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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
23
Jun21

INTERSTÍCIO - Custódio Montes e Maria João Brito de Sousa

Maria João Brito de Sousa

INTERSTICIO.jpg

INTERSTÍCIO
*

Coroa de Sonetos
*

Custódio Montes e Maria João Brito de Sousa
*

1.
*

Vejo ao longe uma nesga de terreno

A cor lilás aguça-me a visão

Depois mais curioso vejo então,

Com gosto, uma andorinha em voo ameno
*


Da frincha vê-se o mundo mais pequeno

Ao abrir a janela, a vastidão

Alarga-nos o campo em extensão

Ficando-se melhor e bem mais pleno
*


Às vezes o que vemos não é nada

Olhado com a vista encerrada

E temos que ir à busca do bulício
*


A vida vem de fora que fechada

A nossa condição é limitada

À pouca luz que dá o interstício
*


Custódio Montes

21.6.2021
***

2.
*

"À pouca luz que dá o insterstício"

Posso somar a luz de quanto escrevo...

A essa luz do interstício o devo

Bem como ao que alguns julgam desperdício
*


Mas neste longo dia de solstício

Durante o qual inteira me sublevo

Qual vermelha papoila ou verde trevo,

Lanço mãos ao poema; o meu ofício!
*


De dentro para fora, uma insurgência

Teima em poder bem mais que esta impotência

E o verso rasga a névoa que o prendia.
*


Pode o que faço chamar-se imprudência,

Mas eu tenho a perfeita consciência

De que ele há-de chegar aonde qu`ria.
*


Maria João Brito de Sousa - 21-06.2021 - 18.06h
***

3.
*

“De que ele há-de chegar aonde qu’ria”

E eu cheguei aqui vindo de fora

E mal abri a porta, nessa hora

Vi que uma poetisa respondia
*


E o que eu vi ao longe pelo dia

Depois de ter saído e ir embora

Não é melhor nem tão consoladora

Como a resposta à minha poesia
*


Interstício sim mas de beleza

Fechados, mas abertos à grandeza

Que o nome deu lugar a este tema
*


Inteiro, generoso, emalhetado

Bem composto, florido, enramalhado

Com abertura à luz e ao poema
*


Custódio Montes

21.6.2021
***

4.
*
"Com abertura à luz e ao poema"

Estaremos ambos... e constamente!

Mal um começa, o outro segue em frente,

Qualquer que seja o metro, o mote, o tema...
*


Interstícios, pra nós, não são problema

E embora a minha mão esteja dormente,

Escrevendo letra a letra, lentamente,

Facilmente resolvo esse dilema.
*


Meu único senão vem deste sono

Que vem colar-se a mim qual cão sem dono

E me embriaga dos pés à cabeça...
*


Amanhã voltarei fresca e desperta

Pra sondar o poema, à descoberta

Do verso em que ele acaba e recomeça.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 21.06.2021- 23.10h
***

5.
*

“Do verso em que ele acaba e recomeça”

E ri e chora e acaba em festa rija

Até que novo verso aqui alija

E vai enchendo a taça peça a peça
*


E antes que descanse e se despeça

E para fora vá e se dirija

Sem nada que o force ou lho exija

Retoma o tema sempre mais depressa
*


Em luta até ao fim sem armistício

De noite e dia à luz do interstício

Bem lindo e enrendilhado como a flor
*


Trabalho imaginado em solidão

Que prende a nossa alma e coração

E mostra à luz do dia esse labor
*

Custódio Montes

22.6.2021
***
6.
*

"E mostra à luz do dia esse labor"

A ponto-cruz bordado sobre linho

Com a ternura de quem faz um ninho,

Com a entrega de quem faz amor...
*


Muda-se o ponto em ponto pé-de-flor

E prossegue o trabalho o seu caminho;

Cresce o bordado e sente-se o carinho

Que traz nas suas mãos o bordador.
*


Vem, ora, a bordadeira pra rendê-lo

E ao ver como o bordado cresceu belo,

Hesita em dar o seu primeiro passo,
*


Mas recomeça. É este o seu ofício!

