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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
27
Mai23

NÃO DESENCANTES O SAPO - Reedição

Maria João Brito de Sousa

o sapo.jpg

NUNCA (DES)ENCANTES UM SAPO!
*
Coroa de Sonetos
*
Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes
*
1.
*
Quebra-se a magia do beijo assombrado
Que magicamente fez, do sapo, humano...
Quanta angústia emerge, quanto desengano
Pra quem fora um simples sapo descuidado!
*
Vá lá! Nunca beijes um sapo encantado!
Lembra-te que podes causar-lhe tal dano
Que o pobre batráquio, de bichito ufano,
Passe a ser humano. Coitado, coitado!
*
Pobre desse sapo que estando inocente
De culpa, de intriga, de ódio e de traição,
Se torna consciente das falhas que tem
*
Quando, por um beijo, se transforma em gente
E perde inocência. Que desilusão...
Tu, quando o beijaste, sabia-lo bem!
*
Maria João Brito de Sousa
19.06.2008 - 08.53h
***
2.
*
“Tu, quando o beijaste, sabia-lo bem”
Enganaste o sapo, fizeste-lo gente
Perdeu a candura, não é inocente
Maldizem o beijo que ao sapo convém
*
O encanto quebrou-se e agora ninguém
O olha assapado na água envolvente
O beijo espalhado na coxa carente
Passa por humano e o sapo também
*
Que se vá o encanto que fique a pureza
Do coaxar belo no meio do lago
Que mesmo sem beijo a gente agradece
*
No meio do campo vendo a natureza
Sente-se alegria, alegria e afago
E o coaxar do sapo entoa em prece
*
Custodio Montes
23.5.2022
*
3.
*
"E o coaxar do sapo entoa em prece"
Na toada exacta que à espécie convém
E em versos que um sapo conhece tão bem,
Quanto aos nossos versos sequer reconhece...
*
Batráquio que o seja, não fia, não tece,
Nem sabe de beijos que lhe of`reça alguém
E encontra fartura no pouco que tem,
Porque de mais nada precisa ou carece...
*
No seu charcozinho ou na sua lagoa,
Há sempre um coaxo que vibra e ressoa:
O seu hino à Vida é mais belo que o nosso
*
E mais espontâneo e mais verdadeiro...
É mestre, o batráquio, no canto certeiro
E eu falho, por vezes. Só canto o que posso...
*
Mª João Brito de Sousa
23.05.2022 - 14.10h
***
4.
*
“E eu falho, por vezes. Só canto o que posso…”
Mas canto que cante é sempre engraçado
O sapo não canta tão emalhetado
Embora o que cante seja sem esforço
*
O sapo no canto canta fino e grosso
E é um encanto ouvi-lo espaçado
À beira do charco quieto sentado
Com as mãos no queixo sem grande alvoroço
*
Também no poema se ouve a canção
Que nos prende a alma e o coração
Descrevendo o lago e o sapo a cantar
*
E por essa forma o coaxar e o canto
Só dão alegria nunca desencanto
Não beijo assombrado se o quiser beijar
*
Custódio Montes
23.5.2022
***
5.
*
"Não beijo assombrado se o quiser beijar"...
Beijá-lo não quero que o assustaria
E o seu belo canto não mais se ouviria
Nem nesse seu lago, nem noutro lugar
*
Que sapo assustado deixa de cantar,
Quase não respira, cala a melodia
E por predadora logo tomaria
Qualquer princesinha que o fosse agarrar...
*
Canta, sapo, canta! Fica descansado,
Quero-te batráquio não (des)encantado,
Que de realezas estou há muito farta
*
E se teço c`roas, são de outro jaez,
Nunca as teceria pra nenhum "princês"
E esta minha Musa também mo descarta.
*
Mª João Brito de Sousa
23.05.2022 - 16.25h
***
6.
*
“E esta minha musa também mo descarta”
Que a musa é fina não é nenhum sapo
Disso ela foge e também eu me escapo
Que de aventuras a musa está farta
*
O sapo medonho que raios o parta
A não ser que cante com graça e guapo
E não todo imundo sujo como um trapo
Com voz de primeira e não voz de quarta
*
Mas vamos por partes e sem ofender
Não beijar o sapo fui eu a dizer?
A coroa o disse e sem desengano
*
Logo à primeira, mesmo a começar
Prosseguiu a musa e a deambular
Disse: não se faça do sapo um humano
*
Custódio Montes
23.5.2022
***
7.
*
"Disse: não se faça do sapo um humano"
Que são, os humanos, muito complicados
Enquanto os sapinhos vivem sem cuidados
E cuidam das hortas sem causar-nos dano...
*
Um seu conterrâneo foi um soberano
A falar de sapos, esses mal amados,
Por quem desconhece que os pobres coitados
Nos são muito úteis quando, ano após ano,
*
Nos livram de insectos e salvam das pragas
Que assolam as folhas e destroem bagas...
Bambo*, o sapo velho, quem pode esquecê-lo
*
Se morto em serviço, firme no seu posto,
Só porque não tinha beleza no rosto,
