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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
23
Out17

GLOSANDO A POETISA MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE - LUAS...

Maria João Brito de Sousa

Le Berceau - Berthe Morisot.jpg

 

NA PENUMBRA PINTADA PELA LUA

 

 

É teu corpo um soneto que imagino

Que escrevo tantas vezes e, adormeço

No verso que o percorre peregrino

Por curvas e caminhos que conheço

 

Outros versos me levam ao destino

Quando as horas me acordam e te peço

Que completes um tal verso ladino

E dês ao meu poema recomeço

 

Na penumbra pintada pela lua

Crescem versos da rima quente e nua

Que fazem a beleza dessa escrita

 

Sem haver da manhã sequer vislumbre

Declamo cada verso com deslumbre

Quando de mim se abeiram em visita

 

 

MEA

23/10/2017

 

************

 

NUM RECANTO QUALQUER DO MEU PASSADO

 

 

“É teu corpo um soneto que imagino”

Recolhido num berço, eternizado

Pela minha memória, meu menino,

Num recanto qualquer do meu passado.

 

“Outros versos me levam ao destino”

Desse bercinho em mim cristalizado,

Mas sempre que te evoque, pequenino,

Estarás presente, embora em tempo errado;

 

“Na penumbra pintada pela lua”,

Abres porta e sais comigo à rua

Num gesto rotineiro e natural.

 

“Sem haver da manhã sequer vislumbre”,

Espero que o sono volte e me deslumbre,

Passando, em vez de sonho, a ser real...

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 23.10.2017 – 17.05h

 

 

Imagem - "Le Berceau", Berthe Morisot

 

04
Out17

GLOSANDO A POETISA MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE - Mãos

Maria João Brito de Sousa

WIN_20171003_115820.JPG

 

DEI VOZ ÀS MINHAS MÃOS



Dei voz às minhas mãos num fim de tarde

Quando o sol ao cair no azul do mar

Parece que se ateia e depois arde

Nas águas onde prendo o meu olhar

 

Vestiram gestos mansos sem alarde

E falando ao teu corpo devagar

Numa voz calma quase que cobarde

Por ele se deixaram encantar

 

Libertados que foram os seus medos

Sussurraram palavras e segredos

Bailando no silêncio da atmosfera

 

Já no horizonte o céu enegrecia

Porquanto o sol ali se despedia

Calou-se então a voz que às mãos eu dera

 

 

MEA

2/10/2017



A CAMINHO DO INEVITÁVEL FIM DE TARDE



Por muito que adiasse a voz crescente,

por muito que, hoje ainda, eu a resguarde,

a voz do sonho ousou passar-me à frente,

“Dei voz às minhas mãos num fim de tarde”



E nunca mais, de mim, tornada ausente,

que a voz das minhas mãos não mais retarde

palavras mil, que tão precocemente

“Vestiram gestos brandos sem alarde”



Livres do pseudo-sonho que os tolhia

enquanto, passo a passo, eu mal crescia,

“Libertados que foram os seus medos”,



Deixaram de iludir-se. São brinquedos,

ilusões de uma infância. Mal nascia,

“Já no horizonte o céu enegrecia”.





Maria João Brito de Sousa -04.10.2017 – 11.01h

 

14
Set17

MEMÓRIA(S) DO NÁUFRAGO-PERFEITO

Maria João Brito de Sousa

digitalizar0013.jpg

 

(Soneto em verso hendecassilábico)

 

Do vento que sopra, da proa que afunda,

Do mastro partido, do leme encravado,

De ouvir os gemidos do velho costado

Da barca que oscila, bojuda, rotunda,

 

Na crista da onda, no mar em que abunda

Escolho traiçoeiro que espreita, aguçado,

Escondido na espuma, submerso, acoitado

Em zona que a Barca julgava profunda...

 

De tudo me lembro, se bem que já esteja,

No tempo passado, submerso também

E seja esta imagem longínqua o que eu veja

 

Da Barca que afunda nos sonhos de alguém,

Apenas a sombra que passa e festeja

Não ser verdadeira, nem ser de ninguém.

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa - 11.01.2017 - 10.52h

 

 

Ao meu avô poeta, António de Sousa

11
Set17

GLOSANDO A POETISA MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE - SILÊNCIOS

Maria João Brito de Sousa

silencio.jpg

 

O SILÊNCIO FALA E GRITA

 

 

Por vezes o silêncio fala e grita

De modo tão intenso tão feroz

Que quando ele aparece e nos visita

Faz-nos  acreditar que ganha voz

 

Disfarça-se a rigor qual parasita

E expressa-se de modo tão atroz

Que entre seus brados sente-se a desdita

Cingir-nos e tomar conta de nós

 

Porém se a madrugada esparge luz

Logo o silêncio foge e se conduz

À plena fantasia dos sentidos

 

Surge então do silêncio a quietude

Que se quer nos proteja ampare e escude

Em momentos pra nós mais doloridos

 

MEA

10/09/2017



***********

EM SILÊNCIO



“Às vezes o silêncio fala e grita”

Tornando-se um tirano prepotente

Mas, noutras, surge harmónico e suscita

Uma viagem nova ao que se sente.



