Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

poetaporkedeusker

poetaporkedeusker

UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
02
Mai24

O CRAVO - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Maria João Brito de Sousa

cravo vermelho (3).jpg

 

O CRAVO
*

Coroa de Sonetos
*

Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*


O cravo vai andar sempre comigo

Bem posto, bem erguido a encantar

De dia com a luz a despertar

Sinal de liberdade, paz e abrigo
*


Que o cravo nos liberte do perigo

De novas trevas virem apagar

Os sons que trouxe abril no seu cantar

Mostrando em cada canto um amigo
*


Cravo vermelho é essa a sua cor

Que o rubro cravo não seja esquecido

Ouvindo ao alto o rufo do tambor
*


No cano da espingarda ao alto erguido

Pleno de liberdade ao seu redor

Para que o povo não seja vencido
*


Custódio Montes
30.4.2024
***

2.
*

"Para que o povo não seja vencido"

Neste claro atentado contra Abril

Há que arrancar a besta do covil

E que acordar quem ande distraído
*


Não vá este país ser engolido

Depois de ter caído noutro ardil,

Reacendamos a chama viril

De um povo a que chamámos Povo Unido
*


E se são nossos esses ideiais

De tecto, educação, saúde e Paz

Façamos por torná-los bem reais
*


Que dizes, Portugal? Inda és capaz

De cumprir este Abril como esses tais

Que a lei da vida já deixou pra trás?
*


Mª João Brito de Sousa

30.04.2024 - 14.00h
***

3.
*

“Que a lei da vida já deixou pra trás”

Mas que são importantes para nós

Um povo unido, sim, e não a sós

Que só o povo unido é capaz
*


Andemos com a força de rapaz

Com o ensinamento dos avós

Trazendo o nosso barco até à foz

E tudo o que em conjunto satisfaz
*


Fascistas não…que vão para o covil

A pátria é nossa, a pátria é do povo

Assim o disse o cravo e o mês de abril
*


Ao alto e a cantar todos de novo

Que a liberdade viva anos mil

Em poemas a canto e assim a trovo!
*


Custódio Montes
30.4.2024
***

4.
*

"Em poemas a canto e assim a trovo!"

Estuando a liberdade conquistada,

Chorando e rindo quando a madrugada

Nasceu iluminando o nosso povo
*


De frente para o mundo, o Homem Novo,

Que enchia cada rua e cada estrada

Nunca mais bateria em retirada

Que o que louvava então ainda eu louvo
*


Posso hoje estar doente, enfraquecida,

Mas a vontade e a garra permanecem:

Acorda, ó Liberdade adormecida
*


Que os venenos que agora te entorpecem

"O dia inteiro e limpo", a própria vida,

Hão-de morrer sem ti: Não te merecem!
*


Mª João Brito de Sousa

30.04.2024 - 16.00h
***

.

5.
*

“Hão-de morrer sem ti. Não te merecem”

Que é vaga a ideia deles na verdade

Por não terem lá dentro liberdade

E teias de maldade apenas tecem
*


São horrendos vampiros que entristecem

Enganam toda a gente e a cidade

Recebe deles só ferocidade

E para governar se oferecem
*


A nós não nos enganam que sabemos

Que a sua ditadura traz agravo

Como a do ditador que cá tivemos
*


Mas acabou há muito….o povo bravo

Unido aos capitães que engrandecemos

Em vez da escravatura ergueu o cravo
*


Custódio Montes
30.4.2024
***

6.
*
"Em vez da escravatura ergueu o cravo"

Com o qual enfeitou as carabinas:

Basta de ditaduras assassinas,

Basta de humilhação e desagravo!
*


Este, que mourejava como um escravo,

Olhando o que exibia roupas finas

Soube que lhe era igual. Dif`rentes sinas:

Tudo tem um, o outro, nem um chavo...
*


Urgia eliminar estes abismos,

Urgia abrir as portas das prisões

E urgia erradicar os eufemismos
*


Que designavam chibos e vilões:

Às ferramentas vivas dos fascismos

Não devemos chamar senão capões!
*


Mª João Brito de Sousa

30.04.2024 - 21.00
***

7.
*
“Não devemos chamar senão capões”

Capados, é o termo, mal cheirosos

Diferentes dos cravos tão formosos

Só querem o alheio os ladrões
*

Andam sempre à procura de tostões

Atrás do que é dos outros, vergonhosos

Falam no bem do povo, mentirosos

Traidores, impostores, mandriões
*


Mas não falemos deles que é só dor

O que causam ao povo por maldade

De elites se propagam com fervor
*


Mas são gente maldosa na verdade

E a todos causam raiva e rancor

Por serem poço imundo de maldade
*


Custodio Montes
30.4.2024
***

8.
*

"Por serem poço imundo de maldade"

Não nos merecem mais do que desdém:

Estrebucham mas jamais serão alguém

Nem terão corações dos de verdade...
*


Pululam nos esgotos da cidade

Não sabendo o vigor que o cravo tem

Nas mãos do povo que lhe quer tão bem

Que o usa pr`adornar a Liberdade
*


Celebra-se amanhã mais uma vez

O primeiro de Maio, outra conquista

Daquela brava gente que Abril fez
*


E de vermelho cravo bem à vista

Afirmará o povo português

Que, disto, nunca esperem que desista!
*


Mª João Brito de Sousa

30.04.2024 - 23.00h
***

9.
*

“Que, disto, nunca esperem que desista”

Do primeiro de Maio nem pensar

É o trabalhador a assinalar

Mais um dia famoso em revista
*

É um dia que aumenta essa lista

De comemoração a festejar

O cravo fica bem a enfeitar

Canos de espingarda bem à vista
*


Andemos com o cravo na lapela

Que, além de ser bonito, também cheira

E torna a rua linda e tão bela
*

Que junta muito povo à sua beira

Toalhas brancas presas à janela

E todo o amor e graça que se queira
*


Custódio Montes
30.4.3024
***

10.
*

"E todo o amor e graça que se queira"

Encontrareis no cravo que ali está...

Diz um: Mas que bonita, Festa, pá!

Diz outro: Vem também prá nossa beira!
*


Assim se junta o povo. Uma bandeira

Agita-se no ar, pra cá, pra lá...

E cravos são aquilo que mais há

Naquela inesquecível quarta-feira
*


Eu, que sei ter um cravo enraizado

Dentro do peito e junto ao coração

Que pulsa ainda que descompassado,
*


Estou e não estou na manifestação:

Fica-me o corpo inteiro aqui sentado,

Voa-me o cravo em sua direcção.
*


Mª João Brito de Sousa

01.05.2024 - 12.00
***

11.
*

“Voa-me o cravo em sua direcção”

Voar voa o espírito e a cabeça

E nada há no mundo que me impeça

De o levar e mostrar na minha mão
*

Para haver a presença, o coração

Sente mesmo que longe nos pareça

O consolo e a dor não têm meça

Conforme o lugar onde eles estão
*

O cravo canta abril à desgarrada

Mas do cantar do cravo me distraio

Quando sigo de alma irmanada
*

Não penso, sigo em frente, vou, não saio

Sou abril, liberdade, camarada

E assim faço também no mês de maio
*


Custódio Montes
1.5.2024
***

12.
*

"E assim faço também no mês de Maio"

De coração em festa em casa fico

E a cantar este dia me dedico

Porque sair não posso, então não saio...
*


Voa-me o pensamento como um raio

E num instante irá levar-me ao pico

Do verso que pretendo forte e rico:

Estou gasta mas o verso inda é catraio!
*


De qualquer forma, esteja como esteja,

O cravo que reside no meu peito

Tem sempre a cor vermelha da cereja
*


Sabe que será sempre o meu eleito,

Chama por mim tão só pra que eu o veja

E chega ao fim julgando estar perfeito...
*


Mª João Brito de Sousa

01.05.2024 - 22.00h
***

13.
*

“E chega ao fim julgando estar perfeito”

E bem bonitos cravo e portadora

Ambos juntos imagem criadora

Ele vermelho e ela sem defeito
*


Vermelho é cor que fica bem ao peito

E com o cravo à mostra uma senhora

Fica mais linda mais encantadora

E o conjunto assim é o meu eleito
*


Vermelho também é a rubra cor

Que nos alegra a vista e a claridade

Irrompe à nossa volta bem melhor
*

Abril chega com maio, com vontade,

De dizer a cantar com mais calor

E com muito amor: viva a liberdade
*

Custódio Montes
1.5.2024
***

14.
*

"E com muito amor: viva a liberdade"

Dizemos quantos nesse cravo vemos

O fim da repressão em que sofremos

Mais de quarenta anos de impiedade
*

 

Foi em Abril que as ruas da cidade

Floresceram nos cravos que hoje erguemos

Pra celebrar o Maio em que acendemos

A inapagável chama da Verdade
*


Por isso é que nos dias mais cinzentos,

Em vez de procurarmos um abrigo,

Não arredamos pé e muito atentos
*


Aos primeiros sinais do mal antigo

Dizemos: Não mais dor, não mais tormentos,

"O cravo vai andar sempre comigo!"
*


Mª João Brito de Sousa

02.05.2024 - 11.45
***

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

01
Jan24

NO POEMA - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Maria João Brito de Sousa

pinterst butterflies.jpg

Imagem Pinterest enviada para o meu endereço electrónico

*

 

NO POEMA

Coroa de Sonetos

Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*


1.
*

No poema as palavras é que mandam

Nas vias que percorrem a cantar

Às vezes fogem, voam para o mar

Correndo pela areia e por lá andam
*


Como aves voejam e cirandam

Baixinho, sobre as ondas, pelo ar

Entoam melodias de encantar

E nessas belas árias nos demandam
*


Palavras entoadas, sol poente

Teu regaço, maresia envolvente,

E os teus olhos amados em redor
*


Cantigas lá ao longe, melopeia

Enredo a surfar como sereia

Palavras só palavras só de amor
*


Custódio Montes

(Do seu livro "Em Maio")
***

2.
*


"Palavras só palavras só de amor"

Mas tantas formas há de amor sublime

Que às vezes esse amor em dor se exprime

Se o mundo grita e sangra em seu redor
*


E pode lá haver amor maior

Do que o que nos perdoa e nos redime

Pois nem uma palavra nos suprime

Quando nos rebelamos contra a dor?
*


Palavras revoltadas que explodindo

Fazem por acordar quem está dormindo

E dar ouvido ao surdo e vista ao cego,
*


Que fazem eco sem mostrarem medo

De exporem a crueza e o degredo...

Palavras? Mesmo amargas, nunca as nego!
*

 

Mª João Brito de Sousa

30.12.2023 - 20.00h
***

3.
*
“Palavras? Mesmo amargas, nunca as nego!”

Que palavras são vida e salvação

Às vezes há palavras sem razão

E outras que, bem ditas, dão sossego
*

Palavras no poema eu emprego

Que trazem o amor no coração

Às vezes de tristeza elas serão

Confesso tudo isso não o nego
*

Mas sem uma palavra de conforto

Para levar a vida a um bom porto

De incentivo, de força, de coragem
*

Que seria de nós e do viver?

Usar palavras certas tem que ser

E com elas mandar linda mensagem
*

Custódio Montes
31.12.2023
***

4.
*
"E com elas mandar linda mensagem"

Será sempre possível como quem

Saúda alegremente o que lá vem

Depois de regressar de uma viagem
*


E ainda que só venha de passagem,

Seja parente ou seja um Zé-ninguém,

Uma palavra amiga cai tão bem

Como um voto de esp`rança e de coragem...
*


Sim, há lugar pra tudo o que se sente:

Se todas as palavras são semente,

Até as mais singelas darão fruto
*


Mas deste chão convulso e violento

Quem espera frutos de contentamento

Se meio mundo sofre e está de luto?
*


Mª João Brito de Sousa

31.12.2023 - 14.15h
***

5.
*
“Se meio mundo sofre e está de luto"

O sofrimento existe em todo o lado

No bom, no mau, no triste e deserdado

Até no importante e resoluto
*

Da árvore provém sempre o seu fruto

Mesmo com tempestade e com tornado

Depois vem a bonança e o verde prado

O tempo soalheiro, o tempo enxuto
*


E tudo da palavra nos provém

Amor, contentamento, a nossa mãe

Raiz da nossa vida e nosso amor
*


Contentes, descontentes ou risonhos?

