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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
04
Dez16

GLOSANDO FERNANDO PESSOA III

Maria João Brito de Sousa

Narciso - Caravaggio.jpeg

 

 

QUALQUER COISA DE OBSCURO PERMANECE



Qualquer coisa de obscuro permanece
No centro do meu ser. Se me conheço,
É até onde, por fim mal, tropeço
No que de mim em mim de si se esquece.

Aranha absurda que uma teia tece
Feita de solidão e de começo
Fruste, meu ser anónimo confesso
Próprio e em mim mesmo a externa treva desce.

Mas, vinda dos vestígios da distância
Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente
Sob ele, um rasgo de saudade ou ânsia.

Remiu-se o pecador impenitente
À sombra e cisma. Teve a eterna infância,
Em que comigo forma um mesmo ente.

 

 

Fernando Pessoa



(In, pensador.uol.com.bras)



CONTRASTE

(Chiaroscuro)



"Qualquer coisa de obscuro permanece"

Na sombra de uma luz, quando se acende

O brilho da luzerna que pretende

Iluminar alguém que a não conhece;



"Aranha absurda que uma teia tece",

Que fia cada fio que em manto estende,

Porquanto desse manto ela depende

E tão só pelo manto permanece,



"Mas, vinda dos vestígios da distância",

Como um resto de cinza incandescente

- qualquer restinho é sombra de importância... -,



"Remiu-se o pecador impenitente"

Dessa louca obsessão feita inconstância,

Mas permanece a sombra, omnipresente.





Maria João Brito de Sousa -04.12.2016 - 14.30h



Imagem - "Narciso" - Caravaggio

 

   

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