Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

poetaporkedeusker

poetaporkedeusker

UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
27
Mar24

AMAR-TE, POESIA - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Maria João Brito de Sousa

Litografia de Pavia in Livro de Bordo.jpg

Litografia de Manuel Ribeiro de Pavia

in LIVRO DE BORDO de António de Sousa

*

 

COROA DE SONETOS

*

AMAR-TE, POESIA
*


Amar-te em cada ano em dia certo

E ter que estar à espera todo o ano

Dizer uma só vez: eu não te engano

Apenas venho aqui hoje liberto
*

Eu ando no trabalho aqui por perto

Mas meu patrão é velho e tão insano

Que só me deixa vir, por inumano,

Um dia sem saber ao quê decerto
*


Pois, se soubesse, amor, que eu aqui vinha

Não me deixava vir. Se ele adivinha

Ou se alguém lhe contar que nesse dia
*


Venho comemorar e dar-te um beijo

Proíbe-me de vir, não mais te vejo

Mesmo uma vez por ano, poesia!
*


Custódio Montes

22.3.2024 (e só no dia seguinte….)
***


"Mesmo uma vez por ano, poesia",

Que pra ti corra e enlace fascinada

Sabe-me sempre a pouco, ou quase nada,

Quanto em ti por segundos me extasia
*


Pudera eu ter mais tempo e ficaria

A ver-te espanto a espanto acrescentada

Até adormecer sobre a almofada

Onde, por fim, Morfeu te renderia
*


É atrasada que te rendo preito...

Espero que me perdoes tê-lo feito

Passados já três dias. Reconheço
*


Que me perco no tempo que há no espaço

Sem nem sequer saber porque é que o faço

Se te dedico um tão infindo apreço...
*


Mª João Brito de Sousa

24.03.2024 - 16.00h
***
.
*

3.
*
“Se te dedico um tão infindo apreço”

Não é porque não queira, é que não posso

Se o tempo fosse meu como é vosso

Verias que de ti nunca me esqueço
*


O meu patrão conhece-me o endereço

E logo me ameaça em tom bem grosso

Obriga-me ao trabalho e com esforço

Fico muito cansado e esmoreço
*


Se alguém lhe diz que faço poesia

Refere logo: perde essa mania

Senão perdes o pão, diz o tirano
*

Como eu preciso mesmo do trabalho

Não posso dar razão a tal bandalho

E só consigo amar-te de ano a ano
*

Custódio Montes
25.3.2024
***

4.
*
"E só consigo amar-te de ano a ano"

Qual andorinha poisando em beiral

Pra nel`depor o amor primordial

Que com ela cruzou o oceano
*


Tivesse eu um patrão assim tirano,

Logo o confrontaria a bem ou mal

Que mais pode o Amor do que um real,

Uma libra ou um euro... e, caso o insano,
*


Me ameaçasse com o desemprego

Fá-lo-ia, de pronto, ver-se grego

Pois entraria em greve nesse instante!
*


Não cavaria o chão, nem plantaria

E el`que nunca o fez entenderia

Que um só dia pr`amar nunca é bastante!
*


Mª João Brito de Sousa

25.03.2024 - 15.30h
*** ´

5.
*
“Que um só dia pr’amar nunca é bastante”

Isso é pura verdade, bem se sabe

Mas o patrão é mau e põe entrave

A um amor diário e constante
*


Vou burilar de forma apaixonante

Para o convencer que não agrave

O meu afastamento nem me trave

A vontade de ver a minha amante
*


Que eu amo a poesia bem o vê

Quem olha a minha escrita, quem me lê

Que sentirá em si igual paixão
*


Vou-lhe pedir a si este favor:

Empreste ao seu poema tal fervor

Que possamos vencer o meu patrão
*


Custódio Montes
25.3.2024
***

6.
*
"Que possamos vencer o seu patrão"

É o que mais desejo de momento

Por isso evoco a Musa que em talento

É maior e mais forte que um leão
*


Ela lhe fará ver que essa paixão

Que em si vai fervilhando em fogo lento

Importa tanto ou mais que o seu sustento

E que não vive um homem só de pão
*


Mesmo sendo casmurro e prepotente

À minha Musa nunca fará frente

Porque ela é tão frontal quão destemida
*


E não tendo argumentos vergará:

A Primavera inteira lhe dará

Pra que a dedique à sua prometida!
*


Mª João Brito de Sousa

25.03.2024 - 2030
***

7.
*
“Pra que a dedique à sua prometida!”

