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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
02
Dez22

NOITE - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Maria João Brito de Sousa

NOITE (1).jpg

Tela de Paul Cézzane

NOITE
*
Coroa de Sonetos
*
Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*

1.
*

A noite tem mistérios e encantos

Encontram-se os amigos e as amigas

Dança-se a par e ouvem-se cantigas

Encobrem-se os amores nos seus mantos
*

Escondem-se na sombra muitos prantos

Indómitos valentes sem fadigas

Tecem-se muitos contos e intrigas

Há demónios que fingem ser uns santos
*


De dia vê-se ao longe a claridade

De noite vê-se bem mas só ao perto

Encobre-se a fraqueza e a idade
*


Embala-nos o sonho que, desperto,

Enfeita tudo à volta. A mocidade

Anda durante a noite a céu aberto
*

Custódio Montes
*

30.11.2022
***


2.
*

"Anda durante a noite a céu aberto"

Um velho e anquilosado sem abrigo

Tão gasto quanto um móvel muito antigo

Pla pátina do tempo hoje coberto
*


Pra esse a noite é um local deserto

P`rigoso para quem não sente o p`rigo,

Mas suave se encontrar um velho amigo

Que caminhe ao acaso ali por perto
*

 

E caminhando juntos, juntos olham

O céu cheios de estrelas. Que os não tolham

Os muitos anos que ambos já viveram
*

 

Que ao menos as memórias sejam belas

Já que, hoje, nada têm senão estrelas

E os sonhos que tiveram já morreram.
*

 

Mª João Brito de Sousa

30.11.2022 - 14.00h
***

3.
*

“E os sonhos que tiveram já morreram”

Mas mesmo assim à noite a conversar

Recordaram momentos e ao lembrar

Outras enormes gestas prometeram
*

Cantaram e dançaram, não temeram

As vagas já passadas do azar

Que foram e não mais iam voltar

E em novos afazeres se entenderam
*

Prometeram plantar cravos e rosas

Bem-me-queres floridos e jasmins

Tudo à volta as flores mais formosas
*


Vestirem-se de roupas com cetins

Andarem com sorrisos glamorosos

Em festas ao ar livre e em jardins
*

Custódio Montes

30.11.2022
***

4.
*

"Em festas ao ar livre e em jardins"

Ressuscitaram os seus sonhos mortos:

Se no asfalto plantaram seus hortos,

No céu soltaram bandos de chapins
*


E esculpiram, nos becos, querubins

- que importa se perfeitos ou se tortos

eram os traços seus se tão absortos

estavam os dois em alcançar seus fins? -
*


E nessa noite aqui reinventada,

Foram jovens os dois. Talvez crianças

Fazendo traquinices na calçada,
*


Coreografando juntos novas danças,

Criando o que quiseram desse nada

Que nada deve ao banco ou às finanças.
*


Mª João Brito de Sousa

30.11.2022 - 16.35h
***
5.
*

“Que nada deve ao banco ou às finanças”

Nem pedir emprestado, tudo a pronto

Que misérias de empréstimos nem conto

Com juros usurários nas cobranças
*


Que quem se for meter nessas andanças

Vive sem paz e em guerra nesse ponto

A ganhar para o banco e em confronto

Sem ter no seu futuro esperanças
*


Para se viver bem, para sonhar

Devemos entre nós ter por cultura

Não andar a pedir nem a roubar
*


Encher os nossos bolsos com usura

De quem anda na vida a trabalhar

Com toda a honestidade, com lisura
*

Custódio Montes

30.11.2022
***


6.
*

"Com toda a honestidade, com lisura",

Partilharam a noite até ser dia

E de manhã nenhum dos dois sabia

Distinguir sanidade de loucura
*

 


Ambos haviam feito a mesma jura

De não perder o sonho e a alegria,

Como se por milagre ou por magia

Uma tristeza não tivesse cura...
*

 


De novo a noite escura vai tombando

Sobre esses dois mendigos. No veludo

Do céu imenso, estrelas vão brilhando...
*

 


Nem um nem outro têm espada ou escudo

Mas como cavaleiros batalhando

Combatem fome e frio, vencendo tudo.
*

 


Mª João Brito de Sousa

30.11.2022 - 19.25h
***

7.
*

“Combatem fome e frio, vencendo tudo”

Pois são dois bons amigos, combatentes

Que lutam contra ventos inclementes

Com o corpo sem vestes e desnudo
*


Tivessem eles mais algum estudo

E teriam empregos competentes

Ou com outras acções inteligentes

Teriam um futuro mais sortudo
*


Já não são moços, pesa-lhes a idade

Mas a noite passaram-na a cantar

Lembrando o seu passado, a mocidade
*


Os tempos de alegria, o namorar

Com mais atrevimento ou castidade

E noites que tiveram a sonhar
*

Custódio Montes

30.11.2022
***

8.
*

"E noites que tiveram a sonhar"

