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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
19
Fev16

GLOSANDO FLORBELA ESPANCA (7)

Maria João Brito de Sousa

casa-do-gato1.jpg

 

LANGUIDEZ

 

 

Tardes da minha terra, doce encanto,

Tardes duma pureza d’açucenas,

Tardes de sonho, as tardes de novenas,

Tardes de Portugal, as tardes d’Anto,

 

Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!...

Horas benditas, leves como penas,

Horas de fumo e cinza, horas serenas,

Minhas horas de dor em que eu sou santo!

 

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,

Que poisam sobre duas violetas,

Asas leves cansadas de voar...

 

E a minha boca tem uns beijos mudos...

E as minhas mãos, uns pálidos veludos,

Traçam gestos de sonho pelo ar...

 

 

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

 

 

PEQUENINAS FUGAS...

 

 

"Tardes da minha terra, doce encanto",

Lembrando cães e gatos e palmeiras

Com horas coloridas por tonteiras

E fronteiras rasgadas pelo espanto...

 

"Como vos quero e amo! Tanto! Tanto!"...

Pois, mesmo que me passem mil rasteiras,

As contas me parecem brincadeiras

E, enquanto o penso, vou esquecendo o pranto...

 

"Fecho as pálpebras roxas, quase pretas";

As contas por pagar parecem tretas,

Os prazos a cumprir ficam pendentes

 

"E a minha boca tem uns beijos mudos"

Que surgem nos momentos mais agudos

Pr`a me encher de certezas... aparentes...

 

 

 

Maria João Brito de Sousa - 30.01.2016 - 13.42h

 

 

NOTA - Peço desculpa à Florbela por ter pegado neste seu magnífico soneto e o ter "transformado", segundo a minha realidade, num "rosnido marcadamente social", mas... as realidades urgentes impõem-se-me às pequeninas fugas (im)possíveis e eu nunca fui vocacionalmente suicida...

Filho da puta de mundo este que constantemente vai retirando, a muitos de nós, toda e qualquer possibilidade de sobrevivência, mesmo quando ela resiste "no fio-da-navalha" e muito, muito além dos seus humanos limites... (Eu)

 

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