E lhe faça poemas dedicados

Mas isto são trabalhos delicados

E a minha musa anda aborrecida
*

Não me ajuda por tê-la esquecida

E só a ir lembrando aos bocados

Nem lhe fazer poemas afamados

Lamentando não ser por mim querida
*


Mas ela é ingrata que senão

Deitava as culpas todas ao patrão

E assim devia pôr-se a meu favor
*


Que gosto muito dela, não engano

E embora só lhe escreva de ano a ano

Bem sabe que eu sou o seu amor
*

Custódio Montes
25.3.2024
***

8.
*

"Bem sabe que sou eu o seu amor"

E na verdade o sabe a sua Musa

Que se lhe of`rece e nada lhe recusa

Em excelência, harmonia e espanto e cor...
*


Tudo a Musa lhe dá sem se lhe opor

Nem dar a entender que dela abusa...

Não vejo, meu amigo, porque a acusa

De não lhe estar a dar o seu melhor...
*


Eu bem a vi vergar o seu patrão

Com tanta força e tal erudição

Que ele acedeu a dar-lhe a Primavera!
*


Mas se insistir, se ainda mais quiser,

Talvez conquiste o V`rão pra lhe of`recer

E fique então feliz à sua espera...
*


Mª João Brito de Sousa

25.03.2024 - 23.20h
***

9.
*
“E fique então feliz à sua espera…”

Assim sou eu que não ‘stou a ver bem

Já sei…foi o patrão e mais ninguém

Que me tramou …aquela bruta fera
*


Com a chuva a cair na Primavera

Fez crer que era o inverno que se tem

E nós: a Primavera jamais vem

E assim, quem tanto espera desespera
*


Também se foi a vista e quase cego

Já não distingo bem e o meu ego

Não me deixa alcançar a claridade
*


E tendo a musa aqui ao meu redor

Devia ter sentido o seu amor

Desculpa, musa, peço piedade!
*


Custódio Montes
26.3.2924
***

10.
*

"Desculpa, musa, peço piedade!"

Mas isso é coisa que se peça a quem

Tudo a que almeja é a fazer-lhe bem

E por amor, que não por caridade?
*


Chove lá fora... O campo e a cidade

Curvam-se ao vento que sopra também

E pelas ruas não se vê ninguém,

Só a água escorrendo em quantidade...
*


Sob um telheiro, a própria Primavera,

Se esconde e espreita em precavida espera

Que a chuva pare e que a nortada abrande
*


Mas é questão de dias porque em breve,

Perdido o medo de que o vento a leve,

Brilhará no poema que hoje escande.
*


Mª João Brito de Sousa

20.03.2024 - 09.45h
***

11.
*

“Brilhará no poema que hoje escande”

Saltando sobre a chuva que o molha

É mesmo hoje já, para quem olha,

Que a primavera o vê e assim o expande
*

É pena que a Mistral tão doente ande

E esteja sempre em casa em recolha

Que ao ver o ar teria muita escolha

Veria o mundo à volta lindo e grande
*

Talvez até virasse como a dona

Em poetisa mestra e patrona

Ensinando aos seus pares a magia
*


De andar à chuva, ao vento e ao luar

Passando a vida então a poetar

E vir a ganhar fama em poesia
*


Custódio Montes
26.3.2024
***

12.
*

"E vir a ganhar fama em poesia"

É coisa que à Mistral bem pouco int`ressa

Que em graça é já poema escrito à pressa

Fluente, grácil, rico em harmonia
*


Nasce um poema sempre que ela mia,

Se dorme é, da beleza, pura peça,

Quando ronrona, encanta... há quem lhe teça

Encómios por ser toda melodia
*


Até no hospital em que é tratada

A vet`rinária diz ficar espantada

Com a serenidade da Mistral
*


Mas andar pelas ruas, na cidade,

Isso é que não. Nem pode, que em verdade,

Quase morreu na rua, este animal.
*


Mª João Brito de Sousa

26.03.2024 - 14.25h
***

13.
*

“Quase morreu na rua este animal”