Partilham-nas também, feitas memórias

Que vão narrando como se vitórias

Sobre o que antes tiveram que penar
*


Sob um céu todo estrelas e luar

Vão um e outro desfiando histórias

E as mais pequenas coisas são já glórias

Que convencem o Tempo a recuar...
*


Do pão amanhecido que um trazia

Ao outro é of`recida uma metade

E assim jantaram nessa noite fria
*


Em que ambos celebraram a amizade:

Se o amanhã traz sempre um novo dia,

Trouxe-lhes, essa noite, a eternidade.
*


Mª João Brito de Sousa

30.11.2022 - 22.15h
***

9.
*

“Trouxe-lhes, essa noite, a eternidade”

Mas só em pensamento que a viver

Continuaram mais e a conviver

Lembrando toda a sua mocidade
*


De noite só se vê pela metade

Mas eles viram bem no seu dizer

Tudo aquilo que andaram a fazer

Chegando mesmo até à hilaridade
*


Um lembrou as amigas e conquistas

O outro suas fases do namoro

Aquele disse até as longas listas
*


De moças que beijou sem ter decoro

Este também lhe deu algumas pistas

E riram riram riram ambos em coro
*

Custódio Montes

30.11.2022
***

10.

*
"E riram riram riram ambos em coro"

Do seu passado e até das suas dores,

Das suas ambições, dos seus amores,

De forma tal que desaguava em choro
*


Todo esse riso, como um meteoro

Rasgando a noite com as suas cores...

E foi a melhor cura, entre as melhores,

Valendo tanto ou mais do que um tesouro!
*


Dissessem-lhes que a vida são dois dias

E rir-se-iam de quem tal dissesse:

Não crêem nessas vãs filosofias,
*


Sabem que nada é o que parece

E se a noite lhes traz tais alegrias,

Que não se apresse o dia que amanhece.
*


Mª João Brito de Sousa

01.11.2022 - 11.00h
***

11.
*

“Que não se apresse o dia que amanhece”

Para gozar a vida e a mais valia

De voltar ao passado e à alegria

Que tanto nos recorda e engrandece
*


Nestas recordações a gente tece

A manta que nos cobre de euforia

E busca-se aí toda essa magia

Que no-la traz de volta e oferece
*


Que continue o sonho e a alvorada

Demore que ao voltar de novo a vir

Havemos de cantar à desgarrada
*


Voltando-nos de novo a divertir

Da nossa vida bela, vida airada

Que nessa altura era um elixir
*

Custódio Montes

1.12.2022
***

12.
*

"Que nessa altura era um elixir"

E continua a sê-lo noite afora

Porque hoje é numa noite que se escora

A c´roa que se está a construir
*


Na qual dois velhos tentam redimir

Os muitos pecadilhos desse outrora

Que ambos recriarão antes que a aurora

Radiosa comece a ressurgir
*


Mesmo as falsas memórias são bem vindas

À noite que em coroa entretecemos

E que, antes de fechar, toda se alinda
*


Com os sons e silêncios que lhe demos...

Mas dois sonetos vão faltando ainda

Pra que feche em beleza, bem sabemos.
*


Mª João Brito de Sousa

01.12.2022 - 14.40h
***

13.
*

“Pra que feche em beleza, bem sabemos “

E ao fechar abriu-se o coração

Por ter voltado a ter recordação

De tudo o que amamos e vivemos
*


De noite, nas estrelas, tudo vemos

Lampeja à nossa volta um clarão

Que nos recorda os anos que se vão

E voltamos atrás e tudo temos
*


Na noite giram muitos impropérios

Mas também flui a luz e a claridade

E são sonhados tantos desidérios
*


Que se emaranha em nós gosto e vontade

De sondarmos amores e mistérios

Que trazem à memória a nossa idade
*

Custódio Montes

1.12.2022
***

14.
*

"Que trazem à memória a nossa idade"

E as muitas ilusões de antigamente

Que a vida derrubou tão lentamente

Quão depressa cresceu esta amizade
*


Que à noite, numa rua da cidade,

Nasceu de uma conversa frente a frente...

Quase no fecho, sinto-me impotente

Pra prolongar toda esta f`licidade
*


Prossigo porque tudo tem um fim

E engendrámos dois homens, não dois santos

Desses que são talhados em marfim,
*


Que (en)cobrem a nudez com longos mantos

E que jamais virão dizer-me assim:

"A noite tem mistérios e encantos"...
*

 

Mª João Brito de Sousa

01.12.2022 - 17.45h
***

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