No meio das palavras há os sonhos

As rosas, malmequeres, toda a flor
*

Custódio Montes
31.12.2023
***

6.
*
"As rosas, malmequeres, toda a flor"

Nos sugere um momento de alegria

E o poema surge em sinergia

Com tudo o que floresce em derredor
*


Mas quando em vez da flor floresce a dor

De uma aflição, de um grito de agonia,

Pode o poema entrar em sintonia

Com esse sofrimento, esse clamor...
*


No meu poema há espaço para o riso

E para o grito quando for preciso

Dizer: - Basta de guerra e de martírio!
*


E às vezes chorarei - ninguém me impeça! -,

Pra saudar uma vida que começa

A abrir-se ao mundo como um branco lírio...
*

 

Mª João Brito de Sousa

31.12.2023 - 19.20h
***

7.
*
“A abrir-se ao mundo como um branco lírio”

Que é vida o nascimento da criança

Um membro de família que se alcança

Um gosto, uma alegria, um delírio
*


Uma cor que o ornamenta, cor porfirio

Que depois se normaliza com pujança

Pequeno mais crescido com mudança

Uma graça concedida, não martírio
*


A palavra moldada é já normal

Não vai buscar a rima ornamental

Que a branca cor de lírio clareou
*

E termina a fazer festas com mimo

À criança que gerei e muito estimo

Que afago com carinhos que lhe dou
*


Custódio Montes
31.12.2023
***

8.
*

"Que afago com carinhos que lhe dou"

E eu sinto-me afagada só de olhá-la,

Que a voz pode tremer-me mas não cala,

Nem a palavra esconde o que a tocou
*


E se o poema estático ficou,

Logo se transfigura e se ergue e fala,

Sobe em sonoridade e rompe a escala

A que a velha rotina o condenou...
*


Uma visão terna e tão tocante

Confere eternidade ao breve instante

E fica-nos cá dentro a vida inteira
*


Que uma vida que nasce e permanece

É um milagre que jamais se esquece

Se a palavra que o narra for certeira!
*


Mª João Brito de Sousa

31.12.2023 - 23.39h
***

9.
*
“Se a palavra que o narra for certeira!”

Mas há imensas formas de o dizer

Porque se a rima certa se perder

O poema nasce torto e sem maneira
*


É difícil apenas a primeira

Mas dando um toque logo a condizer

A palavra aparece com prazer

E a rima surge então à sua beira
*


A palavra que deixo a final

É palavra escolhida e normal

Não palavra com muita raridade
*


O poema sorri e agradece

Que a palavra final bem o merece

Porque à rima não traz dificuldade
*


Custódio Montes
1.1.2024 (à entrada do ano)
***

10.
*
"Porque à rima não traz dificuldade"

A palavra final fica contente

E passa o testemunho antes que a gente

Ceda ao soninho bom que nos invade...
*


O Novo Ano entrou sem novidade:

Quase não dei por el`, sinceramente!

Não se cobrisse o céu da incandescente

Luz dos eternos fogos, na cidade,
*


E não se enchesse a casa de estrondosas

Crepitações sonoro/luminosas,

Talvez eu já dormisse a sono solto...
*


Assim respondo embora tacteando

Cada letrinha que me vai fintando

E me afronta afirmando: - Já não volto!
*


Mª João Brito de Sousa

01.01.2024 - 01.50h
***

11.
*
“E me afronta afirmando - já não volto!”

Mas isso é o que ela pensa porque a maga

O gesto que ela tenta lho embarga

E a obriga com jeito e amor envolto
*


E a palavra que dorme a sono solto

Em sonhos vem de Oeiras até Braga

Sem dar conta que o sonho aqui a traga

Nem mostrar qualquer gesto ou ar revolto
*


A grande poetisa faz a lavra

Para a ribalta traz cada palavra

E ela ao acordar e sem estorvo
*


Até dança no chão sobre tapetes

Relembrando a festa e os foguetes

Na passagem do velho ao ano novo
*

Custódio Montes
1.1.2024

***

12.
*

"Na passagem do velho ao ano novo"

Tanto tossi, de tal forma espirrei,

Que ao próprio foguetório ultrapassei

Em decibéis, quase assustando o povo...
*


Ao confessá-lo, aqui, não me promovo,

Pois na verdade até me envergonhei:

Espirrei, tossi, espirrei, tossi, espirrei...

A tão estrondosa gripe, eu não a aprovo!
*


Agora ainda espirro, ainda tusso,

Tudo isto lhe confesso sem rebuço

Que a culpa é deste vírus traiçoeiro
*


Que quis passar comigo o "réveillon"

Ainda que não seja de bom tom

Estragar-me este primeiro de Janeiro...
*


Mª João Brito de Sousa

01.01.2024 - 13.30h
***
13.

*
“Estragar-me este primeiro de Janeiro”

Bem queria mas isso eu não deixo

Posso ser preguiçoso com desleixo

Mas sou fixe e um belo companheiro
*


Porém, agarrado, interesseiro,

Sou pensativo, atento, a mão no queixo

No meio das palavras eu me enfeixo

E um amigo seu a tempo inteiro
*


Termino meu poema, não engano

Termino mas desejo um feliz ano

Para dar-lhe a palavra para o tema
*


Fechará a coroa com certeza

Com arte, com encanto e com beleza

E porá mais palavras no poema
*

Custódio Montes
1.1.2024
***

14.
*

"E porá mais palavras no poema"

Ficando este Ano Novo enriquecido

Por uma c`roa que o terá vestido

Co`a graça e a riqueza do fonema
*


Que de ora avante será seu emblema

E também nosso, que havemos polido

Letra após letra o festim prometido

Onde a palavra brilhará qual gema
*


Mas nós, os que a palavra trabalhamos,

Jamais destas palavras fomos amos:

Rebeldes, voam alto e nunca abrandam
*


Fazendo-nos, aos dois, ir atrás delas

Pra, com cuidado, podermos colhê-las:

"No poema as palavras é que mandam"
*


Mª João Brito de Sousa

01.01.2024 - 16.00h
***

 

 

 

 

07
Mai23

NEM PEIXE NEM AVE, QUERO SER HUMANO - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Maria João Brito de Sousa

Homem Vitruviano - L.V..jpg

Homem Vitruviano, Leonardo da Vinci

*

 

NEM PEIXE NEM AVE, QUERO SER HUMANO!
*
Coroa de Sonetos
*

Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*

1.
*

Nem peixe nem ave, quero ser humano
Andar pelas ruas, olhar, conversar
Com os pés na terra, cabeça a pensar
A cantar o fado com o qual me irmano
*

Quero companhias leais sem engano
Por perto ou ao longe que possa encontrar
A fazer poemas ou a comentar
No meu dia a dia cada mês e ano
*

No poema voo e no canto nado
A andar e a viver catarei o meu fado
Seguindo esta senda sem qualquer entrave
*

E como humano no meu pensamento
Navego no mar e ondulo no vento
Sem ser, como disse, nem peixe nem ave
*

Custódio Montes
5.5.2023
*
(Inspirado no soneto da Maria João de Sousa, intitulado:

“Fosse eu uma ave ou talvez um peixe”)
***

2.
*

"Sem ser, como disse, nem peixe nem ave",

Assumo que gosto de ser como sou:

Humana e poeta, que isso me bastou,

Embora encontrando, faz tempo, um entrave
*


Com fogo que aqueça e com água que lave

A roupa que trago, se o corpo suou,

Só me falta a Musa que se me negou

Por coisa de nada ou motivo mais grave...
*


Mas só quando escrevo sou tudo o que quero,

Por isso nos versos redobro o meu esmero

Se a Musa, arredia, se afasta e só volta
*


Quando bem entenda que deve voltar,

Mas se ela sou eu, em mim me hei-de encontrar,

Embora em mim mesma me perca, se à solta...
*

 

Mª João Brito de Sousa

06.05.2023 - 15.15h
***

3.
*
“Embora em mim mesma me perca, se à solta”
Mas nunca se perde será sempre a mesma
Quem como uma nauta navega em poema
E mesmo em mar alto nunca se revolta
*

A musa coitada anda sempre à volta
E nunca a alcança ou ao seu teorema
Anda a vigiá-la mas que nunca a tema
Que a força do verso lhe serve de escolta
*

Mesmo sem ser ave sabe bem voar
Melhor que a musa que a anda a gozar
Quem lhe dera a ela ser inspiração!
*

Escreva e levante aos céus a sua voz
Que ela se ouvirá e, levada em trenós,
Será sempre ouvida em poema-canção
*


Custódio Montes
6.5.2023
***


4.
*

"Será sempre ouvida em poema-canção"

A voz, meu amigo, que traz no seu peito

Que o meu, estropiado, nada faz de jeito,

Está rouco e cansado como o coração
*


Contudo inda remo e não largo este arpão

Com que arpôo um verso que, mesmo imperfeito,

É melhor que nada e por isso o aceito

E o trago à mesa e o reparto, qual pão...
*


Estou fraca, cansada e tão desinspirada

Que temo, por vezes, não servir pra nada:

O pouco que faço não paga o que gasto
*


Em ar, alimento e até nos cuidados

Que todos os dias vão sendo prestados

À minha pessoa que, a mim, me não basto.
*


Mª João Brito de Sousa

06.05.2023 - 19.10h
***

5.
*

“À minha pessoa que, a mim, me não basto.”

É verdade, somos tudo e somos nada

Mas enquanto andarmos nós à desgarrada

Porque esse alimento é o melhor repasto
*


Se ter sofrimento é um viver nefasto

Saiamos à luta, luta conquistada

Com a poesia ao alto embandeirada

Pensemos no amor com vigor mesmo casto
*


A vida é dura mas muito nos diz

Agora e quando se era mais feliz

Vivamos a vida com muita alegria
*


É melhor assim que andarmos a sofrer

Porque o sofrimento faz-nos padecer

Alegre-se a alma, sem melancolia
*

Custódio Montes

6.5.2023
***

6.
*

"Alegre-se a alma sem melancolia"...

Mas, melancolia, raramente a sinto

Porque riso a riso quase sempre a finto

E, à tristeza, troco-a por muita alegria
*


Já à dor do corpo, que em mim faz razia,

Não será tão fácil esquecê-la, e não minto

Se afirmar que a venço quase por instinto

A menos que em força me vergue a agonia...
*


Quanto à reclusão, a que foi e vai sendo

O meu dia a dia, com essa eu aprendo

Tanto ou mais do que outros que andam viajando
*


Pois pouco me basta pra ficar contente

Que estas desgarradas, muito cá da gente,

São sempre uma festa! Estou comemorando!
*


Mª João Brito de Sousa

06.05.2023 - 21.15h
***
7.
*

“São sempre uma festa! Estou comemorando…”

Também comemoro com a companhia

Da grande poeta, com muita alegria

Pois muito me agrada e vai inspirando
*


Às vezes parado só se escreve quando

Se vai na viagem com o melhor guia

Não se anda com medo, cresce a fantasia

E mesmo sem estro lá se vai andando
*


Poema é carinho, tem muita elegância

Aparece ao mundo cheio de fragrância

E a gente não lembra nem mágoa nem dor
*


Melhor esquecer o nosso sofrimento

Rir com alegria por todo o momento

E o que dizemos terá mais calor
*

Custódio Montes

6.5.2023
***

8.
*

"E o que dizemos terá mais calor"

Se quanto dissermos for verdade pura

E vier temp`rado de alguma candura

Ou de outros afectos do mesmo teor
*


Escrevo, sou sincera, sem fazer favor,

Só porque me encanta tudo o que perdura:

Dar e receber sem pagar a factura,

Nem fazer leitura lá, no contador,
*


Será do melhor que aqui vamos tendo

E se algo eu ensino, muito mais aprendo,

Que é lendo e escrevendo que aprendo o que sei
*


Não será leitura para toda a gente,

Mas pode - quem sabe? - deixar a semente

De uma nova C`roa, sem rainha ou rei...
*

 

Mª João Brito de Sousa

06.05.2023 - 22.05h
***

9.
*

“De uma nova C’roa, sem rainha ou rei…”

Que as dadas em Londres se são como estrelas

As que aqui compomos, embora singelas,

Perduram no tempo e agradam à grei
*


Enfeitam o tema, na forma são lei

Bem emalhetadas, são lindas, são belas

Fazem um circuito, gozam também elas

Gabar mais não posso que isso já não sei
*


Mas sendo ajudado vou ao infinito

E fica a coroa com mais gabarito

No seu conteúdo e também ao ser vista
*

À roda balança toda enfeitada

Todos que a virem acham-na engraçada

E dirão em coro: vem de mãos de artista!
*

Custódio Montes

6.5.2023
***

10.
*

"E dirão em coro: vem de mãos de artista!"

