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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
18
Abr21

ESTA VELHA MENINA - Coroa de Sonetos - Maria João Brito de Sousa e Jay Wallace Mota

Maria João Brito de Sousa

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ESTA VELHA MENINA
*
Coroa de Sonetos
*

Maria João Brito de Sousa e Jay Wallace Mota

(Desgaste)
*

1.
*

Esta menina, velha quanto baste,

Exibe uma grisalha cabeleira

E muito embora brinque, inda faceira,

Já dos anos acusa um bom desgaste.
*


Sorriu quando menina lhe chamaste,

Mas já percorre a rampa derradeira

Que a reconduz à última fronteira

E se aproxima, por mais que ela a afaste.
*


Menina que o não é mas já o foi

E que já deve um tempo à sepultura,

Sabe bem quanto custa e quanto dói
*


Contrariar um mal que não tem cura

E a chaga que desgasta e que corrói

O fio/pavio da chama que a segura.
*

 


Maria João Brito de Sousa - 12.04.2021 - 16.24h
*

Ao Gil

***
2.
*

O fio/pavio da chama que a segura
Já desafia a própria medicina!
E a morte, que já torce pela cura,
Parou pra ouvir os versos da menina!
*
E vê-se que a trevosa criatura
Se curva mais e mais a cada rima,
Mas logo então corrige tal postura,
Num gesto de respeito a uma obra prima!
*
E de repente tomba de joelhos,
Abre seus olhos frios e sem celhos,
Voltando o negro rosto para cima!
*
E num murmúrio, rouco e gutural,
A morte, numa prece surreal,
Suplica pela vida da menina!
*

Belém, 13 de abril de 2021.
Jay Wallace Mota.
***

3.
*

"Suplica pela vida da menina(!)"

Aquela a quem cabia terminá-la

Pois, vendo que a menina se não cala,

Quer aprender as coisas que ela ensina.
*


A Morte que, sem culpa, é assassina,

Ao lado da menina então se instala

E, sendo surda e muda, agora fala

Na voz de cada verso que germina!
*


Mal se sinta, a menina, mais cansada,

Coberta de mazelas e dorida,

Logo virá a Morte transmutada
*


Em curandeira, prolongar-lhe a vida;

"Vá, escreve um pouco mais! Como me agrada

Saber-te por mim mesma protegida!"
*


Maria João Brito de Sousa - 13.04.2021 - 15.36h
***

4.
*

 

“Saber-te por mim mesma protegida!”

Exclama a própria Morte seu dilema!

Assim, entre matar ou dar a vida,

Lisonjeada, optou por um poema!
*

 

Sabendo que abrir mão da própria lida

Encera sua escolha mais extrema,

Porém estava mesmo convencida

Que a tal postergação valia a pena!
*

 

Assim, ora enfermeira, ora aprendiz,

A Morte, a cada verso, mais feliz,

Concede, por mais tempo, um novo aval,
*

E assim, fazendo versos à cada hora,

A poetisa dribla a Morte agora

E a poesia ganha uma imortal!
*

 

Jay Wallace Mota.

Belém, 13/04/2021, às 15:12h.
***

5.
*

"E a poesia ganha uma imortal"

Que apenas o será enquanto viva...

Mas, sim, parece a Morte estar cativa

Dos sonetos que eu escreva, bem ou mal,
*


E, agora, não a tenho por rival

Que se tornou, a Morte, criativa;

Viu-se, talvez, sob uma perspectiva

Que lhe não era nada habitual...
*


Eu, como Sherazade, vou criando,

Soneto após soneto, sem parar,

E, por cada soneto, conquistando
*


Direito a mais um dia sem expirar;

Não posso é garantir-vos até quando

Vou conseguir a Morte fascinar...
*

 


Maria João Brito de Sousa - 13.04.2021 - 20.0
***

6.
*

 

“Vou conseguir a Morte fascinar!”

Arguis, com a modéstia costumeira,

Pois ante o teu talento singular,

Subestimas o gosto da parceira!
*

 

Que já mostrou saber apreciar

Os teus poemas, duma tal maneira,

A ponto de por eles adiar

Tua morte, fazendo-se videira!
*

 

Mas se acaso o cansaço te vencer,

Antes que a Morte possa perceber,

E pense, finalmente, em te ceifar,
*


Propõe, com um dos teus fechos perfeitos,

Fazer uma coroa de sonetos

E a Morte nunca mais vai te matar!

 

Jay Wallace Mota.

Belém, 13 de abril de 2021, às 17:55h.
***

7.
*
"E a Morte nunca mais te vai matar(!)",

Dizes-me tu que estás bem longe dela,

Mas eu, que a sei de cor, que estou com ela

Plasmada nalgum céu por inventar,
*


Não sei que mais fazer para a acalmar...

Sou a pálida chama de uma vela

E nem o brilho imenso de uma estrela

Conseguiria a Morte iluminar!
*


Não desisto, porém! Se sou poeta

Aquilo que me move é muito forte

E mendigar-lhe tempo é coisa infecta!
*


Muito diversa é esta minha sorte

Que em espanto e rebeldia se completa;

Escrevo prá Vida, desafio a Morte!
*


Maria João Brito de Sousa - 14.04.2021 - 11.00h

8.
*

“Escrevo pra Vida, desafio a Morte!”
Se o desafio não te agrada, insiste!
Tens munição pra luta de tal porte...
Quando de alguma briga desististe?

Mas quando te faltar algum suporte,
Só peço não te deixes ficar triste;
Não há o que temer por tua sorte!
Pois, afinal, a Morte nem existe!

E mesmo conhecendo tuas infensas
A tudo que pra ti pareçam crenças,
Existe uma verdade definida,

Que reina independente do que pensas
E ainda que dela nunca te convenças,
Poeta, existe vida além da vida!
*

 

Jay Wallace Mota.

Mosqueiro, 14 de abril de 2021, às 15:40h.
*

9.
*

"Poeta, existe vida além da vida(!)"

E, de feliz por ti, vou-te dizer

Que é essa a vida que estou a viver

Enquanto a morte aguarda, distraída,
*


Que eu vá abrir-lhe a porta de saída;

Falta-me tempo para a receber

E tenho tantos versos pra escrever

Antes da hora incerta da partida...
*


A vida além da vida é uma só

E é por isso que tento prolongá-la

Enquanto me não vou desfeita em pó
*


Juntar-me a essa morte que me cala;

A morte é neutra e nunca terá dó

De quem, com versos, tente enfeitiçá-la...
*


Maria João Brito de Sousa - 15.04.2021 - 10.30h

***

10.
*

 

“De quem, com versos, tente enfeitiçá-la,”
No intento de enganar quem te intimida!
Mas acho um desperdício fazer sala
A uma figura tão controvertida...
*

Melhor fazer teus versos sem dar pala,
De maneira a passar despercebida,
Mostrando que a megera não te abala,
Ainda que vivas mesmo uma só vida!
*

Justo porque crês nisso, realmente,
E eu tendo este soneto tão somente,
Não posso me perder em teoria...
*

Pra mim, já és eterna, entre outras divas,
Entretanto, é preciso que tu vivas,
Pois viva dás mais vida à poesia!
*


Jay Wallace Mota.

Mosqueiro, 15/04/2021, às 15:30h.
***

11.
*

"Pois viva dás mais vida à poesia(!)"

E respondo, a sorrir, que bem o sei,

Que faço por viver e viverei

Até sentir-me de versos vazia
*


Assim me faça a Vida a cortesia

De conceder-me os versos que sonhei

E toda em versos me transformarei

Até um dia, amigo, até um dia...
*

Ah, sim, respiro ainda, ainda sonho

Com um mundo mais justo e mais fraterno,

Mais verde, mais sereno e mais risonho
*

Porque este que hoje encaro é puro inferno;

Desigual, violento e tão bisonho

Que mais parece um monstro em desgoverno.
*


Maria João Brito de Sousa - 15.04.2021 - 20.21h
***

12.
*

 

“Que mais parece um monstro em desgoverno.”

Com o homem e o ambiente em agonia,

Há muito que o planeta sofre, enfermo,

Vítima da mais burra vilania!
*

 

Porquanto, é preciso por um termo

A tudo que nos traz desarmonia,

Antes que o mundo vire um lugar ermo,

Levando a Morte, enfim, a epifania...


*

 

E contra forças tão coercitivas,

Mais uma vez importa que tu vivas!

Pois, do pouco que resta de ilusões,
*

Se não dá pra contar com governantes,

Quem sabe são teus versos instigantes

Que vão mobilizar os corações!
*

 

Jay Wallace Mota

Belém, 15/04/2021, às 21:35 h.

***

13.
*

"Que vão mobilizar os corações"...

E talvez isso venha a acontecer,

Pois também eu passei a vida a ler

Para consolidar-me em convicções
*


Enquanto equilibrava as frustrações

Pra melhor conjugar o verbo ser...

Bem sei que um dia terei de morrer,

Mas vivo ainda... e versos são paixões!
*

Que venha a morte quando o entender;

Estou pronta a recebê-la com canções

Que talvez a consigam convencer
*


A ponderar as suas decisões;

É isso mesmo o que eu irei fazer

Pois, pra viver, sobejam-me razões!
*


Maria João Brito de Sousa - 16.04.2021 - 10.37h
***

14.
*

 

“Pois, pra viver, sobejam-me razões!

O que sobressai claro em teus poemas;

Mesmo quando tu fazes alusões

A dores, a mazelas ou problemas!
*

 

Nasceste pra grafar inspirações,

Teus versos dão mais vida a quaisquer cenas

E tocam as mais frias atenções,

Mesmo quando alma e Morte são pequenas
*

 

Para ti o verbo ser tem só presente
E como uma menina irreverente
Vais entreter a Morte, com tal arte,
*

Que pra a ela, por teu gosto de viver,
Nada mais restará, senão fazer,
Esta menina, velha quanto baste!
*

 

Jay Wallace Mota.

