Maria João Brito de Sousa
ESTE LIVRO
Este livro é de mágoas. Desgraçados,
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode talvez senti-lo... e compreendê-lo.
Este livro é pr`a vós. Abençoados
Os que o sentirem, sem ser bom, nem belo!
Bíblia de tristes, ó Desventurados,
Que a vossa imensa dor se acabe ao vê-lo!
Livro de Mágoas... Dores... Ansiedades!
Livro de Sombras, Névoas e Saudades!
Vai pelo mundo... (trouxe-o no meu seio...)
Irmãos na dor, os olhos rasos de água,
Chorai comigo a minha imensa mágoa,
Lendo o meu livro só de mágoas cheio!
Florbela Espanca
In "Livro de Mágoas"
ALMAS GÉMEAS
Destes sonetos meus, que ousei escrever,
Também brotaram mágoas - porque não? -,
Mas muito além da mágoa, vi nascer
Uma mesma incomum comum paixão
E da mesma paixão nos vi morrer...
Entendo-te a precoce rendição,
Irmã dos mil sonetos que eu tecer
Pr`além dos que me nascem sem razão,
Mas como condenar-ta, se entender
Que a dor que te matou teve a função
De engendrar teus sonetos? Que fazer,
Se te bendigo a própria maldição?
Florbela, eu que te sei, sem te saber,
Como glosar-te, assim? Sonhei-te, então?
Maria João Brito de Sousa - 07.11.2016 - 13.58h
(Inédito, respondendo ao soneto "Este Livro", de Florbela Espanca)
publicado às 16:20
Maria João Brito de Sousa
MARIA DAS QUIMERAS
Maria das Quimeras me chamou
Alguém... pelos castelos que eu ergui,
Plas flores de oiro e azul que a sol teci
Numa tela de sonho que estalou...
Maria das Quimeras me ficou;
Com elas na minha alma adormeci,
Mas quando despertei, nem uma vi,
Que da minh`alma Alguém tudo levou!
Maria das Quimeras, que fim deste
Às flores de oiro e azul que a sol bordaste,
Aos sonhos tresloucados, que fizeste?
Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?
Aonde estão os sonhos que sonhaste,
Maria das Quimeras, sem quimeras?
Florbela Espanca
In "Livro de Soror Saudade"
MARIA SEM CAMISA
Maria sem Camisa, chamo-me eu,
Usando de ironia - ou talvez não... -
E espelhando, no nome, a condição
Do pouco, ou quase nada, que há de meu...
Desse ´baptismo` insólito nasceu
- não saberei dizer por que razão... -,
Da vossa parte, alguma confusão,
Da minha, a força hercúlea que me ergueu,
Pois, sem camisa, embora enregelada,
Sobrevivo há ´milénios`, produzindo,
E de oiro(s) me cobri, não tendo nada;
Das infindas carências vão surgindo
Os versos que, no metro bem escorada,
De oiro e de seda azul, me vão cobrindo...
Maria João Brito de Sousa - 30.10.2016- 17.00h
(Inédito, respondendo ao soneto "Maria das Quimeras", de Florbela Espanca)
publicado às 09:15