Pois não sendo de ouro nem tendo diamantes,

É toda tecida do valor de instantes

Que de tão sentidos vos saltam à vista
*


Se acaso se queixa, nunca é derrotista

Que aponta caminhos que são importantes

E que rasga estradas que embora distantes

Quando percorridas, garantem conquista!
*


São coisas de humanos, danças de poetas

Que às vezes correndo parecem estafetas

Levando mensagens para o mundo inteiro
*


Por vezes complexas, por vezes singelas,

Mas todas visíveis que tal como estrelas

Desenham no espaço um perfeito luzeiro
*

 

Mª João Brito de Sousa

07.05.2023 - 00.02h
***
11.
*

“Desenham no espaço um perfeito luzeiro”

E pelas estradas as tornam floridas

Enfeitam os campos dão graça às ermidas

Com passos gigantes à frente em primeiro
*


Descrevem searas um morro um outeiro

Com a aura certa como a do rei Midas

De ouro enfeitado antenas erguidas

A singrar no mar ao timão dum veleiro
*


Os poemas voam vão a grande altura

São pombos à solta, sinais de cultura

Que dão luz ao mundo e à volta o enfeitam
*

Quem os vir voando até o sol se pôr

Fica tão alegre e com tanto amor

Que na cama os leem enquanto se deitam
*

Custódio Montes

7.5.2023 - (ao romper da aurora)
***

12.
*

"Que na cama os leem enquanto se deitam"

E assim que o Sol nasça, acorrem bem despertos,

Ao verso que acorda de braços abertos

E de sonhos, outros, os poemas se enfeitam
*


Poeta e poema, ambos se deleitam

Quando se aventuram por espaços incertos,

E ao cantar a Vida nos seus desconcertos

Descobrem sentido no que os mais rejeitam...
*


Desta simbiose, sempre musicada,

Vai nascendo a C`roa sem jóias, sem nada:

Somente as palavras saberão tecê-la
*


E assim, fio a fio, caminha em beleza,

Esta humilde C`roa, sem que a realeza

Saiba que ela existe e também queira tê-la...
*

 

Mª João Brito de Sousa

07.05.2023 - 11.45h
***

13.
*

“Saiba que ela existe e também queira tê-la"

Mas nós não deixamos que a C’roa aqui feita

É muito mais linda, linda e perfeita

Que a da realeza que é outra e não ela
*


O ouro que ostenta torna-a mais bela,

Ouro de palavras que bem mais enfeita

Que a que é trabalhada conforme a receita

Pra pôr na cabeça e agradar à favela
*

 

Pelo ar voamos, vogamos no mar

E peixe não somos nem ave a voar

Andamos na terra mas o pensamento
*


Usa as suas asas, voa sem que tema

Perigos e medos e tece o poema

Que no mar ondula, voa e amaina o vento
*

Custódio Montes


7.5.2023
***

14.
*

"Que no mar ondula, voa e amaina o vento"

Acalmando a dor se uma dor nos domina

E que tantas vezes a noite ilumina

Ou vem aquecer-nos no frio do relento...
*


Está nela imbuído o nobílimo intento

De nos elevar enquanto nos fascina

E quanto mais velha, tanto mais menina

Que tudo o que exige é compasso e talento...
*

 

Ah, quando a fechamos, ainda é mais bela,

Mais jovem, mais fresca, mais suave e singela

Que o verso que a sela jamais causou dano
*


E em boa verdade vos posso afirmar

Que pelo prazer de a tecer e fiar,

"Nem ave nem peixe, quero ser humano"!
*


Mª João Brito de Sousa

07.05.2023 - 13.40h
***

 

 

 

 

29
Abr23

NA ONDA - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Maria João Brito de Sousa

NA ONDA.jpg

NA ONDA - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*

Coroa de Sonetos
*
1.
*

No alto da onda deu-se a explosão
Do ventre saído, com luz, com amor
Livre de pecado, criado sem dor
Que do mar emana, mar da criação
*

Ao mundo lançado à procura de pão
E com alegria, garra e destemor
Andei pelo campo, cidade e ao redor
Em tempos passados, tempos que lá vão
*

Agora na onda deste tempo aurido
Procuro que o tempo me forneça tema
Para que o meu tempo fique enriquecido
*

Paro e olho em frente e então por sistema
Vou à biblioteca e depois de ter lido
Ocupo o meu tempo escrevendo um poema
*

 

Custódio Montes
27.4.2023
***
2.
*

"Ocupo o meu tempo escrevendo um poema"

Que brota da rocha que sou quando em rocha

Transformo a papoila que em mim desabrocha

Que às vezes é louco e bem louco, este esquema
*


No qual me aventuro sem leme e sem lema

De dia ou de noite e à luz de uma tocha,

Que acendo no escuro que de mim debocha

Tentando cegar-me, que o faz por sistema...
*


Porém nos provectos setenta que ostento

Em cabelos brancos até à cintura,

Rio-me do escuro que me observa atento
*


Tentando fazer-me fazer má figura

Crendo que me assusto ou até me atormento

Por ter de o pagar quando chega a... factura.
*

 

Mª João Brito de Sousa

27.04.2023 - 16.15h
***
3.
*

“Por ter de o pagar quando chega a factura”
Mas lá vou andando percorrendo a estrada
É demais o custo mas não deixo nada
Levo tudo avante de forma segura
*

Na crista da onda quando se procura
Encontra-se forma, por mais complicada,
De pagar a pronto conta debitada
Mas não pago nada quando vejo usura
*

Fui assim criado mas andei à rasca
Na borga em Coimbra e por lá a cantar
À noite passava as horas na tasca
*

Pagava aos amigos e sempre a gastar
Era inocente sem sair da casca
Mas não vale a pena andar a lamentar
*

 

Custódio Montes
27.4.2023
***

4.
*

"Mas não vale a pena andar a lamentar"

Pequeninos erros do nosso passado

Senão o presente passa-nos ao lado

E o futuro avança sem nos dar lugar...
*


Antes memoremos, pra comemorar,

Desses belos tempos, cada beijo dado,

Furtivo que fosse, de acordo ou roubado

À semi recusa de ocasional par...
*


Da borga não soube mais do que o que lia

E bem pouco ou nada gastava comigo

Que eu, por ser "menina", nem sequer saía
*


E sair à noite era, então, um p`rigo,

Um tremendo risco que eu nunca corria

Pois ficava em casa... sem ser de castigo.
*


Mª João Brito de Sousa

27.04.2023 - 21.10h
***

5.
*
“Pois ficava em casa…sem ser de castigo”
Mas isso era apenas quando combinado
Sem os pais saberem ficava fechado
Para brincadeiras com algum amigo
*

Porque normalmente seguia comigo
A ladrar a fusca pelo povoado
Ia para o monte de pastor do gado
Nadava no rio sem qualquer perigo
*

Que na minha terra quando era pequeno
Só havia o campo e mais nada ao redor
Os montes ao alto, o rio e tempo ameno
*

Os lameiros verdes, espalhada a flor
Um cheiro aprazível ondulante o feno
Os nabais frondosos, recantos de amor
*

Custódio Montes
27.4.2023
***

6.
*

"Os nabais frondosos, recantos de amor"

Compunham o grande temor dos meus pais:

- Se não sais comigo, de casa não sais,

Senão, minha filha, quando for`s maior!
*


Se eu ia à piscina e nadava a primor,

Logo a minha mãe se sentava entre os mais

E ou me vigiava ou fazia sinais

Pra que me sentasse a seu lado. Um horror!
*


Porém o destino pregou-lhe a partida

E foi na piscina que um dia encontrei

O amor que haveria de ser para a vida
*


Ou, melhor dizendo, alguém que eu amei

Com quem me casei sem ter sido pedida

E ao fim de trinta anos, ou quase, deixei.
*

 

Mª João Brito de Sousa

27.04.2023 - 22.35h
***

7.
*
“E ao fim de trinta anos, ou quase, deixei”
Quando se abandona é porque não se quer
Nosso companheiro - homem ou mulher-
Fica-se sozinho como é de lei
*

Vidas dessas nunca eu experimentei
A minha família sabe-me acolher
Vou andar com ela sempre que puder
E abandonado nunca estarei
*

Fui hoje a Amarante e a Sara de dois anos
Virou-me os seus olhos e a brandir a mão
Avô vais morrer. Eu fiquei sem enganos
*

Nessa circunstância ficarei então
Logo abandonado nos mundos insanos
Fico só - adeus - e sem contemplação
*

Custódio Montes
27.4.2023
***

8.
*

 

"Fico só - adeus - e sem contemplação"

Mas nas brincadeiras dos mais pequeninos,

Tudo tem a graça de angelicais hinos

Que da morte/morte nem têm noção
*


E se nela falam por qualquer razão,

Da mesma maneira pulam, fazem pinos,

Se entregam, audazes, a tais desatinos

Que nos perguntamos como aguentarão...
*


Quanto a nós, adultos no Outono da vida,

Bem sabendo quanto nada é linear

E que, a dor que mate, nem uma partida,
*


Ainda que ajude, poderá salvar,

Não espanta uma vida que foi destruída

Por dor que, de horrenda, prefiro calar.
*

 


Mª João Brito de Sousa

28.04.2023 - 01.05h
***

9.
*

“Por dor que, de horrenda, prefiro calar”
Calar, sim, calemos que é muito melhor
Falemos do dia até o sol se pôr
E da natureza, das ondas do mar
*

Não sobre a tristeza, temos de a arredar
E pô-la de lado. Falemos de amor
E de coisas boas ao nosso dispor
E já não da morte até ela chegar
*

As flores do campo, ou o nascer da aurora
Risos de alegria, sonhos de criança
Há tanta beleza pelo mundo fora
*

E até recordarmos - que boa a lembrança !!!
Deixemos as mágoas… que se vão embora
E que a vida traga ventos de mudança
*

Custódio Montes
28.4.2023
***

10.
*

"E que a vida traga ventos de mudança"

Que soprem nas velas das barcas da Vida

Pra que a Paz sonhada seja conseguida

E que em nós ressurja, renovada, a esp`rança
*


Sabemos que a barca desta Vida avança

Por entre borrascas qual guerreira f`rida

Que às vezes naufraga se for atingida

Por vaga que a exceda em vigor e pujança
*


Façamos, portanto, tudo o que pudermos

Pra que as tempestades sejam passageiras

Ou só se enfureçam sobre espaços ermos
*


Dos quais nossas barcas se afastem ligeiras

Se nós, marinheiros, amansar soubermos

Outras ameaças de ondas altaneiras.
*


Mª João Brito de Sousa

28.04.2023 - 10.30h
***

11.

