Maria João Brito de Sousa
Litografia de Manuel Ribeiro de Pavia
in LIVRO DE BORDO de António de Sousa
*
COROA DE SONETOS
*
AMAR-TE, POESIA *
Amar-te em cada ano em dia certo
E ter que estar à espera todo o ano
Dizer uma só vez: eu não te engano Apenas venho aqui hoje liberto *
Eu ando no trabalho aqui por perto
Mas meu patrão é velho e tão insano Que só me deixa vir, por inumano, Um dia sem saber ao quê decerto *
Pois, se soubesse, amor, que eu aqui vinha
Não me deixava vir. Se ele adivinha
Ou se alguém lhe contar que nesse dia *
Venho comemorar e dar-te um beijo
Proíbe-me de vir, não mais te vejo
Mesmo uma vez por ano, poesia! *
Custódio Montes
22.3.2024 (e só no dia seguinte….) ***
"Mesmo uma vez por ano, poesia",
Que pra ti corra e enlace fascinada
Sabe-me sempre a pouco, ou quase nada,
Quanto em ti por segundos me extasia *
Pudera eu ter mais tempo e ficaria
A ver-te espanto a espanto acrescentada
Até adormecer sobre a almofada
Onde, por fim, Morfeu te renderia *
É atrasada que te rendo preito...
Espero que me perdoes tê-lo feito
Passados já três dias. Reconheço *
Que me perco no tempo que há no espaço
Sem nem sequer saber porque é que o faço
Se te dedico um tão infindo apreço... *
Mª João Brito de Sousa
24.03.2024 - 16.00h *** . *
3. * “Se te dedico um tão infindo apreço”
Não é porque não queira, é que não posso
Se o tempo fosse meu como é vosso
Verias que de ti nunca me esqueço *
O meu patrão conhece-me o endereço
E logo me ameaça em tom bem grosso
Obriga-me ao trabalho e com esforço
Fico muito cansado e esmoreço *
Se alguém lhe diz que faço poesia
Refere logo: perde essa mania
Senão perdes o pão, diz o tirano *
Como eu preciso mesmo do trabalho
Não posso dar razão a tal bandalho
E só consigo amar-te de ano a ano *
Custódio Montes 25.3.2024 ***
4. * "E só consigo amar-te de ano a ano"
Qual andorinha poisando em beiral
Pra nel`depor o amor primordial
Que com ela cruzou o oceano *
Tivesse eu um patrão assim tirano,
Logo o confrontaria a bem ou mal
Que mais pode o Amor do que um real,
Uma libra ou um euro... e, caso o insano, *
Me ameaçasse com o desemprego
Fá-lo-ia, de pronto, ver-se grego
Pois entraria em greve nesse instante! *
Não cavaria o chão, nem plantaria
E el`que nunca o fez entenderia
Que um só dia pr`amar nunca é bastante! *
Mª João Brito de Sousa
25.03.2024 - 15.30h *** ´
5. * “Que um só dia pr’amar nunca é bastante”
Isso é pura verdade, bem se sabe
Mas o patrão é mau e põe entrave
A um amor diário e constante *
Vou burilar de forma apaixonante
Para o convencer que não agrave
O meu afastamento nem me trave
A vontade de ver a minha amante *
Que eu amo a poesia bem o vê
Quem olha a minha escrita, quem me lê
Que sentirá em si igual paixão *
Vou-lhe pedir a si este favor:
Empreste ao seu poema tal fervor
Que possamos vencer o meu patrão *
Custódio Montes 25.3.2024 ***
6. * "Que possamos vencer o seu patrão"
É o que mais desejo de momento
Por isso evoco a Musa que em talento
É maior e mais forte que um leão *
Ela lhe fará ver que essa paixão
Que em si vai fervilhando em fogo lento
Importa tanto ou mais que o seu sustento
E que não vive um homem só de pão *
Mesmo sendo casmurro e prepotente
À minha Musa nunca fará frente
Porque ela é tão frontal quão destemida *
E não tendo argumentos vergará:
A Primavera inteira lhe dará
Pra que a dedique à sua prometida! *
Mª João Brito de Sousa
25.03.2024 - 2030 ***
7. * “Pra que a dedique à sua prometida!”