Belém, 16/04/2021, às 12:52h.
***

 

 

 

07
Mar21

DESOLAÇÃO - Coroa de Sonetos -

Maria João Brito de Sousa

desolação.jpg

 

DESOLAÇÃO
*

Coroa de Sonetos
*

Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
***


1.
*

Choro quem parte e temo por quem fica;

Se a vida tem remédio, a morte não

E o mundo vai caindo em depressão,

Sem que se saiba tudo o que isso implica
*


Já que ao que tudo ou quase tudo indica,

Pouco nos deixa, esta devastação

Pr`além do rasto de desolação

Que diante de nós se multiplica
*

 

Como vírus que, entrando em mutação,

Corrói um mundo do qual não abdica

Ao devorar-lhe a carne feita pão.
*

 


Lá longe, ouve-se um sino que repica

E uma voz que suplica a salvação

Na ilusão do que isso significa...
*


Maria João Brito de Sousa - 03.03.2021 - 11.07h
***

2.
*

"Na ilusão do que isso significa"

percorro os calabouços da memória

tentando perceber de toda a história

o que substancialmente significa.
*

Recordo aquela força compulsória

que a nossa vida, ao nascer, fabrica

em rejeições que em toda a alma fica

perpetuando a submissão de escória.
*

Não! Não temos perdão em aceitar

que tais e tantos bichos tão fatais

tomem conta da perfeição da gente!
*

Será que já esquecemos os arrais

que apontam aos humanos qual o cais

aonde aportará espécie diferente?
*

Laurinda Rodrigues
*


3.
*

"Aonde aportará espécie diferente (?)",

Humana, sempre, e mais evoluída,

Mais justa para toda e qualquer vida

Que a não destrua quando lhe faz frente?
*

 

No futuro, mas nunca de repente,

Que a pressa é inimiga da subida

E pode confundir-se se a saída

Estiver ainda longe do presente
*

 

E meta por saída que o não era...

Por mim, confio na tenacidade

Com que renasce cada Primavera
*

 

Tão segura na sua leviandade;

Quem ama a vida é da vida que espera

O doce fruto da maturidade.
*

 


Maria João Brito de Sousa - 03.03.2021 - 17.03h
*


4.
*

"O doce fruto da maturidade"

tem o sabor da antiga profecia:

quanto mais velho mais sabedoria

se caminhaste na senda da verdade.
*

Ela está dentro de ti e, com a idade,

podes rever, em consciência, a via

que te liberta da tensão vazia

para te preencher de felicidade.
*

A felicidade é um sentir sereno

onde flui tua alma em tempo ameno

ou mesmo se a tormenta te atacou...
*

Podes sentir-te docemente pleno

como sentiu Jesus, o Nazareno,

que, mesmo incompreendido, perdoou.
*

Laurinda Rodrigues
***

5.
*

"Que, mesmo incompreendido, perdoou",

(creio que excptuando os vendilhões)

Aos homens em geral, ódio, traições

E até a quem à morte o condenou.
*


Tão perfeita não fui - inda o não sou... -,

Nem tão boa e tão pródiga em perdões,

Mas cá me vou guiando por padrões

Que essa maturidade me doou
*


E embora ande no fio de uma navalha,

Conheço muito bem a f`licidade;

Come e bebe comigo e nunca falha
*


Quando lhe peço força de vontade,

Um poema mais belo, quando calha,

E a lucidez dos velhos-sem-idade.
*


Maria João Brito de Sousa - 03.03.2021- 19.23h
***

6.

"E a lucidez dos velhos-sem-idade"

não me venham dizer que é lucidez!

Talvez seja pedaços de saudade

daquele imenso génio português,
*

Feito de sonho e força de vontade,

que fez frente ao vazio e à aridez,

buscando, em consciência, a placidez

de descobrir a luz, que o mar invade.
*

Vamos perdendo aquilo, já conquistado,

que é sangue desse sangue, semeado

na genética de muitos invasores
*

E, depois, numa síntese transformado

em ser diferente e sempre emancipado

de tantas turbulências e horrores.
*

Laurinda Rodrigues
*

***

7.
*

"De tantas turbulências e horrores"

Se vai cobrindo esta desolação,

Que alguns perdem o norte ao coração

E a razão já viu dias melhores...
*


A lucidez, porém, resiste às dores

E a todo o tipo de devastação;

Só mesmo a morte a verga se, à traição,

Lhe crava o letal ferro, entre estertores,
*


E, às vezes, a demência também vence

A lucidez profunda conseguida

Por esse ou essa a quem ela pertence,
*


Que a lucidez é graça garantida

A quem muito vivendo, muito pense

Sobre Si, sobre o Outro e sobre a Vida...
*


Maria João Brito de Sousa - 04.03.2021 - 10.57h
***

8.
*

"Sobre Si, sobre o Outro e sobre a Vida..."

é pensamento que devora os dias,

coberto de temores e de agonias,

para que a morte não seja consentida.
*

O corpo é uma história muito lida

nos sinais onde as horas são os guias

mas, nessas caminhadas tão vazias,

esquecemos que é a alma que convida

*

a descobrir a Si, ao Outro, Todos

sem nunca desistir com os engodos

que aparecem na sombra do caminho...
*

E, sempre navegando pelos lodos,

com paciência e com suaves modos,

não ficarás nem triste nem sozinho.
*

Laurinda Rodrigues
***

9.
*

"Não ficarás nem triste nem sozinho"

Quando souberes que tudo o que viveste

Faz parte do que, em ti, reconheceste

Como vestido teu tecido em linho
*


Por vezes com ternura e com carinho

E, outras, um bocadinho mais agreste,

Pois nem sempre o tecido que teceste

Teve a textura suave do teu ninho,
*


Não, não concebo um` alma independente

Deste corpo de carne e sangue e ossos

E só me sei tecer enquanto gente.
*

Ainda que me cubram de destroços,

É desse todo que me emerge, urgente,

A rebeldia que há nos velhos-moços.
*

Maria João Brito de Sousa - 04.03.2021 - 13.36h

***

10.
*

"A rebeldia que há nos velhos-moços"

não se confunde com pura teimosia

que a falta de razão às vezes cria

para fugir à prisão dos calabouços.
*

Mesmo com cordas presas aos pescoços

onde a voz, já cansada, desafia

quem inda possa ouvi-la muito fria

no momento final que a prende aos ossos,
*


Façamos esse gesto de clemência

de dizer versos perante uma audiência

que, entretanto, fugiu de tão cansada
*


E imploremos a Deus, numa deferência,

que nunca mais tenhamos consciência

de sermos, uns para os outros, quase nada.
*

Laurinda Rodrigues

***

11.
*

"De sermos, uns para os outros, quase nada"

E, simultaneamente, tanto mais

Quanto mais nos sintamos desiguais

Na sintonia mal sincronizada
*

Desta desolação quase assombrada

Das casas já sem portas nem umbrais

Porquanto pela porta já não sais

Se não depois de morta ou condenada.
*


Exagero, bem sei... e no entanto,

É mesmo assim que o sente a maioria

Que vive aprisionada no seu canto
*

Sem ter a bênção que é a poesia,

Sem estas asas de paixão e espanto,

Murchando à míngua de uma companhia.
*

Maria João Brito de Sousa - 04.03.2021- 17.30h
***

12.
*

"Murchando à míngua de uma companhia"

estamos todos agora em reclusão

sem sentirmos do Outro mão-na-mão

que nos inspira os temas da poesia.
*

Mas falar por falar, no dia a dia,

apenas por rotina ou compaixão

agrava esse sentir da solidão

que, já antes de agora, acontecia.
*

Exorto cada um à dança e ao canto.

Exorto ao grito de prazer e espanto

porque a voz com expressão tem de se ouvir...
*

E dentro de uma casa, num recanto,

deitem fora o papel que enxuga o pranto

e todos, todos juntos, vamos RIR.
*

Laurinda Rodrigues
***

13.
*

"E todos, todos juntos, vamos RIR"

Pra construir algo mais belo e são

Sobre os destroços da desolação

Que como tudo o mais irá ruir
*


Então, a solidão irá sumir,

A flor escondida vai brotar do chão,

Nas ruas vai dançar a multidão

E nessa noite ninguém vai dormir...
*


Mas muito tempo ainda vai passar

Antes desta batalha estar vencida

E muito, muito ainda há que lutar
*


Para podermos ter de novo a vida

Com a qual estamos todos a sonhar

No fim de uma batalha tão sofrida.
*


Maria João Brito de Sousa - 04.03.2021 - 18.48h
***

 

14.
*

"No fim de uma batalha tão sofrida

nem vamos perceber o que acontece

aquilo que foi vivido não se esquece

mas pode ser um ponto de partida
*


Para dar ao pesadelo a despedida

e paz ao coração, que bem merece,

no conforto do amor que o engrandece

sem ter de se afogar numa bebida.
*

E, mesmo sem negar o que passou,

a tragédia que a tantos alcançou

numa dor que só a cruz explica,
*

Aceito humildemente o que ficou

e, na prece que essa cruz honrou,

"choro quem parte e temo por quem fica"
*

Laurinda Rodrigues
***

 

 

 

01
Mar21

QUEM NÃO TEM CÃO... - Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes

Maria João Brito de Sousa

O GATO.jpg

QUEM NÃO TEM CÃO...
*

COROA DE SONETOS
*

Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes
*
1.
*

Erato não serei, poeta amigo,

Que para tal não tenho engenho e graça,

Mas posso garantir-lhe garra e raça

Sempre que aceite que escreva consigo.
*


Não ostento os cabelos de oiro ou trigo

Que enfeitam qualquer deusa quando caça,

Mas meu arco-de-versos tem a traça

Do que não tem idade, sendo antigo.
*

Se errar "humanum est", eu errarei,

Mas pode crer que lhe não faltarei,

Se Erato me ceder a sua vez...
*

Porque "quem não tem cão, caça com gato",

Sempre que o ignorar a bela Erato,

Conte c`oa minha humana pequenez!
*


Maria João Brito de Sousa - 22.02.2021 - 18.37h
***


(Soneto escrito em resposta ao soneto ERATO do poeta Custódio Montes.)
***


2.
*

“Conte c’oa minha humana pequenez”