“Disfarça-se a rigor qual parasita”,

Ou despe-se de véus e, de repente,

Ouvimos, dessa voz que nos habita,

Aquilo que, no fundo, nos faz gente.



“Porém se a madrugada esparge luz”,

Ocorre outro silêncio; o que traduz

A esp`rança do nascer de um novo dia.



“Surge então do silêncio a quietude”

E, em silêncio, se atinge a plenitude,

Ou se morre, num espasmo de agonia...





Maria João Brito de Sousa – 11.09.2017 – 13.36h

 

05
Set17

CONVERSANDO COM JOAQUIM SUSTELO - Cabelos brancos

Maria João Brito de Sousa

Eu e Joaquim Sustelo.jpg

 

DEMÃOS DE TINTA

 

Já dei uma demão no meu cabelo 
de tinta que era branca, sem mistura
pintando devagar, com pouco zelo,
manchando a outra que era, negra, escura


Dizem "mais vale sê-lo que par'cê-lo..."
E já pareço. E sou. Alguma alvura,
atesta que há um selo no Sustelo
de algum caminho andado... de lonjura...


Darei outra demão. De forma lenta...
a ver se como esta, bem me assenta,
formando um preto e branco, algo cinzento


Ao fim de três demãos estará pintado.
Mas estarei eu por cá, ou abalado?
Será que o tempo vai... deixar-me tempo?


Joaquim Sustelo


(direitos reservados)

 

********************

 

CONVERSANDO...



O meu, que era de um negro de carvão,

Lá se foi, pouco a pouco acinzentando...

Cedo lhe deram primeira demão,

Há tanto tempo que já nem sei quando...

 

Fosse essa a minha grande frustração,

Fosse esse o tanto que me vai magoando

E eu rir-me-ia, com ou sem razão,

Das mágoas com que a dor me vai brindando.

 

Mais branco do que teu, o meu vai estando

E, a cada dia, mais se vai pintando

Dessa cor branca, a nossa geração,

 

Portanto vai sorrindo e poetando!

Pensa que o teu cabelo branqueando

É sinal de que vives, meu irmão!

 

 

Maria João Brito de Sousa – 05.09.2017 – 15.35h

 

 

 

 

23
Ago17

GLOSANDO A POETISA MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE - Poetas

Maria João Brito de Sousa

heaven.jpg

 

QUERIA SER POEMA

 

Queria ser poema, não poeta

Poema que espalhasse afecto e amor

Por todos os recantos do planeta

Onde se dita a guerra, se faz dor

 

Poema que escorresse da caneta

De qualquer presidente ou ditador

Que ao assinar metesse na gaveta

Tal decreto com fim exterminador

 

Queria ser poema no luar

Para poder à noite iluminar

Quem nada tendo dorme na calçada

 

Poema só com versos de amizade

De alegria, prazer felicidade

Lidos em cada triste madrugada

 

 

MEA

14/08/2017



UNOS, AINDA QUE SÓS



“Queria ser poema, não poeta”,

E tantas, tantas vezes o sonhei

Que acabou por ser essa a minha meta

Quando, ao último verso, enfim cheguei.



“Poema que escorresse da caneta”

Como sangue da carne em que o gerei,

Que me deixasse grávida e repleta

Do tanto que perdi quando me dei.



“Queria ser poema no luar”,

Ou verso apenas, sob a luz solar,

Mas sempre sob um sol de todos nós.



“Poema só com versos de amizade”

Que nunca nos negasse a liberdade

De sermos unos, mesmo estando sós.





Maria João Brito de Sousa – 23.08.2017 – 10.21h

 

(Imagem retirada do Google)

 

21
Ago17

GLOSANDO MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE - Barquito/Jangada

Maria João Brito de Sousa

JANGADA DE SONHOS.jpg

UM BARQUITO NO TEJO



Lá ao longe nas águas cor de prata

Onde o sol se refresca ao fim do dia

E onde o Tejo convida uma fragata

Vai um barquito, só...sem companhia

 

Vai sereno na sua passeata

Deslizando em reflexos de poesia

Sob a ponte onde a água é mais pacata

Quando a tarde é já cor de fantasia

 

Parece quedo ali ao meio do rio...

Somente o balouçar lento e macio

Denota que ele vai a navegar

 

De vela içada segue o seu destino

E ao leme leva um sonho de menino

Feito de sol de brisas e de mar

 

MEA
20/08/2017



********

JANGADA DE SONHOS



“Lá ao longe, nas águas cor de prata”,

Flutua uma jangada aventureira

Humilde, porque toda se recata,

Sem âncora, sem rumo e sem fronteira.



