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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
14
Jan10

A GAVETA DOS ACASOS

Maria João Brito de Sousa

 

 

 

Todos deveriam ter uma, pensou ao abrir a gaveta superior da secretária.

As nuvens, lá fora, não haviam meio de decidir-se. Invadiam o espaço exterior como rainhas absolutas da tarde. Ameaçavam mesmo invadir-lhe o quarto, pousar sobre ela, asfixiar a criatividade que de si emanava. E por ali pareciam estar apostadas em manter-se, tiranas, gordas, pasmas.

- Antes chovesse…, murmurou enquanto retirava as primeiras folhas de papel descuidadamente arrumadas na “gaveta dos acasos”. Amontoava-as, agora, sobre uma cadeira, em gestos rápidos e mecânicos, uma parte de si concentrada na tarefa, a outra lá por fora, onde os cúmulos cinzentos se indecidiam sobre a sua vocação tempestuosa. Mas nada parecia fazer sentido naquela tarde de chumbo e a arrumação nunca fora um dos seus melhores trunfos.

 

Um pedacito de papel amarelecido chamou-lhe, subitamente, a atenção. Apenas o vislumbrara entre montanhas de papel mais recente, encarquilhado nas pontas, prometendo memórias que dissipariam as nuvens pesadonas que a olhavam embasbacadas. Não foi fácil redescobri-lo e retirá-lo do caos que sempre fora a sua “gaveta dos acasos”, mas a paciência, essa sim, sempre tinha sido uma das suas grandes qualidades.

As pontas dos dedos tacteavam, escolhiam, procuravam a textura e as medidas que correspondessem ao apetecido pedacinho de papel que, por segundos, enxergara.

Encontrou-o, por fim, e lá o conseguiu trazer, intacto, até onde os olhos pudessem decifrar as letras que o tempo começava a desbotar. A caligrafia não era a sua. Esta foi a primeira certeza que teve em relação ao rectangulozinho amarrotado. A partir daí as memórias fluíram-lhe em catadupa, substituindo a chuva que nunca mais acontecia, como se se eternizasse na incompletude da sua própria indecisão.

Recordou o avô sentado no seu imponente cadeirão. Imponentes os dois, cadeirão e avô, mas ambos tão acessíveis quanto uma pequena escalada em direção aos joelhos do velho patriarca, sempre confortáveis e disponíveis.

 

Recordou, também, a sala inteira. A mesa oval, de mogno. O enorme divã do lado esquerdo do aposento, junto às vidraças que davam corpo à parede poente da divisão. A magnífica braseira de cobre assente na sua base octogonal de madeira envernizada. Os louceiros que se erguiam à direita como antevisões do que lhe parecia ser um par de negros arranha-céus, tão alto se erguiam em relação aos seus quatro ou cinco palmos de altura.

 

Ouviu a avó, na cozinha, dando uma breve ordem à criada. Ouviu o barulho dos tachos sobre o fogão, a água jorrando da torneira e, de repente, viu-a a “Ela”, a borboleta-da-noite que viera pousar-lhe na mão e que fora a grande musa da primeira quadra que o avô-poeta registara, deliciado, naquele mesmo pedacinho de papel.

 

Ó borboleta da noite,

Linda do meu coração!

Ó borboleta da noite,

Pousa aqui, na minha mão!

 

Sorriu confortavelmente deliciada com a reconquista das suas memórias.

 

 

Olhou casualmente para fora e reparou que as nuvens continuavam naquela mesma pasmaceira grávida, húmida e cinzenta que a levara a remexer na gaveta. Mas tudo isso deixara de ter a menor importância a partir do momento em que retomara o contacto com aquele seu passado remoto.

 

- Talvez nem fosse uma borboleta… - pensou, sorrindo ainda - podia muito bem ser uma simples traça… afinal é tão fácil ver tudo maior e tão mais imponente quando se tem três anos de idade…

 

 

Recordado para http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/

 

 

PARABÉNS A VOCÊ!  - O poetaporkedeusker faz hoje dois anos de idade. Percursinho difícil, cheio de "maleitas" e altos e baixos... mas não deixa de ser um percurso! E porque o Poeta é a minha própria vida, sem querer parecer vaidosa, hoje sinto-me DE PARABÉNS!

11
Nov09

A GRUTA DAS TREZENTAS CINQUENTA E SEIS PALAVRAS E UMA MEMÓRIA

Maria João Brito de Sousa

 

 

Era uma vez uma gruta pequenina, escavada nas rochas da praia, quase coberta pelo mar na maré-cheia. Diz a lenda que, há muitos anos atrás, essa gruta foi uma mulher igualzinha a mim, igualzinha a nós todas… consta que tinha longos cabelos negros, daí as longas algas que, há uns anos, inevitavelmente assinalavam a entrada da pequena reentrância rochosa.