Isso digo eu, digo, digo e digo

Tenho muito prazer de a ter comigo

Nas rimas que oferece cada vez
*

Pequenino sou eu com escassez

De presente e passado em que me abrigo

E recorro à musa e prossigo

Humilde, a esconder a timidez
*

A Erato imagino para mim

Mas quando a refiro tenho um fim

Provocar quem me inspire a poetar
*

Andar sempre a aprender isso é-me imposto

E quase sempre encontro quem eu gosto

Como agora que acabo de encontrar
*

Custódio Montes

(22.2.2021)

***

3.
*
"Como agora que acabo de encontrar"

Voz gémea que, em perfeita sintonia,

Vá compondo, na pauta, a sinfonia

Que ambos nos preparamos pra criar.
*

Das notas que tangemos sem parar

Entre a realidade e a magia,

Nasce este não-sei-quê que desafia

A própria Erato a vir-nos escutar.
*

Ah, se a cada improviso mais se aprende,

Erato sobre nós o manto estende

E os versos nunca param de nascer...
*

Soberbos frutos desta humana sede,

São os versos que Erato nos concede

Quando desce até nós, para nos ver.
*


Maria João Brito de Sousa - 25.02.2021 - 12.29h
***

4.
*

“Quando desce até nós para nos ver”

A si sim, vê-a sempre e a mim não

Eu bem clamo por ela mas em vão

E nunca a vejo aqui aparecer
*

Aquilo que eu escrevo pode ser

Um verso semelhante, um verso irmão

Que segue o irmão mais velho....imitação

No falar, no brincar e no dizer
*

Mas a irmã mais velha é quem comanda

Eu sou irmão mais novo que atrás anda

Que a musa não me dá um grande trato
*

Respondo como posso atrás de si

Compondo como vejo ao vir aqui

Porque quem não tem cão caça com gato
*

Custódio Montes


(26.2.2021)
***

5.
*

"Porque quem não tem cão caça com gato",

Se assim cria sonetos tão sem par,

Creio bem que se quer menorizar

Ao dizer que é a mim que fica grato...

*

Também sou aprendiza dessa Erato

Que aqui estamos os dois a partilhar;

Nenhum de nós lhe chega ao calcanhar,

Ninguém, como ela, sabe o ponto exacto
*


Da perfeita harmonia a que aspiramos

Na profusão de versos que engendramos

Dando sempre o melhor que houver em nós.
*


Humildes aprendizes vamos sendo,

E criativos sempre que escrevendo

Ao som da sua doce e clara voz.
*


Maria João Brito de Sousa - 26.02.2021 - 12.24h
***

6.
*

“Ao som da sua doce e clara voz.”

Também concordo, amiga, que aprendiz

É todo o ser que avança e é feliz

Que quem não aprender não chega à foz
*

Mantém-se emaranhado e fica a sós

Não sabe progredir nem o que diz

A áurea sempre em baixo e a cerviz

E raro chega ao cais ou é veloz
*

E se além da Erato e seu engenho

Tivermos uma amiga como eu tenho

Então voa-nos alto o pensamento
*

Alcançam-se horizontes alargados

Poemas de excelência e afamados

Com engenho e arte em casamento
*

Custódio Montes

(26.2.2021)
***

7.
*

"Com engenho e arte em casamento"

De que Erato se digne ser madrinha,

Nasce esta força que nos encaminha

E nos concede a graça do talento.
*


A si, que me alimenta, eu alimento,

Que a reciprocidade se adivinha

Em cada estrofe ou mesmo em cada linha

Do que aqui transformamos em sustento.
*


Por vezes é lirismo, o que nos move,

Noutras é a revolta, quando chove

Sobre este humano mundo o preconceito...
*


Erato, tolerante, não condena

A autonomia desta nossa pena,

Desde que o verso nos brote do peito.
*


Maria João Brito de Sousa - 26.02.2021 - 15.40h

***

8.
*

“Desde que o verso nos brote do peito.”

Do fundo, bem do fundo lá da alma

Depois ninguém nos vence e leva a palma

A forma de dizer, também o jeito
*

A ideia às vezes vem quando me deito

E surge então a musa muito calma

Segreda-me ao ouvido e assim me espalma

Um tema e um caminho a preceito
*

Não sei se é Erato, a musa bela,

Mas não identifico o nome dela

Por isso é que a chamo dia a dia
*

Mas sei que é uma musa muito fina

Que manda e encarrega quem me ensina

O que me inspira e dá muita alegria
*

Custódio Montes

(26.2.2021)
***

9.
*

"O que me inspira e dá muita alegria"

É conversar consigo em verso e rima

Deixando que o soneto me redima

Desta insalubre e chã monotonia...
*


"Caça" com gata, sim, mas não vadia,

E sim com a que acolhe quanto exprima

Como quem saboreia uma obra-prima

E que, a partir dessa obra, também cria.
*


Destas nossas conversas musicais

Nascem-nos versos nem sempre banais

E outros que são banais, mas criativos.
*


Podem-se dar abraços desta forma,

Sem que nos multem por fugir à norma

Imposta a todos nós, que estamos vivos.
*


Maria João Brito de Sousa - 26.02.2021 - 21.23h

***

10.
*

“Imposta a todos nós, que estamos vivos”

A norma vale pouco se é mal feita,

Ou rebuscada e prenhe de maleita

Importa é antes sermos criativos
*

E também na palavra interventivos

Não basta ser a rima só perfeita

Mas ter um conteúdo que deleita

E sensações e gostos chamativos
*

Por vezes uma norma não tem rosto

E, mesmo tendo, há coisas que não gosto

Mal feitas, perigosas muito mais
*

Poema, para nós, é como um filho

Tem alma, dá prazer, ostenta brilho

E trocam-se “conversas musicais”
*

Custódio Montes

(27.2.2021)

***

11.
*

"E trocam-se "conversas musicais"";

Se as horas passam movidas a jacto

Sempre que nos visita a bela Erato

Esquecida de que somos só mortais...
*


E lá vamos nas asas pontuais

Do versejar lançado ao desbarato

Numa coroa, sem espinhos, nem recato,

Que se vai alongando mais e mais...
*


Musa, porém, não sou, nem nunca fui;

Sou obreira do verso que em mim flui

Como o sangue que as veias me percorre.
*


Podemos ser mortais, poeta amigo,

Mas o poema é algo muito antigo

E a Poesia, essa, nunca morre!
*


Maria João Brito de Sousa - 27.02.2021 - 12.39h

***

12.
*

“E a Poesia, essa, nunca morre!”

Também penso assim, é evidente,

Poeta é só quem poesia sente

E anda em seu caminho e o percorre
*

E poema a poema ergue uma torre

Que seja bem visível, saliente

Amada e sentida pela gente

Que a admira, a vê e a ela acorre
*

A musa anda aqui e anda ali

Não se vê, foge, foge, eu nunca a vi

Mas sente-se com muita precisão
*

Poema trás poema logo atrás

Então cada um vê que é capaz

E a musa é mesmo isso inspiração.
*

Custódio Montes

(27.2.2021)
***

13.
*

"E a musa é mesmo isso, inspiração",

Um quase intraduzível não-sei-quê,

Algo que nos habita e nem se vê

Mas que sempre deduzo ser paixão.
*


Chamem-lhe Erato, chama ou vocação,

A força que nos move é o que é...

Que importa se é ateia ou se tem fé,

Se se reparte em pura comunhão?
*

Quando nasci, trazia já comigo

A raiz desta graça... ou é castigo?,

Que nos impõe criar para viver...
*


Se é certo que brinquei, estudei, cresci,

Mais certo é que, de quanto já vivi,

Se escolha houvesse, isto iria escolher.
*


Maria João Brito de Sousa - 27.02.2021- 15.14h
***

14.
*

“Se escolha houvesse, isto iria escolher.”

Escolha não precisa, é natural

Nasceu num ambiente cultural

Que a inundou e assim a fez crescer
*

Eu andei pelo campo e a aprender

Olhei as andorinhas, bem e mal

O nascer e o crescer dum animal

E andei pelas encostas a correr
*

Se for condicional o que me afirma

Eu acredito ainda, o que confirma

Que Erato se parece bem consigo
*

Só assim compreendo toda a ênfase

Começando a coroa com a frase:

“Erato não serei, poeta amigo”
*

Custódio Montes

(27.2.2021)

***

 

 

 

12
Fev21

PRAGMATISMO(S) - Coroa de Sonetos - Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues

Maria João Brito de Sousa

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PRAGMATISMO(S)
***

COROA DE SONETOS
*

Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
***

1.
*

Às vezes julgo ser tão só produto

Duma vontade que transcende a minha,

Mas se vejo crescer, linha após linha,

A força deste sonho por que luto
*

Sei ser o sonho o último reduto

De um corpo que envelhece, que definha

E que faz frente ao fim que se avizinha

Fingindo-se invencível, forte e bruto.
*

Não me iludo contudo. Isto é fugaz,

Tudo o que nasce, morre tarde ou cedo,

Deixando, para alguns, um; "Aqui Jaz ...
*

...alguém que foi ouvido ou que, em segredo,

Passou sem ser notado e dorme em paz,

Que a morte também cala a voz do medo."
*
***

Maria João Brito de Sousa - 09.02.2021- 13.24h
***

2.
*


"Que a morte também cala a voz do medo"

mas de uma forma digna e muito sã

pois ela é testemunho do segredo

que fez comer Adão uma maçã.
*

Ele não escolheu a eternidade vã

que nos envolveria no enredo

de ter sempre na mão um amanhã

que nunca acabaria muito cedo.
*

Choramos ao nascer. É o sinal

de respirar com o corpo, que é mortal,

mas que tem uma alma consciente...
*

E essa alma renega o que é fatal

e enfrenta a morte como um temporal

que destrói a matéria, não a mente.
*

Laurinda Rodrigues

***

3.
*

"Que destrói a matéria, não a mente"

Qu`inda resiste porque vai criando

Ainda que não saiba como ou quando

O verbo se lhe impõe de forma urgente
*

Que o verbo que me atiça, irreverente,

Passa por mim sem rumo nem comando;

Bicho-do-mato, o mato desbravando,

Sopro de vento ou jorro de nascente...
*

Não há, pra mim, encanto nem feitiço

Que mais me prenda à vida do que a sede

De fruir da palavra e do seu viço.
*

Tal sede é coisa que mais ninguém mede;

