.UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
Domingo, 14 de Dezembro de 2008

O CÃOZINHO QUE NASCEU COM AS PATAS BRANCAS

Era uma vez... era uma vez uma mulher que queria escrever uma história para a Fábrica de Histórias e não sabia ficcionar...

Chegara recentemente a essa conclusão e sentira-se um tanto ou quanto diminuída por isso. Era simples, a mulher, mas tinha o seu orgulhozinho e tamanha lacuna parecia-lhe estranhíssima. Tanto mais que ainda se recordava de ter ficcionado uma ou outra historieta para as filhas, em tempos que, há muito, já lá iam.

Caramba! De uma ficçãozita todos somos capazes! - Invectivou-se, como se aquilo lhe puxasse pelos cordelinhos da imaginação e pusesse a emperrada maquineta da memória a funcionar. Nada. Nem uma palavrinha para além do "Era uma vez"... só sentia.

Ah! Sentir, sentia! Sentia, nesse dia, uma particular gratidão por alguém que a ajudara a salvar a vida  -  ainda débil, ainda "tem-te, não-caias!" -  da gatinha que a mãe lhe trouxera para casa há sete anos atrás.

Por isso e porque "sentir" sempre fora a sua especialidade, a mulher decidiu-se por contar

 

A HISTÓRIA DO CÃOZINHO QUE NASCEU COM AS PATAS BRANCAS

 

Foi há cerca de ano e meio. Não era, com certeza, Natal, mas era como se fosse. Ou melhor, passou a ser como se fosse...

Eu tinha ido ao veterinário com a Lupa e o Kico. Por essa altura um deles deveria estar meio adoentado. Provavelmente uma das "constipações" do Kico ou uma das "dores de barriga" da Lupa.

Recordo-me de ter ouvido quando, terminada a consulta, me propunha sair, um ganido baixo e fininho, quase sumido.

O veterinário acompanhara-nos à porta e eu desviei instintivamente o olhar do dele, procurando o local de onde me pareciam provir os ganidos.

- É um cachorrinho que trouxe ontem para o consultório. Não sei se o consigo salvar. - explicou-me o veterinário que acompanhara o curso do meu olhar.

Os meus olhos devem ter denunciado alguma surpresa, porque ele rapidamente se propôs mostrar-me o tal cachorrito. Subimos a pequena escada que leva à sala de banhos e tosquias e eu vi aquela coisita acastanhada envolta numa mantinha bordeaux, ligada a um frasco de soro que pendia de um suporte improvisado.

- Tão pequenino!- exclamei - o que tem ele?

- Fome. Estas coisas não se fazem! Era de um criador de boxers e eu trouxe-o ontem para cá...

- Mas... e a mãe?

- A mãe está com o dono, o tal criador. Tem mais sete cachorrinhos e está a alimentá-los...

- E este? Que se passa com este? 

- Com este o que se passa é que nasceu com "defeito de fabrico"! Segundo o criador de boxers, claro... tem as pontas das patas brancas...

Olhei e reparei então que aquele castanho levemente manchado por estrias mais escuras terminava, efectivamente, em pequenas "botinhas" brancas que, no meu entender, lhe davam um certo encanto e o tornavam ainda mais patusco.

- Não me diga que já o não querem por causa disso...

- Digo, digo. E digo mais. Separaram-no da mãe e atiraram-no para dentro de um caixote onde o fui encontrar meio morto de fome e já desidratado. Foi por acaso. Fui fazer a revisão do puerpério à mãe e já me ia embora quando, no hall de entrada, vi o caixote com ele lá dentro. Que não servia, disse-me o criador. Que tinha defeito e estava a estragar a raça!

- E trouxe-o consigo?

- Pois trouxe! Ia morrer ali... perguntei se mo davam e tratei de pegar logo nele!

Olhei de novo para o filhote de boxer. O cãozinho que "tinha defeito" estava ali, deitado, quentinho, a soro, com um biberão meio de leite junto a ele. Tinha um nome. O veterinário tratara logo de lhe dar um nome, mas a minha memória já não é o que era e, para mim, ficou sempre a ser "o cãozinho que nasceu com as patas brancas".

 

E o que tem isto a ver com uma tradição de Natal? - perguntarão vocês. Provavelmente não tem mesmo nada a ver, mas o espírito está lá e eu já não sei ficcionar!... Mas gostaria - e aqui sim, entro no que nos foi pedido na Fábrica de Histórias! - de propor uma nova tradição para o Natal de Todos os Dias;

 

Que nunca, nunca mais se vote ao abandono, à indiferença, quem - não importa a espécie! - nasça com uma "diferença". Seja ela qual for!

 

Tela de René Magritte

 

Imagem retirada da internet

 

 

Escrito para : http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/

 

sinto-me :
publicado por poetaporkedeusker às 00:48
link do post | favorito
De Velucia a 15 de Dezembro de 2008 às 23:51
Oi Maria

Gostei muito desta história
Sabe...A trasferi para pessoas.
Adotar um cão talvez seja mais fácil
Adotar pessoas (bebês)...
É um tormento sem fim
Tempo(não menos que 5 anos), burocracia, etc, etc.

Um grande abraço.
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