que não vou escrever

 

João Moutinho



POR ELA



“Sento-me, só, no colo das ideias”,

Enlaço-me nos braços da Razão

E, apagada a chama das candeias,

Confronto a minha humana condição;



“Todos os elos, todas as cadeias”,

Todas as formas de escravização,

São coisas que não sabes, mas premeias,

Não por palavras, mas por omissão.



“Cavalgo as marés da tua ternura”

Quando descanso e sempre que puder,

Mas assim que a Razão sonda e perfura



“O sonho só solto ao anoitecer”,

É por ela que aceito esta ruptura

E, por ela, só dela passo a ser.

 



Maria João Brito de Sousa – 28.08.2017 – 11.58h

 

 

Desenho de Júlio (irmão do poeta José Régio)









 

23
Ago17

GLOSANDO A POETISA MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE - Poetas

Maria João Brito de Sousa

heaven.jpg

 

QUERIA SER POEMA

 

Queria ser poema, não poeta

Poema que espalhasse afecto e amor

Por todos os recantos do planeta

Onde se dita a guerra, se faz dor

 

Poema que escorresse da caneta

De qualquer presidente ou ditador

Que ao assinar metesse na gaveta

Tal decreto com fim exterminador

 

Queria ser poema no luar

Para poder à noite iluminar

Quem nada tendo dorme na calçada

 

Poema só com versos de amizade

De alegria, prazer felicidade

Lidos em cada triste madrugada

 

 

MEA

14/08/2017



UNOS, AINDA QUE SÓS



“Queria ser poema, não poeta”,

E tantas, tantas vezes o sonhei

Que acabou por ser essa a minha meta

Quando, ao último verso, enfim cheguei.



“Poema que escorresse da caneta”

Como sangue da carne em que o gerei,

Que me deixasse grávida e repleta

Do tanto que perdi quando me dei.



“Queria ser poema no luar”,

Ou verso apenas, sob a luz solar,

Mas sempre sob um sol de todos nós.



“Poema só com versos de amizade”

Que nunca nos negasse a liberdade

De sermos unos, mesmo estando sós.





Maria João Brito de Sousa – 23.08.2017 – 10.21h

 

(Imagem retirada do Google)

 

21
Ago17

GLOSANDO MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE - Barquito/Jangada

Maria João Brito de Sousa

JANGADA DE SONHOS.jpg

UM BARQUITO NO TEJO



Lá ao longe nas águas cor de prata

Onde o sol se refresca ao fim do dia

E onde o Tejo convida uma fragata

Vai um barquito, só...sem companhia

 

Vai sereno na sua passeata

Deslizando em reflexos de poesia

Sob a ponte onde a água é mais pacata

Quando a tarde é já cor de fantasia

 

Parece quedo ali ao meio do rio...

Somente o balouçar lento e macio

Denota que ele vai a navegar

 

De vela içada segue o seu destino

E ao leme leva um sonho de menino

Feito de sol de brisas e de mar

 

MEA
20/08/2017



********

JANGADA DE SONHOS



“Lá ao longe, nas águas cor de prata”,

Flutua uma jangada aventureira

Humilde, porque toda se recata,

Sem âncora, sem rumo e sem fronteira.



“Vai sereno/a na sua passeata”,

Ao sabor das marés voga ligeira;

Só nas cristas das ondas se retrata

E só no azul do céu se espelha inteira.



“Parece quedo/a, ali, ao meio do rio”,

Onde não passa mais nenhum navio;

O mar que a espera é seu, de mais ninguém!



“De vela içada segue o seu destino”

Deixando atrás de si o rasto fino

Do sonho com que ousou deixar Belém.





Maria João Brito de Sousa – 21.08.2017 – 10.44h

 

 

19
Ago17

GLOSANDO CHICO BUARQUE

Maria João Brito de Sousa

MENINA SENTADA - PORTINARI.jpg

 

SONETO



Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono?

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo?

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída?

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio?



Chico Buarque



SONETO II



Porque vieste assim, louco e sem dono,

Falar-me de mil coisas nunca ouvidas

E me afagaste com mãos decididas,

“Quando eu estava bem, morta de sono?”



Porque bateste à porta, manhã cedo,

E me ofuscaste em luz, na luz que entrava

Por essa mesma porta que eu fechava,

“Quando eu estava bem, morta de medo?”

 

Porque é que me quiseste dividida,

Se inteiro preencheste este meu rio

“E me deixaste só, com que saída?”



Porque foi que sorveste cada fio

Duma água que jamais fora bebida,

“Quando eu estava bem, morta de frio?”





Maria João Brito de Sousa – 18.08.2017 – 19.41h



(Neste segundo soneto, todos os versos que se encontram entre aspas são da autoria de Chico Buarque)

 

"Menina Sentada" - Portinari

 

27
Jul17

GLOSANDO ALBERTINO GALVÃO II (?)

Maria João Brito de Sousa

TEMPO II.jpg

 

TEMPO INSENSÍVEL



Soneto em versos de 11 sílabas (os meus preferidos)

 

A noite caíra encobrindo a cidade
E as poças que a chuva da tarde fizera!
Da minha janela soprava-me a espera
Enquanto embalava, no colo, a saudade

 

Inspirei, absorto, a fria humidade
Soltei o soluço que em mim retivera
Pensando que bom, oh meu Deus quem me dera
Ter hoje e agora quinze anos de idade

 

Mas sendo insensível o tempo não trava
A louca corrida que o relógio grava
E segue somando minutos e anos

 

Indif’rente a sonhos desejos e planos
Lá vai me lembrando que ele ao ir passando
De mim vai também minha vida levando.