É estranho apelo, é bicho que, insubmisso,

Se esconde em lura mas procria em rede.
*


Maria João Brito de Sousa - 09.02.2021 - 17-19h
***

4.
*

"Se esconde em lura mas procria em rede"

juntando, em união, vozes de tantos

que, por ele, estimulados, têm sede

de partilhar, em verso, os seus encantos.
*

É um "bicho insubmisso" que não cede

à dor da solidão, desfeita em prantos,

onde esconde, atrás de uma parede,

o virtuoso inspirador de cantos.
*

Gritos de mágoa, envoltos em modorra,

onde não há um gesto que socorra

essa febre de olhar, de olhos fechados,
*

um mundo onde o verso nunca morra

mesmo que o mal o prenda na masmorra

daqueles que não entendem os seus brados.
*

Laurinda Rodrigues
***

5.
*

"Daqueles que não não entendem os seus brados"

Está bem ciente; próprio é dos humanos

Sobreviver a erro e desenganos,

Seguir somando os passos que são dados
*

Cantando versos inda não cantados,

Aspirando, talvez, a mais uns anos

Sobre jangada tão cheia de danos

Que parece desfeita em mil bocados.
*

Ah, se o verso se perde ou se naufraga,

Se tomba a vela ou se entra em colisão

C´o velho Adamastor da nova vaga...
*

Mas segue em frente, firme no timão;

Falta-lhe em siso o que lhe sobra em garra

E nunca irá mudar de direcção.
*

Maria João Brito de Sousa - 10.02.2021 - 11.30h

***

6.
*

"E nunca irá mudar de direção":

o velho Adamastor espera por ele

pois sendo navegante é seu irmão

mesmo sendo diferente a cor da pele.
*

Vou ao seu lado a esperar que sele

a Cruz de Cristo na minha embarcação

à descoberta de um mundo que revele

que só navega quem tiver paixão.
*

Fica no cais, esperando, a multidão

que espera apenas a desilusão

porque nunca tentaram navegar...
*

Ouço os seus gritos de exortação:

" Queremos comer o doce do teu pão!"

"Voltem para o cais e deixem de sonhar!"
*

Laurinda Rodrigues
***

7.
*

"Voltem para o cais e deixem de sonhar!",

Gritam alguns que o sonho não conhecem;

Não criam, nem o fiam, nem o tecem,

Que nem a todos coube um bom tear...
*

Mas vai-se a barca já fazendo ao mar

E, muito ao longe, as vozes mais parecem

Um marulhar que os sonhos reconhecem

Como sendo o das ondas a chamar.
*

Em simultâneo frágil mas tão forte

Quanto a vontade dos que vão remando,

A barca ruma em direcção ao Norte
*

Com a vontade e o sonho no comando;

Ninguém pode prever a sua sorte,

Ninguém sabe onde aporta, e como ou quando.
*


Maria João Brito de Sousa - 10.02.2021 - 12.59h
***

8.
*

"Ninguém sabe onde aporta e como ou quando",

talvez até se perca no alto-mar.

Mas pouco importa! com o sonho comandando,

podem sorrir ou rir, vamos ficar!
*

Descobrimos canais, sempre esperando

a voz da inspiração feita radar.

Aqui permanecemos, suspeitando

qual é altura certa de aportar.
*

Já gastamos palavras repetidas.

Já contabilizamos muitas vidas

como se fossem peças num armário...
*

Os lamentos e preces concebidas

já não ajudam, chamam recaídas,

porque o medo se esconde no fadário.
*

Laurinda Rodrigues
***

9.
*

"Porque o medo se esconde no fadário"

Dos tempos mais remotos e primeiros,

Os medos mais reais, mais verdadeiros,

Vão muito além do nosso imaginário.
*

Alguns dormem guardados nesse armário

Em que também guardámos os tinteiros

E as brasas que roubámos aos braseiros

De um momento qualquer, mais visionário.
*

Gastas palavras? Sobram-te as ideias

Que em novas frases serão combinadas,

E renovam-se as em teias em cadeias
*

Onde as ideias nascem libertadas;

Assim corre a poesia pelas veias

Das gentes que não murcham confinadas.
*


Maria João Brito de Sousa - 10.02.2021 - 14.35h

***
10.
*

"Das gentes que não murcham confinadas",

porque o tempo da espera as libertou,

renascem as memórias já passadas,

que, agora, a saudade transformou.
*

Vão fazendo dos gestos as pegadas

num espaço resguardado, que as deixou

voar para outro espaço, mesmo atadas

à sua própria sombra que ficou.
*

E correm pelo chão dos aposentos

brincando à solidão e aos tormentos

compostos numa peça teatral...
*

São pedaços de azul de firmamentos

traçados no trajeto de fragmentos

como avatares do Ser Primordial.
*

Laurinda Rodrigues
***

11.
*

"Como avatares do Ser Primordial"

Que convertido em átomos se expande

E do nada que foi se torna grande,

Quem sabe se de forma acidental,
*

Fazendo da palavra o nosso sal,

Não deixamos que nada nos abrande

E pedimos à Musa que comande

Algo que seja mais que ornamental.
*

Tornamo-nos actrizes principais

De uma peça aqui escrita de improviso

Porque os poemas pedem sempre mais
*

E os versos não se esgotam num sorriso;

Toda a paixão exige originais

Do que escrevemos por nos ser preciso.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 10.02.2021 - 18.08h

***

12.
*

"Do que escrevemos por nos ser preciso"

já ficámos reféns por livre opção;

por isso o verso cresce de improviso

como se nada fosse inspiração.
*

É uma forma de Ser, onde o juízo

com palavras sensatas é em vão:

se somos avatares do paraíso,

fazemo da loucura o nosso chão.
*

E os dias vão passando, na espiral

dum carrossel de versos, em coral,

num ritmo não esperado, como vento...
*

Crescem bichos no nosso matagal

todos com natureza de um chacal

que faz da nossa carne o alimento.
*

Laurinda Rodrigues
***

13.
*

"Que faz da nossa carne o alimento"

E, ao topo da cadeia alimentar,

Fica quanto soubemos nós caçar

Daquilo que tivémos por sustento
*

Enquanto o predador ganhava alento

Pra dar um salto e nos abocanhar...

Mas não temo chacal que ouse trincar

A carne de um soneto suculento;
*

Antes lhe of`reço um verso, de bandeja,

Para matar-lhe a fome que, bem sei,

Matá-la é tudo aquilo que deseja.
*

Fome igual me compele ao que criei;

Não vou jurar que assim tão igual seja,

Mas ao teu predador já me irmanei.
*


Maria João Brito de Sousa - 10.02.2021 - 19.50h
***

14.
*

"Mas ao teu predador já me irmanei"

porque gosto do cheiro da caçada

e, à presa, que sempre cobicei

deixo que espere, livre e descansada,
*

Para ser um alimento dado a rei

que há muito não comia quase nada

vítima de depressão que enclasurei

como fazendo parte da manada.
*

E, agora, na família dos chacais

seremos só irmãos, filhos e pais

a procurar unidos esse fruto
*

Que vai tornar-nos fortes e fatais

e, mesmo nunca sendo seres iguais,

"às vezes julgo ser tão só produto".
*

Laurinda Rodrigues
***

Ilustração - Gravura de Manuel Ribeiro de Pavia in "Livro de Bordo" de António de Sousa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

04
Fev21

COROA DE SONETOS - Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes

Maria João Brito de Sousa

 

COROA DE SONETOS

*

 

Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes

***

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AMAR
*

 

1.

*

 

 

Fora tão só amar perdidamente

Sem se oscilar nesta indefinição

De deveras amar ou ser paixão

Quanto nos incendeia internamente...
*


Fora tão só dizer-se o que se sente

Quando se sente assim, qual compulsão,

Algo a que não se sabe dizer não,

Mesmo quando se nega e se desmente...
*


Sabe-se lá o que é, concretamente,

Isto que sempre foi contradição

E, às vezes, nos parece transcendente,
*

 


Isto que encanta, que é fascinação

E, tão à semelhança da semente,

De um quase nada faz-se imensidão.
*

 

 

Maria João Brito de Sousa - 02.02.2021 - 16.41h
*

 

Soneto inspirado no poema homónimo do poeta Custódio Montes

 

***

2.
*

"De um quase nada faz-se imensidão "

Amar é sempre tudo e quase nada

É ter junto de nós a nossa amada

É sonho ou é quimera sem razão
*

 

Amar é ter bem firme o coração

Bem preso pela noite e alvorada

É ter à nossa beira espelhada

A alma que nos dá consolação
*

 

Mas ter todo esse bem não é amar

Que amar envolve tudo o que nós temos

Os bons, os maus momentos, o sonhar
*

 

Em cada tempo e modo que vivemos

O mal, o bem, a angústia de ficar

Sem nada e deixar o que nós vemos
*

Custódio Montes

(2.2.2021)

***
3.
*

"Sem nada e deixar o que nós vemos"

Quando a saudade de nós se apodera

E tudo o que era amor se faz quimera

Do muito ou muito pouco que tivemos.
*

 

Dizemos que o amor nos leva a extremos,

Que, às vezes, por amor se desespera,

Que por amor se odeia ou se venera,

Que para amar nascemos e morremos...
*

 

É bem verdade e disso não duvido;

Tudo isso é o amor... e muito mais!

Sem ele, nenhuma vida faz sentido,
*

 

Nenhuma barca bela alcança um cais,

Nenhum grande poema é concebido,

Nenhum mar vem beijar os areais...
*

 

Maria João Brito de Sousa - 02.02.2021- 19.03h

***

4.
*


"Nenhum mar vem beijar os areais"

Mas o amor é mais que tudo isso

Que num soneto fica sempre omisso

Além do que dizemos, muito mais
*

 

Há sempre pensamentos siderais

Que fogem ao querer, ao compromisso

E rolam pela alma em feitiço

E passamos a amar sendo fatais
*

 

E pode ser até uma tortura

Que mói por dentro a gente devagar

Amando sempre chega-se à loucura
*

 

E vivemos na lua e a sonhar ...