*

“Outras ameaças de ondas altaneiras”
Como é o naufrágio que nos ameaça
Fiquemos na margem enquanto ele passa
E não arrisquemos a fazer asneiras

*

 

Na vida que corre há imensas maneiras
De afastar perigo que ao vir nos enlaça
Nos tira a saúde e nos deixa sem graça
Perturbando o sonho, causando canseiras

*

 

Que a vida nos corra sem melancolia
Porque ela é difícil e temos de ter
A clarividência e também a mestria

*

 

De em cada momento sabermos viver
Que os minutos passem com muita alegria
Assim tem que ser e querer é poder

*

Custódio Montes
28.4.2023
*

12.
*

"Assim tem que ser e querer é poder"

Embora nem sempre nos baste a vontade...

Mas acreditemos que é pura verdade

E algum benefício havemos de obter
*


Mas se de algum erro inocente eu estiver

Basta-me esse trunfo pra que a tempestade

Recue vencida p`la temeridade

De cada verdade que eu possa dizer?
*


Voltemos às ondas revoltas do mar,

Ao vento que sopra, ao trovão que reboa

E à mão sobre a roda do leme a teimar
*


Em salvar a Barca e levá-la a Lisboa:

Já passou a Barra e está quase a chegar

Ao porto que abriga a canção que ela entoa!
*

 

Mª João Brito de Sousa

28.04.2023 - 13.45h
***

13.
*

“Ao porto que abriga a canção que ela entoa”
Do alto da onda até praia segura
A barca descansa depois da procura
De posição firme à ré e à proa
*

Se se vir ao largo pequena canoa
A virar de lado como uma tontura
Volta lá a barca, logo lhe assegura
O seu salvamento, sem andar à toa
*

Mas neste começo ao em onda falar
Andou-me outro assunto no meu pensamento
Descrevi o modo de eu germinar
*

E de ter chegado sem padecimento
Ao mundo dos vivos sem dor nem chorar
Falei do início, do meu nascimento
*

Custódio Montes
28.4.2023
***
14.
*

"Falei do início, do meu nascimento"

Dos tempos primevos, do espanto à candura,

De mim, nascituro, e de mim, criatura

Que agora madura voa em pensamento
*


E tenta, e consegue esbanjar-se em talento

E poemas que alcançam tal envergadura

Que em todos se encontra quando se procura

Na onda em que escolha nadar contra o tempo...
*


De inícios falemos, assim, versejando

No entardecer deste dia de V`rão,

Quando a noite espreita e nos vai impregnando
*


De um luar que evoca uma outra dimensão,

Neste mar de assombro e de vagas quebrando,

"No alto da onda deu-se a explosão"!
*

 

Mª João Brito de Sousa

28.04.2023 - 21.25h
***

02
Dez22

NOITE - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Maria João Brito de Sousa

NOITE (1).jpg

Tela de Paul Cézzane

NOITE
*
Coroa de Sonetos
*
Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*

1.
*

A noite tem mistérios e encantos

Encontram-se os amigos e as amigas

Dança-se a par e ouvem-se cantigas

Encobrem-se os amores nos seus mantos
*

Escondem-se na sombra muitos prantos

Indómitos valentes sem fadigas

Tecem-se muitos contos e intrigas

Há demónios que fingem ser uns santos
*


De dia vê-se ao longe a claridade

De noite vê-se bem mas só ao perto

Encobre-se a fraqueza e a idade
*


Embala-nos o sonho que, desperto,

Enfeita tudo à volta. A mocidade

Anda durante a noite a céu aberto
*

Custódio Montes
*

30.11.2022
***


2.
*

"Anda durante a noite a céu aberto"

Um velho e anquilosado sem abrigo

Tão gasto quanto um móvel muito antigo

Pla pátina do tempo hoje coberto
*


Pra esse a noite é um local deserto

P`rigoso para quem não sente o p`rigo,

Mas suave se encontrar um velho amigo

Que caminhe ao acaso ali por perto
*

 

E caminhando juntos, juntos olham

O céu cheios de estrelas. Que os não tolham

Os muitos anos que ambos já viveram
*

 

Que ao menos as memórias sejam belas

Já que, hoje, nada têm senão estrelas

E os sonhos que tiveram já morreram.
*

 

Mª João Brito de Sousa

30.11.2022 - 14.00h
***

3.
*

“E os sonhos que tiveram já morreram”

Mas mesmo assim à noite a conversar

Recordaram momentos e ao lembrar

Outras enormes gestas prometeram
*

Cantaram e dançaram, não temeram

As vagas já passadas do azar

Que foram e não mais iam voltar

E em novos afazeres se entenderam
*

Prometeram plantar cravos e rosas

Bem-me-queres floridos e jasmins

Tudo à volta as flores mais formosas
*


Vestirem-se de roupas com cetins

Andarem com sorrisos glamorosos

Em festas ao ar livre e em jardins
*

Custódio Montes

30.11.2022
***

4.
*

"Em festas ao ar livre e em jardins"

Ressuscitaram os seus sonhos mortos:

Se no asfalto plantaram seus hortos,

No céu soltaram bandos de chapins
*


E esculpiram, nos becos, querubins

- que importa se perfeitos ou se tortos

eram os traços seus se tão absortos

estavam os dois em alcançar seus fins? -
*


E nessa noite aqui reinventada,

Foram jovens os dois. Talvez crianças

Fazendo traquinices na calçada,
*


Coreografando juntos novas danças,

Criando o que quiseram desse nada

Que nada deve ao banco ou às finanças.
*


Mª João Brito de Sousa

30.11.2022 - 16.35h
***
5.
*

“Que nada deve ao banco ou às finanças”

Nem pedir emprestado, tudo a pronto

Que misérias de empréstimos nem conto

Com juros usurários nas cobranças
*


Que quem se for meter nessas andanças

Vive sem paz e em guerra nesse ponto

A ganhar para o banco e em confronto

Sem ter no seu futuro esperanças
*


Para se viver bem, para sonhar

Devemos entre nós ter por cultura

Não andar a pedir nem a roubar
*


Encher os nossos bolsos com usura

De quem anda na vida a trabalhar

Com toda a honestidade, com lisura
*

Custódio Montes

30.11.2022
***


6.
*

"Com toda a honestidade, com lisura",

Partilharam a noite até ser dia

E de manhã nenhum dos dois sabia

Distinguir sanidade de loucura
*

 


Ambos haviam feito a mesma jura

De não perder o sonho e a alegria,

Como se por milagre ou por magia

Uma tristeza não tivesse cura...
*

 


De novo a noite escura vai tombando

Sobre esses dois mendigos. No veludo

Do céu imenso, estrelas vão brilhando...
*

 


Nem um nem outro têm espada ou escudo

Mas como cavaleiros batalhando

Combatem fome e frio, vencendo tudo.
*

 


Mª João Brito de Sousa

30.11.2022 - 19.25h
***

7.
*

“Combatem fome e frio, vencendo tudo”

Pois são dois bons amigos, combatentes

Que lutam contra ventos inclementes

Com o corpo sem vestes e desnudo
*


Tivessem eles mais algum estudo

E teriam empregos competentes

Ou com outras acções inteligentes

Teriam um futuro mais sortudo
*


Já não são moços, pesa-lhes a idade

Mas a noite passaram-na a cantar

Lembrando o seu passado, a mocidade
*


Os tempos de alegria, o namorar

Com mais atrevimento ou castidade

E noites que tiveram a sonhar
*

Custódio Montes

30.11.2022
***

8.
*

"E noites que tiveram a sonhar"

Partilham-nas também, feitas memórias

Que vão narrando como se vitórias

Sobre o que antes tiveram que penar
*


Sob um céu todo estrelas e luar

Vão um e outro desfiando histórias

E as mais pequenas coisas são já glórias

Que convencem o Tempo a recuar...
*


Do pão amanhecido que um trazia

Ao outro é of`recida uma metade

E assim jantaram nessa noite fria
*


Em que ambos celebraram a amizade:

Se o amanhã traz sempre um novo dia,

Trouxe-lhes, essa noite, a eternidade.
*


Mª João Brito de Sousa

30.11.2022 - 22.15h
***

9.
*

“Trouxe-lhes, essa noite, a eternidade”

Mas só em pensamento que a viver

Continuaram mais e a conviver

Lembrando toda a sua mocidade
*


De noite só se vê pela metade

Mas eles viram bem no seu dizer

Tudo aquilo que andaram a fazer

Chegando mesmo até à hilaridade
*


Um lembrou as amigas e conquistas

O outro suas fases do namoro

Aquele disse até as longas listas
*


De moças que beijou sem ter decoro

Este também lhe deu algumas pistas

E riram riram riram ambos em coro
*

Custódio Montes

30.11.2022
***

10.

*
"E riram riram riram ambos em coro"

Do seu passado e até das suas dores,

Das suas ambições, dos seus amores,

De forma tal que desaguava em choro
*


Todo esse riso, como um meteoro

Rasgando a noite com as suas cores...

E foi a melhor cura, entre as melhores,

Valendo tanto ou mais do que um tesouro!
*


Dissessem-lhes que a vida são dois dias

E rir-se-iam de quem tal dissesse:

Não crêem nessas vãs filosofias,
*


Sabem que nada é o que parece

E se a noite lhes traz tais alegrias,

Que não se apresse o dia que amanhece.
*


Mª João Brito de Sousa

01.11.2022 - 11.00h
***

11.
*

“Que não se apresse o dia que amanhece”

Para gozar a vida e a mais valia

De voltar ao passado e à alegria

Que tanto nos recorda e engrandece
*


Nestas recordações a gente tece

A manta que nos cobre de euforia

E busca-se aí toda essa magia

Que no-la traz de volta e oferece
*


Que continue o sonho e a alvorada

Demore que ao voltar de novo a vir

Havemos de cantar à desgarrada
*


Voltando-nos de novo a divertir

Da nossa vida bela, vida airada

Que nessa altura era um elixir
*

Custódio Montes

1.12.2022
***

12.
*

"Que nessa altura era um elixir"

E continua a sê-lo noite afora

Porque hoje é numa noite que se escora

A c´roa que se está a construir
*


Na qual dois velhos tentam redimir

Os muitos pecadilhos desse outrora

Que ambos recriarão antes que a aurora

Radiosa comece a ressurgir
*


Mesmo as falsas memórias são bem vindas

À noite que em coroa entretecemos

E que, antes de fechar, toda se alinda
*


Com os sons e silêncios que lhe demos...

Mas dois sonetos vão faltando ainda

Pra que feche em beleza, bem sabemos.
*


Mª João Brito de Sousa

01.12.2022 - 14.40h
***

13.
*

“Pra que feche em beleza, bem sabemos “

E ao fechar abriu-se o coração

Por ter voltado a ter recordação

De tudo o que amamos e vivemos
*


De noite, nas estrelas, tudo vemos

Lampeja à nossa volta um clarão

Que nos recorda os anos que se vão

E voltamos atrás e tudo temos
*


Na noite giram muitos impropérios

Mas também flui a luz e a claridade

E são sonhados tantos desidérios
*


Que se emaranha em nós gosto e vontade

De sondarmos amores e mistérios

Que trazem à memória a nossa idade
*

Custódio Montes

1.12.2022
***

14.
*

"Que trazem à memória a nossa idade"

E as muitas ilusões de antigamente

Que a vida derrubou tão lentamente

Quão depressa cresceu esta amizade
*


Que à noite, numa rua da cidade,

Nasceu de uma conversa frente a frente...

