Maria João Brito de Sousa
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SE O CHICOTE DO RAIO ME ILUMINA *
Se hoje escrevo com alma de trovão
E o chicote do raio me ilumina,
São as minhas memórias de menina
Que, debruçadas no meu coração, *
Me acendem, das razões que há na razão,
A improvável vela que, à bolina,
Singra agora, indomável peregrina
Dos ventos fortes, rumo ao furacão *
Lembras-te, avô poeta, desses dias
Das grandes chuvas e de ventanias
Que saudávamos sempre fascinados? *
Das vergastas de luz que ribombavam,
Colorindo as rajadas que sopravam
Nos nossos rostos mudos, assombrados? *
© Maria João Brito de Sousa
Julho, 2020
(no dia a seguir à grande trovoada de Verão)
publicado às 14:41
Maria João Brito de Sousa
Tela de minha autoria
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Venha comigo, por favor
publicado às 17:32
Maria João Brito de Sousa
Aqui, por favor
publicado às 01:34
Maria João Brito de Sousa
Levante, por favor, a tampa do meu baú
publicado às 14:24
Maria João Brito de Sousa
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NINGUÉM PASSA NA ALAMEDA *
Silenciada esquina, eterno vento,
Ninguém cruza a alameda, ninguém passa,
Apenas uma pomba que esvoaça
Lhe imprime alguma vida e movimento. *
Um homem sobe agora, sonolento,
Os degraus com que a escada me ameaça:
Caí na escadaria da desgraça
E, devendo arriscar, nem mesmo o tento! *
Sopra o vento. Mais zune e mais fustiga
As casas desta esquina de que é dono...
Por detrás da vidraça que me abriga *
O bocejo das pedras faz-me sono,
Induz-me esta dormência que me intriga
Tanto ou mais do que a rua, ao abandono. *
Maria João Brito de Sousa
22.07.2018 – 11.11h ***
publicado às 00:09
Maria João Brito de Sousa
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FERA E DONO *
Tu estavas de joelhos frente à fera,
Ao titã que rugia e que rosnava...
Na tua face impávida, severa,
Nem sombra de temor se adivinhava *
A fera ali espreitando, à tua espera,
E cada gesto teu a ignorava,
Como se protegido pela esfera
Do aço que a vontade em ti forjava *
- A fera é o Soneto!, afiançaste.
Não sei bem se o domaste, ou não domaste,
Porque a noite caiu, fiquei com sono *
E fui dormir. Ainda vislumbrei
Em sonho os vossos vultos mas não sei
Qual de vós dois passou de fera a dono. *
Maria João Brito de Sousa
16.07.2018 -13.06h ***
Nota - Este soneto, embora tecido em verso decassilábico, foi dirigido ao célebre
soneto Alexandrino, o mais difícil e complexo de todos os tipos de soneto
publicado às 23:15
Maria João Brito de Sousa
Avó Alice e eu
fotografadas por meu pai
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ALICE *
Amei-te tanto, tanto, minha avó!
Louvavas-me os “murais” da grande sala
Quando com suave e modulada fala
Me garantias: - “Nunca estarás só, *
Transbordas vida até chegar ao nó
De quanto em ti se exalta e vibra e estala.”
A doce voz, porém, depressa cala,
Que quem assim me fala há muito é pó... *
Eras, Alice, a minha avó paterna,
Mais maternal que muitas ternas mães,
E assim que percebi não ser`s eterna *
A tua voz, a voz que ainda tens,
Doeu-me tanto, que hoje alço a lanterna
E sondo céus e Terra, a ver se vens... *
Maria João Brito de Sousa
26.07.2018 – 17.59h ***
publicado às 14:50
Maria João Brito de Sousa
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CONCEBO CARTAZES *
Conserta castelos, corais conspurcados,
Chaves, cadeados, cristais e capelos.
Compra caramelos contrabandeados,
Comanda cruzados, conduz os camelos *
Com claros cabelos castanhos, cortados,
Crescem-lhe os cuidados. Quem sabe contê-los?