Deixemos o lamento e com doçura

Falemos só do bem que tem o amar
*

Custódio Montes

(2.2.2021)

***

5.
*

"Falemos só do bem que tem o amar",

Da alegria que traz amar a vida,

De assim sentir de forma desmedida

Este doce poder de transformar
*

 

Simples letras em versos de encantar,

Pequenos gestos em canção sentida

Que sendo partilhada será lida

Por quem amavelmente a vai glosar...
*

 

Falemos do melhor que houver em nós;

Dos risos, dos sorrisos, dos abraços,

Da felicidade de ouvir uma voz
*

 

E o som inesperado de alguns passos

Quando, por vezes, nos sentimos sós;

Amar é partilhar e criar laços!
*


Maria João Brito de Sousa - 02.02.2021 - 20.43h

***

6.
*

“Amar é partilhar e criar laços”

Bem firmes e bem cheios de alegria

É como colher flores dia a dia

Deitá-las bem cheirosas nos regaços
*

 

Correr ruas, ruelas e espaços

Com a mão levantada em euforia

A saudar um e outro pela via

E por vezes também a dar braços
*

 

É ter, é desejar e é sentir

A ânsia, o desejo, a ambição

De estar ao pé de alguém sempre a pedir
*

 

Que não deixe morrer nossa paixão

Pois o viver assim a repartir

Dá asas de condor ao coração
*

Custódio Montes
*
(3.2.2021)
***

7.
*

"Dá asas de condor ao coração"

Amar-se assim, perdido onde encontrado

Alguém a quem sabemos ter amado

Sem fronteiras, nem tempo ou dimensão...
*

 

Mas terá esse amor comparação?

Poderá ser medido, avaliado?

Nasce cativo ou voa libertado

Como quem se escapou de uma prisão?
*

 

Tenho pra mim que cresce se negado

Ousa negar a própria negação;

Mais alto voa se, contrariado,
*

 

Tenta elevar-se e fica preso ao chão...

Cego será. E louco. E condenado

À sua indefinível condição.
*


Maria João Brito de Sousa - 03.02.2021 - 12.07h

***

8.

*

“À sua indefinível condição”

Mas anda sempre a ver se engrandece

E quando se cimenta e fortalece

Ninguém a esse amor dirá que não
*

 

Às vezes tenta a gente mas em vão

Mas noutras sem contar ele aparece

E quanto mais se avança e apetece

Fica ingovernável sem travão
*

 

Sem conta nem medida o nosso amor

Avança desespera sem parar

A gente sente tudo menos dor
*

 

Afagos e delícias pelo ar

Um sentimento pleno de calor

E constante vontade de voltar
*

Custódio Montes
*

(3.2.2021)

***

9.
*

"E constante vontade de voltar"

Àquilo que em loucura foi vivido...

Que fazer se o amor não tem sentido

E se não há travão para o frear?
*

 

Embora more em nós, quer-se é espalhar

E ainda que o proclamem proibido,

Nada o detém. É certo e bem sabido

Que amor só por amor se irá guiar
*

 

E voa embora sendo perseguido,

Sabendo exactamente onde pousar

Para abraçar aquilo que lhe é qu`rido.
*

 


Ah, se afinal amor só quer amar,

Porquê julgá-lo morto e já perdido

Quando tão bem se sabe orientar?
*


Maria João Brito de Sousa - 03.02.2021 - 15.55h

***

10.
*

“Quando tão bem se sabe orientar?”

Não acho, porque às vezes vê-se bem

Que corre desvairado aqui e além

E anda sem ter luz, sem atinar
*

 

Varia de parceiro ao calhar

E sem regras também não se contém

Impulso ou sentimento que lhe vem

E de repente vai pensando amar
*

 


Mas o amor é louco é mesmo assim

Acorre para o fogo e ao se queimar

Não sente a queimadura e por fim
*

 

É tudo só amor até fartar

A dor é como a flor que num jardim

Se cheira e se afaga sem parar
*

Custódio Montes

(3.2.2021)
***

11.
*

"Se cheira e se afaga sem parar"

Esse/a que a amor lançou o seu feitiço,

Estou certa de que amor nem dá por isso

Ou, dando, disso muito irá gostar.
*

 

Anseia quanto amor lhe possa dar,

Ainda que nos versos fique omisso...

Sabem-no amor, que bem se lembra disso,

E a mente que o consegue imaginar.
*

 

Sobre o "contentamento descontente" a)

Muito se fala e pouco se conhece;

Embora chama acesa em toda a gente
*

 

É, por vezes, bem mais do que parece,

Pra cada um de nós, algo dif`rente

Que a cada qual dif`rentemente aquece.
*


Maria João Brito de Sousa - 03.02.2021 - 18.34h

*

a) Do soneto "Amor é Fogo que Arde Sem se Ver", de Luiz Vaz de Camões.

***

12.
*

“Que a cada qual dif’rentemente aquece “

A uns mais arredios, cautelosos

Que avançam devagar e receosos

E até o amor às vezes lhes esquece
*

 

A outros a fogueira os entontece

Entrando a matar e glamorosos

Avançam cada vez mais desejosos

E só depois a força lhe esmorece
*

 

A vida tem surpresas e dislates

Que amarram como amarra o cadeado

E mesmo que se façam disparates
*

 

Amar ama-se sempre apaixonado

E embora rodeado de contrastes

Nunca se abandona o bem amado
*

 

Custódio Montes

(3.2.2021)
***

13.
*

"Nunca se abandona o bem amado"

Excepto se o bem amado f`rir de morte

Amor que fora grande e belo e forte

Em quase nada o tendo transformado,
*

 


Ou se esse amor vibrava de um só lado

Fazendo perigar todo o recorte

De quem amando tanto e de tal sorte

Julgou poder mantê-lo equilibrado.
*

 


O amor é "infinito enquanto dura" b)

Resiste a quase tudo... a tudo, não!,

E quando amar demais causa tortura
*

 


Mais vale que termine essa união;

Melhor é que se aposte na ruptura

Que amar não é viver-se em escravidão.
*


Maria João Brito de Sousa - 04.02.2021 - 09.49h

 

b) Referência ao "Soneto da Fidelidade" de Vinicius de Moraes.

***

14.
*

“Que amar não é viver-se em escravidão.”

Mas há quem ame assim e torne a amar

Num louco frenesim e sem parar

Continuadamente, sem travão
*

 

E vivem como servo em servidão

Escravos do seu corpo sem pensar

Nem verem que isso assim não é amar

São como animais em confusão
*

 

Amor correspondido é melhor

Entrega com paixão num frente a frente

De trocas de carinho com amor
*

 

Mas isso não tem regras e a gente

Só pensa que ao se dar com tal fulgor

“Fora tão só amar perdidamente”
*

Custódio Montes
*

(4.2.2021)

12
Out20

DIZEM QUE O SONETO JÁ MORREU - Coroa de Sonetos II

Maria João Brito de Sousa

Gestação Floral - 1999 (fotografado por Vítor M

COROA DE SONETOS 

*

Custódio Montes e Maria João Brito de Sousa

 

1

*

Não acho e penso até que está bem vivo

Difícil bem difícil e, por isso,

Ele anda escondido e anda omisso

Em quem se diz poeta criativo
*


Lançam-se palavras para um crivo

Abanam-se aos montões como feitiço

Lançado aos incréus por um caniço

E só esse poema faz sentido
*

Mas num soneto a gente tem a ideia

Elabora o projecto e a descrição

Com palavras floridas o semeia
*


Também com sentimento e coração

A ideia avança e forma-se e enleia

Descreve-se e conclui com precisão
*

Custódio Montes

*

2
*

"Descreve-se e conclui com precisão"

Quanto lhe vai na alma. O corpo freme

Qual barca que dependa só do leme

Quando no mar confronte um furacão
*

 

Destruídas as velas e o porão,

Não sobrando sequer alguém que reme,

Há-de inda erguer-se como quem não teme

E apostar vida ou morte no timão!
*

 

Assim sobreviveu a tempestades,

Sonhou durante a noite enluarada,

Navegou pelo Céu, cruzou o Hades,
*

 

Comeu sal e bebeu água salgada;

De todas as prisões dobrou as grades

Em setecentos anos de jornada!
*

 

Maria João Brito de Sousa - 10.10.2020 - 17.30h

*

 

3


*

 

 

"Em setecentos anos de jornada"

Passou por grandes mestres por Camões

Também Florbela Espanca e lições

De Petrarca em vereda começada
*

 

Depois vieram outros de mão dada

Lançando no soneto opiniões

Com regras e mais regras, divisões

Mas sempre com a meta melhorada
*

 

E houve pensadores que lançaram

A sina aos quatro ventos e bem forte

Que estes catorze versos se findaram
*

 

E que poema assim não tinha a sorte

De ter continuidade. Auguraram,

Sem razão, ao soneto a sua morte
*

 

Custódio Montes

(10.10.2020)
*

 

4
*

 

"Sem razão, ao soneto a sua morte"

Anteciparam por senilidade,

Porém nunca o soneto teve idade

E faz-se ao mar tentando a sua sorte

*

 

Não haverá insulto que lhe importe,

Cada vez mostra mais vitalidade,

Sereno canta amor, chora saudade,

Comprova a solidez do seu recorte.

*

 

Da Lentini o sonhou, inda semente,

Mas já tão definido como hoje,

Cabendo nele um sonho... e tanta gente!
*

 

Valente que da luta nunca foge,

Fará por evitá-la e segue em frente,

Não deixa que a calúnia em si se espoje.
*

 


Maria João Brito de Sousa - 11.10.2020 - 12.29 h

*

 

5
*

"Não deixa que a calúnia em si se espoje"

Segue bem altaneiro, bem garboso

Alheio a esse gesto invejoso

Sem que em si a dúvida se aloje
*

Além, no seu passado, e ainda hoje

O soneto é um nome glorioso

Que tem regras e é harmonioso

Espelhando o seu brilho para longe
*

Deixemos bem de lado a malvadez

Digam os detractores seja o que seja

Iremos caminhar com altivez
*

Não como essa gente que deseja

Infortúnio ao soneto outra vez

Porque o que eles têm é inveja!!!
*

Custódio Montes

(11.10.2020)
*

6
*

"Porque o que eles têm é inveja"

Do que faz não parando de cantar,

Pois canta inda que chore a bom chorar

E faz-se ouvir até quando troveja.