Mas valeu-lhe o amor da sua dona

Que, sempre ao seu redor, não a abandona

E é sua companheira principal
*


Ao lado da mestra essa Mistral

Sentada junto a ela na poltrona

Comunga a poesia que anda à tona

E vai ganhando o gosto em espiral
*


Falando-se em amar a poesia

Ela merece um canto de alegria

Porque também é fonte de poema
*


Termino o meu soneto mesmo agora

A mestra que a gatinha tanto adora

Baseie o seu soneto neste tema
*

Custódio Montes
26.3.2024
***

14.
*

"Baseie o seu soneto neste tema"

Leio agora, acabada de chegar

Ainda atordoada e a desejar

Que não tivesse a gata este problema
*


Esta consulta não foi nada amena:

Três de nós não bastaram pr`agarrar

Mistral que como um tigre ousou lutar

Em vez de ronronar como um poema...
*


Mas não posso esquecer os seus anseios,

Nem trazer à ribalta os meus receios

Quando o final da C`roa está tão perto
*

 

Ao tiranete irei repreender

Até que o desobrigue de dizer:

"Amar-te em cada ano em dia certo".
*

 

Mª João Brito de Sousa

26.03.2024 - 19.40h
***

 

22
Jul18

VI VINICIUS

Maria João Brito de Sousa

VINICIUS.jpeg

 

VI VINICIUS

*



Vinde e vencei! Versejos vigorosos,

Vastas vitórias, verticais, vibrantes

Vos valorizam, vates! Véus velantes,

Vãs virtudes vos vetam, valorosos!

*

Vencei vitórias, ó vitoriosos!

Venenos vãos vos vendem! Verdejantes

Verborreias, vencidas, volitantes,

Vazam, vertem venenos vaporosos...

*

Válidos vinhos vituperam. Vícios!

Vivo e vitorioso, vi Vinicius

Versejando voragens e vertigem.

*

Vejo o vector vibrátil e vermelho,

Viço vilipendiado, vate velho

Virtuoso e voraz varando virgem.

*



Maria João Brito de Sousa – 20.07.2018 -12.45h





 

30
Jun18

EU, O LOBO

Maria João Brito de Sousa

Lobo-770x439_c.jpg

 

EU, O LOBO



(Soneto de Coda)



Sou um lobo e nasci para predar

Quanto me baste pra me garantir,

Bem como a todo o fruto que gerar

Na compulsão de me reproduzir,



Todo o bicho passível de matar

A dureza da fome que eu sentir,

Que também eu a sinto a protestar

Quando o sustento vai tardando em vir...



Se te assusto nas noites de luar

C´o uivo prolongado que emitir,

Mais a mim me violento, se o calar!



Mais tu matas do que eu possa caçar

E bem mais do que a fome te exigir;

A ti, dono e senhor do teu mal-estar,



Que apenas caças para te exibir,

Que mais posso dizer-te pra mostrar

Ter, também, o direito de existir?

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 27.06.2018 – 13.48h

19
Jun18

CONVERSANDO COM ALBERTINO GALVÃO - VALORES

Maria João Brito de Sousa

Picasso - self portrait 1907.jpg

 

FALO DO QUE SINTO

 

(soneto hendecassílabo com rimas encadeadas)

 

 

Já mortos, no tempo, andam os valores

mas nascem “senhores” neste nosso chão

que serão, ou não, por formação doutores...

porém... estupores?!... Isso eu sei que são!

 

Com ou sem razão, a esses tais “senhores”

chamo ditadores e aos que a eles dão,

por bajulação, aplausos e louvores

chamo de impostores! Digam lá que não!?

 

Sempre fiz questão de escrever de falar...

sem medo apontar injustiças que vejo

jamais p’lo desejo de ser aclamado...

 

foi-me já legado! Sem me comparar

a Ary vou gritar, porque nele me revejo,

não sou nem almejo ser vate castrado!

 

 

Abgalvão

 

...*…

 

 

TAMBÉM DO QUE SINTO, FALO!

 

 

Também do que sinto falo sem pudor,

Sem mudar de côr. Sobre essas, não minto,

Nem douro, nem pinto valor que é valor,

Nem que erga o teor à dor que hoje consinto

 

 

E que evito e finto, seja como for...

