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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
18
Abr21

ESTA VELHA MENINA - Coroa de Sonetos - Maria João Brito de Sousa e Jay Wallace Mota

Maria João Brito de Sousa

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ESTA VELHA MENINA

*

(Desgaste)
*


Coroa de Sonetos
*

Maria João Brito de Sousa e Jay Wallace Mota


*

1.
*

Esta menina, velha quanto baste,

Exibe uma grisalha cabeleira

E muito embora brinque, inda faceira,

Já dos anos acusa um bom desgaste.
*


Sorriu quando menina lhe chamaste,

Mas já percorre a rampa derradeira

Que a reconduz à última fronteira

E se aproxima, por mais que ela a afaste.
*


Menina que o não é mas já o foi

E que já deve um tempo à sepultura,

Sabe bem quanto custa e quanto dói
*


Contrariar um mal que não tem cura

E a chaga que desgasta e que corrói

O fio/pavio da chama que a segura.
*

 


Maria João Brito de Sousa - 12.04.2021 - 16.24h
*

Ao Gil

***
2.
*

O fio/pavio da chama que a segura
Já desafia a própria medicina!
E a morte, que já torce pela cura,
Parou pra ouvir os versos da menina!
*
E vê-se que a trevosa criatura
Se curva mais e mais a cada rima,
Mas logo então corrige tal postura,
Num gesto de respeito a uma obra prima!
*
E de repente tomba de joelhos,
Abre seus olhos frios e sem celhos,
Voltando o negro rosto para cima!
*
E num murmúrio, rouco e gutural,
A morte, numa prece surreal,
Suplica pela vida da menina!
*

Belém, 13 de abril de 2021.
Jay Wallace Mota.
***

3.
*

"Suplica pela vida da menina(!)"

Aquela a quem cabia terminá-la

Pois, vendo que a menina se não cala,

Quer aprender as coisas que ela ensina.
*


A Morte que, sem culpa, é assassina,

Ao lado da menina então se instala

E, sendo surda e muda, agora fala

Na voz de cada verso que germina!
*


Mal se sinta, a menina, mais cansada,

Coberta de mazelas e dorida,

Logo virá a Morte transmutada
*


Em curandeira, prolongar-lhe a vida;

"Vá, escreve um pouco mais! Como me agrada

Saber-te por mim mesma protegida!"
*

 


Maria João Brito de Sousa - 13.04.2021 - 15.36h
***

4.
*

 

“Saber-te por mim mesma protegida!”

Exclama a própria Morte seu dilema!

Assim, entre matar ou dar a vida,

Lisonjeada, optou por um poema!
*

 

Sabendo que abrir mão da própria lida

Encerra sua escolha mais extrema,

Porém estava mesmo convencida

Que a tal postergação valia a pena!
*

 

Assim, ora enfermeira, ora aprendiz,

A Morte, a cada verso, mais feliz,

Concede, por mais tempo, um novo aval,
*

E assim, fazendo versos à cada hora,

A poetisa dribla a Morte agora

E a poesia ganha uma imortal!
*

 

Jay Wallace Mota.

Belém, 13/04/2021, às 15:12h.
***

5.
*

"E a poesia ganha uma imortal"

Que apenas o será enquanto viva...

Mas, sim, parece a Morte estar cativa

Dos sonetos que eu escreva, bem ou mal,
*


E, agora, não a tenho por rival

Que se tornou, a Morte, criativa;

Viu-se, talvez, sob uma perspectiva

Que lhe não era nada habitual...
*


Eu, como Xerazade, vou criando,

Soneto após soneto, sem parar,

E, por cada soneto, conquistando
*


Direito a mais um dia sem expirar;

Não posso é garantir-vos até quando

Vou conseguir a Morte fascinar...
*

 


Maria João Brito de Sousa - 13.04.2021 - 20.0
***

6.
*

 

“Vou conseguir a Morte fascinar!”

Arguis, com a modéstia costumeira,

Pois ante o teu talento singular,

Subestimas o gosto da parceira!
*

 

Que já mostrou saber apreciar

Os teus poemas, duma tal maneira,

A ponto de por eles adiar

Tua morte, fazendo-se videira!
*

 

Mas se acaso o cansaço te vencer,

Antes que a Morte possa perceber,

E pense, finalmente, em te ceifar,
*


Propõe, com um dos teus fechos perfeitos,

Fazer uma coroa de sonetos

E a Morte nunca mais vai te matar!

 

Jay Wallace Mota.

 

Belém, 13 de abril de 2021, às 17:55h.
***

7.
*
"E a Morte nunca mais te vai matar(!)",

Dizes-me tu que estás bem longe dela,

Mas eu, que a sei de cor, que estou com ela

Plasmada nalgum céu por inventar,
*


Não sei que mais fazer para a acalmar...