“Vai sereno/a na sua passeata”,

Ao sabor das marés voga ligeira;

Só nas cristas das ondas se retrata

E só no azul do céu se espelha inteira.



“Parece quedo/a, ali, ao meio do rio”,

Onde não passa mais nenhum navio;

O mar que a espera é seu, de mais ninguém!



“De vela içada segue o seu destino”

Deixando atrás de si o rasto fino

Do sonho com que ousou deixar Belém.





Maria João Brito de Sousa – 21.08.2017 – 10.44h

 

 

19
Ago17

GLOSANDO CHICO BUARQUE

Maria João Brito de Sousa

MENINA SENTADA - PORTINARI.jpg

 

SONETO



Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono?

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo?

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída?

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio?



Chico Buarque



SONETO II



Porque vieste assim, louco e sem dono,

Falar-me de mil coisas nunca ouvidas

E me afagaste com mãos decididas,

“Quando eu estava bem, morta de sono?”



Porque bateste à porta, manhã cedo,

E me ofuscaste em luz, na luz que entrava

Por essa mesma porta que eu fechava,

“Quando eu estava bem, morta de medo?”

 

Porque é que me quiseste dividida,

Se inteiro preencheste este meu rio

“E me deixaste só, com que saída?”



Porque foi que sorveste cada fio

Duma água que jamais fora bebida,

“Quando eu estava bem, morta de frio?”





Maria João Brito de Sousa – 18.08.2017 – 19.41h



(Neste segundo soneto, todos os versos que se encontram entre aspas são da autoria de Chico Buarque)

 

"Menina Sentada" - Portinari

 

26
Jul17

GLOSANDO A POETISA MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE (cinquenta e nem sei quantos...)

Maria João Brito de Sousa

Velha com gatos - google.jpg

 

COLHI CACHOS DE SOL

 

Colhi cachos de sol já à tardinha

E juntei-lhe uma fruta bem madura

Com água, gelo e gim. Fiz caipirinha

Que fui bebendo em copos de ternura

 

No olhar ficou em jeito de adivinha

O fulgor que o sol pôs nesta mistura

Senti-me ao fim da tarde uma rainha

Dourada como a mais bela escultura

 

Já a lua vestia de cambraia

Descalça entrei nas ondas duma praia

E apanhei nelas véus de renda fina

 

Cobri o rosto e andei sem rumo exacto

Pensamento vazio olhar abstracto

Nos pés descalços asas de menina

 

MEA

22/07/2017



***********

 

 

FAMILIAR(IDADES)...



“Colhi cachos de sol já à tardinha”,

Gomos de lua cheia e reluzentes

Bagos, desses que brotam duma vinha

De que outros se embebedam, desistentes...



“No olhar ficou um jeito de adivinha”;

Sabes, de saber feito, ou só pressentes,

De mim, quanto era meu? Que me mantinha

Assim, perseverante, entre indif`rentes?



“Já a lua vestia de cambraia”

Quando, no horizonte, o sol desmaia

E, fascinada, então, pelo poente,



“Cobri o rosto e andei sem rumo exacto”

Encontrando um irmão em cada gato

E, em cada cão sem dono, outro parente...





Maria João Brito de Sousa – 26.07.2017 – 11.25h

 

12
Jul17

AINDA GLOSANDO FLORBELA ESPANCA III

Maria João Brito de Sousa

medo.jpg

 

RENÚNCIA



A minha mocidade há muito pus
No tranquilo convento da tristeza;
Lá passa dias, noites, sempre presa,
Olhos fechados, magras mãos em cruz...

Lá fora, a Noite, Satanás, seduz!
Desdobra-se em requintes de Beleza...
E como um beijo ardente a Natureza...
A minha cela é como um rio de luz...

Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada!
Empalidece mais! E, resignada,
Prende os teus braços a uma cruz maior!

Gela ainda a mortalha que te encerra!
Enche a boca de cinzas e de terra
Ó minha mocidade toda em flor!

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

 

 



AFIRMAÇÃO

 

“A minha mocidade há muito pus”

No cantinho das coisas já passadas

Que guardo, dia a dia acumuladas,

Porque só a memória as reproduz...

 

“Lá fora, a noite, Satanás seduz!”

Mas eu que, renegando almas penadas,

Observo as gentes tristes e cansadas,

Deduzo cada medo que as traduz;

 

“Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada!”

- Só fecho os olhos quando, atordoada,

Possa o sono nublar-me a lucidez!

 

“Gela ainda a mortalha que te encerra!”

- E eu quero lá saber de quem me enterra,

Se morro por chegar a minha vez?!

 

 

Maria João Brito de Sousa – 12.07.2017 - 16.26h



 

 

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