Quase no fecho, sinto-me impotente

Pra prolongar toda esta f`licidade
*


Prossigo porque tudo tem um fim

E engendrámos dois homens, não dois santos

Desses que são talhados em marfim,
*


Que (en)cobrem a nudez com longos mantos

E que jamais virão dizer-me assim:

"A noite tem mistérios e encantos"...
*

 

Mª João Brito de Sousa

01.12.2022 - 17.45h
***

27
Out22

DE MADRUGADA - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Maria João Brito de Sousa

10511244_1013149678709646_2334400152755252755_n.jpg

DE MADRUGADA
*

Coroa de Sonetos
*

Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
***

1.
*


De madrugada acordo no escuro

Mas vejo com clareza alvorecer

A ideia nasce logo a florescer

Como fruto nascido e já maduro
*


Depois escalo a árvore e apuro

Aquele que aos olhos parecer

Mais belo. Lanço a mão a escolher

E pronto, agarro o fruto bem seguro
*


A ideia sabe bem e alimenta

O ego agiganta a fantasia

É como alimento que sustenta
*


O poder que nos leva à magia

Nos mantém a alegria e nos aumenta

O gosto que nos dá a poesia
*

Custódio Montes

24.10.2022
***

2.
*

"O gosto que nos dá a poesia"

É um fruto carnudo e agridoce

Que assim que nasce de mim toma posse

E toda me transforma em melodia...
*


A madrugada dá lugar ao dia

- e mal de todos nós se assim não fosse -

Para que o novo fruto nos remoce

Em talento, em vontade e harmonia
*


Por vezes sou tão lenta a (re)colhê-lo

Que tropeço, me enredo e me atropelo

Longe do fruto com que mato a sede
*


Mas não desisto! Mesmo desastrada

Porque vacilo desequilibrada,

Alcanço o fruto que a Musa me pede.
*


Mª João Brito de Sousa

24.10.2022 - 12. 53h
***


3.
*

“Alcanço o fruto que a musa me pede”

E bem gulosa é que muito come

Pois cada fruto a mais que assim consome

Aumenta-nos a luz que nos concede
*


Não é qualquer doença que a impede

De nos trazer poemas em seu nome

Que saciam e matam nossa fome

E em troca nada exige e nada pede
*


Por isso, obrigado minha amiga

Que quero os seus poemas e prossiga

Nessa arte que tem a poetar
*


Embora o corpo não nos obedeça

Importa é que a ideia e a cabeça

Nos traga a fantasia e o sonhar
*

Custódio Montes

24.10.2022
***

4.
*

"Nos traga a fantasia e o sonhar"

Que o sonho é também fruto, dá semente

E estará sempre à mão de toda a gente

Colhê-lo pra depois o semear
*


Obrigada por sempre me aturar,

Inda que estando a minha Musa ausente

Eu escreva muito, muito lentamente

E possa nalgum verso coxear...
*


Para fugir à dor, fiquei sem Musa,

Porque ela, caprichosa, se recusa

A aceitar esta minha lentidão
*


E mal aclara um pouco a madrugada

Ei-la que parte triste e amuada

Porque - diz-me ela - falta-lhe a paixão...
*


Mª João Brito de Sousa

24.10.2022 - 15.50h
***

5.
*

“Porque - diz-me ela - falta-lhe a paixão”

Mas ela é mentirosa e trato-a mal

Porque a musa ao saber que é maioral

Devia ter na língua contenção
*


Devia até meter-se na prisão

Depois de condenada em tribunal

Como difamadora, tal e qual

Com custas do processo e punição
*


Por esta passa, amiga, estou a ver

Que lhe vai perdoar sem merecer

Que ela bem merecia até cadeia
*


Concordo, que o poeta, na verdade,

Dá à musa tamanho à vontade

Com que ela muitas vezes nos cerceia
*

Custódio Montes

24.10.2022
***

6.
*

"Com que ela muitas vezes nos cerceia"

Porque embora insubmissa, se se entrega,

Dá o melhor de si quebrando a regra

Que impõe limites à humana ideia
*


Sim, eu perdôo sempre a quem anseia,

- mesmo sabendo que hoje se me nega -

Por estar comigo sempre que a refrega

Se mostra mais agreste e dura e feia...
*


Mas também na bonança me acompanha

Essa que é tão pequena quão tamanha

E a quem só por graça chamo Musa
*


Se a condenasse, a mim me condenava,

Que ela é parte de mim, não minha escrava,

E eu que faria ao ver-me, assim, reclusa?
*


Mª João Brito de Sousa

24.10.2022 - 21.10h
***

7.
*

“E eu que faria ao ver-me, assim, reclusa?”

Clamava por justiça e piedade

Afirmaria então sua bondade

E talvez o juiz lhe desse escusa
*


Quando se é uma só e mais a musa

Se condenarmos esta, na verdade,

Iriam pró aljube em irmandade

Ficando junto a ela lá reclusa
*


Por isso volto atrás e escondo a mão

Já não lhe meto a musa na prisão

Porque prendo-a a si prendendo ela
*


Deixemo-la voar que vá embora

De madrugada volta a qualquer hora

Que já se sente ao longe a barca bela
*

Custódio Montes

25.10.2022
***

8.
*

"Que já se sente ao longe a barca bela"

Em que as musas embarcam pra voltar

Quando cansadas já de olhar o mar

Decidem, finalmente, içar a vela
*


Enquanto debruçado/a na janela

O/A poeta tudo faz para a avistar

E em avistando, corre pr`abraçar

Esse tanto de si que embarcou nela
*


Da madrugada é que renasce o dia

Que às vezes traz as vestes da harmonia

E que, outras vezes, veste plúmbeos mantos...
*

Hoje, porém, só penso na alegria

Que o retorno da Musa me traria

Caso ela me emprestasse os seus encantos.
*


Mª João Brito de Sousa

25.10.2022 - 10.35h
***


9.
*

“Caso ela me emprestasse os seus encantos”

E empresta bem se vê a sua mão

Porque quem ela habita em união

Fá-la cobrir e andar sob seus mantos
*


Não vem desafinando nos seus cantos

Que vão de onda em onda em amplidão

Ouvidos com amor e admiração

Adorados até por tantos, tantos …
*


Por isso não desdiga a sua sorte

Que até com a doença é muito forte

E se é tão forte assim não se lamente
*


A matéria esvai-se e modifica

E o que interessa ao mundo e nele fica

É o poder da alma e sua mente
*

Custódio Montes

25.10.2022
***

10.
*

"É o poder da alma e sua mente"...

Ah, não desdenhe a carne, que fraqueja,

Mas que obedece à mente enquanto esteja

Capaz de pôr em verso o que ela sente
*


E que, em falhando, bem pouco consente

A quanto essa pobre alma tanto almeja:

Se o corpo, entorpecido, só boceja,

Não gera a mente fruto nem semente!
*


Por mais que o sol nascente ouse tentá-la

E a evadida Musa volte à sala

Em que a carne tombara adormecida,
*


Não os vê o/a poeta que sucumbe

Ao poder de Morfeu quando o/a incumbe

De ressonar dois dias de seguida.
*


Mª João Brito de Sousa

26.10.2022 - 12. 25h
***

11.
*

“De ressonar dois dias de seguida….”

Mas se ressona, dorme e também sonha

Com coisa linda, não coisa medonha

Mas se medonha for só na dormida
*


Porque sendo poeta e já crescida

Nada lhe mete medo ou que se oponha

Ao seu dom aguerrido ou que suponha

Que não é heroína destemida
*


Ressone que depois vai descansar

Que o corpo relaxado junto ao mar

Vai ficar como novo, em sanidade
*


Depois ao acordar, de madrugada,

Vai ver que ficará mais descansada

E até quase a voltar à mocidade
*


Custódio Montes

26.10.2022
***


12.
*

"E até quase voltar à mocidade"

Brincarei, que em verdade não ressono

(ou não me ouço, que é pesado o sono

e eu não acordo com facilidade...)
*

 


Também hoje Morfeu toda me invade,

Mas eu, rebelde como cão sem dono,

Resisto como posso ao abandono:

Vigil, lutei contra aquela deidade!
*

 

Pra colher tantos frutos quanto pude,

Reinava ainda um céu negro de crude,

Já eu escapava ao seu sereno enlevo
*


E antecipava o alvor da madrugada...

De pouco me valeu, ou quase nada,

Que bem depressa esqueço o que não escrevo.
*

 


Mª João Brito de Sousa

26.10.2022 - 17.45h
***

13.
*

“Que bem depressa esqueço o que não escrevo”

Então se acordar de madrugada

Escreva o que pensou numa penada

E vai ver logo a ideia em relevo
*


Ao vir a ideia penso e eu me enlevo

E mesmo com a luz meio apagada

Penso, componho e assim organizada

À forma de poema então a levo
*


Assim escrevo muita poesia

O que me dá prazer e alegria

Sobre qualquer assunto que interesse
*


Ali apanho um fruto ou uma flor

Trato todo o jardim com muito amor

E ando sempre a ver como floresce
*

Custódio Montes

26.10.2022
***

14.
*

"E ando sempre a ver como floresce"

O jardim que recebe as madrugadas

Tal qual conclama estrelas afastadas

Que o seu olhar profundo coalesce
*


Depois, de madrugada, a Musa cresce,

Vai-se pintando o céu de auras rosadas,

Recolhe-se a coruja nas arcadas

E, por breves instantes, nada mexe...
*


Tudo parece estático, impassível,

Nesse momento mágico, (in)tangível,

Etéreo mas tão espesso quanto um muro
*


Que separasse a luz da escuridão...

No espanto desse instante escrevo então:

"De madrugada acordo no escuro"!
*

 

Mª João Brito de Sousa

26.10.2022 - 20.50h
***

 

 

 

 

 

22
Ago22

CONVERSA ENTRE DOIS SONETISTAS

Maria João Brito de Sousa

Varina e pescador (1).jpg

Varina e Pescador, 1918, óleo sobre madeira

de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

***

CONVERSA ENTRE DOIS SONETISTAS
*

Coroa de Sonetos
*

Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*


1.
*

O barco vai ao largo a navegar

Leva dentro os seus sonhos em viagem

Mostra-nos a beleza da paisagem

Que circunda esta praia junto ao mar
*


Espero que ele volte que ao chegar

Vou sondar qual o sonho e a mensagem

Que deixou ou que teve na passagem

Para nele a seguir eu embarcar
*


Hei-de ir onde ele for…à ré me ponho

Sigo a rota que teve no seu sonho

Indo além nessa rota outra vez
*


Para quê? Vou dizer: assim abarco

Os sonhos que na rota teve o barco

E terei esses sonhos eu talvez
*


Custódio Montes

10.8.2022

***

2.
*

"E terei esses sonhos eu talvez",

Ou guardarei os meus noutro porão

Que um bote a remos, feito galeão,

Aguarda nesse porto a sua vez
*


De ir ao mar e voltar, mês após mês,

E há nesse bote a absurda compulsão

De enfrentar e vencer um furacão

Apesar dessa sua pequenez...
*


Quisera eu ir aos remos desse bote

Inda que só glosando alheio mote

E embora alheada e já sem garra
*


Não pudesse movê-lo um metro, não...