E lhe faça poemas dedicados
Mas isto são trabalhos delicados
E a minha musa anda aborrecida *
Não me ajuda por tê-la esquecida
E só a ir lembrando aos bocados
Nem lhe fazer poemas afamados
Lamentando não ser por mim querida *
Mas ela é ingrata que senão
Deitava as culpas todas ao patrão
E assim devia pôr-se a meu favor *
Que gosto muito dela, não engano
E embora só lhe escreva de ano a ano
Bem sabe que eu sou o seu amor *
Custódio Montes 25.3.2024 ***
8. *
"Bem sabe que sou eu o seu amor"
E na verdade o sabe a sua Musa
Que se lhe of`rece e nada lhe recusa
Em excelência, harmonia e espanto e cor... *
Tudo a Musa lhe dá sem se lhe opor
Nem dar a entender que dela abusa...
Não vejo, meu amigo, porque a acusa
De não lhe estar a dar o seu melhor... *
Eu bem a vi vergar o seu patrão
Com tanta força e tal erudição
Que ele acedeu a dar-lhe a Primavera! *
Mas se insistir, se ainda mais quiser,
Talvez conquiste o V`rão pra lhe of`recer
E fique então feliz à sua espera... *
Mª João Brito de Sousa
25.03.2024 - 23.20h ***
9. * “E fique então feliz à sua espera…”
Assim sou eu que não ‘stou a ver bem
Já sei…foi o patrão e mais ninguém
Que me tramou …aquela bruta fera *
Com a chuva a cair na Primavera
Fez crer que era o inverno que se tem
E nós: a Primavera jamais vem
E assim, quem tanto espera desespera *
Também se foi a vista e quase cego
Já não distingo bem e o meu ego
Não me deixa alcançar a claridade *
E tendo a musa aqui ao meu redor
Devia ter sentido o seu amor
Desculpa, musa, peço piedade! *
Custódio Montes 26.3.2924 ***
10. *
"Desculpa, musa, peço piedade!"
Mas isso é coisa que se peça a quem
Tudo a que almeja é a fazer-lhe bem
E por amor, que não por caridade? *
Chove lá fora... O campo e a cidade
Curvam-se ao vento que sopra também
E pelas ruas não se vê ninguém,
Só a água escorrendo em quantidade... *
Sob um telheiro, a própria Primavera,
Se esconde e espreita em precavida espera
Que a chuva pare e que a nortada abrande *
Mas é questão de dias porque em breve,
Perdido o medo de que o vento a leve,
Brilhará no poema que hoje escande. *
Mª João Brito de Sousa
20.03.2024 - 09.45h ***
11. *
“Brilhará no poema que hoje escande”
Saltando sobre a chuva que o molha
É mesmo hoje já, para quem olha,
Que a primavera o vê e assim o expande *
É pena que a Mistral tão doente ande
E esteja sempre em casa em recolha
Que ao ver o ar teria muita escolha
Veria o mundo à volta lindo e grande *
Talvez até virasse como a dona
Em poetisa mestra e patrona
Ensinando aos seus pares a magia *
De andar à chuva, ao vento e ao luar
Passando a vida então a poetar
E vir a ganhar fama em poesia *
Custódio Montes 26.3.2024 ***
12. *
"E vir a ganhar fama em poesia"
É coisa que à Mistral bem pouco int`ressa
Que em graça é já poema escrito à pressa
Fluente, grácil, rico em harmonia *
Nasce um poema sempre que ela mia,
Se dorme é, da beleza, pura peça,
Quando ronrona, encanta... há quem lhe teça
Encómios por ser toda melodia *
Até no hospital em que é tratada
A vet`rinária diz ficar espantada
Com a serenidade da Mistral *
Mas andar pelas ruas, na cidade,
Isso é que não. Nem pode, que em verdade,
Quase morreu na rua, este animal. *
Mª João Brito de Sousa
26.03.2024 - 14.25h ***
13. *
“Quase morreu na rua este animal”
Mas valeu-lhe o amor da sua dona
Que, sempre ao seu redor, não a abandona
E é sua companheira principal *
Ao lado da mestra essa Mistral
Sentada junto a ela na poltrona
Comunga a poesia que anda à tona
E vai ganhando o gosto em espiral *
Falando-se em amar a poesia
Ela merece um canto de alegria
Porque também é fonte de poema *
Termino o meu soneto mesmo agora
A mestra que a gatinha tanto adora
Baseie o seu soneto neste tema *
Custódio Montes 26.3.2024 ***
14. *
"Baseie o seu soneto neste tema"
Leio agora, acabada de chegar
Ainda atordoada e a desejar
Que não tivesse a gata este problema *
Esta consulta não foi nada amena:
Três de nós não bastaram pr`agarrar
Mistral que como um tigre ousou lutar
Em vez de ronronar como um poema... *
Mas não posso esquecer os seus anseios,
Nem trazer à ribalta os meus receios
Quando o final da C`roa está tão perto *
Ao tiranete irei repreender
Até que o desobrigue de dizer:
"Amar-te em cada ano em dia certo". *
Mª João Brito de Sousa
26.03.2024 - 19.40h ***
publicado às 09:28
Maria João Brito de Sousa
VI VINICIUS
*
Vinde e vencei! Versejos vigorosos,
Vastas vitórias, verticais, vibrantes
Vos valorizam, vates! Véus velantes,
Vãs virtudes vos vetam, valorosos!
