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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
05
Dez23

FOLHAS - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Maria João Brito de Sousa

MR no almoço HP 2023.jpg

FOLHAS - Coroa de Sonetos

Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

1.
*
Ainda há folhas verdes e amarelas

Nos ramos do carvalho ao alto erguido

Resistem ao inverno aparecido

As verdes são mais fortes do que aquelas
*


Que caem mais depressa, como estrelas

Cadentes, num adeus enternecido

Depois rolam no chão humedecido

Vemo-las mais de perto e são tão belas!
*

As verdes ficam presas lá no ar

Suspensas como aves pelos céus

Mas sem sair do ramo nem voar
*


Do chão não vemos nós os olhos seus

Senão talvez se vissem a chorar

Pelas irmãs que vão sem um adeus
*
Custódio Montes
3.12.2023
***

2.
*
"Pelas irmãs que vão sem um adeus"

Não chorarão as folhas que, ficando,

Ignoram que a seguir estarão voando

Em loucos remoinhos pelos céus
*


Pra formarem, depois, pequenos véus

Sobre o chão, sob os pés que as vão pisando...

Soltam-se agora algumas como um bando

E uma lágrima cai dos olhos meus
*


Tombam as folhas velhas e cansadas,

Mas dentro em breve as novas brotarão

E da nudez das árvores geladas
*


Nascerão folhas verdes em botão...

Falham-me agora as rimas, desoladas,

E espalham-se-me inúteis sobre o chão.
*


Mª João Brito de Sousa

03.12.2023 - 15.25h
***

3.
*
“E espalham-se-me inúteis sobre o chão”

Mas mesmo assim encontra-se beleza

Ao ver as mutações da natureza

Conforme vai mudando a estação
*

E basta olhar e ver com atenção

Que cada folha tem a singeleza

De ter a vida curta e a certeza

De cair como as outras cairão
*


Pois tudo tem um fim, é passageiro

Cada coisa tem seu acontecer

Umas vão-se depois outras primeiro
*

E cada dia isso é bom de ver.

Mas o belo ao se olhar prazenteiro

Como a folha ao nos dar tanto prazer
*

Custódio Montes
3.12.2023
***

4.
*

"Como a folha ao nos dar tanto prazer"

Assim são as pequenas alegrias,

Esses raios de sol que às manhãs frias

Vêm iluminar e aquecer
*


Tudo tem prazo, doa a quem doer,

E há sempre um fim prás nossas energias

Mas enquanto vivemos somos vias

Pra tudo o qu`inda está pr`acontecer
*


Passageiros, é certo, mas humanos

E cada um de nós com seu talento,

Vamo-lo propagando ao longo de anos
*


Clamamos a atenção do desatento

E mesmo sendo já velhos decanos

Poetamos em rajadas como o vento!
*


Mª João Brito de Sousa

03.12.2023 - 17.15h
***
5.
*

“Poetamos em rajadas como o vento”

Que soa nas quebradas dos outeiros

Como os anunciantes pioneiros

Com voz sonora e cheia de talento
*

A boa nova chega de momento

Com badalados tons sempre certeiros

Bem ao alto espalhadas por sineiros

Audíveis e agradáveis a contento
*


O tema é a folha que caiu

E deixou no carvalho a sua irmã

Depois de ao chão cair ela fugiu
*


E deixou de se ver pela manhã

Bem triste, a sua irmã jamais a viu

E aqui se canta a fuga com afã
*


Custódio Montes
3.12.2023
***

6.
*

"E aqui se canta a fuga com afã"

Fechando o ciclo da renovação

Para que as folhas mortas pelo chão

Dêem lugar às folhas de amanhã
*


Se a vida é curta, que não seja vã,

Que nenhum verso nosso nasça em vão

E que o Soneto, escrito com paixão,

Seja tão tentador quanto a maçã...
*


Sei que o tema é a folha, nunca o fruto,

Mas ambos nascerão do mesmo galho

E de uma mesma mãe serão produto
*


Enquanto se desnuda o seu carvalho,

Eu luto pra vencer um duro luto

E às vezes - tantas vezes... - sei que falho.
*


Mª João Brito de Sousa

03.12.2023 - 21.00h
***

7.
*
“E às vezes - tantas vezes - sei que falho”

Mas falhar é humano notem bem

Aposto, todos falham e ninguém

Dirá que nunca fez esse trabalho
*


Cada um pendurado no seu galho

Deixará ver esse erro que se tem

Falhando como os mais ele também

Nem que seja tão só mesmo um migalho
*

Desviei-me do assunto nestes versos

Porque o tema é a folha e o seu cair

Não outros diferentes ou diversos
*


Ver a folha no ramo a ir e vir

E depois por motivos mui adversos

Vê-la solta a voar e a fugir
*


Custódio Montes
4.12.2023
***

8.
*

"Vê-la solta a voar e a fugir"

Foi o que motivou esta ousadia

De fazer algo no qual nem eu cria

Que pudesse avançar e concluir...
*


Dança a folha ao descer e ao subir

Ao sabor da gelada ventania

E eu, que mal me mexo, gostaria

De ser folha tão só pra não sentir
*


Ou pr`aceitar a dor naturalmente

Sem que essa dor me fira como agora...