Sem um só rubor, direi tudo o que sinto

Sem branco nem tinto que altere o sabor,

Melhor ou pior, do que é claro e distinto.

 

Fujo ao tal estrelato que não me seduz,

Que sempre reduz a memória do facto

Ao mero aparato de uns jogos de luz...

 

Isto me conduz e portanto delato

Maldade, mau trato e quanto os traduz

Porque os reproduz sem um termo... e a contrato!

 

 

 

Maria João Brito de Sousa 

18.06.2018 – 12.38h

 

 

Pablo Picasso - Self Portrait, 1907

 

18
Jun18

CONVERSANDO COM JOAQUIM SUSTELO - TEMPO

Maria João Brito de Sousa

spitzweg-carl-o-poeta-pobre-1839.jpg

 

MURMÚRIOS DO TEMPO

 
Às vezes há murmúrios pelo tempo…
O vento geme em portas e janelas
As nuvens dissimulam as estrelas
O sol fica sem brilho, pardacento


O céu muda de azul para cinzento
A chuva traz-nos novas aguarelas;
Mudando a Natureza as suas telas
Talvez ela até faça algum lamento

 
Porém o tempo chora e há beleza
No cinza de que veste a Natureza
Embora haja uma bruma no seu rosto

 
Serão choros do tempo, de tristeza?
Há tratos que lhe damos com rudeza
Talvez haja no choro algum desgosto...

 

 

Joaquim Sustelo

 

(editado em MURMÚRIOS NO TEMPO)

 

...* ...



SILÊNCIOS DO TEMPO



Outras vezes o Tempo silencia

As vozes murmuradas dos poetas,

Guardando-as em caixas tão secretas

Que nem um adivinho as acharia



E ninguém sabe por que as guardaria,

Por que razão as cala se, directas,

Essas vozes se erguiam muito erectas

No tempo em que o poema resistia.



Lamentos, ou sorrisos, ficam mudos

Nas gavetas dos linhos, dos veludos

E das sedas que o Tempo resguardou



Dos humanos ouvidos, quais riquezas

Que se tornassem bem guardadas presas

Do silêncio a que o Tempo as condenou.





Maria João Brito de Sousa – 17.06.2018 – 14.47h

 

 

Imagem - O Poeta Pobre - Carl Spitzweg

 

17
Jun18

CONVERSANDO COM JAY WALLACE MOTA

Maria João Brito de Sousa

LUMINÁRIA.jpg

 

PAIXÃO DE NAMORADOS



Como a chama reclama combustível,
Para manter-se acesa e aquecida,
A paixão, igualmente perecível,
Depende do desejo pra ter vida.



Como a chama, a paixão é suscetível 
De extinguir-se depois de consumida,
Mantendo-se, porém, inexaurível,
Se a fonte dos desejos for mantida!

 

Não a fonte da eterna juventude, 
Mas a tal sensação de plenitude
Que completa os casais apaixonados;

 

Que funde, além dos corpos, nossas almas
Nas chamas da paixão, que, mesmo calmas,
Nos fazem para sempre namorados!

 

 

Belém, 12 de junho de 2018.
Jay Wallace Mota.

 

...* ...



A CHAMA DA AMIZADE



E quando a chama acesa permanece

Cúmplice, humana, atenta e solidária,

Quando por tudo e nada se enternece

E emana uma luzinha igualitária,



Será companheirismo, o que enaltece

Essa luz que julgámos temporária,

Mas que reluz ainda e mais parece

Ter-se tornado humana luminária.



Não explode em grandes brilhos de paixão,

Mas vai-nos garantindo a combustão

Por muito, muito tempo, essa luzinha



Que se acendeu na ponta de um rastilho

E cuja chamazinha, no seu brilho,

Começa a ser tão tua quanto é minha.





Maria João Brito de Sousa – 17.06.2018 – 10.17h

 

22
Dez17

CONVERSANDO COM HELENA TERESA RUAS REIS

Maria João Brito de Sousa

Paz.jpg

 


CONVERSANDO COM HELENA TERESA RUAS REIS

 

 

"De primaveras mesmo sendo Inverno",

De um Verbo novo e sempre mais eterno

Por cada nascituro abrindo a vida,

Dar novo olhar à dor que foi vencida.

 

Natal feliz: um mundo p'ra o que sofre.