*
Vencei vitórias, ó vitoriosos!
Venenos vãos vos vendem! Verdejantes
Verborreias, vencidas, volitantes,
Vazam, vertem venenos vaporosos...
*
Válidos vinhos vituperam. Vícios!
Vivo e vitorioso, vi Vinicius
Versejando voragens e vertigem.
*
Vejo o vector vibrátil e vermelho,
Viço vilipendiado, vate velho
Virtuoso e voraz varando virgem.
*
Maria João Brito de Sousa – 20.07.2018 -12.45h
publicado às 07:25
Maria João Brito de Sousa
EU, O LOBO
(Soneto de Coda)
Sou um lobo e nasci para predar
Quanto me baste pra me garantir,
Bem como a todo o fruto que gerar
Na compulsão de me reproduzir,
Todo o bicho passível de matar
A dureza da fome que eu sentir,
Que também eu a sinto a protestar
Quando o sustento vai tardando em vir...
Se te assusto nas noites de luar
C´o uivo prolongado que emitir,
Mais a mim me violento, se o calar!
Mais tu matas do que eu possa caçar
E bem mais do que a fome te exigir;
A ti, dono e senhor do teu mal-estar,
Que apenas caças para te exibir,
Que mais posso dizer-te pra mostrar
Ter, também, o direito de existir?
Maria João Brito de Sousa – 27.06.2018 – 13.48h
publicado às 08:23
Maria João Brito de Sousa
FALO DO QUE SINTO
(soneto hendecassílabo com rimas encadeadas)
Já mortos, no tempo, andam os valores
mas nascem “senhores” neste nosso chão
que serão, ou não, por formação doutores...
porém... estupores?!... Isso eu sei que são!
Com ou sem razão, a esses tais “senhores”
chamo ditadores e aos que a eles dão,
por bajulação, aplausos e louvores
chamo de impostores! Digam lá que não!?
Sempre fiz questão de escrever de falar...
sem medo apontar injustiças que vejo
jamais p’lo desejo de ser aclamado...
foi-me já legado! Sem me comparar
a Ary vou gritar, porque nele me revejo,
não sou nem almejo ser vate castrado!
Abgalvão
...*…
TAMBÉM DO QUE SINTO, FALO!
Também do que sinto falo sem pudor,
Sem mudar de côr. Sobre essas, não minto,
Nem douro, nem pinto valor que é valor,
Nem que erga o teor à dor que hoje consinto
E que evito e finto, seja como for...
Sem um só rubor, direi tudo o que sinto
Sem branco nem tinto que altere o sabor,
Melhor ou pior, do que é claro e distinto.
Fujo ao tal estrelato que não me seduz,
Que sempre reduz a memória do facto
Ao mero aparato de uns jogos de luz...
Isto me conduz e portanto delato
Maldade, mau trato e quanto os traduz
Porque os reproduz sem um termo... e a contrato!
Maria João Brito de Sousa
18.06.2018 – 12.38h
Pablo Picasso - Self Portrait, 1907
publicado às 09:59
Maria João Brito de Sousa
MURMÚRIOS DO TEMPO
Às vezes há murmúrios pelo tempo… O vento geme em portas e janelas As nuvens dissimulam as estrelas O sol fica sem brilho, pardacento
O céu muda de azul para cinzento A chuva traz-nos novas aguarelas; Mudando a Natureza as suas telas Talvez ela até faça algum lamento
Porém o tempo chora e há beleza No cinza de que veste a Natureza Embora haja uma bruma no seu rosto
Serão choros do tempo, de tristeza? Há tratos que lhe damos com rudeza Talvez haja no choro algum desgosto...
Joaquim Sustelo
(editado em MURMÚRIOS NO TEMPO)
...* ...
