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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
12
Nov21

DE VIGIA - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Maria João Brito de Sousa

de vigia.jpeg

Imagem retirada daqui

 

DE VIGIA
*
Coroa de Sonetos
*
Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
***

1.
*

Naquele fim de tarde olhei teu rosto

As mãos nas tuas mãos o peito a arfar

Pulava o coração e teu olhar

Brilhava como brilha o sol de agosto
*


Enorme o nosso amor, origem mosto

De uvas que pisadas no lagar

Deitavam uma seiva que ao brotar

Que bem sabia ! Lembro ainda o gosto
*

Ao longe vai o barco que te leva

E para que essa seiva ainda beba

Eu tento apanhá-lo onda a onda
*


E vai-se pondo o sol e acaba o dia

Que venha a noite, fico de vigia

Enquanto ali à volta o barco ronda
*

Custódio Montes
10.11.2021

***
2.
*


"Enquanto ali à volta o barco ronda"

A ilusão de um rasto de sereia,

Sobe o gajeiro ao mastro e avista areia

Por trás da branca espuma além da onda
*


Grita então: Terra à vista!, enquanto sonda

O ansiado horizonte de uma ideia,

Porque areia não há, nem terra alheia,

Tão só vira a sereia em sua monda
*


Colhendo o vivo visco dos sargaços

Que sorrindo aconchega nos seus braços

Como se filhos dela e do seu mar...
*


E na gávea, de pé, fica o gajeiro,

Hora após hora, o dia todo inteiro,

Vigiando o que julga vislumbrar...
*


Mª João Brito de Sousa

11.11.2021

***

3.
*

“Vigiando o que julga vislumbrar”

Sem olhar para a praia onde estou

Meu grito de amor alto soou

E ele distraído sem olhar
*


Eu vou fazer sinal para avisar

Da minha ansiedade. Espera vou

Por aqui esperar….ah já olhou

E vê-me claramente a acenar
*

Mas não sabe o motivo, a razão

Da mágoa que me invade o coração

E vai e torna a vir sempre ao redor
*

Gajeiro, olha ao longe, olha outra vez

Sou eu, apaixonado, não me vês ?

Atraca o barco e traz-me o meu amor
*

Custódio Montes

11.11.2021


***

4.
*

"Atraca o barco e traz-me o meu amor",

Pede a sereia com voz sedutora

E logo o bom gajeiro se enamora

Duma canção que o mar lhe quis compor
*


Desce da gávea e ao leme se vai pôr

Pra, depois, dar aos remos que a demora

Muda cada segundo numa hora,

E a cada hora cresce o tal clamor
*


Vindo do grande atol onde a sereia,

Serena e branca à luz da lua cheia,

Canta para o sargaço adormecido...
*


Vai, humano gajeiro, ter com ela,

Mas tem muito cuidado, que ela é bela,

Mas se te lança às ondas `stás perdido!
*


Mª João Brito de Sousa

11.11.2021 - 16.25h

***

5.
*

“Mas se te lança às ondas `stás perdido”

Que importa se eu andar nos braços dela

Apenas um segundo …é tão bela

Que sinto logo o amor correspondido
*

E eu não sou gajeiro já vencido

E sei bem manobrar a caravela

Afago a sereia e junto a ela

Navego rumo à praia dirigido
*

Então bem vejo ao longe aquela ânsia

Do pobre apaixonado que à distância

Anseia por rever sua paixão
*

Em frente caravela a navegar

Sereia não me venhas afundar

Para salvar aquele coração!
*

Custódio Montes

10.11.2021
***

6.
*

"Para salvar aquele coração"

Que me importa arriscar a própria vida?

- Naufragarás!, responde decidida

A voz que antes cantava uma canção.
*


Mas o gajeiro, surdo de paixão,

Não escuta essa ameaça mal contida

E ouve ainda a canção que fora ouvida

Antes de ser lançada a maldição...
*


Já se aproxima a barca do atol,

Já o dia rompeu, já brilha o sol

Sobre o vulto da ninfa dos sargaços
*


E o pobre do gajeiro enfeitiçado

Saltando borda fora faz a nado

Os metros que o separam dos seus braços.
*


Mª João Brito de Sousa

10.11.2021 - 20.00h
***

7.
*

“Os metros que o separam dos seus braços”

Gajeiro não vás, pára, volta atrás

Tu podes, anda lá, tu és capaz

Se fores vais passar por embaraços
*


E também vais quebrar os fortes laços

Que me interligam já desde rapaz

Ao grande amor que o barco dentro traz

E para o ter passei grandes cansaços
*


Não deixes esse barco à deriva

Deixa lá a sereia apelativa

E foge dela foge ao seu enredo
*


E regressa ao comando do navio

Vira-te para trás em rodopio

Protege o meu amor tão belo e ledo
*

Custódio Montes

10.11.2021

*
8.
*

"Protege o meu amor tão belo e ledo"

Da Barca lhe suplica a sua amada

Que chora e se debruça da amurada

Por seu gajeiro perdida de medo...
*


Ouve-a o gajeiro e trepa a um rochedo

Para vê-la melhor, mas não vê nada;

Ao longe, a voz da ninfa ecoa irada

Que o pobre é para ela outro brinquedo
*


E não o quer perder para a mortal

Que assim derrama um sal que é do seu sal

E tanto implora a volta do gajeiro...
*


Vem ter comigo - diz- serás um rei!