Faltam-me, agora, a força e a paixão

E assim não sou formiga... nem cigarra!
*


Mª João Brito de Sousa

20.08.2022 - 12.50h
***

3.
*

“E assim não sou formiga …nem cigarra”

Mas terei meu trabalho a fazer

No barco o meu ego a crescer

Desde o mar largo até chegar à barra
*


Vestido bem de leve, de cimarra,

Na praia a ver o barco aparecer

E à volta nuvens brancas - que prazer-

Ouvindo o som nas cordas da guitarra
*


Areia branca, luz pela chegada

Nos braços que me estende a minha amada

Na hora em que aporto do meu mar
*


Tormentas lá se foram já passaram

Os sonhos que eu tive e que ficaram

Aumentam o meu gosto de a amar
*

Custodio Montes

20.08.2022
***

4.
*

"Aumentam o meu gosto de a amar"

Enquanto eu me procuro em desespero

Que já mal sei quem sou ou o que quero

Da bela barca em que me faço ao mar...
*


Não estou dorida mas prefiro estar

Bem mais magoada mantendo o meu esmero

A estar assim sem dor, nem destempero,

Nem Musa que me valha onde eu falhar...
*


Entro e saio da Barca, feita tonta

E nestas voltas nunca mais `tou pronta

Pra me fazer ao mar que em mim havia:
*


Não sei onde perdi os velhos remos,

Nem onde fica o mar que ambos sabemos

Que à Musa e só à Musa pertencia...
*


Mª João Brito de Sousa

20.08.2022 - 16.19h
***
5.
*

“Que à musa e só à musa pertencia”

Mas que eu igualmente procurava

Para ver se lá dentro encontrava

O sonho que a pensar tanto queria
*


Então ondas saltei que o mar fazia

E no redemoinho que ondulava

A musa para mim de lá olhava

Fiquei cheio de amor e de alegria
*


E disse: musa amiga, anda cá

Inspira-me, agora, anda lá

Permite que eu acabe só mais esta
*


Modesta poesia que eu prometo

Que quando acabar este soneto

Descansas porque eu tenho uma festa
*

Custódio Montes

20.8.2022
***

6.
*

"Descansas porque eu tenho uma festa"

Maior que qualquer outra que conheças,

Que acaba exactamente onde começas

E só se esgota quando nada resta
*


Das mil e uma coisas que lhe empresta

Esta (ir)realidade em que tropeças

Quando nós duas andamos a meças

Enquanto equilibradas numa aresta...
*


Sendo eu um pouco tu, tu serás eu,

Trarás contigo um pouco do que é meu

E, vice-versa, também de teu trago
*


Este dom de escrever como quem canta,

De tecer mantos, de "pintar a manta"

E de compor soneto em verso mago.
*

 

Mª João Brito de Sousa

20.08.2022 - 20.35h
***

7.
*

“E de compor soneto em verso mago”

Que encanta a ave rara que esvoaça

E que admirada olha e com graça

Enquanto esse poema aqui eu trago
*


A seca transformou quase em lago

Esta grande albufeira de água escassa

Que era a inspiração de quem cá passa

E agora trouxe à musa grande estrago
*


O barco passa lento e até encalha

Mas lá se vai remando e não me falha

O remo que me ajuda até à foz
*


A festa terminou e vou dormir

Ao acordar então hei-de aqui vir

Para que este soneto ganhe voz
*

Custódio Montes

21.8.2022
***

8.
*

"Para que este soneto ganhe voz"

E a Musa não se vá de novo embora

Também a minha voz lhe empresto agora,

Voz que foi feiticeira, há tempo, em Oz
*


E que agora se foi, deixando a sós

Aquela em que morou, mas já não mora...

Tentei reinventá-la na demora,

Mas não me resta dela mais que uns pós...
*


Contudo, a Barca espera e faz-se tarde

E eu que nunca fora assim, cobarde,

Salto para o convés, pego nos remos
*


E consigo avançar um palmo ou dois...

O resto ficará para depois

Que, por ora, isto é tudo quanto temos.
*

 

Mª João Brito de Sousa

21.08.2022 - 11.35h

***
9.
*

“Que, por ora, isto é tudo quanto temos”

E muito é o que leva já o bote

Com ricas prendas idas no seu lote

E outras que hão-de ir pelo que lemos
*

A musa por lá anda que bem vemos

Só quem não queira ver e que não note

Poemas com beleza e alto dote

É que em vez de ver musa vê somenos
*


O barco ao fazer esta viagem

Voltará com mais força e coragem

E ao chegar ao cais volta a partir
*


Com estes viajantes sem ter medo

O seu percurso encanta por tão ledo

E vai querer andar a ir e vir
*

Custódio Montes

21.8.2022
***

10.
*

"E vai querer andar a ir e vir"

Que é esse o seu destino, a sua sorte,

Que ora rumando a Sul, ora pra Norte

Levará no porão quanto eu sentir
*


Menos do que isto não lhe irei pedir

E ainda que sem Musa menos forte,

Eu própria me encarrego do transporte

De alguns dos versos prontos pra florir
*


A Barca avança agora livremente,

Sem grande esforço, ao sabor da corrente,

Quase como se a Musa fosse ao leme
*


E, no entanto, a Musa continua

Escondida em parte incerta, muda e crua:

A ninguém obedece e a nada teme.
*


Mª João Brito de Sousa

21.08.2022 - 15.00h
***

11.
*

“A ninguém obedece e nada teme”

Isso é porque ninguém lhe mete medo

Mas talvez alguém saiba um segredo

Para a obrigar mesmo a ir ao leme
*


E digo mais, talvez ela até reme

Se se vir envolvida num enredo

Que a faça ver perigo que bem cedo

Lançará mão ao remo em caso extreme
*


Não pode ela fazer só o que quer

Tem que dar ao poeta o que fazer

E perder esse jeito, essa mania
*


A musa para ter nossa atenção

Tem que nos dar a força, a inspiração

Porque sem musa acaba a poesia
*

Custódio Montes

21.8.2022
***

12.
*

 

"Porque sem musa acaba a poesia"

E sem ela decerto morrerei,

Terei de impor à Musa a minha lei

Se não quiser morrer triste e vazia...
*


Ela é, porém, rebelde e tão vadia

Que juro que não posso - ou que não sei -

Mantê-la no cantinho onde a guardei

Ao dar-lhe o coração por garantia
*


Sei que ela existe e que é parte de mim,

Que vai viver comigo até ao fim,

Mas que só faz aquilo que ela quer
*


E se o resto de mim estiver doente

Ela se afasta triste e descontente

Pra mostrar que deixou de em mim caber.
*

 

Mª João Brito de Sousa

21.08.2022 - 22.13h
***

13.
*

“Pra mostrar que deixou de em mim caber”

E abandona o meu barco a navegar

Sem sonhos em que possa divagar

Nem sequer os do barco conhecer
*


Ó musa não me traias, anda ver

Os segredos que andam neste mar

Vem comigo, anda lá, vamos zarpar

Sobre as ondas para sonhos poder ter
*


Eu e tu muita coisa realizamos

Abraçados enquanto navegamos

E vais ver que escolhemos lindo tema
*


Tu inspiras-me a mim e eu escrevo

Uma coisa bem linda e de relevo

Eu e tu só nós dois e um poema
*


Custódio Montes

22.8.2022
***

14.
*

 

"Eu e tu só nós dois e um poema"

Pra que o naufrágio seja protelado

E deixe o barco de estar encalhado

Na mais deserta praia do fonema
*


Que o teu barco de versos jamais tema

A vastidão de um mar nunca explorado

Porquanto navegá-lo é o seu fado,

E num fado não cabe um só dilema
*


Vá, barco, faz-te ao mar tempestuoso:

Não temas o Inverno rigoroso,

Nem o mais forte vento que soprar!
*


Isto lhe digo, prevendo a recusa

Mas, a dado momento, diz-me a Musa:

"O barco vai ao largo a navegar"!
*

 

Mª João Brito de Sousa

22.08.2022 - 10.40h
***

 

Imagem - Trabalho de meu bisavô, José de Brito, retirado do blogue A Matéria do Tempo

 

06
Ago22

ÉS O SOL - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Maria João Brito de Sousa

Amantes - Pablo Picasso.jpg

Tela de Pablo Picasso (1881/1973)

 

 

ÉS O SOL
*

Coroa de Sonetos
*

Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*

1.
*

És o sol que me aquece dia a dia

Na caverna que arrefece o meu viver

Sem ti o que seria do meu ser

Sem o amor que me dá tanta alegria
*


Amar-te até ao fim é uma fatia

Do que mereces tu para te ter

E muito mais farei até morrer

Ao colo do frescor dessa magia
*


À volta do teu seio e remanso

Reclino a cabeça e descanso

Estarei sempre alegre ao teu redor
*


Que é meu esse ambiente essa frescura

Que me leva ao céu e à loucura

De ter no teu regaço o meu amor
*

Custódio Montes

5.8.2022

***

2.
*

"De ter no teu regaço o meu amor",

Lembro-me bem de em tempos tê-lo dito,

Mas essa é frase que não mais repito

Porque perdeu há muito o seu fulgor
*


E esse meu sol deixou de dar calor,

Tornou-se, para mim, astro proscrito

Que se perdeu, talvez, no infinito

Que é, das grandes lonjuras, a maior...
*


Mas pudesse eu no tempo recuar

E porque me conheço vou jurar

Que o mesmo sol de então me atrairia
*


Sorrio e nem sequer penso em tentar

Andar pra trás, voltando a orbitar

Um astro que entender-me não sabia.
*


Mª João Brito de Sousa

05.08.2022 - 14.50h
***

3.
*

“Um astro que entender-me não sabia”

Mas voou pelo estro do meu ser

E me fez prisioneiro e renascer

Dum grande amor que eu já não conhecia
*


E a cada hora mais ele se abria

A ponto de por ele me perder

Não pôde o coração se defender

E seguir outro rumo ou outra via
*


Agora já nem sei se me conheço

Que tudo o que eu tenho lhe ofereço

O que tenho cá dentro e fora a pele
*


Mas vivo tão contente e satisfeito

Que esse amor que lhe tenho tão perfeito

Me confunde: sou eu ou serei ele ?
*

Custódio Montes

5.8.2022
***

4.
*

"Me confunde: sou eu ou serei ele?"

E exactamente o mesmo se passou

Comigo, quando o sol me deslumbrou

E me cegou até tornar-me dele...
*


Porém, astro não há que não revele

O lado obscuro que antes não mostrou

E até eu fui aquilo que não sou

Enquanto ao sol queimava a minha pele
*


Agora, enquanto leio o que me diz,

Lembro-me que dizia ser feliz,

Embora cada vez mais me anulasse
*


E lá no fundo, muito lá no fundo,

Uma voz sussurrasse - a voz do mundo? -

Que era pura loucura, aquele impasse.
*

Mª João Brito de Sousa

05.08.2022 - 16.00h
***

5.
*

“Que era pura loucura, aquele impasse”

Mesmo assim prosseguiu o seu intento

Lançando o coração de asas ao vento

Pensando que ele ao céu fosse e o levasse
*


Que a gente quando ama segue a face

Do belo imaginado e o pensamento

Sente tanta alegria a seu contento

Que segue irresistível esse enlace
*


E nunca se arrepende o coração

Sem saber o motivo ou a razão

De seguir esse rumo e caminhar
*


Nunca sente a tortura que o aflige

E todo o amor que tem ele o dirige

A quem quis para sempre ter e amar
*

Custódio Montes

5.8.2022
***


6.
*

"A quem quis para sempre ter e amar"

Tive e amei enquanto foi possível,

Mas quando a tempestade mais temível

Rebentou sobre nós a ribombar
*


Nenhum de nós sequer ousou brilhar

Que o espanto, também ele, é perecível

E o sol deixa de ser apetecível

Para quem nel`se acaba de queimar...
*


O que passou, passou. Se houve saudade,

Pouco durou que a criatividade

Depressa se lhe veio sobrepor
*


E nem sei se valeu, ou não, a pena...

Só sei que a peça já saiu de cena

E que foi escrita não sei por que autor.
*

 

Mª João Brito de Sousa

05.08.2022 - 17.25 h
***

7.
*

“E que foi escrita não sei por que autor…”

Que teve assim motivo de romance

Analisando à volta a performance

Do êxito e do auge desse amor
*


Em coisas bem pequenas há valor

Que visto só depois e de relance

Dá tema ao autor para que avance

E faça boa obra ao seu redor
*


Nem tudo o que se passa é problema

Mas de repente temos um dilema

Que não se pode mais ultrapassar
*


No romance haverá uma maneira

De abrir então os olhos à cegueira

Terminando o casal feliz a amar
*

Custódio Montes

5.8.2022
*

8.
*

"Terminando o casal feliz a amar"

Ou em separação, se não houver

Melhor forma de tudo resolver

Até a tempestade se acalmar
*


Que é, por vezes, melhor tudo acabar

Do que tentar fazer prevalecer

Amor que esteja à beira de morrer

E já sem esp`rança de ressuscitar...
*


- Já tive um sol, mas todo o sol se esconde

Na linha de horizonte, ou sei lá onde

Queira um sol refazer o seu caminho...
*


Possa este meu caminho solitário

Ser, por opção, o sol do meu solário

No ôco aconchegante do meu ninho!
*


Mª João Brito de Sousa

05.08.2022 - 21.00h

***

9.
*

“No ôco aconchegante do meu ninho”

Existe a esperança a reentrar

Com os netos e filhos a alegrar

A minha casa antiga, um meu cantinho
*


A casa agora cheia de carinho

Com todos a correr e a nadar

A jogarem à bola e a saltar

E termos mesmo ao lado um bom vizinho
*


O sol que nos aquece e acalenta

Clareia tudo à volta e a gente inventa

A forma de o gozar e resistir
*


A sua intensidade e o seu calor

Deixamos-lo na sua hora pior

Para melhor em casa nos sentir
*

Custódio Montes

5.8.2022
***

10.
*

"Para melhor em casa nos/me sentir"

Depois dessoutro sol ter ido embora,

Voltei a ser aquela que antes fora

E comecei, enfim, a produzir
*


Todas as coisas que ousara trair

Sem que soubesse estar a ser traidora:

Acorda a Musa que comigo mora

Depois de estar vinte anos a dormir
*


E volto a ser quem fui em tempos idos,

Dona e senhora destes meus sentidos,

Operária de versos e de telas
*


Os outros que respondam, se o souberem,

Pelo que já fizeram - ou fizerem... -,

Que eu só sei compor versos, não novelas.
*

 

Mª João Brito de Sousa

05.08.2022 - 23.00h
***
11.
*

“Que eu só sei compor versos, não novelas”

Que estas apenas têm sentimento

Que é de aparato, ou menos, no momento

Em que forem passando pelas telas
*


Não temos qualquer dor depois de vê-las

Nem nos causam tristeza ou lamento.