Tacteia, cuidadosa, o orifício

Da imaginária agulha de um abraço...
*

 

Maria João Brito de Sousa - 22.06.2021 - 09.58h
***

7.
*


“Da imaginária agulha de um abraço…”

Que ao longe o interstício deixa ver

Imaginado ao pé está-se em crer

Que muito diminui o largo espaço
*


E esta perspectiva que aqui traço

Demonstra que a palavra ao escrever

Um conteúdo amigo há-de ter

E é por isso mesmo que eu o faço
*


Cumprimentar de abraço apertado

É bom, mesmo que seja imaginado

Andando o corpo ao longe em levidade
*

A alma engrandece e ao sentir

O terno abraço a dar e ao surgir

Encontra nele o laço da amizade


Custódio Montes

22.6.2021
***
8.
*

"Encontra nele o laço da amizade"

Que laçada a laçada se constrói;

Quando a distância é tanta que nos dói,

Assim se reinventa a saciedade
*


E é o verso uma pomba que se evade

De uma dura prisão que só o foi

Enquanto este "bichinho" que nos rói

Não descobriu que estava em liberdade...
*


Julgou nunca alcançar esse interstício,

Temeu, talvez, cair num precipício

Se ousasse ultrapassar a estreita fresta,
*


Mas depressa aprendeu que sem tentar

Não saberia, nunca, o que é voar

Nas asas de um poema todo em festa...
*


Maria João Brito de Sousa - 22.06.2021 - 12.21h
***
9.
*

“Nas asas de um poema todo em festa...”

Rodeado das flores dum jardim

São pétalas a abrir até ao fim

De rosas, cravos rubros, de giesta
*


Um lindo panorama que nos presta

Para sentir o cheiro do jasmim

Ouvir às vezes contos de Aladim

Seguindo por caminhos na floresta
*


Poema não é pobre tem riqueza

Faz homens, traz-nos sonhos, natureza

Com roupas e com trajes de ilusão
*


Fazendo-nos também imaginar

Que a vida tem beleza e faz amar

E isso tonifica o coração
*

Custódio Montes

22.6.2021
***
10.
*

" E isso tonifica o coração"

Dando sentido à vida que vivemos

Porque a partilha daquilo que temos

Faz-se com alegria e com paixão.
*


Quisera que a vindoura geração

Pudesse ver tão bem quanto nós vemos

Através de interstícios tão pequenos

Abertos sobre estoutra imensidão...
*


São, os versos, potentes telescópios

E, às vezes, são também caleidoscópios

Da nossa muito humana natureza
*


E nós, poetas e eternos meninos,

Não cremos ser os donos dos destinos,

Mas tudo vamos vendo em profundeza...
*


Maria João Brito de Sousa - 22.06.2021 - 13.56h
***

11.
*

“Mas tudo vamos vendo em profundeza”

Às vezes só as coisas ao redor

Mas quanto mais ao funda a gente for

Muito mais se conhece a redondeza
*


Descreve-se o que vemos e a beleza

Compõe o dia a dia bem melhor

Voamos como as asas dum condor

E nem se sente a dor nessa leveza
*

Apuram-se os sentidos, o gostar,

Os cheiros, os desejos, o olhar

E tudo à nossa volta é linda imagem
*


Canteiros a florir à nossa frente

Ouvimos coisas belas e a gente

Fica mais forte e cheia de coragem
*

Custódio Montes

22.6.2021.
***

12.
*

"Fica mais forte e cheia de coragem"

A gente que assim ama a poesia

Onde se juntam Ciência e Fantasia,

Que tudo aqui se cria à nossa imagem!
*


Cada poema é mais uma viagem

Até ao universo da harmonia;

A partir de um acorde, a sintonia

Dos afinados versos que interagem
*


Até que ao pôr-do-sol o sono chegue

E o verso disperse e se me negue

Num desleal conluio com Morfeu...
*


Tonta de sono, por mais que o persiga,

El` corre à minha frente e nem me liga

Quando suplico: - Volta, verso meu!
*


Maria João Brito de Sousa - 22.06.2021- 15.32h

***

13.
*

“Quando suplico: - volta, verso meu ! “

Não deixes vir a noite que não vejo

E vai-se-me a vontade e o desejo

Só penso nesse escuro como breu
*


Vem vindo a noite, não escureceu

Ainda. Eu de noite não versejo

E queria fazê-lo, tenho o ensejo

De pôr ainda mais um verso meu
*


Via pelo interstício o bastante

Era pouco mas era interessante

Eu não exijo jóias nem rubis
*


Basta-me o que descubro no além

Por essa fenda aberta que nos vem

Do verso que nos chega e faz feliz
*

Custódio Montes

22.6.2021
***

14.
*

"Do verso que nos chega e faz feliz"

Qualquer poeta, quando se aproxima

E traz atrás de si verso que rima

E outro ainda encontra que condiz
*


Com a sonoridade de raiz

Em que o poema, inteiro, se sublima

E cresce... é quase vida, o que o anima,

E a força que em si traz, quase motriz...
*

 

Sobre este inusitado crescimento

O Sol percorre inverso movimento

Descendo aos poucos sobre o mar sereno
*

 

Por trás da rua prenha de edifícios;

Com meus olhos - dois meros interstícios -

"Vejo ao longe uma nesga de terreno."
*

 


Maria João Brito de Sousa - 22.06.2021 - 19.03h
***

(Reservados os direitos de autor)

 

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