 

Abgalvão (in Palavras com Alma)





BAIXOS-RELEVOS



(em versos de onze sílabas métricas)



“A noite caíra encobrindo a cidade”

Que em sombras desvenda seus becos, vielas,

Seus prédios mais altos e suas capelas

Que, de alvas, brilhavam sob a claridade.



“Inspirei absorta a fria humidade”,

Chorei sob um céu sem lua, nem estrelas,

Onde nada brilha... nem um rasto delas

No intenso negrume que agora me invade,



“Mas sendo insensível, o tempo não trava”

A lágrima em fuga que escorre e que lava

Memórias doridas, doridos enganos,



“Indif`rente a sonhos, desejos e planos”,

Prossegue incansável nas marcas que grava

E nem se dá conta de ter-me por escrava...





Maria João Brito de Sousa – 26.07.2017 – 14.45h

 

Imagem retirada do Google

 

26
Jul17

GLOSANDO A POETISA MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE (cinquenta e nem sei quantos...)

Maria João Brito de Sousa

Velha com gatos - google.jpg

 

COLHI CACHOS DE SOL

 

Colhi cachos de sol já à tardinha

E juntei-lhe uma fruta bem madura

Com água, gelo e gim. Fiz caipirinha

Que fui bebendo em copos de ternura

 

No olhar ficou em jeito de adivinha

O fulgor que o sol pôs nesta mistura

Senti-me ao fim da tarde uma rainha

Dourada como a mais bela escultura

 

Já a lua vestia de cambraia

Descalça entrei nas ondas duma praia

E apanhei nelas véus de renda fina

 

Cobri o rosto e andei sem rumo exacto

Pensamento vazio olhar abstracto

Nos pés descalços asas de menina

 

MEA

22/07/2017



***********

 

 

FAMILIAR(IDADES)...



“Colhi cachos de sol já à tardinha”,

Gomos de lua cheia e reluzentes

Bagos, desses que brotam duma vinha

De que outros se embebedam, desistentes...



“No olhar ficou um jeito de adivinha”;

Sabes, de saber feito, ou só pressentes,

De mim, quanto era meu? Que me mantinha

Assim, perseverante, entre indif`rentes?



“Já a lua vestia de cambraia”

Quando, no horizonte, o sol desmaia

E, fascinada, então, pelo poente,



“Cobri o rosto e andei sem rumo exacto”

Encontrando um irmão em cada gato

E, em cada cão sem dono, outro parente...





Maria João Brito de Sousa – 26.07.2017 – 11.25h

 

12
Jul17

AINDA GLOSANDO FLORBELA ESPANCA III

Maria João Brito de Sousa

medo.jpg

 

RENÚNCIA



A minha mocidade há muito pus
No tranquilo convento da tristeza;
Lá passa dias, noites, sempre presa,
Olhos fechados, magras mãos em cruz...

Lá fora, a Noite, Satanás, seduz!
Desdobra-se em requintes de Beleza...
E como um beijo ardente a Natureza...
A minha cela é como um rio de luz...

Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada!
Empalidece mais! E, resignada,
Prende os teus braços a uma cruz maior!

Gela ainda a mortalha que te encerra!
Enche a boca de cinzas e de terra
Ó minha mocidade toda em flor!

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

 

 



AFIRMAÇÃO

 

“A minha mocidade há muito pus”

No cantinho das coisas já passadas

Que guardo, dia a dia acumuladas,

Porque só a memória as reproduz...

 

“Lá fora, a noite, Satanás seduz!”

Mas eu que, renegando almas penadas,

Observo as gentes tristes e cansadas,

Deduzo cada medo que as traduz;

 

“Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada!”

- Só fecho os olhos quando, atordoada,

Possa o sono nublar-me a lucidez!

 

“Gela ainda a mortalha que te encerra!”

- E eu quero lá saber de quem me enterra,

Se morro por chegar a minha vez?!

 

 

Maria João Brito de Sousa – 12.07.2017 - 16.26h



 

 

24
Jun17

GLOSANDO JOÃO MOUTINHO

Maria João Brito de Sousa

13373039261.jpg

 

AGORA II

 

Agora, diz-me tudo o que quiseres

Agora, é o momento de sentir

Agora, não desfolho malmequeres

Agora, é o instante de sorrir

 

Agora, é uma pressa que tu queres

Agora, é outro passo no porvir

Agora, é outra seta que desferes

Agora, nem me chegas a ferir

 

Agora, já passou, já é futuro

Agora, foi o tempo que perdi

Agora, se quiser, posso ser puro

 

Agora, não importa o que vivi

Agora, já não posso ser mais duro

Agora, já não sei viver sem ti

 

 

João Moutinho



MORDENDO O ALHEIO FRUTO



“Agora, diz-me tudo o que quiseres”,

Agora, e não depois, te glosarei,

Agora, bem sabendo que preferes

Que apenas prove e diga que gostei.



“Agora, é uma pressa que tu queres”

E foi precisamente onde eu parei,

Agora, vou esquecer quanto opuseres

Aos versos que, na pressa, te roubei.



“Agora, já passou, já é futuro”

Agora, sem pedir - nada pedi... -,

Tomo posse daquilo que capturo.



“Agora, não importa o que vivi”,

Mordo o poema urgente e já maduro

Que sem pedir licença aqui colhi.





Maria João Brito de Sousa – 24.06.2017 - 09.15h

 

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