Num verso quando eivado de tormento

As dores ficam lá ao escrevê-las
*


Escrita uma paixão que a gente teve

Ao tornar a lembrá-la não é leve

E nunca mais nos deixa e vai embora
*


Deve-se, antes, pensar, sendo capaz,

Na alegria que chega e vem de trás

E não nessa paixão, de novo, agora.


Custódio Montes

6.8.2022
***

12.
*

"E não nessa paixão, de novo, agora"

Porque, nisso, eu e Musa de igual forma

Não sabemos mentir... Fugindo à norma,

Lançamos a verdade, verso afora...
*


Nenhuma de nós duas "fingidora",

Nenhuma de nós chora ou se conforma

Com a mentira que tão bem contorna

O que a verdade grita a toda a hora...
*


Mas deu-me o sol momentos de beleza

E a alguns recordo ainda com clareza,

Por isso em coro disse: És o meu sol!
*


Deveria, talvez, ter-me calado,

Mas esta Musa, de ouvido apurado,

Tentou-me até morder isco e anzol...
*

 

Mª João Brito de Sousa

06.08.2022 - 10.30h
***
13.
*

“Tentou-me até morder isco e anzol….”

Mas valeu-me eu estar desconfiado

Senão ela ter-me-ia enganado

No seu canto orquestrado em dó bemol
*


Fechou-me tudo à volta com lençol

Para que eu a não visse. Apaixonado

Resisti e depois de a ter deixado

Voltei para cantar à rouxinol
*


E a minha amada então ficou contente

Passou de novo a ser meu sol nascente

E ser o meu destino, o meu desejo
*


Ao vê-la logo aceno e digo adeus

Apresso-me a fazer seus olhos meus

E ficamos um só ao dar um beijo
*

Custódio Montes

6.8.2022
***

14.
*

"E ficamos um só ao dar um beijo"...

Faça-se o seu presente o meu passado

Remoto, é certo, mas vivenciado

E belo como as águas do meu Tejo
*


Pois sendo hoje mais amplo o que cotejo,

Parece o resto ter-se aligeirado,

Tomando a dimensão de um velho fado

No qual não cabe já qualquer desejo
*


Também sou um produto do vivido,

Nisso me espelho e não há desmentido

Que me faça negar que houve alegria
*


E uma absurda ilusão de ser feliz

Quando dizia, tal como aqui diz:

"És o sol que me aquece dia a dia"!
*


Mª João Brito de Sousa

06.08.2022 - 12.30h
***

17
Mar22

ANJO - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Maria João Brito de Sousa

anjos.jpg

"Promenade" - Marc Chagall

 

ANJO - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*

Coroa de Sonetos

1.
*

Um anjo bem gostava eu de ser

Voava até Oeiras junto ao mar

Para ver outro anjo a poetar

Olhar e escutar o acontecer
*

Como era bom aí eu escrever

Ouvia o outro anjo e ao escutar

Melhor me poderia inspirar

E vinha e ia lá para aprender
*

Que os anjos têm asas e alto voam

E cânticos poéticos entoam

Agora, dia e noite e todo o ano
*


De longe vem um canto de alegria

Que entoa uma musa com mestria

Ia ouvir se fosse anjo, um anjo humano
*

Custódio Montes

15.3.2022
***
2.
*

"Ia ouvir se fosse anjo, um anjo humano"

Que pudesse ir além do que aqui escrevo,

Um canto a despontar do doce enlevo

Do seu altivo berço de serrano
*


Onde crescem as torgas mano a mano

Com a carqueja e com o verde trevo...

Anjo não sou, porém, e se me elevo,

Caio a seguir e só provoco é dano...
*


Só a palavra voa quando a solto

E fica a orbitar o chão revolto

Da minha linda terra-quase-mar
*


É a palavra a minha ferramenta;

Nasce ainda que eu esteja sonolenta

E há-de sobreviver ao que eu calar...
*


Mª João Brito de Sousa

15.03.2022 - 18.00h
***
3.
*

“E há-de sobreviver ao que eu calar…”

Porque fica a palavra como um hino

Ou como numa torre ao longe um sino

Que se ouve a cada hora badalar
*


O escrito por cá fica a perdurar

Com brilho intenso, brilho cristalino

Com graça, sempre novo, tal menino

Alegre que não deixa de brincar
*


E quem o escrito lê, seja onde for,

Logo se vai lembrar do seu autor

Ao qual dará as loas que merece
*


Se morre ele ou o anjo, o escrito não

Que traz a luz e apaga a escuridão

Ao ir-se o autor, no verso permanece
*

Custodio Montes

16.3.2022
***

4.
*

"Ao ir-se o autor, no verso permanece"

E assim se vai mudando a morte em vida,

Porque muito depois da despedida

Se ouve o seu canto como se vivesse
*


Quem já partiu... E sem que ele o soubesse

Enquanto a mão escrevia decidida

A deixar uma estrofe bem tecida,

Já o olhar de alguém de novo a tece
*


E se o que leu acaso o cativou,

Se algum encanto aquele olhar lhe achou,

Passa o poema a ser de mais alguém
*


Talvez um outro olhar venha depois

E esses encantados já são dois,

Ainda que o não leia mais ninguém...
*


Mª João Brito de Sousa

16.03.2022 - 11.10h
***

5.
*

“Ainda que o não leia mais ninguém”

E se alguém ler o verso é o bastante

Para quem o escreveu ir por diante

Que fica da leitura o que contém
*


Não morre e permanência ele tem

Mesmo que a pena esteja já distante

A memória deixada vai avante

Ainda que o autor vai para o além
*


A vida continua no universo

Da mente que o criou e no seu verso

Em marco que lhe traz memória plena
*


Estando ele escrito, o verso fica

E mantém o autor que deifica

No verso que escreveu e no poema
*

Custodio Montes

16.3.2022
***
6.
*

"No verso que escreveu e no poema"

Talvez habite um anjo, um anjo alado

Que ao voar vá espalhando o seu recado

E o faça dia a dia, por sistema...
*


Talvez esse anjo enfrente algum dilema,

Talvez um dia hesite e com cuidado

Mantenha um verso ou outro bem guardado,

Não venha ele causar algum problema
*


Mas muito raramente isso acontece

Porque um verso respeito lhe merece

E o seu destino nem um anjo o sabe
*


Ainda que lhe tema pela sorte,

Nenhum anjo duvida de que a morte

Não cabe nunca onde um poema cabe...
*


Mª João Brito de Sousa

16.03.2022 - 12.40 h

***
7.
*

“Não cabe nunca onde um poema cabe”

Por isso, a vida angélica não quero

Digo-o frontalmente, sou sincero

Só a vida terrena é que me sabe
*


Pensarmos no além é um entrave

É ter junto de nós animal fero

Que amedronta e nos leva ao desespero

Por isso, o rejeito e em mim não cabe
*


Mesmo tendo um só dedo a escrever

Prefiro apenas tê-lo e ao meu ser

Que ficar no poema após a morte
*


Enquanto por aqui a gente andar

Podem fazer-se versos de encantar

Porque enquanto por cá se almeja um norte
*

Custodio Montes

16.3.2022
***

8.
*

"Porque enquanto por cá se almeja um norte",

Por lá, um anjo alado e incorpóreo

Terá o peso do corpo marmóreo

Que em tempos lhe tiver cabido em sorte
*


E ainda que belo em seu recorte,

Terá a dimensão de um acessório,

Nada fará de bom, de meritório,

Para além de exibir seu nobre porte
*


Enquanto os outros, os que ao nosso lado

Enfrentam este mundo atormentado,

Com a coragem própria dos humanos
*


Que mais ou menos belos - pouco importa! -,

Trazem sempre a palavra que conforta

Um irmão que sucumbe aos desenganos.
*


Mª João Brito de Sousa

16.03.2022 - 14.30h
***
9.
*

“Um irmão que sucumbe aos desenganos”

Cheio de sofrimento e de tristeza

Ao ver ao seu redor tanta vileza

E actos asquerosos e insanos
*


Em cada hora e dia, pelos anos

Desviando fortunas à pobreza

E exibindo gestos de grandeza

Com cheiros bafientos pelos canos
*


O anjo bem os vê mas não faz nada

Deixando andar no mundo a canalhada

Que é muito pior que um animal
*


Há guerras destrutivas sem quartel

Em confusão de torre de Babel

De anjos não dos nossos mas do mal
*

Custodio Montes

16.3.2022
***
10.
*

"De anjos não dos nossos mas do mal",

Humanos todos, que noutros não creio,

Esteve este nosso mundo sempre cheio

E para muitos é coisa banal
*


Uma guerra sangrenta e tão brutal

Que avança, que parece não ter freio

Porquanto tudo leva de escanteio

Pra descambar num ódio irracional...
*


Anjos do mal ou peões dos int`resses

Da indústria da guerra e das benesses

De que muitos irão tirar proveito?
*


Sou contra as guerras! Frias, mornas, quentes

Ou mesmo as que, subtis, dominam mentes...