*

Não pingará como água que goteja;

Antes será torrente a transbordar

Da melodia que o poeta ousar

Sem usar uma rede que o proteja.
*

Anda o soneto sempre equilibrado

No fio de uma navalha bem cortante

De gume cada vez mais afiado.
*

Nada teme porém. Nunca hesitante,

O soneto não é desconfiado;

Quem assusta um poema militante?
*


Maria João Brito de Sousa - 11.10.2020 - 14.25h

*

7

"Quem assusta um poeta militante ?"

Militante de causas empolgantes

Sem rodeios, por vias elegantes

Numa argúcia de fino estudante
*

Vê um facto analisa num instante

Rodeia-o de flores cintilantes

Com cores e com cheiros odorantes

E com ritmo alegre e bem cantante
*

Escreve-se um poema a cada dia

E cria-se aventura ao redor

Inventa-se uma forma de alquimia
*

Que faz subir a alma em valor

E temos sempre à volta alegria

E vê-se em todo o lado só amor

Custódio Montes

(11.10.2020)
*

8

"E vê-se em todo o lado só amor"

Que é esse o fim maior dessa alquimia

E o mais belo dos frutos de quem cria

Vencendo a cada dia a própria dor.
*

Assim se tece a manta ou cobertor

De quem, antes do verso, só tecia

Restos de coisas que a maré trazia,

Pequenos nadas sem qualquer valor.
*

Bem sei que o que tecemos nada vale

Segundo as cotações dos (maus) mercados,

Mas para nós terá um valor tal
*

Que mesmo os ouros, pratas e brocados

Parecerão menores do que um dedal

Face a poemas tão multiplicados.
*

Maria João Brito de Sousa - 11.10.2020 - 16.04h
*

9
*

“Face a poemas tão multiplicados”

E cheios de euforia e de desejo

Em harmonia ao som de realejo

Ou mesmo em concertos musicados
*

Recordando momentos já passados

Em teias que ao longe ainda vejo

Amores encontrados e aos beijos

Ou num Éden em flor bem abraçados
*

Canta e ri o soneto à nossa beira

E ao longe a olhar e ver o mar

Envolto em lindo canto de sereia
*

Ou envolto num baile e a dançar

Com pérolas à volta que semeia

Em árias envolventes a cantar
*

Custódio Montes

(11.10.2020)
*

10

*

"Em árias envolventes a cantar"

Vai-se o fértil soneto alimentando

E mais versos produz, multiplicando

As fontes que o virão a alimentar
*

Quando algum dia o verbo lhe faltar

E os abraços lhe forem rareando;

É cigarra/formiga aproveitando

As últimas migalhas do jantar...
*

Mas não cuida o soneto de calar

O tanto que devia estar calando,

Que se um soneto nasce é pra sonhar
*

E assim que as migalhas vão bastando,

Nada mais colhe, quer é semear;

Quanto de si nascer, ir-vos-á dando.
*

Maria João Brito de Sousa - 11.10.2020 - 17.35h

*

11

*

“Quanto de si nascer, ir-vos-á dando”

Amor, muito carinho e vistas largas

Amparo e defesa com adargas

E um sonoro hino escutando
*

 

Torrentes acalmadas e virando

Lagos tépidos, plácidos, sem vagas

Cercados por extensas, lindas vargas

E aves em seus bandos adejando
*

 

Andamos por campinas aromadas

Dançando ao sabor de suave vento

E parando nas encostas nas quebradas
*

 

Erguendo bem ao alto o pensamento

Devagar a lembrar as namoradas

Que foram no amor nosso alimento
*

Custódio Montes

(11.10.2020)
*

12
*

 

"Que foram no amor nosso alimento"

Durante toda a nossa juventude;

O amor em jorros vence cada açude,

Enérgico, imparável, turbulento...
*

 

Assim jorra o soneto e sopra o vento

Que é tão veloz que a si mesmo se ilude

E crê ver mal onde há tão só virtude

Ou vê virtude em gesto truculento...
*

 

Cantemos, pois, o "ledo, ledo" engano

Que num tão doce sonho nos mergulha

E pra sempre o fará, ano após ano,
*

 

Se amor é pomba quando em nós arrulha

Talvez vista o soneto o mesmo pano

Que esse Amor costurou com fina agulha...
*

 


Maria João Brito de Sousa - 11.10.2020 - 20.06h

*
13

*

“Que esse amor costurou com fina agulha”

Com a malha apertada e bem cosida

E afagos que se fazem de seguida

Como pomba a voar e que arrulha
*

 

O soneto encandeia, é fagulha

Que arde ao vento e passeia na ermida

E transporta o amor que de vencida

O oásis conquista e aí mergulha
*

 

O soneto é poema encadeado

Uma flor bem cheirosa de jardim

Com limalhas de ouro emalhetado
*

 

Cacho de uvas comido até ao fim

Em banquete festivo e requintado

Asas brancas de sábio querubim
*

 

Custódio Montes

(11.10.2020)
*

14

*

 

"Asas brancas de sábio querubim"

Tem o soneto quando a mim se abraça

O dom de mergulhar-me em doce graça,

Tanta, que nunca dantes vira em mim...
*

 

Não sei, soneto, por que te amo assim

E tanto mais quanto mais tempo passa,

Só sei que não há nó que eu não desfaça

Pra te manter viçoso em meu jardim!
*

 

Agora que sei como cultivar-te

Pra ver-te forte e belo e criativo,

Assim, todo paixão, engenho e arte,
*

 

A quem disser da morte estares cativo

Imporei que não ouse difamar-te:

"- Não acho e penso até que está bem vivo"!
*

 


Maria João Brito de Sousa - 12.10.2020 -09.17h

 

 

 

 

08
Out20

COROA DE SONETOS

Maria João Brito de Sousa

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CHAMAR A MUSA
*
- Coroa de Sonetos -
*

Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes
*

1
*

Onde estás tu, ó Musa por quem nutro

Tanto respeito e tal cumplicidade?

Não te procuro mais porque, em verdade,

Sei que ressurgirás num verso abrupto,
*

Pois num só verso guardas o produto

Do verbo (in)conjugado que me invade;

Passeias-te nas ruas da cidade

Que em tempos idos foi o meu reduto?
*

Por ti nunca desci da luta ao luto,

Contigo fui poeta sem idade,

Em ti depositei a flor, o fruto,
*

E a semente gestada em castidade;

És aquela que sou, em estado bruto,

E terra e mar e sonho e realidade!
*

Maria João Brito de Sousa - 06.10.2020 - 13.31

**
2
*

“E terra e mar e sonho e realidade”

E tudo é a musa: descuidada

Aérea, flor singela e amizade

Também inspiração orientada
*

A musa não tem mãos e é calada

E, claro, só se sente na verdade

Quando traz ao ouvido a charada

Confusa mas com plena eternidade
*

Poeta só quem tem habilidade

E tem inspiração e alma alada

E tem dentro de si acuidade
*

Escuta-se o acorde e a balada

A musa anda aí pela cidade

E anda nos seus versos espelhada
*

Custódio Montes

(6.10.2020)

**

3

*

"E anda nos seus versos espelhada"

Como se irmã lhe fora... e siamesa!

Juíza sábia, jovem camponesa

Cuidando da colheita ameaçada,
*

Tecedeira imparável, mas cansada,

Dona de casa, mulher da limpeza,

Mãe que chama os seus filhos para a mesa

Se fez um prato que a todos agrada...
*

Ah, quantas musas cabem nesta Musa?

Quantas vidas viveu, por onde andou

Esta que tão dif`rentes capas usa
*

E vai cantando as capas que envergou?

A esta, que hoje assim se me recusa,

Devo mais que a ninguém isto que sou.
*

Maria João Brito de Sousa - 06.10.2020 - 17.35h
**


4
*

"Devo mais que a ninguém isto que sou."

A musa é apenas feminina ?

Então bem arrumado eu estou

Que não posso acorrer a essa mina
*


As tarefas que aí enumerou

Retiram-me a graça bem como a sina

De poder versejar e acabou

Com a inspiração que não atina
*

Talvez não: cada um puxa a seu lado

Aquilo que mais quer e mais deseja

E dizer-se sem musa é engraçado
*

Mas sempre que uma ideia se verseja

Deve ter-se a cautela e o cuidado

De não meter a musa na peleja
*

Custódio Montes

(6.10.2020)

**

5
*

"De não meter a musa na peleja"

Não vejo forma nem encontro jeito

Se tem, a C`roa, título escorreito

E cada verso o título coteja...
*

Posso, porém, fazer como deseja

E passará um muso a ser sujeito

Desta conversa em soneto perfeito;

Agora que está dito, que assim seja!
*

Juíz ou lavrador ou engenheiro

Ou, como Aleixo, génio popular

E grandioso poeta-cauteleiro,
*

Médico, pasteleiro, homem do mar,

Caixeiro-viajante ou empreiteiro...

