Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores.
...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
Era uma vez... era uma vez uma mulher que queria escrever uma história para a Fábrica de Histórias e não sabia ficcionar...
Chegara recentemente a essa conclusão e sentira-se um tanto ou quanto diminuída por isso. Era simples, a mulher, mas tinha o seu orgulhozinho e tamanha lacuna parecia-lhe estranhíssima. Tanto mais que ainda se recordava de ter ficcionado uma ou outra historieta para as filhas, em tempos que, há muito, já lá iam.
Caramba! De uma ficçãozita todos somos capazes! - Invectivou-se, como se aquilo lhe puxasse pelos cordelinhos da imaginação e pusesse a emperrada maquineta da memória a funcionar. Nada. Nem uma palavrinha para além do "Era uma vez"... só sentia.
Ah! Sentir, sentia! Sentia, nesse dia, uma particular gratidão por alguém que a ajudara a salvar a vida -ainda débil, ainda "tem-te, não-caias!" - da gatinha que a mãe lhe trouxera para casa há sete anos atrás.
Por isso e porque "sentir" sempre fora a sua especialidade, a mulher decidiu-se por contar
A HISTÓRIA DO CÃOZINHO QUE NASCEU COM AS PATAS BRANCAS
Foi há cerca de ano e meio. Não era, com certeza, Natal, mas era como se fosse. Ou melhor, passou a ser como se fosse...
Eu tinha ido ao veterinário com a Lupa e o Kico. Por essa altura um deles deveria estar meio adoentado. Provavelmente uma das "constipações" do Kico ou uma das "dores de barriga" da Lupa.
Recordo-me de ter ouvido quando, terminada a consulta, me propunha sair, um ganido baixo e fininho, quase sumido.
O veterinário acompanhara-nos à porta e eu desviei instintivamente o olhar do dele, procurando o local de onde me pareciam provir os ganidos.
- É um cachorrinho que trouxe ontem para o consultório. Não sei se o consigo salvar. - explicou-me o veterinário que acompanhara o curso do meu olhar.
Os meus olhos devem ter denunciado alguma surpresa, porque ele rapidamente se propôs mostrar-me o tal cachorrito. Subimos a pequena escada que leva à sala de banhos e tosquias e eu vi aquela coisita acastanhada envolta numa mantinha bordeaux, ligada a um frasco de soro que pendia de um suporte improvisado.
- Tão pequenino!- exclamei - o que tem ele?
- Fome. Estas coisas não se fazem! Era de um criador de boxers e eu trouxe-o ontem para cá...
- Mas... e a mãe?
- A mãe está com o dono, o tal criador. Tem mais sete cachorrinhos e está a alimentá-los...
- E este? Que se passa com este?
- Com este o que se passa é que nasceu com "defeito de fabrico"! Segundo o criador de boxers, claro... tem as pontas das patas brancas...
Olhei e reparei então que aquele castanho levemente manchado por estrias mais escuras terminava, efectivamente, em pequenas "botinhas" brancas que, no meu entender, lhe davam um certo encanto e o tornavam ainda mais patusco.
- Não me diga que já o não querem por causa disso...
- Digo, digo. E digo mais. Separaram-no da mãe e atiraram-no para dentro de um caixote onde o fui encontrar meio morto de fome e já desidratado. Foi por acaso. Fui fazer a revisão do puerpério à mãe e já me ia embora quando, no hall de entrada, vi o caixote com ele lá dentro. Que não servia, disse-me o criador. Que tinha defeito e estava a estragar a raça!
- E trouxe-o consigo?
- Pois trouxe! Ia morrer ali... perguntei se mo davam e tratei de pegar logo nele!
Olhei de novo para o filhote de boxer. O cãozinho que "tinha defeito" estava ali, deitado, quentinho, a soro, com um biberão meio de leite junto a ele. Tinha um nome. O veterinário tratara logo de lhe dar um nome, mas a minha memória já não é o que era e, para mim, ficou sempre a ser "o cãozinho que nasceu com as patas brancas".
E o que tem isto a ver com uma tradição de Natal? - perguntarão vocês. Provavelmente não tem mesmo nada a ver, mas o espírito está lá e eu já não sei ficcionar!... Mas gostaria - e aqui sim, entro no que nos foi pedido na Fábrica de Histórias! - de propor uma nova tradição para o Natal de Todos os Dias;
Que nunca, nunca mais se vote ao abandono, à indiferença, quem - não importa a espécie! - nasça com uma "diferença". Seja ela qual for!
Pronto. Já passou muito tempo e muitas pessoas me têm perguntado como vai o mealheiro para a compra do célebre Portátil 2008. Algumas dessas pessoas nem sequer são bloggers, mas têm acesso à net e gostam de ler o poetaporkedeusker.
Aqui vai a última actualização: 310 euros.
Um dos elementos do COPROP (Comissão Pró Portátil) encontra-se, neste momento, de férias, mas mal ele regresse sugerirei que se comece a pensar na devolução dos donativos aos Mecenas que contribuíram para a causa do Soneto na Blogosfera.
A todos os que já contribuíram, a todos os que pensam ainda contribuir e a todos os que não contribuíram porque os tempos estão mesmo muito díficeis, eu deixo o meu abraço de agradecimento.
Um abraço de cometa também para todos os elementos do COPROP que têm sido incansáveis e para a equipe do Sapo que pôs em destaque o Café com Natas quando esse blog lançou um apelo em prol desta causa. Durante mais alguns dias a conta manter-se-á disponível.
Espero não ser fuzilada pelos militantes da causa, pois estou a publicar este post à revelia deles... mas há vários dias que a conta não aumenta e eu comprometi-me pessoalmente com a devolução dos montantes doados, caso não fosse possível alcançar o suficiente para a compra do 2008.