Às guerras entre povos, nunca aceito!
*


Mª João Brito de Sousa

16.03.2022 - 16.30h
***

11.
*

“Às guerras entre povos, nunca aceito”

Nem eu as quero ver à minha porta

Nem na terra de quem as não exorta

Nem mesmo nas de quem as usa a eito
*


Ao escolher o povo o seu eleito

Pensa que ele ao mandar bem se comporta

Mas depois de o escolher Inês é morta

E só então lhe vê esse defeito
*


Destrói povos irmãos mesmo ao lado

Por títeres o exército mandado

Causam destruição, barbaridade
*


E quem os elegeu se está repeso

Não pode abrir a boca que vai preso

E manda o ditador sem piedade
*

Custodio Montes

16.3.2022
***
12.
*

"E manda o ditador sem piedade",

Como é comum a todo o ditador,

Que a guerra se erga em todo o seu "esplendor"

Em cada rua ou praça da cidade
*


Não de é anjo, decerto, essa vontade

De ser o poderoso vingador

Dos mártires do Donbass na sua dor;

É de quem julga ter impunidade
*


Mas se de anjos falamos - não de demos -

Melhor será que assim continuemos,

Que embora o Sahara voe sobre nós
*


E esteja o céu repleto de poeira,

É preferível não cair na asneira

De dissertar sobre esta guerra atroz
*


Mª João Brito de Sousa

16.03.2022 - 18.00h

***
13.
*

“De dissertar sobre esta guerra atroz”

Eu só a referir mas de passagem

Para aludir àquela vilanagem

Que quer passar por anjo e é feroz
*


Mas nos versos trocados entre nós

Eu só falo dum anjo de coragem

Que me traz harmonia e vantagem

Bem junto ao rio Tejo e à sua foz
*


A esse gosto bem de o ver voar

A dar a dar às asas junto ao mar

E com poemas lindos que eu almejo
*


Queria que a saúde lhe voltasse

E que o seu lindo estro não parasse

Seria esse o meu maior desejo
*

Custodio Montes

17.3.2022
***

14.
*

"Seria esse o meu maior desejo"

E eu tanto assim sei bem não merecer,

Não sei sequer como hei-de agradecer,

Se de lhe agradecer tiver ensejo...
*


Anjo não sou, que a tanto não almejo,

Apenas sou poeta e sou mulher

Velha demais pra pensar em crescer

Ou pra esquecer os versos que cortejo
*


Por isso escrevo tanto e tão depressa:

Um verso acabo e um outro já começa

A bailar-me na mente, a qu`rer nascer
*


E por isso, também, logo entendi

O que, no que transcrevo, acima li:

"Um anjo bem gostava eu de ser"!
*


Mª João Brito de Sousa

16.03.2022 - 19.10h

***

 

 

 

03
Nov21

A VISTA - Coroa de Sonetos - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Maria João Brito de Sousa

MENINA SOL - 1999.jpeg

Tela de minha autoria

 

A VISTA - Coroa de Sonetos
*
Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa


1.
*

A vista contempla de olhos abertos

Prossegue o caminho sem se deslocar

Ao ver bem ao longe e tudo divisar

Até adivinha amores encobertos
*


Os voos das aves pelo céu libertos

A vista os alcança e ao vê-las voar

Sente a liberdade e passeia no ar

E fica contente com sonhos despertos
*


Mas não vê o cego, adivinha o caminho

Sem vista indaga, sente-se sozinho

Não se vê sem ela, sem vista há cegueira
*


Olhando em frente vê-se a paisagem

O amor, a beleza e tanta imagem…

Que bom ter-se vista, tê-la a vida inteira
*


Custódio Montes

31.10.2021

***

2
*

"Que bom ter-se vista, tê-la a vida inteira"

Pois nem a canseira que surja ou que exista

Lhe dirá, - Desista destoutra carreira!

Já não há maneira de o parar. Se a vista
*


Permite que invista, siga à dianteira,

Vá de feira em feira, resista, resista,

Que eu sigo-lhe a pista, fico à sua beira,

Não passo rasteira, só peço que assista,
*


Sou quase uma artista do tempo que avança

E alcança, se alcança, uma meta qualquer

Nas coisas do ser e nas voltas da dança
*


Veja à confiança pois, haja o que houver,

Filho de mulher nunca nega uma esp`rança

E eu pago-lhe a fiança se a esp`rança perder!
*


Maria João Brito de Sousa

31.10.2021 - 12.00h
***
3.
*

“E eu pago-lhe a fiança se a esp`rança perder!”

Eu vejo aqui poema encadeado

Mas nisso lhe digo não sou afamado

Tal como o primeiro lhe vou responder
*


Tenho a esperança de a não ofender

Não pague fiança que estou descansado

Não me deve nada meu muito obrigado

E dê a resposta como lhe aprouver
*


No soneto é livre, a João é que sabe

Eu mantenho a forma que a mim não me cabe

Mandar-lhe palpites como o moldar
*


Também desse modo se vê a grandeza

A forma e a graça e à volta a beleza

Ficando a coroa com outro brilhar
*

Custódio Montes
*

31.10.2021
***


4.
*

"Ficando a coroa com outro brilhar"

Capaz de encantar e ficando tão boa

Que quase atordoa quem venha a passar

Se acaso a olhar e ouvir como soa
*


E ao vê-la a pessoa terá de parar

Pois é singular e nada em si destoa;

Do Minho a Lisboa, num vaivém sem par,

Vamos conversar até que a voz nos doa!
*


Se o verso ressoa e nos corre nas veias

Em suaves colcheias mas sempre a correr,

Quem o vai deter? Estas vagas vão cheias,
*


Moldem-se as areias como se entender!

Já consegui VER as antigas sereias

E então convoquei-as pra virem cá ter
*


Mª João Brito de Sousa

31.10.2021 - 14.00h
***
5.
*

“E então convoquei-as pra virem cá ter”

Sereias poetas? Nunca tinha visto

Mas vejo agora e então não resisto

De vir ao poema para as poder ver
*

A vista de facto está a prometer

Ter esta visão é bonito, insisto

Outro patamar a olhar eu conquisto

Que ao redor a vista já dança a correr
*


Somos dançarinos num belo salão

Menina uma dança ? Vai ver que verão

Um par campeão com todos a olhar
*


A prega da saia e os cabelos ao vento

E nós dançarinos com todo o alento

Todos com inveja deste lindo par
*

Custódio Montes

31.10.2021
***

6.
*

"Todos com inveja deste lindo par"

Tentam melhorar um nadinha que seja

Que se assim se almeja, tudo irá mudar;

Dança-se a voar no canto que nos reja!
*


Roda e rumoreja quem queria dançar

E fica a olhar aquele que se proteja

Da dança vareja que zumbe no ar...

Depois de acabar, chega o que a corteja;
*


Chegou tarde, veja, mas não chore, não,

Que outras mais virão e, se não for embora,

Pode entrar agora que não entra em vão!
*


Não tem dimensão e nasce a qualquer hora

A dança/cantora. Eis a sedução

Que desta canção se fez compositora...
*


Mª João Brito de Sousa -

31.10.2021 - 16.00h
***

7.
*

“Que desta canção se fez compositora…”

Compôs muito bem cada vez com mais brilho

Mas eu não componho que arranjo sarilho

Mas vou aprumar a minha voz cantora
*


Treino um minuto depois meia hora

E volto à mesma sigo o mesmo trilho

Eu cantar adoro cantar é rastilho

Engrandece a alma fá-la sedutora
*


Formamos um grupo, grupo de primeira

Compõe a João e eu à sua beira

Afino a voz e dou tom à canção
*


Corremos as feiras e os campos em flor

Com muita alegria e cheios de amor

Que faz bem à alma e gosta o coração
*

Custódio Montes

31.10.2021
*

8.
*

"Que faz bem à alma e gosta o coração"

De quanta paixão possa levar-lhe a palma

Enquanto o acalma e equilibra a tensão,

Como a actuação sobre um palco de Talma
*


Não me falta a alma, mas tenho a impressão

De faltar-me o chão se não rimo com calma

E aqui se me espalma o talento. A razão

É a reacção à palavra que acalma,
*


E volta-se à alma que já desgatada

Pouco dança ou nada pois não se conforma

Com a fuga à norma. Retoma agastada
*


A roda e... coitada, pensa na reforma...

Mas a dança amorna e já mais consolada

Esquece a falta dada, não mais se transtorna.
*


Mª João Brito de Sousa

31.10.2021 - 17.15h
***

9.
*

“Esquece a falta dada, não mais se transtorna”

Corre sempre em frente, corre rodopia

A dançar esbelta com muita alegria

Quer no passo dado quer como se adorna
*


Anda pela pista de volta a contorna

E cresce em grandeza, cresce em fantasia

O povo a olhar toda aquela magia

Num passo de dança com que ela retorna
*


Se a vista parasse não podia olhar

Este rodopio dum doce bailar

Quem vê não é cego vê bem e não mal
*


Vê as maravilhas duma bela dança

Olha sempre em frente, olha e não se cansa

Vê a dançarina vai ao arraial
*

Custódio Montes

31.10.2021
***

10.
*

"Vê a dançarina vai ao arraial"

E nem leva a mal quando ela desafina;

Se ela desatina, porém, é normal

Tornar-se formal e esquivar-se à ladina.
*


Dança ou não, menina? Quem dança afinal,

Neste virtual? A sentir não se ensina,

Mas a bailarina surge tão real

No palco ideal que esta dança domina...
*


Já desce a cortina mas é cedo ainda

E a dança não finda enquanto um de nós

Tiver garra ou voz e se a voz for bem vinda
*


Estamos na berlinda mas não estamos sós;

Seremos avós da canção que se alinda

Ao tornar-se infinda, suave e tão veloz?
*


Mª João Brito de Sousa

31.10.2021 - 19.20h
***

11.
*

“Ao tornar-se infinda e suave e tão veloz?”

E a fugir tanto parece uma ave

A voar os céus ao longe sem entrave

Os sons se ouvindo em canto de alta voz
*


E nessa orquestra cantando só nós

Destoando o canto como é suave

Baixamos o tom e mudamos a clave

E ninguém nos ouve cantamos a sós
*


Estamos malucos com esta vaidade

Mas o sonho avança por qualquer idade

Que poeta e louco qualquer pode ser
*


Tendo disso um pouco vamos avançar

Cada dança nova deve-se dançar

Andemos na roda sem nos esconder
*

Custódio Montes

31.10.2921
***

12.
*

"Andemos na roda sem nos esconder"

Da chuva a bater e do vento e da poda

Que é cáustica soda que nos faz arder...

Andemos a ver, pois, se esta festa toda
*


Deixa de ser moda pra quem entender

Que um` outra qualquer bem melhor se acomoda

Pra dar azo à boda sem surpreender

Quem nela estiver e quem ainda a açoda.
*


Se alguém se incomoda porque as notas soam

Altas que atordoam, paciência! Amanhã

Volta o nosso afã das canções que atroam
*


E estas notas voam numa dança sã

Como uma romã. E se hoje se me escoam,

Sei que me perdoam; não sou um titã...
*


Mª João Brito de Sousa

31.10.2021 - 21.00h
***

13.
*

“Sei que me perdoam; não sou um titã...”

Nem tenho que o ser, dançarei ao meu jeito

Na rua em casa ou quando me deito

Vou dormir agora mas volta amanhã
*

Vejo a dançarina como uma irmã

Discuto com ela muito me deleito

Porque é minha amiga, amiga do peito

E dança comigo com todo o afã
*

Com olhos a vejo e assim me regalo

Vou calar me agora e amanhã lhe falo

Também fecho os olhos mas quero-a ver
*

A dançar no baile toda enfeitada

É bom que a veja que é engraçada

Melhor tê-la à vista que ela se esconder

*

Custódio Montes

31.10.2921

***

14.
*

"Melhor tê-la à vista que ela se esconder"

Sem deixar-se ver e por muito que insista,

Perdê-la na pista pra me não perder...

- Eu pude escolher. Que uma Musa me assista
*

 

Na rota imprevista em que lanço o meu ser

De olhos inda a arder. Sendo a protagonista,

Sinto-me optimista, não me vou render;

Se Morfeu me quer, que espere ou que desista!
*


Cantemos a vista qu`inda bem despertos

Estão meus olhos certos de irem num repente

Até mais à frente fazer uns acertos
*


E vão, entre apertos, até onde a mente

Concede ou consente; bosques ou desertos

"A vista contempla de olhos abertos".
*

 

Mª João Brito de Sousa

31.10.2021 -23.00h
***

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Em livro

DICIONÁRIO DE RIMAS

DICIONÁRIO DE RIMAS

Links

O MEU SEBO LITERÁRIO - Portal CEN

OS MEUS OUTROS BLOGS

SONETÁRIO

OUTROS POETAS

AVSPE

OUTROS POETAS II

AJUDAR O FÁBIO

OUTROS POETAS III

GALERIA DE TELAS

QUINTA DO SOL

COISAS DOCES...

AO SERVIÇO DA PAZ E DA ÉTICA, PELO PLANETA

ANIMAL

PRENDINHAS

EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES

ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE POETAS

ESCULTURA

CENTRO PAROQUIAL

NOVA ÁGUIA

CENTRO SOCIAL PAROQUIAL

SABER +

CEM PALAVRAS

TEOLOGIZAR

TEATRO

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2016
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2015
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2014
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2013
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2012
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2011
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2010
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2009
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2008
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D

FÁBRICA DE HISTÓRIAS

Autores Editora

A AUTORA DESTE BLOG NÃO ACEITA, NEM ACEITARÁ NUNCA, O AO90

AO 90? Não, nem obrigada!