Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

poetaporkedeusker

poetaporkedeusker

UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
31
Mar24

CREIO NO PÃO - Reedição

Maria João Brito de Sousa

EU, 5 ANOS (1).jpg

Fotografia de António Pedro Brito de Sousa

*

CREIO NO PÃO
*


Pode o diabo ter-me até estendido

O pão amanhecido que mordeu

Mas, quanto ao resto, ter-vos-á mentido

Pois quem o amassou fui eu, só eu!

*

Se o diabo ficar aborrecido

Por ver-se despojado de um troféu,

Viro-lhe as costas, vou noutro sentido

E amasso um pão que seja mesmo meu.

*

 

A massa deste pão, quão mais cozia

Mais dourava, crescia e rescendia

Às ervas bravas da planura mansa
*

 

E demo algum tal pão cobiçaria

Porque leveda nele a poesia

De quem é velho mas já foi criança.
*

 

 

Maria João Brito de Sousa 

25.06.2020 - 21.00h

***

29
Mar24

VISLUMBRES DE UMA DISTOPIA - Reedição

Maria João Brito de Sousa

Inferno - Hieronymus Bosch (1).jpg

Tela de Hieronymus Bosch

*

VISLUMBRES DE UMA DISTOPIA
*


Silenciosos nos seus corpos de aço,

Dormindo estranhos sonos vigilantes

E usufruindo, ou não, de um espanto escasso,

Estão os que já não são o que eram dantes
*


Guardam os torreões do novo Paço

E, escolhidos a dedo, são gigantes

Que correm dez mil milhas sem cansaço

E abatem de um só sopro astros errantes
*


As montanhas, rolando sobre esferas,

Desviam-se dos rios e das ribeiras

Que agora desaguam nas crateras
*


Cavadas pelas balas não certeiras:

Não há dias nem noites, só há esperas,

Frágeis conspirações, pulsões grosseiras...
*

 

Mª João Brito de Sousa

28.03.2022 - 14.00h
***

 

28
Mar24

O NOJO

Maria João Brito de Sousa

vermes wikipédia (1).jpg

Imagem retirada da Wikipédia

*

 NOJO
*


Enquanto os vermes sobem ao poder

E a podridão se infiltra nas ranhuras,

Os grandes são tão só caricaturas

Da grandeza ideal que dizem ter!
*


O nojo aumenta e há náusea a renascer

Em todas as humanas criaturas

Que honraram outro Abril com partituras

Que só quem queria a paz podia ver
*


Bem mais forte que o medo é esta injúria,

Esta infâmia de ver a coisa espúria

Que a vermina transporta enquanto o nojo
*


Em nós sobe de tom, passa a agonia

E dói-nos tanto que a democracia

Não mais é sonho e cai como um despojo!
*

 

Mª João Brito de Sousa

28.03.2024 - 15.00h
***

 

28
Mar24

DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXIII

Maria João Brito de Sousa

estranho par pinterest.jpg

Imagem Pinterest

*

 

DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXIII
*


Como quando do mar tempestuoso

O marinheiro todo trabalhado,

De hum naufragio cruel sahindo a nado,

Só de ouvir fallar nelle está medroso:
*

Firme jura que o vê-lo bonançoso

Do seu lar o não tire socegado;

Mas esquecido ja do horror passado,

Delle a fiar se torna cobiçoso:
*


Assi, Senhora, eu que da tormenta

De vossa vista fujo, por salvar-me,

Jurando de não mais em outra ver-me;
*


Com a alma que de vós nunca se ausenta,

Me tórno, por cobiça de ganhar-me,

Onde estive tão perto de perder-me.
*

Luíz de Camões

***

 

Se vos haveis ganhado onde perdido

Estivestes quase, quase, em fúria tanta,

Cuidai de vos cuidar que se alevanta

Tormenta bem maior que a que heis sentido
*


Imensa em força, doble em arruído

E capaz de vergar mesmo Atalanta,

Esta às demais tormentas as suplanta

Porque outras mil borrascas há vencido
*


Fugi então de ouvir novas de mim:

Se da fúria primeira vos salvastes,

Quiçá duma segunda não possais
*


Salvar o vosso frágil bergantim

Da fúria que vós próprio provocastes

Conquanto de inocência vos cubrais.
*


Mª João Brito de Sousa

28.03.2024 -11.00h
***

 

O soneto de Camões foi transcrito do blog Sociedade Perfeita

27
Mar24

AMAR-TE, POESIA - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Maria João Brito de Sousa

Litografia de Pavia in Livro de Bordo.jpg

Litografia de Manuel Ribeiro de Pavia

in LIVRO DE BORDO de António de Sousa

*

 

COROA DE SONETOS

*

AMAR-TE, POESIA
*


Amar-te em cada ano em dia certo

E ter que estar à espera todo o ano

Dizer uma só vez: eu não te engano

Apenas venho aqui hoje liberto
*

Eu ando no trabalho aqui por perto

Mas meu patrão é velho e tão insano

Que só me deixa vir, por inumano,

Um dia sem saber ao quê decerto
*


Pois, se soubesse, amor, que eu aqui vinha

Não me deixava vir. Se ele adivinha

Ou se alguém lhe contar que nesse dia
*


Venho comemorar e dar-te um beijo

Proíbe-me de vir, não mais te vejo

Mesmo uma vez por ano, poesia!
*


Custódio Montes

22.3.2024 (e só no dia seguinte….)
***


"Mesmo uma vez por ano, poesia",

Que pra ti corra e enlace fascinada

Sabe-me sempre a pouco, ou quase nada,

Quanto em ti por segundos me extasia
*


Pudera eu ter mais tempo e ficaria

A ver-te espanto a espanto acrescentada

Até adormecer sobre a almofada

Onde, por fim, Morfeu te renderia
*


É atrasada que te rendo preito...

Espero que me perdoes tê-lo feito

Passados já três dias. Reconheço
*


Que me perco no tempo que há no espaço

Sem nem sequer saber porque é que o faço

Se te dedico um tão infindo apreço...
*


Mª João Brito de Sousa

24.03.2024 - 16.00h
***
.
*

3.
*
“Se te dedico um tão infindo apreço”

Não é porque não queira, é que não posso

Se o tempo fosse meu como é vosso

Verias que de ti nunca me esqueço
*


O meu patrão conhece-me o endereço

E logo me ameaça em tom bem grosso

Obriga-me ao trabalho e com esforço

Fico muito cansado e esmoreço
*


Se alguém lhe diz que faço poesia

Refere logo: perde essa mania

Senão perdes o pão, diz o tirano
*

Como eu preciso mesmo do trabalho

Não posso dar razão a tal bandalho

E só consigo amar-te de ano a ano
*

Custódio Montes
25.3.2024
***

4.
*
"E só consigo amar-te de ano a ano"

Qual andorinha poisando em beiral

Pra nel`depor o amor primordial

Que com ela cruzou o oceano
*


Tivesse eu um patrão assim tirano,

Logo o confrontaria a bem ou mal

Que mais pode o Amor do que um real,

Uma libra ou um euro... e, caso o insano,
*


Me ameaçasse com o desemprego

Fá-lo-ia, de pronto, ver-se grego

Pois entraria em greve nesse instante!
*


Não cavaria o chão, nem plantaria

E el`que nunca o fez entenderia

Que um só dia pr`amar nunca é bastante!
*


Mª João Brito de Sousa

25.03.2024 - 15.30h
*** ´

5.
*
“Que um só dia pr’amar nunca é bastante”

Isso é pura verdade, bem se sabe

Mas o patrão é mau e põe entrave

A um amor diário e constante
*


Vou burilar de forma apaixonante

Para o convencer que não agrave

O meu afastamento nem me trave

A vontade de ver a minha amante
*


Que eu amo a poesia bem o vê

Quem olha a minha escrita, quem me lê

Que sentirá em si igual paixão
*


Vou-lhe pedir a si este favor:

Empreste ao seu poema tal fervor

Que possamos vencer o meu patrão
*


Custódio Montes
25.3.2024
***

6.
*
"Que possamos vencer o seu patrão"

É o que mais desejo de momento

Por isso evoco a Musa que em talento

É maior e mais forte que um leão
*


Ela lhe fará ver que essa paixão

Que em si vai fervilhando em fogo lento

Importa tanto ou mais que o seu sustento

E que não vive um homem só de pão
*


Mesmo sendo casmurro e prepotente

À minha Musa nunca fará frente

Porque ela é tão frontal quão destemida
*


E não tendo argumentos vergará:

A Primavera inteira lhe dará

Pra que a dedique à sua prometida!
*


Mª João Brito de Sousa

25.03.2024 - 2030
***

7.
*
“Pra que a dedique à sua prometida!”

E lhe faça poemas dedicados

Mas isto são trabalhos delicados

E a minha musa anda aborrecida
*

Não me ajuda por tê-la esquecida

E só a ir lembrando aos bocados

Nem lhe fazer poemas afamados

Lamentando não ser por mim querida
*


Mas ela é ingrata que senão

Deitava as culpas todas ao patrão

E assim devia pôr-se a meu favor
*


Que gosto muito dela, não engano

E embora só lhe escreva de ano a ano

Bem sabe que eu sou o seu amor
*

Custódio Montes
25.3.2024
***

8.
*

"Bem sabe que sou eu o seu amor"

E na verdade o sabe a sua Musa

Que se lhe of`rece e nada lhe recusa

Em excelência, harmonia e espanto e cor...
*


Tudo a Musa lhe dá sem se lhe opor

Nem dar a entender que dela abusa...

Não vejo, meu amigo, porque a acusa

De não lhe estar a dar o seu melhor...
*


Eu bem a vi vergar o seu patrão

Com tanta força e tal erudição

Que ele acedeu a dar-lhe a Primavera!
*


Mas se insistir, se ainda mais quiser,

Talvez conquiste o V`rão pra lhe of`recer

E fique então feliz à sua espera...
*


Mª João Brito de Sousa

25.03.2024 - 23.20h
***

9.
*
“E fique então feliz à sua espera…”

Assim sou eu que não ‘stou a ver bem

Já sei…foi o patrão e mais ninguém

Que me tramou …aquela bruta fera
*


Com a chuva a cair na Primavera

Fez crer que era o inverno que se tem

E nós: a Primavera jamais vem

E assim, quem tanto espera desespera
*


Também se foi a vista e quase cego

Já não distingo bem e o meu ego

Não me deixa alcançar a claridade
*


E tendo a musa aqui ao meu redor

Devia ter sentido o seu amor

Desculpa, musa, peço piedade!
*


Custódio Montes
26.3.2924
***

10.
*

"Desculpa, musa, peço piedade!"

Mas isso é coisa que se peça a quem

Tudo a que almeja é a fazer-lhe bem

E por amor, que não por caridade?
*


Chove lá fora... O campo e a cidade

Curvam-se ao vento que sopra também

E pelas ruas não se vê ninguém,

Só a água escorrendo em quantidade...
*


Sob um telheiro, a própria Primavera,

Se esconde e espreita em precavida espera

Que a chuva pare e que a nortada abrande
*


Mas é questão de dias porque em breve,

Perdido o medo de que o vento a leve,

Brilhará no poema que hoje escande.
*


Mª João Brito de Sousa

20.03.2024 - 09.45h
***

11.
*

“Brilhará no poema que hoje escande”

Saltando sobre a chuva que o molha

É mesmo hoje já, para quem olha,

Que a primavera o vê e assim o expande
*

É pena que a Mistral tão doente ande

E esteja sempre em casa em recolha

Que ao ver o ar teria muita escolha

Veria o mundo à volta lindo e grande
*

Talvez até virasse como a dona

Em poetisa mestra e patrona

Ensinando aos seus pares a magia
*


De andar à chuva, ao vento e ao luar

Passando a vida então a poetar

E vir a ganhar fama em poesia
*


Custódio Montes
26.3.2024
***

12.
*

"E vir a ganhar fama em poesia"

