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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
03
Mar16

GLOSANDO FLORBELA ESPANCA (15)

Maria João Brito de Sousa

Vermelho.jpg

 

HORAS RUBRAS



Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Oiço olaias em flor às gargalhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve e branca e mist'riosa...
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"



HORAS RUBRAS



"Horas profundas, lentas e caladas",

Feitas de espanto e reflexões prementes

Que se vão desvendando, transparentes,

Porque sempre se insurgem, revoltadas...



"Oiço olaias em flor às gargalhadas"

E só vejo, afinal, rangendo os dentes,

Pessoas que contemplam, impotentes,

As próprias mãos vazias e cansadas...



"Os meus lábios são brancos como lagos"

Emitindo uns protestos neutros, vagos,

Contra outra mão, burguesa e esmagadora;



"Sou chama e neve e branca e mist'riosa",

Mas mesmo sendo eu fraca, é vigorosa

A rubra força que em mim cresce agora!



Maria João Brito de Sousa - 04.02.2016 - 12.35h





 

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