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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
19
Mar10

O CAPÍTULO QUE ME ESQUECI DE LER

Maria João Brito de Sousa

manual.jpg

Não, mãe. Não tenho remorsos. Peço imensa desculpa, mas não tenho. Bem... talvez tenha tido daquela vez em que estraguei a mochila velha para que o pai me comprasse aquela linda, linda, que combinava às mil maravilhas com o cheiro das aparas de lápis e a textura do papel Almaço que eu teimava em levar comigo para toda a parte... que idade tinha eu? Quatro, cinco anos?

Lembro-me de ter pegado na tesoura, lembro-me daquele apertozinho no coração - talvez lhe chamasses peso na consciência - que senti quando cortei uma das correias. Não foi fácil. As correias eram resistentes e as minhas mãos eram tão pequeninas... mas o que custou mais foi a mentira.

- Pai, a mochila velha estragou-se...

Vi-o observar serenamente a velha sacola. Ainda hoje não sei se percebeu logo o que se passava, mas penso que sim... agora. Na altura disse-me, calmamente, que iríamos, nessa tarde, comprar uma nova.

Fui desenhar para o quarto de brinquedos, mas não estava feliz. Nada feliz. Era estranhíssimo porque me imaginava a criança mais feliz do mundo no dia em que pudesse abraçar, cheirar, manipular uma mochila novinha em folha... no entanto estava muito, muito longe de estar feliz. Muito pelo contrário. Esvaíra-se-me em coisa nenhuma aquela antecipação do objecto cobiçado e as mãos haviam-se-me tornado tão pesadas que as linhas não fluíam em contornos humanos, como nãs manhãs de todos os dias. Levei algum tempo a consciencializar, mas acabei por perceber tudo. Mais uns minutos com as mãos que me pesavam toneladas pendentes sobre

a folha de papel ainda branca e a decisão foi tomada.

Hoje sinto-me orgulhosa dela. Reconheço que era preciso "tê-los no sítio".

- Pai, não quero a mochila nova. Fui eu que cortei a alça da velha.

O resto vem-me meio embaciado. Devia ter lágrimas nos olhos. Não me recordo de ter ouvido nenhum raspanete. Nada. Só me lembro de continuar a usar a velha mochila, reparada pelas mãos hábeis da avó Alice. Por isso, mãe, te digo que já não tenho remorsos, que isso me não é útil, que também te não é útil a ti e que eu sempre fui uma pessoazinha capaz de aprender com os seus próprios erros. Acredita. É a melhor forma de se aprender, mãe.

Vejo que me não entendes... ou que não concordas. Acho que não concordas porque não entendes. Tudo bem, mãe. Eu esqueci-me de ler esse capítulo no Manual de Instruções.

 

 

IMAGEM RETIRADA DA INTERNET

 

Texto acabadinho de ficcionar - sobre um episódio verídico - para http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/

 

 

APELO - Convido-vos a visitar o http://ajudar-o-jp.blogspot.com/ . Um euro por cada um de nós pode fazer toda a diferença!

Um FELIZ DIA DO PAI a todos os meus leitores que sejam pais.

10
Jan09

UMA ESTRELA NO PONTO EM QUE SE CRUZAM REALIDADE E FICÇÃO

Maria João Brito de Sousa

Decidira não morrer ainda. Ninguém lhe deu muito crédito. Afinal coubera-lhe a sorte de nascer com quatro patas e locomover-se na horizontal dos caminhos, embora com uma graciosidade que fazia inveja a muito boa gente. Mas com ou sem alheios créditos, decidira não morrer ainda.

E depois havia a Estrela. Aquela que mais parecia um cometa porque desenhava, no seu rasto, a exactíssima fronteira onde a Realidade se encontra com a Ficção.

Nesse momento pouco lhe interessava que que outros a conhecessem. Bastava-lhe partilhá-la com aquela humana que com ela coabitava.

Não fora de ânimo leve que tomara a decisão e, com o distanciamento dos dias e anos, parecia-lhe evidente que jamais a teria tomado se não fosse a tal Estrela...

Sentia e, naquele imenso universo de sensações que compunham a parte não palpável mas sensível do seu pequeno ser, surgiu, nítida, a memória de ter cumprido o seu papel de mãe. Não-biológica, é facto, mas a Estrela dos Acasos trouxera até si um filhote de alheia paridura do qual cuidara como se seu fora. Recordava-o - à sua maneira, mas recordava! - o filhote que lhe chegara cor-de-fantasma, de olhos ainda fechados às alegrias da vida, e que viera depois a desabrochar em Siamês. Mas esses pormenores pouco ou nada lhe interessavam. Fora "o seu menino lindo" durante o espaço de tempo que medeia entre o nascimento e uma adolescência que lhe conferira autonomia, força e beleza. Certo é que o aleitamento ficara por conta da outra. Da que tinha duas pernas e caminhava na perpendicular dos seus passos, mas o restante trabalho fora muitíssimo seu.

Claro que houvera períodos menos fáceis, como em todos os percursos dos sensientes. Certos momentos em que a saúde teimara em fugir-lhe com a velocidade da nortada em dia de temporal. Certos momentos em que se sentira francamente mal e invariavelmente recolhera ao seu esconderijo debaixo da cama. Estivera, mais do que uma vez, á beira da desistência... mas era teimosa. Uma autêntica cópia felina da humana que lhe dera abrigo. E havia a Estrela. Aquela que, no último momento, brilhava sempre  no ponto exacto onde se cruzam Realidade e Ficção.

Olhou-se. Ou melhor, sentiu-se. Estava fraca e vivera já mais de sete anos humanos. A maldita doença mais uma vez a atingia com o duro golpe das coisas que não sentem.

Além, um pouco além, no tal ponto onde não havia ainda chegado, a Estrela de sempre brilhava ainda. A vida apeteceu-lhe.

Sacudiu-se, deitou-se e confirmou a sua decisão de não morrer ainda.

 

 

Escrito no veterinário e nascido de uma colisão frontal da Realidade com a Ficção para a

 

http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/

 

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