Abaixo os sons do mal e o cheiro a enxofre!

Renove-se p'la paz todo o terror

Co'a Bíblia ou o Corão chamado Amor.

 

O sono de Jesus nos dê sossego

Num berço onde a miséria enobrece

E humildes nos curvamos numa prece.

 

Fruto terno e raiz a que me apego...

Ó inverno em Natal nossa esperança,

Quimera que nasceu doce criança!  

 

 

 

Helena Teresa Ruas Reis

 

*********

 

"Quimera que nasceu doce criança"

E a todas as crianças representa

Fazendo, do Natal, terna mudança

Que a todos nos enlaça e nos sustenta.

 

Calem-se, então, os loucos da matança

Cuja riqueza, injusta e opulenta,

Nos torna a vida dura e sem parança

E sempre sacrifica alguém que tenta

 

Contra a ganância impor-se e dizer; Não!

Que nunca, nunca mais se nasça em vão,

Que nunca mais se sofram agonias,

 

Que se unam sempre o Amor e a Razão,

Pois cada um de nós tem por missão

Construir um Natal todos os dias!

 

 

Maria João Brito de Sousa – 22.12.2017

 

 

21
Dez17

CONVERSANDO COM CARMO VASCONCELOS

Maria João Brito de Sousa

DE TOMBO EM TOMBO....jpg

 

 

MEU LUGAR



Carmo Vasconcelos



O meu lugar cativo está no Além,

que este daqui, por marco provisório,

tem seu tempo marcado, transitório,

é morada perpétua de ninguém.



Estamos de passagem, mas porém,

não é caminho vão, de todo inglório,

pois se revela p'ra alma sanatório

de erros passados - carma que detém.



Na breve estada cabe-nos saldar

o "deve" e "haver" de vidas mal vividas

na displicência própria dos infantes;



sair da senda dos ignorantes,

crescer na luz das chances concedidas,

p'ra ganharmos, enfim, "nosso lugar".



Carmo Vasconcelos



DE TOMBO EM TOMBO ATÉ SE DESFAZER



Seja Depois o meu lugar cativo,

que no Tempo o concebo e não no Espaço

onde inteira me entrego ao tempo escasso

de amigos e poetas com quem privo.



Também estou de passagem... se hoje vivo,

nunca sei se amanhã se solta o laço,

mas enquanto te encontro, a ti me abraço,

poema que me tentas, louco e esquivo...



No “deve” e no “haver”, fico a perder;

devo mais do que dou, dando-me inteira

de corpo e alma e mais do que o possível,



Mas foi-me agreste a sorte que, insensível,

transmutou rocha em seixo de ribeira

que tomba e rola até se desfazer...





Maria João Brito de Sousa – 29.12.2017 – 11.10h

 

20
Dez17

CONVERSANDO COM REGINA COELI

Maria João Brito de Sousa

piuiiiiii.jpg

 

    SAUDADE DO PIUÍÍÍ

*

 

Regina Coeli

 

Lá longe, onde o passado jaz perdido,

Sempre via um alegre trem passar;

Deixava som saudoso ao meu ouvido,

Um gostoso "piuííí" solto no ar...

*

 

A criançada, olhar embevecido,

Aplaudia o trenzinho em seu cantar,

"Piuííí, Piuííí!", um eco repetido

Até sumir sua imagem devagar...

*

 

No relembrar de dias tão distantes

Fica-me uma tristeza acre e sem fim:

Jamais verei "piuííís" como vi antes...

*

 

Um trem desliza e corre pelo chão,

Circula e encanta todos, não a mim,

Porque não traz "piuííí” ao coração...

*

 

Regina Coeli

 

Brasil

 

 

 

MEMÓRIAS DO “POUCA-TERRA, POUCA-TERRA”

*

 

Não houve “piuííís” no meu Dafundo,

Mas houve um “pouca-terra, pouca-terra”

Que enchia todo o meu pequeno mundo

Das fantasias que outro mundo encerra...

*

 

Passa agora um comboio, longe, ao fundo,

Mais distante e tão rápido que enterra

Ao passar bem veloz, num só segundo,

Sessenta e cinco anos, quando berra

*

 

Sobre os carris de ferro que devora...

