Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

poetaporkedeusker

poetaporkedeusker

UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
04
Fev22

HOJE HÁ VAGAS! - Mª João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues

Maria João Brito de Sousa

aguarela naif.jpg

HOJE HÁ VAGAS!

*
Coroa de Sonetos
*

Mª João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
*

1
*


No mundo dos versos nascidos de humanos

Descubro um poema que cheira a suor,

Que pode trincar-se, que fede a bolor,

Que treme de frio coberto de panos,
*

 

Que pinga das bicas, que escorre dos canos

De esgoto da casa de um trabalhador

Que ostenta as mazelas sem qualquer pudor,

Que geme de dor, que desmente os enganos...
*

 

No mundo dos versos dos homens reais

Se sonhos encontro, procuro bem mais

Do que fantasias com asas douradas
*

 

E se por achá-lo todos vós me achais

Inconveniente ou rebelde demais,

Replico,"hoje há vagas"; portas arrombadas!
*

 

Mª João Brito de Sousa

03.02.2022 - 15.45h
***

2.
*

"Replico "hoje há vagas", portas arrombadas!"

Eterno retorno: as salas vazias,

Paredes sem cor, janelas fechadas,

Imenso silêncio com palavras frias...
*


Procuro pelos cantos. Onde estão as fadas?

Ou apenas há monstros para nos inspirar?

Encontro-te a ti, cantando baladas

Que me fazem rir, depois de chorar.
*


Quero arrebatar-me da tua loucura

que atravessa o céu nesta noite escura

onde o chamamento é apenas som.
*


Se somos diferentes na mesma leitura,

Se tanto ganhamos na sorte mais escura,

A vida é um sonho mas um sonho bom!
*


Laurinda Rodrigues
***

3
*

"A vida é um sonho mas um sonho bom",

Quando se acredita, quando cá no fundo

Sabemos ter dedos pra moldar o mundo

E a vontade imensa de mudar-lhe o tom
*


Que asas têm penas, não só de "crepon"

Os meus versos cubro quando del`s me inundo;

Por vezes recuso, lanço um NÃO rotundo

Aos que me acenderem luzes de Néon
*

 

Quando um outro fogo me aquece as entranhas

E Simon dedica versos às montanhas

Enquanto Garfunkel faz vibrar as notas... *
*

 

Quem escuta o silêncio dos que não se atrevem

A afrontar os grandes que tudo lhes devem?

Sorrirão as fadas aos das roupas rotas?
*

 

Mª João Brito de Sousa

03.02.2022 - 18.25h
*

* The Sound of Silence - Paul Simon/Art Garfunkel
***

4.
*

"Sorrirão as fadas aos das roupas rotas"?

Por dentro de tudo, que estranha visão:

Crateras na carne como Aljubarrotas

Ou regresso, em sonho, D. Sebastião?
*


Me agarro às amarras que têm as frotas.

Navego sem norte. Regresso ao porão.

Aqui não te encontro nem sequer me notas

É o tal silêncio. Maga escuridão.
*


Quem quiser saber o mistério denso

Que se avulta em mim quando te pertenço

Envolta nas sombras de um gesto parado...
*


Pergunte aos desenhos escritos no lenço

Que vou oferecer-te e julgo que venço

Essa solidão que me evoca Fado.
*


Laurinda Rodrigues

***

5
*

"Essa solidão que me evoca Fado"

Mas Fado não sendo, pode ser trincheira

Onde habita a Musa minha companheira

E nela a encontro (se acaso lhe agrado)
*


Pois é caprichosa, há que ter cuidado!