Não sei que encargos deva ao muso dar!
*


Maria João Brito de Sousa - 06.10.2020 - 19.18h

**

6
*

Não sei que encargos deva ao muso dar

Amiga tem piada neste evento

Fartou-se de sorrir e de gozar

Mostrando a sua garra e talento
*

Mas tenho agora mesmo que lembrar

Que um muso, a existir, neste momento,

Não fica a si sujeito ... que mandar

Manda ele e inspira o pensamento
*

Já vi que ao dizer que não tem musa

Não é verdade é uma imprecisão

Queria antes dizer que a tem reclusa
*

E fazer assim dela mangação

Porque se manda nela ela é obtusa

Que musa é musa mesmo, inspiração
*

Custódio Montes

(6.10.2020)
**

7
*

"Que musa é musa mesmo, inspiração"

Que só inspira aquilo que ela entende,

Que nos sopra ao ouvido e que nos prende

Pois toda ela é pura sedução...
*

Digo, porém, que não tive intenção

De brincar tanto quanto disto impende

E penso que, decerto, compreende

Que foi espontânea a minha reacção

*
E é bem verdade que me tem fugido

A musa, minha eterna companheira,

A guardadora do verso perdido
*

Que desde sempre orbita à minha beira;

Ah, nunca percas, Musa, o teu sentido

Pois sozinha não venço esta quebreira!
*


Maria João Brito de Sousa - 07.10.2020 - 10.53h

**

8
*


"Pois sozinha não venço esta quebreira"

Claro que há-de vencer tenho a certeza

Que a gente quando pensa e quando queira

Acaba por vencer a tibieza
*

É preciso acabar com a tristeza

Que mais não é que uma maluqueira

É.bom pensarmos antes na grandeza

Que nos traz um poema à nossa beira
*

Compõe-se uma quimera a alcançar

Rodeia-se de estrelas luminosas

Envolve-se com flores a ondear
*

Conjunto de harmonias glamorosas

De encanto que nos levam a sonhar

E fica-nos à volta um cheiro a rosas
*

Custódio Montes

(7.10.2020)

**

9
*

"E fica-nos à volta um cheiro a rosas"

E a cravos vermelhos e alfazema

Que sempre emana de qualquer poema

Composto em notas muito harmoniosas
*

Porém, num dia cardos, noutro prosas, (1

Que sempre engendra a vida algum dilema

E bastas vezes disso faz emblema

Criando as situações mais dolorosas...
*

Enquanto o tempo nos não cicatriza

A chaga de uma dor que era escusada,

Foge uma musa à sua poetisa,
*

E fica a poetisa desolada

Ao ver que o verso das mãos lhe desliza

Para cair no chão desfeito em nada.
*


Maria João Brito de Sousa - 07.10.2020 - 17.43h

*

1) Referência a um poema de Miguel Esteves Cardoso cantado por Manuela Moura Guedes

**

10
*

"Para cair no chão desfeito em nada."

Mas isso é do desgosto que se sente

Da vida que parece atribulada

Por coisa que aparece de repente
*


Mas o poema fica e a dor passada

Voltamos a reler e ao vê-lo à frente

Não nos lembra a tristeza acorrentada

Ao desgosto que teve então a gente
*

Escreve-se o que a alma nos aponta

Quer quando haja tristeza ou alegria

O estado bem se nota mas não conta
*

A quem lê ou escreve poesia

Quem a lê vê apenas uma ponta

Quem a escreve anda nela dia a dia
*

Custódio Montes

(7.10.2020)

**

11
*

"Quem a escreve anda nela dia a dia"

Como quem desenrola um fio que finda,

Sem saber quanto tempo falta ainda

Para findar-se o fio de quem o fia...
*

Mas tudo tem seu tempo e a alegria

A seu tempo ressurge... e como é linda,

E com que f`licidade ela nos brinda

Com coisas que só ela engendra e cria!
*

Pra ela há espaço... e também prá tristeza

Que bate à porta de todas as vidas

E, ora de manso, ora com rudeza
*

Nos mostra que apesar de haver saídas,

Há que assumir com toda a singeleza

Todas as emoções por nós sentidas.
*


Maria João Brito de Sousa - 07.10.2020 - 19.49h

**

12
*

"Todas as emoções por nós sentidas"

Boas e más mas sempre diferentes

Originais vivências acrescidas

Que ora nos fazem tristes ou contentes
*

Então vive o poeta várias vidas

E em cada uma delas frequentes

Luzes e emoções que assim vividas

Nos trazem versos lindos e excelentes
*

Que a musa a inspire e lhe dê graça

Ou mesmo com a musa adormecida

Escreva seus poemas e nos faça
*

Sentir as emoções na nossa vida

Esquecendo a amargura que nos passa

E queremos bem longe e esquecida
*

Custódio Montes

(7.10.2020)
**

13
*

"E queremos bem longe e esquecida"

Essa memória ainda tão recente

Que me roubou a Musa, essa eloquente

Guardadora dos versos sem guarida.
*

Voltou, porém, de versos guarnecida

E pronta pra cantar, como é corrente

Que as musas façam quando encontram gente

Disposta a encarar de frente a vida
*

Mas se as tristezas tiver que calar

E me mostrar alegre quando triste,

Sei que traio o que entendo por criar...
*

Garanto; não vos quero amargurar

Mas posso lá esconder que a dor existe

Se a dor nalgum momento me esmagar?

*

Maria João Brito de Sousa - 07.10.2020 - 21.57h
*


14
*

"Se a dor nalgum momento me esmagar"

Eu hei-de resistir que a resistência

É bom remédio, pode-nos salvar

Se nós tivermos garra e paciência
*

A gente pode às vezes fraquejar

Mas se lançarmos mão dessa valência

Que dentro de nós temos a morar

Havemos de encontrar resiliência
*

Nessas alturas vem querida musa

Agarra-te ao meu peito impoluto

Mas que à felicidade se recusa
*

Sê minha conselheira, dá-me o fruto

Para eu te adorar como uma deusa

“Onde estás tu ó musa em quem (me) nutro”?
*
Custódio Montes

(7.10.2020)

28
Jul20

PEÇO DESCULPA; NEM UM VERSO OUVI... - Coroa de Sonetos

Maria João Brito de Sousa

eu na praia ii.jpg

NEM UM VERSO OUVI... - COROA DE SONETOS

Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes

*

1
*

Houvesse, hoje, um versito distraído

Que por aqui passasse por acaso

E que algo murmurasse ao meu ouvido,

Pra poder-vos dar conta deste atraso...

*

 

Fosse de pé quebrado ou mal medido,

Quase a desvanecer-se num ocaso,

Gago que fosse ou tão mal construído

Que em tudo semelhasse ângulo raso,
*

 

Que quisesse ser recto e não se erguesse

Um grauzito sequer que graça desse

A quem o visse ou lesse por aí...
*

 

Mas este que encontrei sem voz, nem dono,

Tudo quanto fará é dar-vos sono;

Peço desculpa. Nem um verso ouvi.
*

 

 

Maria João Brito de Sousa - 24.07.2020 - 14.30h
**

2
*

Também eu não ouvi sequer um verso

Pois fui passar uns dias à aldeia

Sem versos, claro, venho de alma cheia

E este estado assim é bem perverso
*

Trazer a alma toda em anverso:

A alma com poesia sem que leia

O ritmo que entre ela se encandeia

E firmem no conjunto um universo
*

É termos o poema cá bem dentro

E a forma arredada do seu centro

E não o publicar nem o fazer
*

Às vezes fica o mundo frio, escuro

Sem vermos o presente e o futuro

E um verso só bastava para o ver.
*

Custódio Montes

**

3
*

"E um verso só bastava para o ver"

Pois bastaria apenas tê-lo ouvido,

Mas... desta vez escondeu-se, emudecido,

Talvez sentindo medo de morrer,

*

Talvez pensando poder-se perder

Quiçá de si, do seu próprio sentido,

Que entre hospitais se sente já perdido

E nunca tem vergonha de o dizer...
*

A Musa foi de súbito tomada

Por um medinho atávico, ancestral,

E escondeu-se debaixo de uma escada
*

Assim que viu, ao longe, o hospital.

Bem a chamei. Não me serviu de nada...

Estou "desmusada" e a sentir-me mal!
*

Maria João Brito de Sousa - 25.07.2020 - 11.25h

**

4
*

"Estou "desmusada" e a sentir-me mal"

Melhoras lhe desejo a si e à musa

Mas mais a si que esta isso escusa

Doente embora é fenomenal
*

Os versos que ela engendra são sinal

De veia que se mostra bem difusa

Reergue-se depressa e não recusa

Andar correr e ser original
*

Por isso não se queixe, minha amiga

Senão olhe que Deus inda a castiga

Nós não o desejamos nem queremos
*

Doenças têm cura e melhora

E mesmo apenas sã uma só hora

São belos os poemas que lhe lemos.
*

Custódio Montes
**

5
*

"São belos os poemas que lhe lemos",

Poeta que ontem foi à sua aldeia

E dela veio com a bela veia

Que hoje frutificou, como aqui vemos!
*

Entrou na Barca Bela e fez-se aos remos

Sem medo do "mar grande" e da sereia,

Nem do rochedo e dos bancos de areia

Nos quais já tantas vezes perecemos...
*

Chegou e dou-lhe agora as boas vindas

Porque assim se recebem bons amigos

Que foram visitar as praias lindas
*

Que já foram seus berços, seus abrigos;

Desejo felicidades sempre infindas

E poucos ou nenhuns dos meus castigos.
*

Maria João Brito de Sousa - 26.07.2020 - 08.40h

**

6
*

"E poucos ou nenhuns dos meus castigos"

Os seus castigos são materiais

E não como se vê de outros mais

Pois olha e vê bem longe por postigos
*

Que outros pelo ar e com perigos

Tão só divisam coisas bem normais

Sem luas sois ou tardes outonais

Com sonhos ou quimeras como abrigos
*

Ainda para mais desculpas pede

De não ouvir um verso ou melodia

Quando nada se vê de que se arrede
*

E produz seus poemas dia a dia

De toda a realidade a que acede

E isso porque é toda poesia ....
*

Custódio Montes

(26.7.2020)
**

7
*

"E isso porque é tod(a)o poesia"

E merece o respeito e a amizade

De quem a responder-lhe não se evade

E o faz com muitíssima alegria

*

Haja quem nos secunde com mestria,

Que eu, dos meus olhos, sinto já saudade

E ao lume deixo a açorda que, em verdade,

Por um pouquinho mais se queimaria...
*

Alguma coisa ainda vejo, sim,

Mas a cabeça dói-me, os olhos ardem,

E já nem sei o que será de mim
*

Se for em vão que meus olhos aguardem

As cirurgias... mas, até ao fim,

Vou crer que sim, por muito que elas tardem!
*

Maria João Brito de Sousa - 26.07.2020 - 11.29h
**

8
*

"Vou crer que sim, por muito que elas tardem!"

