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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
14
Mar16

GLOSANDO FLORBELA ESPANCA (19)

Maria João Brito de Sousa

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O MEU MAL

 

Eu tenho lido em mim, sei-me de cor,

Eu sei o nome ao meu estranho mal:

Eu sei que fui a renda de um vitral,

Que fui cipreste e caravela e dor!

 

Fui tudo que no mundo há de maior;

Fui cisne e lírio e águia e catedral!

E fui, talvez, um verso de Nerval,

Ou um cínico riso de Chamfort...



Fui a heráldica flor de agrestes cardos,

Deram as minhas mãos aroma aos nardos...

Deu cor ao eloendro a minha boca...



Ah! De Boabdil fui lágrima na Espanha!

E foi de lá que eu trouxe esta ânsia estranha!

Mágoa de não sei quê! Saudade louca!



Florbela Espanca, in "Livro de Soror Saudade"



MEU BEM, MEU MAL...



"Eu tenho lido em mim, sei-me de cor"

E a cada verso mais me vou sabendo,

Como se sabe a flor do aloendro

Que desconhece ter-se aberto em flor.



"Fui tudo o que no mundo há de maior;"

Um átomo do espaço a que me prendo,

Cada espasmo do orgasmo a que me rendo

E o sofrimento em que me deixa a dor.



"Fui heráldica flor de agrestes cardos",

Fiz minha a devoção de antigos bardos

Mordendo a própria boca amordaçada.



"(Ah!) De Boabdil fui lágrima na Espanha!"

Se o gesto desfalece e se me entranha

A decepção de nem ter escrito dito nada.





Maria João Brito de Sousa - 11.12.2016 - 14.05h

 

 

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