Se vem de bom grado, toma a dianteira,

Escreve tão depressa que "vai de carreira"

C´o pouco que apenas tinha começado...
*


Ela é sempre jovem, nunca teve idade,

E eu vou tropeçando na velocidade

Que ela impõe aos versos de que mais gostar
*

 

Nem Aljubarrota nem Sebastião

Podem ser mais fortes do que as musas são

Quando se decidem a poetizar...
*

 

Mª João Brito de Sousa

03.02.2022 - 20.08h
***

6.
*

"Quando se decidem a poetisar",

Humanos caminham com outros p'la mão

Que, ao ser conscientes, fazem recordar

Como o sonho é vago e vaga a razão.
*


No espelho da alma retratam a mão

Com linhas dispersas, que dão p'ra pensar,

Sobre este destino que é o nosso chão

Onde, sem escolher, temos de pisar.
*


Cobertos de medo, preparam a fuga.

De olhos abertos (que o saber enxuga)

vão a caminhar para o fim da existência...
*


Conhecem a voz de longe, que os suga,

Mas o som dos versos, que o vento madruga,

Será, certamente, a sua referência.
*


Laurinda Rodrigues
***

7
*

"Será, certamente, a sua referência"

Tal como o será a vida que acolheram

E os passos que somam aos passos que deram,

Desde que esses passos marquem a cadência
*


Porque aos passos dados soma-se a consciência

Do que vão perder e do que já perderam

E ganharam força (toda a que puderam)

Nos sons que se esmeram nessa mesma urgência...
*


Se é velho, o guerreiro que andar não consegue,

Não será por isso que os passos renegue,

De outra forma avança pela mesma estrada
*


E vai-se esquecendo da dor que o persegue;

Se a velhice pesa, que a Musa a carregue,

Que ela bem mais pode não podendo nada.
*

 

Mª João Brito de Sousa

04.02.2022 - 11.15h
***

8
*

"Que ela bem mais pode não podendo nada"

Um nada que encobre o Todo da vida

Presa nos seus dedos na palma fechada

Que, em tempos de guerra, serve de guarida.
*


Nessa luta inglória onde já foi ferida

mas sempre cantou a sombra, encarnada

De palavras doces mas sempre temida

Por quem não conhece pr'além da fachada...
*


Retornemos ora, na luz e na paz!

Porque toda a idade mostra que é capaz

De tecer a arte e criar do Nada.
*


E, em palcos humanos, em gesto tenaz,

Aceita o que é e não é capaz

Canta a despedida, cantando balada.
*


Laurinda Rodrigues
*

9
*

"Canta a despedida, cantando balada"

E sempre seguro, dando o seu melhor,

Quer, enquanto vivo, ver que dão valor

Ao que é construído na sua empreitada
*


E do pão cozido naquela fornada

Nascerão poemas com melhor sabor,

Que um travo de raiva traz outro de amor,

Fatia a fatia, dentada a dentada
*

 

E se o gás é caro, se o arroz escasseia,

Se o feijão não cabe onde o poema ateia

Chamas tão fugazes que se desvanecem,
*

 

Prefiro a modesta chama da candeia

Que, sendo real, toda me incendeia

Sempre que a aproximo dos fios que me tecem.
*

 

Mª João Brito de Sousa

04.02.2022 - 13.50h

***

10.
*

"Sempre que a aproximo dos fios que me tecem",

Deixo que essa vela me encha de calor...

E as almas alheias, nesse gesto, aquecem

Relaxando o corpo à espera do amor.
*


P'ra que tantos choros agora acontecem?

Não querem esperar que se acabe a dor?

