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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
13
Nov20

ARTIMANHA - Coroa de Sonetos

Maria João Brito de Sousa

L`IMPORTANT C´EST LA ROSE.jpeg

ARTIMANHA
*

Coroa de Sonetos
*

Laurinda Rodrigues e Maria João Brito de Sousa
*


1
*

O mal faz-se sempre anunciar.

Às vezes, disfarçado, nem se nota.

Poeira venenosa envolve o ar

e um cheiro nauseabundo fica à solta.
*

Não há palavras, gestos ou imagens

que emudeçam, na alma, o medo insano

São sendas de pavor como paisagens

que atravessam a terra e o oceano.
*

Impõe-se a solidão. Ficarmos presos.

É essa a solução para estar ilesos

de um ataque fortuito que nos espreita...
*

Não vale a pena dizer "sim" ou "não":

tudo aquilo que se diz é sempre em vão,

se a confusão lançada é tão perfeita.
*

Laurinda Rodrigues
*

2
*

"Se a confusão lançada é tão perfeita"

Que aos mais sábios confunde e desatina,

Cremos, então, que o Mal está sempre à espreita

Atrás de cada porta, em cada esquina
*

São coisas de que a Manha se aproveita;

Bem sabemos que a Manha, essa ladina,

Se quer fazer passar por insuspeita

E aquilo que prescreve, nunca assina.
*

Mas passe a Arte a bem ou passe a mal,

Contorna os riscos e enfrenta o medo

Que a ameaça de forma desleal;
*

Abre as janelas de manhã bem cedo

Bebe do Sol a força universal,

Reduz o Mal a peças de brinquedo.

*

Maria João Brito de Sousa - 09.11.2020 - 12.29h

*

3
*

"Reduz o Mal a peças de brinquedo"

mas - cuidado! - que o sol é enganador:

faz de conta que é Pai e mete medo

quando os filhos lhe estragam o fulgor.
*

Mas, afinal, o sol é apenas estrela

entre tantas estrelas que há no céu

e, quando esta verdade se revela,

uma outra dimensão aconteceu.
*

Juntando as peças, que temos na memória,

vemos que "chefes-sóis" fizeram história

que lhes servem a eles, sem discussão...
*

E, usando o globalismo como lema,

garantem, no poder, o seu sistema,

impondo, sem destrinça, esse padrão.
*

Laurinda Rodrigues
*

4
*

"Impondo, sem destrinça, esse padrão"

Que a Maga-lua acorre a transformar;

Assim que o Sol se rende à escuridão

Impõe-lhe ela o seu manto de luar
*

E assim concede ao mundo a sedução

Que o Chefe-sol se nem lembrou de dar,

Quem sabe se por pura distracção,

Se por puro capricho de mandar...
*

Amo o Sol e concedo-lhe o perdão

(ou penso que o consigo perdoar...)

Porque me acende a imaginação,
*

Porque a todos se entrega sem cobrar,

Porque - confesso! - me enche de paixão

E porque, enfim, assumo; sou solar!
*

 

Maria João Brito de Sousa .
*

5.
*

"E porque, enfim, assumo; sou solar"

presa na rota do ciclo de estações,

mesmo, sem canto, encanto à luz lunar,

esquecendo que há, na lua, mutações.
*

Cresce a lua no céu, depois de prenhe

que o sol, na fase "nova", engravidou,

para correr o "quarto" e se despenhe

na "cheia" exibição que a culminou.
*

Podemos ser solares enquanto humanos

mas é como lunares que cultivamos

o caminho perfeito da união...
*

Nada no cosmo existe sem sentido

e é o olhar do poeta, destemido,

que faz, da lua e sol, inspiração.
*

Laurinda Rodrigues
*
6
*

"Que faz, da lua e sol, inspiração"

E que com Arte e Manha lhes dá voz

Porque Arte quer dizer rebelião

E Manha há sempre um pouco em todos nós.
*

Rebeldes, inventamos a paixão,

Manhosos, transformamos algo atroz

Num enredo ideal cuja ilusão

Nasce purpúrea da explosão de uns pós...

*

Triangulamos Terra, Sol e Lua,

Num passe de magia. A Arte, nua,

Por um momento veste os nossos mantos
*

Para, logo a seguir, mostrar-se crua;

Despindo os astros, muda-se em falua

E faz-se ao Mar, explorando outros encantos.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 10.11.2020 - 12.54h

*
7
*

"E faz-se ao Mar, explorando outros encantos"

porque, se a Arte é arte, é a expressão

seja em poesia, dança, sons ou cantos

do tempo, que traduz a mutação.
*

E a mutação prevê-se nas estrelas

no para além deste planeta terra,

mesmo que tentem colocar-nos trelas

na desculpa de que Isto é uma guerra.
*

Seremos sábios, mas sábios disfarçados

de humildes servidores desnaturados,

que aceitaram nascer para mendigar...
*

E, enquanto os Reis solares clamam razão,

os pobres servidores vão dando a mão

prosseguindo a arte e manha de os calar.
*

Laurinda Rodrigues
*

 