Ao velho “pouca-terra” evoco em vão;

Não é tristeza, não, que essa não mora

*

 

No mais profundo do meu coração...

A menina cresceu, sofreu... não chora,

Mas ama ainda como amava então...

*

 

Maria João Brito de Sousa -19.12.2017 – 18.28h

 

Portugal

 

19
Dez17

SONETO-RESPOSTA A JOAQUIM SUSTELO E MEA

Maria João Brito de Sousa

Eu, no almoço do HP Casa de Lafões, 2017.jpg

 

"E nasce outro dia de sonhos, de esp`rança"

Desta gasta noite de desilusões

Que vence o cansaço, que traz a bonança

Que à beira do  palco conduz multidões...

 

Cantemos que o mundo ainda é criança!

Crianças, nós todos, rumando às paixões

Que o soneto acende... e enceta-se a dança

Que o cria e partilha sem mais concessões!

 

Vai ficando escuro... do escuro da sala,

Um verso que nasce espontâneo se exala

Das pontas dos dedos, geladas, geladas...

 

Conversas que passam, mas nada nos cala;

Se um verso nos chama, passemos à fala

Que ao escuro da sala nos trouxe as chamadas.

 

 

Maria João Brito de Sousa - 19.12.2017 

 

 

NOTA - O primeiro verso - entre aspas - é da autoria do poeta Joaquim Sustelo

14
Dez17

CONVERSANDO COM ALDA PEREIRA PINTO

Maria João Brito de Sousa

ENCONTRO CASUAL.jpg

 

 

SONATINA XII (do livro "Treva Branca")





É bom que eu viva ao léu, pois me acostumo

à solidão que assusta a quem não crê,

pois se de algum receio eu sou mercê,

passeio, canto e ando, rio e fumo.



Num certo dia que virá, presumo,

não tendo amigos nem sequer você,

talvez que eu me lamente, só porque

a sorte não nos pôs no mesmo rumo.



E, se ao chegar a hora em que se apaga

a luz da vida, uma saudade vaga

quiser velar na minha soledade,



ouvidos não darei ao seu alento,

porque saudade é sempre sofrimento

por mais que seja alegre uma saudade.



Alda Pereira Pinto



Brasil



Soneto recolhido no blogue “O Secular Soneto”

 

 

**********





ENCONTRO CASUAL DE DUAS SOLISTAS

 

 


Não passeio, nem canto. Escrevo e fumo

enquanto grafo um verso... talvez dois...

outros doze, a jorrar, virão depois

completar-me o soneto em que me assumo

 

Reflexo de um poema – ou seu resumo... -

nos estilhaços em que o desconstróis,

honesto, firme, não sonhando heróis,

de ti colhendo o fruto. A polpa. O sumo.

 

Vi-te por mero acaso. Este soneto

foi o ponto de encontro, o mar secreto

onde já de partida eu navegava

 

Quando te vi passar rebelde, agreste...

Olhei-te fixamente, mas nem deste

por mim, que estranhamente em ti me olhava.

 

 

Maria João Brito de Sousa – 14.12.2017 – 09.00h

 

Portugal

 

 

 

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Em livro

DICIONÁRIO DE RIMAS

DICIONÁRIO DE RIMAS

Links

O MEU SEBO LITERÁRIO - Portal CEN

OS MEUS OUTROS BLOGS

SONETÁRIO

OUTROS POETAS

AVSPE

OUTROS POETAS II

AJUDAR O FÁBIO

OUTROS POETAS III

GALERIA DE TELAS

QUINTA DO SOL

COISAS DOCES...

AO SERVIÇO DA PAZ E DA ÉTICA, PELO PLANETA

ANIMAL

PRENDINHAS

EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES

ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE POETAS

ESCULTURA

CENTRO PAROQUIAL

NOVA ÁGUIA

CENTRO SOCIAL PAROQUIAL

SABER +

CEM PALAVRAS

TEOLOGIZAR

TEATRO

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2023
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2022
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2021
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2020
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2019
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2018
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2017
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2016
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2015
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2014
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2013
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2012
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2011
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2010
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2009
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2008
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D

FÁBRICA DE HISTÓRIAS

Autores Editora

A AUTORA DESTE BLOG NÃO ACEITA, NEM ACEITARÁ NUNCA, O AO90

AO 90? Não, nem obrigada!