Não sabes que a mente nossos erros tecem

Parecendo que são versos de amador?
*


Posso dar-te pão, cozido na aldeia

Onde há forno aceso, ao ser lua cheia

e os lobos pressentem o cheiro a comer...
*


Assim conjugadas em voz, numa teia,

Esperamos que alguém nos ouça ou nos leia,

Nos faça sentir, pensar ou viver.
*

Laurinda Rodrigues
***

11
*

"Nos faça sentir, pensar ou viver"

Quem nada sentindo em viver pensasse

E em ventos de proa que a barca enfrentasse,

Pudesse algum sonho tomar forma e ser
*


Já desmaia o dia num entardecer

Sem ter de aguardar por pintor que o pintasse

E o Sol que esmorece fica num impasse

Que a noite depressa virá resolver...
*

 

Vão cozendo os versos que amassámos juntas

Feitos de incertezas, cheios de perguntas

Que ou terão resposta, ou nunca a terão
*

 

Quando tudo pronto, será partilhado

Inteiro, um poema, bocado a bocado,

Que para poetas também isto é pão...
*

 

Mª João Brito de Sousa

04.02.2022 - 17.45h
***

12.
*

"Que para poetas também isto é pão"

Cheiroso, macio, para regalar

Os olhos, a boca e o coração

de quem nossos versos queira partilhar.
*


Depois, esvaídas com tanta paixão,

Olhamo-nos nuas sem véus a tapar

O que fez de nós um forte cordão

Que a força do tempo não pode quebrar.
*


Somos atrevidas, rebeldes, profundas

Quando assim tecemos nossos versos juntas

E, sem pretensões, abrimos caminhos...
*


Na estrada há veredas que são as perguntas

Mesmo que as respostas sejam desconjuntas

Ficamos felizes: criamos os ninhos.
*


Laurinda Rodrigues
*

13
*

"Ficamos felizes: criamos os ninhos"

Onde haverá vagas para toda a gente

Quando esse futuro se tornar presente,

Depois de um passado crivado de espinhos
*


Das mãos dos pisados, dos que estão sozinhos,

Dos muitos que lutam por algo diferente,

Nascerá um dia o que se pressente

Ser o mais humano dos nossos caminhos
*


E enquanto isto escrevo, porque mais não posso,

Vai-te preparando que o poema nosso

Veio arrombar portas que estavam fechadas...
*

 

Uma que arrombasse e que bom seria

Termos apostado nesta parceria

Que acolhe palavras rotas e suadas!
*

 

Mª João Brito de Sousa

04.02.2022 - 29.50h
***

14.
*

"Que acolhe palavras rotas e suadas"

Em vírgulas, pontos, em linhas e espaços

Onde cabem risos, choros e abraços

E a filosofia de sábias mimadas.
*


Tu teimas, insistes. Ficamos caladas.

Depois, só os gestos. Os gestos em traços

de provocações feitas de embaraços

que os outros perdoam por sermos aladas.
*


Memória do tempo liberto da vida

Agora suspensa, agora perdida

Pelos desencantos, pelos desenganos...
*


Por muito que esqueça nunca são esquecidas:

Todos são eternos, todas são queridas

"no mundo dos versos nascidos de humanos."
*


Laurinda Rodrigues
***

NOTA IMPORTANTE PARA A COMPREENSÃO DESTE LONGO TEXTO POÉTICO - O primeiro soneto desta Coroa foi inspirado no poema NÃO HÁ VAGAS, de Ferreira Gullar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Em livro

Links

O MEU SEBO LITERÁRIO - Portal CEN

OS MEUS OUTROS BLOGS

SONETÁRIO

OUTROS POETAS

AVSPE

OUTROS POETAS II

AJUDAR O FÁBIO

OUTROS POETAS III

GALERIA DE TELAS

QUINTA DO SOL

COISAS DOCES...

AO SERVIÇO DA PAZ E DA ÉTICA, PELO PLANETA

ANIMAL

PRENDINHAS

EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES

ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE POETAS

ESCULTURA

CENTRO PAROQUIAL

NOVA ÁGUIA

CENTRO SOCIAL PAROQUIAL

SABER +

CEM PALAVRAS

TEOLOGIZAR

TEATRO

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D

FÁBRICA DE HISTÓRIAS

Autores Editora

A AUTORA DESTE BLOG NÃO ACEITA, NEM ACEITARÁ NUNCA, O AO90

AO 90? Não, nem obrigada!