SILÊNCIOS DO TEMPO
Outras vezes o Tempo silencia
As vozes murmuradas dos poetas,
Guardando-as em caixas tão secretas
Que nem um adivinho as acharia
E ninguém sabe por que as guardaria,
Por que razão as cala se, directas,
Essas vozes se erguiam muito erectas
No tempo em que o poema resistia.
Lamentos, ou sorrisos, ficam mudos
Nas gavetas dos linhos, dos veludos
E das sedas que o Tempo resguardou
Dos humanos ouvidos, quais riquezas
Que se tornassem bem guardadas presas
Do silêncio a que o Tempo as condenou.
Maria João Brito de Sousa – 17.06.2018 – 14.47h
Imagem - O Poeta Pobre - Carl Spitzweg
publicado às 10:36
Maria João Brito de Sousa
PAIXÃO DE NAMORADOS
Como a chama reclama combustível, Para manter-se acesa e aquecida, A paixão, igualmente perecível, Depende do desejo pra ter vida.
Como a chama, a paixão é suscetível De extinguir-se depois de consumida, Mantendo-se, porém, inexaurível, Se a fonte dos desejos for mantida!
Não a fonte da eterna juventude, Mas a tal sensação de plenitude Que completa os casais apaixonados;
Que funde, além dos corpos, nossas almas Nas chamas da paixão, que, mesmo calmas, Nos fazem para sempre namorados!
Belém, 12 de junho de 2018. Jay Wallace Mota.
...* ...
A CHAMA DA AMIZADE
E quando a chama acesa permanece
Cúmplice, humana, atenta e solidária,
Quando por tudo e nada se enternece
E emana uma luzinha igualitária,
Será companheirismo, o que enaltece
Essa luz que julgámos temporária,
Mas que reluz ainda e mais parece
Ter-se tornado humana luminária.
Não explode em grandes brilhos de paixão,
Mas vai-nos garantindo a combustão
Por muito, muito tempo, essa luzinha
Que se acendeu na ponta de um rastilho
E cuja chamazinha, no seu brilho,
Começa a ser tão tua quanto é minha.
Maria João Brito de Sousa – 17.06.2018 – 10.17h
publicado às 10:33
Maria João Brito de Sousa
VIDEO
publicado às 16:26
Maria João Brito de Sousa
CONVERSANDO COM HELENA TERESA RUAS REIS
"De primaveras mesmo sendo Inverno",
De um Verbo novo e sempre mais eterno
Por cada nascituro abrindo a vida,
Dar novo olhar à dor que foi vencida.
Natal feliz: um mundo p'ra o que sofre.
Abaixo os sons do mal e o cheiro a enxofre!
Renove-se p'la paz todo o terror
Co'a Bíblia ou o Corão chamado Amor.
O sono de Jesus nos dê sossego
Num berço onde a miséria enobrece
E humildes nos curvamos numa prece.
Fruto terno e raiz a que me apego...
Ó inverno em Natal nossa esperança,
Quimera que nasceu doce criança!
Helena Teresa Ruas Reis
*********
"Quimera que nasceu doce criança"
E a todas as crianças representa
Fazendo, do Natal, terna mudança
Que a todos nos enlaça e nos sustenta.
Calem-se, então, os loucos da matança
Cuja riqueza, injusta e opulenta,
Nos torna a vida dura e sem parança
E sempre sacrifica alguém que tenta
Contra a ganância impor-se e dizer; Não!
Que nunca, nunca mais se nasça em vão,
Que nunca mais se sofram agonias,
Que se unam sempre o Amor e a Razão,
Pois cada um de nós tem por missão
Construir um Natal todos os dias!
Maria João Brito de Sousa – 22.12.2017
publicado às 17:51
Maria João Brito de Sousa
MEU LUGAR
Carmo Vasconcelos
O meu lugar cativo está no Além,
que este daqui, por marco provisório,
tem seu tempo marcado, transitório,
é morada perpétua de ninguém.
Estamos de passagem, mas porém,
não é caminho vão, de todo inglório,
pois se revela p'ra alma sanatório
de erros passados - carma que detém.
Na breve estada cabe-nos saldar
o "deve" e "haver" de vidas mal vividas
na displicência própria dos infantes;
sair da senda dos ignorantes,
crescer na luz das chances concedidas,
p'ra ganharmos, enfim, "nosso lugar".
Carmo Vasconcelos
DE TOMBO EM TOMBO ATÉ SE DESFAZER
Seja Depois o meu lugar cativo,
que no Tempo o concebo e não no Espaço
onde inteira me entrego ao tempo escasso
de amigos e poetas com quem privo.