É coisa que à Mistral bem pouco int`ressa

Que em graça é já poema escrito à pressa

Fluente, grácil, rico em harmonia
*


Nasce um poema sempre que ela mia,

Se dorme é, da beleza, pura peça,

Quando ronrona, encanta... há quem lhe teça

Encómios por ser toda melodia
*


Até no hospital em que é tratada

A vet`rinária diz ficar espantada

Com a serenidade da Mistral
*


Mas andar pelas ruas, na cidade,

Isso é que não. Nem pode, que em verdade,

Quase morreu na rua, este animal.
*


Mª João Brito de Sousa

26.03.2024 - 14.25h
***

13.
*

“Quase morreu na rua este animal”

Mas valeu-lhe o amor da sua dona

Que, sempre ao seu redor, não a abandona

E é sua companheira principal
*


Ao lado da mestra essa Mistral

Sentada junto a ela na poltrona

Comunga a poesia que anda à tona

E vai ganhando o gosto em espiral
*


Falando-se em amar a poesia

Ela merece um canto de alegria

Porque também é fonte de poema
*


Termino o meu soneto mesmo agora

A mestra que a gatinha tanto adora

Baseie o seu soneto neste tema
*

Custódio Montes
26.3.2024
***

14.
*

"Baseie o seu soneto neste tema"

Leio agora, acabada de chegar

Ainda atordoada e a desejar

Que não tivesse a gata este problema
*


Esta consulta não foi nada amena:

Três de nós não bastaram pr`agarrar

Mistral que como um tigre ousou lutar

Em vez de ronronar como um poema...
*


Mas não posso esquecer os seus anseios,

Nem trazer à ribalta os meus receios

Quando o final da C`roa está tão perto
*

 

Ao tiranete irei repreender

Até que o desobrigue de dizer:

"Amar-te em cada ano em dia certo".
*

 

Mª João Brito de Sousa

26.03.2024 - 19.40h
***

 

26
Mar24

SONETO DO MAL MENOR - Reedição

Maria João Brito de Sousa

9925-cesto-de-rosas-vermelhas.jpg

SONETO DO MAL MENOR
*


Dá-me o ramo das rosas perdulárias

comprado na florista já esquecida

armado no “bouquet” morto e sem vida

das condenadas almas solitárias...
*


Dá-me uma – mais serão desnecessárias...-

na haste em que a chorei, porque, à partida,

lhe condeno a razão de ser colhida,

deixando, na raiz, funções tão várias
*


Juro que não protesto... e mais não digo!

Hoje perco a raiz, enfrento o p`rigo

e estou pronta a render-me sem chorar
*


Se o derradeiro golpe, esse castigo

que me arranca do mundo em que me abrigo,

me degolar, de vez, sem me magoar
*.

 

Maria João Brito de Sousa

26.03.2015- 15.08h

25
Mar24

GLOSANDO O ÚLTIMO VERSO DE UM SONETO DE CUSTÓDIO MONTES

Maria João Brito de Sousa

relógio marinho pinterest (2).jpg

Imagem Pinterest

*

AMAR-TE, POESIA
*


Amar-te em cada ano em dia certo

E ter que estar à espera todo o ano

Dizer uma só vez: eu não te engano

Apenas venho aqui hoje liberto
*

Eu ando no trabalho aqui por perto

Mas meu patrão é velho e tão insano

Que só me deixa vir, por inumano,

Um dia sem saber ao quê decerto
*


Pois, se soubesse, amor, que eu aqui vinha

Não me deixava vir. Se ele adivinha

Ou se alguém lhe contar que nesse dia
*


Venho comemorar e dar-te um beijo

Proíbe-me de vir, não mais te vejo

Mesmo uma vez por ano, poesia!
*


Custódio Montes

22.3.2024 (e só no dia seguinte….)
***


"Mesmo uma vez por ano, poesia",

Que pra ti corra e enlace fascinada

Sabe-me sempre a pouco, ou quase nada,

Quanto em ti por segundos me extasia
*


Pudera eu ter mais tempo e ficaria

A ver-te espanto a espanto acrescentada

Até adormecer sobre a almofada

Onde, por fim, Morfeu te renderia
*


É atrasada que te rendo preito...