Mas vão chegar depressa isso vão

Aos olhos também fiz operação

E agora vejo bem e já não ardem
*


Que os deuses a protejam e a guardem

E que lhe restituam a visão

Para podermos ter sua lição

Que os médicos se apressem, não aguardem
*

Eu penso que vai tudo correr bem -

Comigo assim foi e eis a prova

Puseram lentes novas e também
*

Se foi a miopia, o que renova

A vista que alcança mais além -

E vai ficar, amiga, como nova.
*

Custódio Montes

(26.7.2020)
**

9
**

"E vai ficar, amiga, como nova",

Diz-me o amigo, muito gentilmente...

Mas eu pergunto quando. É mesmo urgente

E esta quase-cegueira bem o prova.
*

Esforçadamente leio ou escrevo a trova

E tudo faço assim; esforçadamente,

Além do que se exije a toda a gente

E, pior, estando já c`os pés prá cova
*

Já que esperança de vida, pouca tenho

E, se bem que isso encare com bravura,

Melhor fora podarem-me este lenho
*

Que à vida me traz dor e desventura

E darem-me a visão que tive antanho

Pra não andar, das teclas, à procura...

*

Maria João Brito de Sousa - 26.07.2020 - 13.21h
**

10

*
"Pra não andar, das teclas, à procura"

Mas vê bem as palavras, isso vê

Pois nota isso a gente que a lê

Que encontra nelas força e candura
*

Arrojo, sentimento com doçura

E criatividade e os porquês

De tão bem escrever em português

De ser muito vernácula e pura
*

Mas não vou parecer adulador

Que o que se diz às vezes tem um custo

Mas ser omisso outras é pior
*

E eu não tenho peias não me assusto

Afirmo sempre aquilo que é melhor

E aqui o que eu afirmo é tudo justo.
*

Custódio Montes

(26.7.2020)
**

11
*

"E aqui o que eu afirmo é tudo justo"

Mas o que não é justo, com certeza,

Foi deixarem-me, há anos, assim presa

A escrever tudo com tão grande custo!
*

Não será facilmente que me assusto,

Conseguirei manter certa frieza

E por vezes até sair ilesa

Do confronto com quem é mais robusto,
*

Se confronto existir, que o não procuro!

Mas conseguindo ser muito objectiva,

Não tenho medo nem sequer do escuro!
*

Ainda que "pitosga", estou bem viva

Mas devo confessar que é muito duro

De tanta "pitosguice" estar cativa!
*

Maria João Brito de Sousa - 26.07.2020 - 14.25h
**

12
*

"De tanta "pitosguice" estar cativa",

Atrasos sem desculpa e sem valor

Seria menos mau e até melhor

Ir ter ao hospital e aflitiva
*

Dizer a alma aí caritativa

Que tem sua visão má e pior

Que há só escuridão e sente dor

E ser frontal e bem explicativa
*

Eu sei que a poetisa não faz isso

Mas muitos há decerto que lá vão

Conseguem de certeza compromisso
*

De formas pouco lícitas que são

Escuros, tristes modos e por isso

Pratica só quem age em corrupção.
*

Custódio Montes

(26.7.2020)
**

13
*

"Pratica só quem age em corrupção"

Esses truques e manhas, bem o sei...

Para a minha pensão - pensão de rei! -

Duzentos e setenta; mais não são!
*

Para quem sobrevive a tal pensão,

Sem recorrer ao que antes mencionei,

Não está fácil a vida... lei é lei!

Pra corrupta não trago vocação!
*

E agora que escrevi a bom escrever,

Que lhe falei de (algumas) desventuras

E que aqui me fui dando a conhecer,
*

Vou tomar um café; estou com tonturas

E a tensão está de novo a prometer

Descer de lá do topo das alturas
*

Maria João Brito de Sousa - 26.07.2020 - 16.38h
**

14
*

"Descer de lá do topo das alturas"

Mas tem que o fazer bem devagar

Senão pode cair e se aleijar

Perdendo os sentidos com tonturas
*


Beber café é sim uma das curas

Para a tensão poder remediar

Melhor seria não subir/baixar

E não ter de curar essas rupturas
*


Desejo-lhe as melhoras, fique bem

Merece ser feliz e ver vencido

O mal que a rodeia e que contem
*

Estando bem, aposto, convencido

Brincava certamente aqui também,

"Houvesse, hoje, um versito distraído"...
*

Custódio Montes


(26.7.2020)

 

 

23
Set08

SEM NADA NA MANGA...

Maria João Brito de Sousa

 

Ainda tenho acesso à internet e penso tê-lo garantido durante, pelo menos, mais um mês. Estou muito, muito cansada, o Spirit já anda pela casa toda - hoje de manhã escapou da casa de banho e quase "comeu" o Hope e a Pitinha que andavam a "esticar as asas" pelo chão da marquise - e o vale dos correios com os 181.91€ do RSI adiantou-se milagrosamente alguns dias. Foi-me impossível pagar as facturas em atraso nos correios ou no agente TMN, aqui no Palmeiras. Fui ao Oeiras Parque e depois de mais de uma hora na fila de espera, lá consegui ficar com o assunto arrumado... quer isto dizer que ainda me vão aturar mais uns tempinhos!

(Caramba, estou tão cansada que até hesitei em carregar no ponto de exclamação...)

Vim escrever este post sem fazer a menor ideia do que iria dizer-vos e antes de tentar, sequer, abrir a caixa de correio. 

Pelo meio de toda esta confusão, lá consegui dispensar uns minutos à reformulação das últimas estrofes do 14º soneto, para que a coroa de sonetos pudesse, finalmente, merecer esse título...amanhã - hoje garanto que estou demasiado cansada - tentarei publicar a coroa já completa e só espero não ter cometido mais nenhum destes erros grosseiros e palermas ao longo de toda a coroa.

 

EPÍLOGO

 

Que a folha de papel já perpetrou

Na sua louca e branca ingenuidade;

Uma inocência prenhe da verdade

Que a minha negra pena em si gerou...

 

E eis-me enfim liberta, concluída!

Desta minha tarefa, o que me resta?

Libertar de mim mesma o que não presta

E procurar a terra prometida?

 

O tempo chegará, embora preso,

De me imolar o corpo em fogo aceso,

De transportar-me a essa luz que havia

 

No espaço onde, lá longe, eu me encontrei

E quanta luz do céu já vislumbrei

Eu, por minha vontade, cantaria!

 

Peço-vos desculpa, por este erro que só  merece perdão por ter sido inconsciente. Amanhã tentarei uma revisão mais generalizada. Se vos não conseguir visitar ou responder a todos os vossos comentários, é por puro cansaço. O Spirit, de alguma forma, parece ter feito despertar alguma coisa dentro do meu próprio espiríto. Algumas dúvidas que não passam necessariamente pelo: - Tira isso da cabeça, Maria João! Só podes estar completamente louca!

Amanhã tentarei falar-vos também disso. Hoje nem sequer estou capaz de fazer uma soma "de cabeça"...

  

22
Set08

12º, 13º e 14º SONETOS DA COROA - REMATE

Maria João Brito de Sousa

 

 

 

 

 

O TEMPO NUMA FOLHA DE PAPEL

 

No barro desta humana imperfeição

Mas aspirando a Anjo. Quem diria

Que tão estranha e tão vã filosofia

Haveria de ser aspiração?

 

Mas sendo controversa, ou mesmo vã,

Garanto que não mudo o meu caminho!

Sabe-me a boca ao mel, ao rosmaninho

Das horas que cantar nesse amanhã

 

E se, a cada minuto, eu acrescento

Uns "pós" do meu teimoso entendimento

A quanto me pareça ser cruel,

 

O Futuro vislumbra-me e sorri...

Sorrio-lhe, eu também, porque prendi

O Tempo numa folha de papel...

 

Maria João Brito de Sousa - 22.09.2008

 

O "PECADO" DA FOLHA DE PAPEL

 

O Tempo numa folha de papel,

De súbito pequeno e vulnerável,

Desvendando um futuro indecifrável

A traços de caneta ou de pincel...

 

Estranhíssima Alquimia a que revela

Essa improvável forma de viver

De um Tempo aprisionado, sem poder

Gastar-se, nem na chama de uma vela...

 

Contudo, o tempo exprime-se e confessa,

Revela, aos nossos olhos, a promessa

Da mensagem que em si cristalizou

 

Nos versos em que o trago aprisionado

Ao culminar do único pecado

Que a folha de papel já perpetrou...

 

Maria João Brito de Sousa - 22.09.2008

 

 

EPÍLOGO

 

Que a folha de papel já pepetrou

Na sua branca e louca ingenuidade;

Esta inocência prenha da verdade

Que a minha negra pena em si gerou...

 

E eis-me enfim liberta, concluída!

Desta longa tarefa, o que me resta?

Ir rejeitando tudo o que não presta?

Fazer-me, agora, à Terra Prometida?

 

O Tempo há-de voltar (embora preso...)

P`ra lançar o meu corpo ao fogo aceso,

P`ra rematar-me, enfim, quando serena...

 

Morreria feliz e sem castigo

Tão só por cá crescesse o que bendigo,

Tão só por cá ficasse a minha pena...

 

 

Maria João Brito de Sousa - 22.09.2008 - 13.17h

 

Imagem - "Auto-Retrato"

                 Maria João Brito de Sousa, 2006

 

Nota- Tudo isto é só para não ficar atrás do Bin Laden, que também parece ser um "Grande Poeta".

Desculpa, Alfredo, mas este ano esqueci-me mesmo do teu aniversário.

APOSTILA- Acabo de constatar que este trabalho feito "à pressão", acabou por ficar péssimo, pois confundi o 2º soneto com o 1º. Logo à noite tentarei emendá-lo, embora a minha tentativa de reedição tenha saído gorada, porque o texto me aparece desconfigurado. A última estrofe terá de ser reformulada para que isto se possa considerar uma coroa de sonetos. Não quero coroas de glória, mas neste momento, também dispenso uma de espinhos. Se o pessoal do Sapo puder ter a bondade de configurar o texto na reedição de posts, eu terminarei a coroa ainda hoje, lá por volta das 23 horas, quando acabar de tratar de toda a minha família de pêlo e penas.

 

Nota II - Sonetos libeiramente reformulados a 05.04.2016 (Garanto que adoraria poder recordar-me das circunstâncias que deram origem à nota anterior, bem como à dita "apostila"... e já lá vão quase oito anos...)

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