Só porque não era cativante e belo?
*
Mª João Brito de Sousa
23.05.2022 - 20.15h
***
Vide "Bambo" in "Bichos", Miguel Torga
***
8.
*
“Só porque não era cativante e belo”
Mas sempre a saltar na horta e no canteiro
A comer as larvas limpar o terreiro
Por isso, agrada e é muito bom tê-lo
*
O sapo é útil não é um flagelo
Se feio parece ele é um bom parceiro
Comendo os insectos, limpando o lameiro
Ajuda no campo, dos braços é elo
*
Um “bambo” é verdade mas não é de borga
Descrito em Bichos pelo Miguel Torga
Como nos informa com sua mestria
*
Louvemos o sapo, não lhe quero mal
Sem lhe darmos beijos a esse animal
Nem o endeusarmos com a poesia
*
Custódio Montes
23.5.2022
***
9.
*
"Nem o endeusarmos com a poesia"...
Torga humanizou-o na prosa, contudo,
E fez dele um mestre que, apesar de mudo,
Falava de amor e de Filosofia
*
Como quem faz jus à tal sabedoria
Que da Vida entende um pouquinho de tudo...
Ah, se ao velho Bambo nesta estrofe aludo,
Aludo à amizade e, quem sabe?, à magia
*
Mais bela, decerto, do que a do tal beijo
Que deu a princesa ao sapito do brejo
Julgando que o dito era um rei, nunca um sapo...
*
Tem tino, princesa! Não vês que o encanto
Do nobre batráquio dispensa o teu manto
Que é, pra ele, um pobre e cerzido farrapo?
*
Mª João Brito de Sousa
23.05.2022 - 23.00h
***
10
*
“Que é, pra ele, um pobre e cerzido farrapo?”
Isso porque o Bambo é inteligente
Mas mais nenhum sapo é assim cojente
Para distinguir a tal manta de trapo
*
Queria a princesa pensar que o sapo
Era antes Bambo tão nobre e valente
Que, na realeza, parecesse gente
Errou, enganou-se, tirou-lhe um fiapo
*
Nem nós no poema temos gosto insano
De fazer do sapo um príncipe humano
Para a tal princesa o poder beijar
*
Confundiu decerto e ficou em apuro
Por ter confundido o sapo anuro
Com príncipe amado para namorar
*
Custódio Montes
24.5.2022
***
11.
*
"Com príncipe amado para namorar"
Confunde a princesa o tal sapo anuro...
Posso ser insana, mas aqui lhe juro
Que ao sapo prefiro de longe admirar
*
A pensar num homem para me casar:
A um, sim, amei-o, mas mais não aturo,
E se, no passado, previsse o futuro,
Talvez preferisse nem me apaixonar...
*
Bem sei que, consigo, tudo foi dif`rente,
Que esse amor perdura e que vive contente
Com sua princesa num reino encantado,
*
Enquanto eu afirmo que amo a solidão,
Que escrevo o que escrevo nessa condição
E não troco um brejo por trono ou condado!
*
Mª João Brito de Sousa
24.05.2022 - 10.15h
***
12.
*
“E não troco um brejo por trono ou condado”
Nem quero princesas tão namoradeiras
Que gozem o sapo só com brincadeiras
Mesmo que o beijem como encantado
*
Mas falar de amor agora é escusado
Para mais falarmos de tantas asneiras
Que a nossa princesa de várias maneiras
Fez passar ao sapo como namorado
*
Se andasse ocupada não tinha desejo
De ao sapo encantado querer dar um beijo
E não nos daria tanta ocupação
*
Mas sem ter trabalho, farta, à boa vida
Quis-se imaginar como sendo a querida
Dum sapo encantado e do seu coração
*
Custódio Montes
24.5.2022
***
13.
*
"Dum sapo encantado e do seu coração"
Tenta uma princesa ser dona e senhora...
Não sabe, a tontinha, que os sapos de agora
São poucos, passaram a espécie em extinção
*
E exigem, portanto, maior protecção...
Cuidado, princesa, que a fauna e a flora
Devem preservar-se bem mais do que outrora
Em nome de um mundo mais limpo e mais são!
*
Esses teus caprichos de dama mimada
São sonhos traídos, não servem pra nada!
(embora eu confesse que os utilizei
*
na C`roa de versos que aqui vou tecendo...)
Princesa, princesa! Tu estás-te é esquecendo:
Tão livre é o Sapo quão nu vai el Rei!
*
Mª João Brito de Sousa
24.05.2022 - 16.15h
***
14.
*
“Tão livre é o sapo quão nu vai el Rei!!”
Por isso, Princesa, vê lá se te apoucas
Nessas preferências, que queres tão loucas
Deixa lá o sapo que eu investiguei
*
Que ter tais amores, isso também sei,
Já não é namoro: princesas são poucas
Vestem como as outras e não usam toucas
Não andam em charcos tão fora de lei
*
E já nem o “Bambo” vai nessas cantigas
Que tem bambo fêmea não quer raparigas
Nem por elas fica tão apaixonado
*
Tece, pois, princesa um novo novelo
Que o sapo rejeita, não quer teu anelo
“Quebra-se a magia do beijo assombrado”
*
Custódio Montes
24.5.2022
***

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