Dançar ao vento e ser uma semente
*


Em vez disto que sou, que sofre e chora,

Por um amigo que, de tão doente,

Nem sonha que o que sou por ele implora.
*

 

Mª João Brito de Sousa

04.12.2023 - 00.50h
***


9.
*

“Nem sonha que o que sou por ele implora”

Como manda a justiça e a gratidão

Porque era para mim como um irmão

E sinto-o a sofrer e a ir-se embora
*


Por isso também sofro hora a hora

Com a minha fraqueza e condição

E a angústia que me vai no coração

Com esperança a ver se ele melhora
*


É triste ver partir quem nós amamos

Mas a vida é amar e é sofrer

E nessa condição todos estamos
*

Sentimo-nos em baixo a padecer

Mas a alegria vem quando lembramos

Momentos que tivemos de prazer
*

Custódio Montes
4.12.2023
***

10.
*

"Momentos que tivemos de prazer",

El`cheio de saúde e eu doente

Mas, por ele amparada, sorridente

Que tanto então julgava assim poder...
*


Agora partirá sem eu o ver...

Há tanto tempo que se encontra ausente,

Que eu julgo ser a folha inda pendente

Que à folha em queda quer tentar reter
*


Faz frio lá fora e dentro do meu peito

Não sei se há sangue ou seiva ou só tristeza...

Espero por ele ou simplesmente aceito
*


Que caia a folha que julguei bem presa?

O meu pequeno mundo era perfeito

E hoje nem de existir tenho a certeza...
*

 

Mª João Brito de Sousa

04.12.2023 - 13.50h
***

11.
*
“E hoje nem de existir tenho a certeza”

Mas existe-se sempre enquanto há vida

E deixam-se os tormentos à deriva

Esquecem-se ao olharmos a beleza
*


E nesse olhar e ver com singeleza

Tomamos a cautela que é devida

Pomos a poesia ao alto erguida

E construímos nela a fortaleza
*


E firmes sempre em frente a caminhar

Com bela e poética passada

E flores lado a lado a enfeitar
*

A vida tem beleza assim pensada

E sempre a andar risonhos e a cantar

Sem esses condimentos não é nada
*


Custódio Montes
4.12.2023
***

12.
*

"Sem esses condimentos não é nada",

Nem se honra a bela folha que caiu:

Escrevamos mesmo presos por um fio

Ao mais pequeno galho da ramada
*


E se a partida dói qual espadeirada

Ou nos sentimos quase em desvario,

Honremos esse irmão que hoje partiu

Com uma c`roa que há-de ser lembrada
*


Como a folha mais verde e mais pujante

De um carvalho por mim imaginado

Numa terra de sonho, algo distante,
*


Que o vento quis levar no seu bailado

Para a deixar tombar mais adiante

Num gesto sem sentido e não pensado...
*

 

Mª João Brito de Sousa

04.12.2023 - 22.30h
***

13.
*

“Num gesto sem sentido e não pensado…”

A folha foi levada e lá caiu

O vento tresloucado soprou frio

Sempre, sempre mais forte e mais gelado
*


O sol ia caindo e já deitado

Fez aumentar o vento e o calafrio

Que cada vez mais fraco e doentio

Enregelou à volta o chão molhado
*


Tremia já a folha e o vento norte

Aumentou sua força e a ventania

Ingente e enovelada, bem mais forte
*

Fez com que a folha, muito fraca e fria,

Voasse ao deus-dará e já sem sorte

Ninguém a visse mais ao vir o dia
*


Custódio Montes
5.12.2023
***

14.
*

"Ninguém a visse mais ao vir o dia"

Mas embora ninguém pudesse vê-la,

Persiste no meu peito, é verde, é bela,

Sorri ainda e ainda me alumia
*


Que, às vezes, a amizade, por magia,

Transforma a folha morta numa estrela

E nunca, nunca mais se esquece dela,

Por mais forte que sopre a ventania...
*

 

No Outono da vida, o vento colhe

As folhas secas, mas não colhe aquelas

Que nosso coração protege e escolhe
*


Quando a amizade as transmutar em estrelas,

Gritaremos à dor que hoje nos tolhe:

-"Ainda há folhas verdes e amarelas"!
*


Mª João Brito de Sousa

05.12.2023 -11.20h
***

Ao Manuel Rui do Canto Dias Duarte Ferreira

29.05. 1961- 04.12.2023
*

Reservados os direitos autorais
***

 

 

 

 

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