Sou a pálida chama de uma vela

E nem o brilho imenso de uma estrela

Conseguiria a Morte iluminar!
*


Não desisto, porém! Se sou poeta

Aquilo que me move é muito forte

E mendigar-lhe tempo é coisa infecta!
*


Muito diversa é esta minha sorte

Que em espanto e rebeldia se completa;

Escrevo prá Vida, desafio a Morte!
*


Maria João Brito de Sousa - 14.04.2021 - 11.00h

8.
*

“Escrevo pra Vida, desafio a Morte!”
Se o desafio vão te agrada, insiste!
Tens munição pra luta de tal porte...
Quando de alguma briga desististe?

*

Mas quando te faltar algum suporte,
Só peço não te deixes ficar triste;
Não há o que temer por tua sorte!
Pois, afinal, a Morte nem existe!

*

E mesmo conhecendo tuas infensas
A tudo que pra ti pareçam crenças,
Existe uma verdade definida,

*

Que reina independente do que pensas
E ainda que dela nunca te convenças,
Poeta, existe vida além da vida!
*

 

Jay Wallace Mota.

Mosqueiro, 14 de abril de 2021, às 15:40h.
*

9.
*

"Poeta, existe vida além da vida(!)"

E, de feliz por ti, vou-te dizer

Que é essa a vida que estou a viver

Enquanto a morte aguarda, distraída,
*


Que eu vá abrir-lhe a porta de saída;

Falta-me tempo para a receber

E tenho tantos versos pra escrever

Antes da hora incerta da partida...
*


A vida além da vida é uma só

E é por isso que tento prolongá-la

Enquanto me não vou desfeita em pó
*


Juntar-me a essa morte que me cala;

A morte é neutra e nunca terá dó

De quem, com versos, tente enfeitiçá-la...
*


Maria João Brito de Sousa - 15.04.2021 - 10.30h

***

10.
*

 

“De quem, com versos, tente enfeitiçá-la,”
No intento de enganar quem te intimida!
Mas acho um desperdício fazer sala
A uma figura tão controvertida...
*

Melhor fazer teus versos sem dar pala,
De maneira a passar despercebida,
Mostrando que a megera não te abala,
Ainda que vivas mesmo uma só vida!
*

Justo porque crês nisso, realmente,
E eu tendo este soneto tão somente,
Não posso me perder em teoria...
*

Pra mim, já és eterna, entre outras divas,
Entretanto, é preciso que tu vivas,
Pois viva dás mais vida à poesia!
*


Jay Wallace Mota.

Mosqueiro, 15/04/2021, às 15:30h.
***

11.
*

"Pois viva dás mais vida à poesia(!)"

E respondo, a sorrir, que bem o sei,

Que faço por viver e viverei

Até sentir-me de versos vazia
*


Assim me faça a Vida a cortesia

De conceder-me os versos que sonhei

E toda em versos me transformarei

Até um dia, amigo, até um dia...
*

Ah, sim, respiro ainda, ainda sonho

Com um mundo mais justo e mais fraterno,

Mais verde, mais sereno e mais risonho
*

Porque este que hoje encaro é puro inferno;

Desigual, violento e tão bisonho

Que mais parece um monstro em desgoverno.
*


Maria João Brito de Sousa - 15.04.2021 - 20.21h
***

12.
*

 

“Que mais parece um monstro em desgoverno.”

Com o homem e o ambiente em agonia,

Há muito que o planeta sofre, enfermo,

Vítima da mais burra vilania!
*

 

Porquanto, é preciso por um termo

A tudo que nos traz desarmonia,

Antes que o mundo vire um lugar ermo,

Levando a Morte, enfim, a epifania...


*

 

E contra forças tão coercitivas,

Mais uma vez importa que tu vivas!

Pois, do pouco que resta de ilusões,
*

Se não dá pra contar com governantes,

Quem sabe são teus versos instigantes

Que vão mobilizar os corações!
*

 

Jay Wallace Mota

Belém, 15/04/2021, às 21:35 h.

***

13.
*

"Que vão mobilizar os corações"...

E talvez isso venha a acontecer,

Pois também eu passei a vida a ler

Para consolidar-me em convicções
*


Enquanto equilibrava as frustrações

Pra melhor conjugar o verbo ser...

Bem sei que um dia terei de morrer,

Mas vivo ainda... e versos são paixões!
*

Que venha a morte quando o entender;

Estou pronta a recebê-la com canções

Que talvez a consigam convencer
*


A ponderar as suas decisões;

É isso mesmo o que eu irei fazer

Pois, pra viver, sobejam-me razões!
*


Maria João Brito de Sousa - 16.04.2021 - 10.37h
***

14.
*

 

“Pois, pra viver, sobejam-me razões!

O que sobressai claro em teus poemas;

Mesmo quando tu fazes alusões

A dores, a mazelas ou problemas!
*

 

Nasceste pra grafar inspirações,

Teus versos dão mais vida a quaisquer cenas

E tocam as mais frias atenções,

Mesmo quando alma e Morte são pequenas
*

 

Para ti o verbo ser tem só presente
E como uma menina irreverente
Vais entreter a Morte, com tal arte,
*

Que pra a ela, por teu gosto de viver,
Nada mais restará, senão fazer,
Esta menina, velha quanto baste!
*

 

Jay Wallace Mota.

Belém, 16/04/2021, às 12:52h.
***

 

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