8
*

"Prosseguindo a arte e manha de os calar"

Sempre que as ordens se tornam brutais,

Semeamos a flor que há-de brotar

Nos prados, nos canteiros, nos quintais
*

 

Da Terra inteira, do céu ou do mar

No qual nadam os peixes e os corais

Proliferam, ainda, sem parar;

Nada, pra si, será longe demais
*

 

Porque a Arte não cuida de barreiras

E há-de passar por todas as fronteiras

Mais forte a cada palmo que conquista.
*

 

Escapar-se-á por fendas e soleiras

Mimetizando as coisas costumeiras;

Ninguém pode impedir que ela subsista!
*

 


Maria João Brito de Sousa - 11.11.2020 - 19.24h
*

9
*

"Ninguém pode impedir que ela subsista"

mesmo vendo que a arte é maltratada

e não é com protestos que resista

a tanta confusão já instalada.
*

Na solidão imposta, versejamos

criando a ilusão que vale a pena...

Mas se, por mero acaso, fraquejamos

as imagens cruéis voltam à cena.
*

Atados ao visor dos aparelhos

que são agora os nossos novos espelhos

retratando o olhar da rendição,
*

talvez ainda sobreviva o sonho

de que este pesadelo tão medonho

se transforme num sonho de paixão.
*

Laurinda Rodrigues
*

10
*

"Se transforme num sonho de paixão"

O que hoje nos parece uma utopia

E a mais que condenada aspiração

De algum idealista em distonia
*

 

E surdo, face a esta distorção,

Ou cego, face a esta pandemia...

É o sonho, contudo, evolução

E a essa nenhum vírus contraria.
*

 

Com Arte e Manha enfim se concretiza

O sonho que ninguém desenraíza

Do ser humano que em si próprio o traz
*

 

E que de quase nada se improvisa

Quando sobre si mesmo profetisa

E acerta, pois de tudo ele é capaz!
*

 


Maria João Brito de Sousa - 11.11.2020 - 22.53h

*

11
*

"E acerta, pois de tudo ele é capaz":

salta barreiras com a mente adormecida

porque, na noite, o sonho dorme em paz

diferente da vigília consentida.
*

Das trevas do profundo inconsciente

compõe lembranças do aqui e agora

e, às vezes, quando o corpo está doente

a alma criadora ri e chora.
*

A confusão, que alastra, não entrava

que faças com teu sonho a tua lavra

numa terra de fértil energia...
*

Não fiques agarrada à voz macabra!

talvez seja o silêncio que nos abra

os sonhos mais proféticos da poesia.
*

Laurinda Rodrigues
*

12
*

"Os sonhos mais proféticos da poesia"

Nascem-me assim que acordo e fico alerta;

A Manha é pouca, mas a Arte cria

A partir de uma mente bem desperta
*

Que a toda a voz macabra repudia,

Nem a ouvindo que outra é descoberta

Nos tons cantantes de uma melodia

Que sobre mundo e vida se concerta.
*

É dum sossego desassossegado,

Talvez silêncio de pronto quebrado,

Que o verso nasce e depois se compõe.
*

Mas só em força nasce se acordado;

Se dorme, nasce tão desafinado

Que nem percebe ao certo o que propõe.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 12.11.2020 - 11.35h

*

13.

"Que nem percebe ao certo o que propõe"

seguindo em linha a voz dos ditadores

que a todos nós a submissão impõe

para, depois, nos tratar como traidores.
*

Antigamente três "fs" suportavam

a perda, raiva, medo e frustração;

mas, agora, nem "fs" aguentavam

os espaços vazios da solidão.
*

Todos falam. Ninguém percebe nada.

Fazem-se regras apenas para fachada.

Mais tarde se verá quem vai mandar.
*

Pobre consolação em grande estilo!

Cantam melhor o galo, o melro, o grilo

que a gente entende, mesmo sem escutar.
*

Laurinda Rodrigues
*

14
*

"Que a gente entende, mesmo sem escutar"

Porque esses sabem sempre como e quando

E até entendem que comunicar

É bem mais que dar ordens de comando
*

Pois também será forma de exaltar

A própria vida que lhes vai pulsando

Nos pequeninos corpos, a vibrar,

Enquanto a Terra inteira vai girando
*

E eu, aqui sentada, vou glosando,

Apesar de uma mão me estar sangrando,

Os versos que me deste pra glosar.
*

Enquanto alguns de nós vão acordando,

Outros, sem Arte e Manha, vão tombando;

"O Mal faz-se sempre anunciar".
*

 

Maria João Brito de Sousa - 12.11.2020- 15.26h

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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