- Que sei eu, bela ninfa? Eu nada sei

Se não que amo a mulher que amei primeiro!
*


Mª João Brito de Sousa

10.11.2021 - 22.00h

***
9.
*

“Se não que amo a mulher que amei primeiro”
Tu que queres de mim, algum traidor ?
Que vai abandonar o seu amor
Para deixar de ser um timoneiro?
*

Conduzo a barca, levo-a ao roteiro
Fui eu o escolhido, o condutor
Por ter tanto empenho no labor
E queres tu que eu seja traiçoeiro?
*

Não deixo a minha barca noite e dia
Sou o seu timoneiro, o seu guia
E tenho que a levar direita ao cais
*

Vai dentro dela a prenda, a rosa, a flor
Que tem à sua espera um grande amor
E eu conduzo a barca sou arrais
*

Custódio Montes

11.11.2021
***

10.
*

"E eu conduzo a barca sou arrais",

Verás que te resisto, ó feiticeira,

E volto para a minha companheira;

Depois de ouvi-la, não me tentas mais!
*


Que seja a minha Barca eterno cais

E seja a minha amada eterna obreira

De um cais que me preencha a vida inteira

Não de beijos fictícios, mas reais...
*


Portanto, bela ninfa dos sargaços,

Renegarei teus beijos, teus abraços

E até o teu castigo ignorarei!
*


Volto prá minha humilde e velha Barca,

Prà minha amada de amor`s nada parca;

Teu brinquedo, sereia, não serei!
*


Mª João Brito de Sousa

11.11.2021 - 10.00h
***

11.
*

“Teu brinquedo, sereia, não serei”

Que o que queres, bem sei, é enganar

Simulas um amor de muito amar

Que quem tu és, sereia, bem eu sei
*


Por este mar já muito naveguei

E tenho visto coisas de pasmar

É gente nos teus braços a gritar

Que todos sabem disso, toda a grei
*


Por isso vai ao largo, onde cantas

Que vou seguir viagem, não me encantas

Bem sei o que me queres vai embora
*


Bem vejo junto à praia quem espera

Por este amor há muito e desespera

Adeus que vou levar-lho mesmo agora
*


Custódio Montes

11.11.2021
***

 

12.
*

"Adeus que vou levar-lho mesmo agora",

Te juro que jamais me impedirás

De renegar-te e de voltar pra trás,

Prós braços da mortal que por mim chora!
*


Amor assim fruído, hora após hora,

É um amor que já ninguém desfaz...

De resistir-te julgas-me incapaz,

Mas sei que nunca amaste, ó impostora!
*


Podes tentar-me tanto quanto entendas,

Podes cobrir-te de jóias e rendas

E prometer-me impérios que não quero!
*


Prá Barca em que me aguarda a minha amada,

Vou nadando, braçada após braçada,

Que um Amor verdadeiro é quanto espero!
*


Mª João Brito de Sousa

11.11.2021 - 13.35h

***

 

13.
*

“Um verdadeiro amor é quanto espero”

E vou já refrescar na fresca aragem

Ao leme que oriento na viagem

Sou eu que escolho o rumo que bem quero
*


Não sigo já, vou ser muito sincero,

Ainda vou levar ali à margem

O doce amor que espera aquele pagem

Que acena com vigor e desespero
*


Está sempre a olhar e de vigia

De noite, sem dormir dia após dia

À chuva, ao vento, ao frio, ao calor
*


O barco já lá vem em direcção

À praia e traz lá dentro o coração,

Que tive e volto a ter, do meu amor
*

Custódio Montes

11.11.2021
***

14.
*

"Que tive e volto a ter, do meu amor"

Carinhos tantos e tão verdadeiros

Que nunca esses teus olhos feiticeiros

Poderão igualar em seu fulgor
*


Rói-te de inveja, engasga-te em furor,

Invoca os teus trovões e aguaceiros,

Recorre aos grandes deuses, teus parceiros,

Que, de mim, não terás qualquer favor!
*


Adeus, ó criadora de ilusões

Que de vigia ao mar das aflições

Tão poderosa és nesse alto posto,
*


Não ficarei jamais sob o comando

Da beleza ilusória que vi quando

"Naquele fim de tarde olhei teu rosto"!
*

 


Mª João Brito de Sousa

11.11.2021 - 16.45h

***

 

 

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