Talvez vocês nunca tenham reparado nela, mas eu conheci-a pessoalmente há quase cinquenta anos, quando eu e o meu pai brincávamos aos espeleólogos em plena costa do Sol…

“Diz a lenda…”, digo eu, que era diferente das outras grutas. Não porque fosse maior, mais profunda ou muito diferente de todas as outras… mas era uma gruta tão especial que nunca a consegui esquecer. “Diz a lenda…”, digo eu, que era uma gruta fêmea. Mulher, sem dúvida, e indubitavelmente solitária por opção. De forma aparente, claro está, pois recordo-me muito bem de, tanto eu como o meu pai, sabermos, com sabedoria de experiência feita, que era a gruta mais habitada de todas as praias da costa. Porém, quem passasse, num passeio muito banal de reconhecimento ou recreação e, casualmente, reparasse na grutinha, seria esse o adjectivo que utilizaria para a descrever, de tal forma ela se parecia com uma pequena ilha isolada das dezenas de outras grutas que constituíam uma boa parte da orla marítima daquela zona… há cinquenta anos atrás.

A lenda não diz, mas digo eu, que a gruta era Poeta. Que a gruta é Poeta, porque eu reconheci-a quando voltei à praia, há poucos dias.

Mudámos as duas, sem dúvida! Estamos ambas envelhecidas, marcadas pelo tempo que nos cavou algumas rugas na face e nos foi mudando a cor das algas-cabelos…

Agora a lenda passa a dizer, porque sou eu quem lhe está a dar voz, que a grutinha irá ficar para a posteridade num blog de fundo azul escuro, ao lado da poeta humana que um dia a amou e que todos os pequenos seres a quem ela proporcionou espaço e abrigo estarão, para sempre, no coração destas trezentas cinquenta e seis palavras gravadas a negro sobre um suporte virtual branco como cal. :)

 

 

Imagem retirada da internet

 

"Dito" para http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/ às 16h 30m do dia 10.11.09 :)

 

CONVITE - Na próxima sexta feira dia 13 de Novembro, às 14h 30m, vou estar no edíficio da Cruz Vermelha Portuguesa da Parede a dar o meu melhor por uma palestra sobre "soneto formalmente clássico". Porquê "formalmente" e não apenas "clássico"? Bom, isso eu vou fazer o possível por tentar explicar durante a palestra...

Todos os leitores do Poetaporkedeusker estão convidados!

 

CRUZ VERMELHA PORTUGUESA

Delegação Costa do Estoril

Rua Vasco da Gama, 243

 

2775 Parede

 

 

 

S. MARTINHO - Que ele me perdoe este quase esquecimento... desta vez não se proprcionou um post dedicado a ele, mas o espírito de dádiva e partilha está sempre presente!

06
Nov09

FABULANDO...

Maria João Brito de Sousa

Três jovens rãs caminhavam despreocupadamente numa bela tarde de Verão.

Duas delas tagarelavam e a terceira, muito calada, ia apreciando a paisagem enquanto recordava os últimos parágrafos que lera no seu livro de Ciências Físico Químicas. Era uma rã bastante interessada no mundo que a rodeava e, por mais que as outras a solicitassem para uma conversação sobre as últimas tendências da moda, os olhos acabavam por se lhe desviar para a cor do céu àquela hora, o verde dos caminhos, a majestade das árvores e o voo dos insectos que por ali zumbiam aos milhares. Outras vezes era o pensamento que lhe vagueava, de novo, para as lições de Biologia e Físico Químicas... as tais que tão particularmente lhe interessavam.

As amigas, pontualmente, zombavam dela:

- Olha lá, mana! Ainda acabas por tropeçar na pata de uma formiga!, dizia a da esquerda.

- Olha-me para esta tonta, sempre a pensar na morte da bezerra! Quando não lê ou estuda, fica assim, feita zombie, de olhos perdidos no nada... , acrescentava a da direita. A rã não se importava muito. Lá bem no fundo gostaria sempre das suas amigas e embora tivesse alguma pena, por elas - porque as achava pouco inteligentes e superficiais - aquela vontade de aprender valia bem meia dúzia de frases menos correctas.

A dada altura, as rãs aproximaram-se de uma quinta e o terreno foi mudando de aspecto. Havia muito mais obstáculos e a palha que cobria o chão colava-se-lhes às patinhas, dificultando a marcha. Nenhuma delas, porém, mudou de atitude e a terceira rãzinha continuava embrenhada nas suas congeminações enquanto as outras duas pareciam nunca se cansar de debater as tais últimas tendências da moda.

Subitamente, no final de um dos saltinhos com que se deslocavam, sentiram-se mergulhar numa superficie morna e viscosa que se revelou de uma brancura suave mal o susto do primeiro mergulho lhes permitiu uma rápida vinda ao de cima para abrirem os olhos e respirar.