Também estou de passagem... se hoje vivo,
nunca sei se amanhã se solta o laço,
mas enquanto te encontro, a ti me abraço,
poema que me tentas, louco e esquivo...
No “deve” e no “haver”, fico a perder;
devo mais do que dou, dando-me inteira
de corpo e alma e mais do que o possível,
Mas foi-me agreste a sorte que, insensível,
transmutou rocha em seixo de ribeira
que tomba e rola até se desfazer...
Maria João Brito de Sousa – 29.12.2017 – 11.10h
publicado às 13:41
Maria João Brito de Sousa
SAUDADE DO PIUÍÍÍ
*
Regina Coeli
Lá longe, onde o passado jaz perdido,
Sempre via um alegre trem passar;
Deixava som saudoso ao meu ouvido,
Um gostoso "piuííí" solto no ar...
*
A criançada, olhar embevecido,
Aplaudia o trenzinho em seu cantar,
"Piuííí, Piuííí!", um eco repetido
Até sumir sua imagem devagar...
*
No relembrar de dias tão distantes
Fica-me uma tristeza acre e sem fim:
Jamais verei "piuííís" como vi antes...
*
Um trem desliza e corre pelo chão,
Circula e encanta todos, não a mim,
Porque não traz "piuííí” ao coração...
*
Regina Coeli
Brasil
MEMÓRIAS DO “POUCA-TERRA, POUCA-TERRA”
*
Não houve “piuííís” no meu Dafundo,
Mas houve um “pouca-terra, pouca-terra”
Que enchia todo o meu pequeno mundo
Das fantasias que outro mundo encerra...
*
Passa agora um comboio, longe, ao fundo,
Mais distante e tão rápido que enterra
Ao passar bem veloz, num só segundo,
Sessenta e cinco anos, quando berra
*
Sobre os carris de ferro que devora...
Ao velho “pouca-terra” evoco em vão;
Não é tristeza, não, que essa não mora
*
No mais profundo do meu coração...
A menina cresceu, sofreu... não chora,
Mas ama ainda como amava então...
*
Maria João Brito de Sousa -19.12.2017 – 18.28h
Portugal
publicado às 10:05
Maria João Brito de Sousa
"E nasce outro dia de sonhos, de esp`rança"
Desta gasta noite de desilusões
Que vence o cansaço, que traz a bonança
Que à beira do palco conduz multidões...
Cantemos que o mundo ainda é criança!
Crianças, nós todos, rumando às paixões
Que o soneto acende... e enceta-se a dança
Que o cria e partilha sem mais concessões!
Vai ficando escuro... do escuro da sala,
Um verso que nasce espontâneo se exala
Das pontas dos dedos, geladas, geladas...
Conversas que passam, mas nada nos cala;
Se um verso nos chama, passemos à fala
Que ao escuro da sala nos trouxe as chamadas.
Maria João Brito de Sousa - 19.12.2017
NOTA - O primeiro verso - entre aspas - é da autoria do poeta Joaquim Sustelo
publicado às 14:29
Maria João Brito de Sousa
SONATINA XII (do livro "Treva Branca")
É bom que eu viva ao léu, pois me acostumo
à solidão que assusta a quem não crê,
pois se de algum receio eu sou mercê,
passeio, canto e ando, rio e fumo.
Num certo dia que virá, presumo,
não tendo amigos nem sequer você,
talvez que eu me lamente, só porque
a sorte não nos pôs no mesmo rumo.
E, se ao chegar a hora em que se apaga
a luz da vida, uma saudade vaga
quiser velar na minha soledade,
ouvidos não darei ao seu alento,
porque saudade é sempre sofrimento
por mais que seja alegre uma saudade.
Alda Pereira Pinto
Brasil
Soneto recolhido no blogue “O Secular Soneto”
**********
ENCONTRO CASUAL DE DUAS SOLISTAS
Não passeio, nem canto. Escrevo e fumo
enquanto grafo um verso... talvez dois...
outros doze, a jorrar, virão depois
completar-me o soneto em que me assumo
Reflexo de um poema – ou seu resumo... -
nos estilhaços em que o desconstróis,
honesto, firme, não sonhando heróis,
de ti colhendo o fruto. A polpa. O sumo.
Vi-te por mero acaso. Este soneto
foi o ponto de encontro, o mar secreto
onde já de partida eu navegava
Quando te vi passar rebelde, agreste...
Olhei-te fixamente, mas nem deste
por mim, que estranhamente em ti me olhava.
Maria João Brito de Sousa – 14.12.2017 – 09.00h
Portugal
publicado às 09:07