Ciúmes ou “celos”? Castelhanizados,
Cuidam os coitados de compreendê-los. *
Colava cartazes com cola cuspida.
Comprava comida. Compunha cabazes.
Contratos capazes? Confiante? Cumprida? *
Cresceste e, crescida, certinha comprazes
Carismas com crases de (in)compreendida...
Contas, consumida :- Concebo cartazes... *
Maria João Brito de Sousa
21.07.2018 – 15.21h ***
Soneto hendecassilábico com rima entrançada
Reformulado
publicado às 20:16
Maria João Brito de Sousa
António de Sousa, o meu avô poeta
fotografado pelo meu pai
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Silêncio! Nem protestos nem queixumes
Soltam os versos mortos insepultos:
Perdem-se nos desertos dos ocultos
As aves desgarradas, quando implumes.
*
Não há escudos pra espadas de dois gumes
Nem há contra-veneno para insultos
E o meu silêncio nunca paga indultos
Nem serve a desistência em que o presumes
*
Arranco um verso ao prazo ultrapassado
De um mísero estertor dos meus sentidos
Que a ferro e fogo foi reconquistado
*
E já perdi a conta aos que, perdidos,
Deixei ficar pra trás... Ah, naufragado,
No teu silêncio afogo os meus gemidos!
Maria João Brito de Sousa
25.07.2021 - 13.22h
publicado às 22:03
Maria João Brito de Sousa
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SINA DE SIBILANTE *
(a António Giacomo Stradivari) *
A sílaba sustém-se (as)silabada,
Silente ou simplesmente sussurrante,
Ciente da ciência soluçante,
Suavíssima, secreta, (en)simesmada. *
Submete-se à sessão silenciada,
Subtil solfejo de aço, sibilante,
Subverte a situação, insinuante,
Supinamente só, sobressaltada *
Solta silvos, (a)ssusta, serpenteia,
(A)ssume a suave essência da sereia,
Semeia, sábia, a sã sabedoria *
Suprime ou sobrestima a suspensão,
Sofre os silêncios, sofre a submissão...
Subitamente explode em sinfonia! *
Maria João Brito de Sousa
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In CLAUSURA, Junho de 2022 *
Obra de Laurinda Rodrigues na qual o poeta Fernando Augusto Cunha de Sá e eu fomos convidados a participar
publicado às 23:11
Maria João Brito de Sousa
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APONTAMENTO *
Conversei com lagartas, centopeias,
Bichos-de-conta, formigas com asas...
Vi aranhas tecendo as suas teias,
Caracóis carregando as suas casas *
Abelhas, no cuidado da colmeias,
Pulgas-do-mar saudando as marés-vazas,
Corais que eram bordados de sereias,
Medusas a sulcar as águas rasas... *
Vi, deste mundo, um ror de coisas belas,
E até às portuguesas caravelas
Saudei, sem recear-lhes o veneno *
Os meus olhos, então amplas janelas,
Cobriram-se de grades, como as celas
Que algum espaço nos cedem, mas pequeno... *
Maria João Brito de Sousa
04.07.2018 – 10.59h ***
NOTA - Soneto escrito quando aguardava a cirurgia às cataratas
publicado às 14:08
Maria João Brito de Sousa
VERMELHO.TU *
Há tempo no meu gesto, esse indomado,
Pra beber o café que me trouxeste.
Amargo e doce porque assim mo deste.
Vermelho tu. Vermelho o teu cuidado. *
Também trouxeste pão. Um pão roubado
À fome urgente com que amanheceste
No dia em que do pão nada comeste.
Quando por tua mão fora amassado. *
Na tensão do teu espanto o levedaste
E num vermelho forno o cozinhaste.
Vermelho tu. Vermelho esse teu pão. *
Vermelho como tu. teu franco abraço.
E no teu livro. infindo embora escasso.
Coube íntegra e vermelha. a tua mão. *
Maria João Brito de Sousa
16.07.2018 – 13.25h * Ao poeta Filipe Chinita.
Ao seu livro "Vermelho eu".
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publicado às 12:54