Compreenderam, num ápice, que haviam caído num balde, daqueles que os humanos utilizavam para recolher o leite daqueles pacíficos e gigantescos monstros ruminantes dos quais, tantas vezes, se tinham de desviar, no decorrer dos seus passeios diários.

-E agora? Este era o nosso destino, irmãs... não conseguiremos sair deste enorme balde! Vamos morrer ainda jovens..., gemeu a rãzinha da direita, quase a afogar-se.

- Não! Não desistas, mana! Esperneia até ao fim! Não tem de ser este o nosso destino!, gritava a rãzinha da esquerda agitando as patinhas num desespero.

- Manas, eu recordo-me bem de uma lição que aprendi no meu livro de Físico Químicas! O leite é um líquido e todos os líquidos têm uma força que se chama tensão superficial. Se soubermos manter-nos serenas, se nos soubermos controlar e flutuar, não teremos de morrer aqui!, isto defendia a terceira rãzinha, mas nunca chegou a ser ouvida. A primeira, desistente, já se sumira na superfície leitosa por altura destas palavras e a segunda continuava a espernear num pânico tal e numa tal aflição que nem teve tempo de se afogar... o medo assolou-a de tal forma que o coraçãozito não resistiu e parou, fulminada por um ataque cardíaco, no exacto momento em que o leite começava a solidificar, adquirindo a consistência da manteiga. A terceira rãzinha, a que flutuara, saltou do balde de manteiga, olhou para trás e sentiu uma lágrima correr-lhe pela face. Pobres irmãs! Nunca mais as veria, nunca mais as ouviria zombar daquele seu hábito de pensar nas coisas, de aprender sobre elas...

 

Moral - muitíssimo interrogativa... - da História:

 

Será que vamos sempre precisar dos que são estúpidos e superficiais para podermos sobreviver aos desaires da vida? :)

 

Baseado na Fábula das Duas Rãzinhas que chegou a mim há muitos anos atrás e que não sei se é de Esopo, La Fontaine ou de outro clássico qualquer. Peço mil desculpas mas não tenho tempo para me ir documentar ao Google. Estou com uma mão ferida.

 

Acabadinho de contar para http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/

 

23
Out09

MARIA SEM CAMISA

Maria João Brito de Sousa

NA DEADLINE PARA http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/

 

Não, não sou exactamente eu, conforme a imagem sugere. É mais ou menos o meu Ego sem censura, o que por aí anda à rédea solta e que acaba, sempre, por se manifestar no momento das grandes decisões. Por isso é, como eu e como todos vós, uma personagem. Pormenores? Aqui vão!

 

 
 
 
Maria Sem Camisa, a sem-dinheiro,,
 
Passando pela vida ao Deus-dará

 

Tem fama de ser louca e de ser má

 

Mas, no fundo, é poeta a tempo inteiro...

 

  

Maria vai plantando o seu canteiro

 

De sementes de si e o que não há

 

Inventa-o a Maria e tanto dá

 

Ter pouco se tão rico se é primeiro...

 

 

 

Maria-Sem-Camisa planta ideias

 

E disso vai colhendo o seu sustento

 

Sem cuidar da chegada ou da partida...

 

 

 

Os frutos que ela colhe são candeias,

 

São estrelas a luzir no firmamento

 

Da órbita em que traça a sua vida...

 

 

 

 

 

 

 

 

A SEM CAMISA II

 

Maria-Sem-Camisa, a sabe-tudo,

Aprendeu a falar c`os animais

E não desdenha nunca saber mais

Pois conhece o que diz o que está mudo...

 

Maria-Sem-Camisa é, sobretudo,

Uma devota ouvinte dos demais!

Entende o que lhe dizem os pardais,

Brinca com a razão onde eu me iludo...

 

Maria é destemida e eu nem tanto...

Maria nunca mente! Eu já menti...

Maria é bem mais forte do que eu sou!

 

Maria é o meu EU despido o manto

Que cobre tudo aquilo que senti

Quando a fraqueza humana germinou...

 

 

 

 

 

A SEM CAMISA III

 

 

Maria-Sem-Camisa é tão feliz

E passa pela vida tão contente

Que vai contagiando toda a gente

Mesmo sendo loucura o que ela diz!

 

O Mundo bem tentou! Ela não quis,

Em troca de riquezas, ser prudente

Ou vender-se por honras de regente...

Ficou fiel a essa directriz!

 

Maria, toda ela, é coração

E é isso que norteia a sua vida...

A glória e a riqueza, não as quer

 

Nem lhes presta, sequer, muita atenção...

E não lhe importa ser repreendida

Por ser bem mais poeta que mulher!

 

 

Maria João Brito de Sousa - 2008

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