Espero que me perdoes tê-lo feito

Passados já três dias. Reconheço
*


Que me perco no tempo que há no espaço

Sem sequer entender porque é que o faço

Se te dedico um tão infindo apreço.
*


Mª João Brito de Sousa

24.03.2024 - 16.00h
***

24
Mar24

DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXII

Maria João Brito de Sousa

terra longinqua pinterest (1).jpg

Imagem Pinterest

*

DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXII
*

 

Cantando estava um dia bem seguro,

Quando passava Silvio, e me dizia:

(Silvio, pastor antiguo que sabia

Por o canto das aves o futuro)
*


"Méries, quando quizer o Fado escuro,

A oprimir-te virão em um só dia

Dois lobos; logo a voz e a melodia

Te fugirão, e o som suave e puro."
*


Bem foi assi; porque hum me degolou

Quanto gado vacum pastava e tinha,

De que grandes soldadas esperava.
*

E, por mais dano, o outro me matou

A cordeira gentil, que eu tanto amava,

Perpétua saudade da alma minha!
*

Luíz de Camões
***


Se dura foi de Sílvio a profecia,

Imaginai quão mais dura será

A isenta narrativa de quem está

Hoje a quinhentos anos desse dia...
*


Plo nome que escolheis vos chamaria

E assim vos chamarei se tal vos dá

Prazer... Ah, que prazer inda haverá

Para quem, morto, não chore nem ria?
*


Sílvio não sou. Tampouco sou profeta,

Mas sei que na miséria haveis morrido,

De pouco vos valeu serdes poeta
*


Que, enquanto vivo, tudo haveis perdido!

Haveis cantado a Pátria como um esteta

Mas só depois de morto haveis vivido...
*


Mª João Brito de Sousa

24.03.2024 - 14.00h

***

 

O soneto de Camões foi transcrito do blog Sociedade Perfeita

23
Mar24

SEM MÃO QUE A CONDUZA E SEM MUSA QUE A HABITE

Maria João Brito de Sousa

PAZ III (1).jpg

 

SEM MÃO QUE A CONDUZA E SEM MUSA QUE A HABITE
*

 

"Do luar grisalho que há nos meus cabelos"

Fiz uma bandeira que elevei aos céus

Qual imensa pomba de traços singelos

Mas prenhe de anseios tão meus quanto seus
*

 

Um vento mais forte levou tais anelos

Pra longe, tão longe que estes olhos meus

Não mais a reviram... Que sonhos tão belos

Partiram sem rumo e sem dizer adeus...
*

 

Do Sol que hoje queima os meus olhos cansados

Colho agora um raio que os mais são escusados

E aponto ás alturas a luz que ele emite
*


Mas sinais não vejo da pomba/bandeira

Que o vento de um sopro levou toda inteira

Sem mão que a conduza e sem musa que a habite.
*


Mª João Brito de Sousa

23.03.2024 - 12.39h
***

Soneto criado a parir do verso final do soneto "Sol e Vida" da autoria de MEA

 

22
Mar24

DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXI

Maria João Brito de Sousa

cid simões - as palavras são armas (2).png

Imagem retirada do blog "As Palavras São Armas"

de Cid Simões

*

Cá nesta Babilónia donde mana

Matéria a quanto mal o mundo cria;

Cá donde o puro Amor não tem valia;

Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;
*


Cá donde o mal se afina, o bem se dana,

E pode mais que a honra a tirania;

Cá donde a errada e cega Monarquia

Cuida que um nome vão a Deus engana;
*


Cá neste labirintho onde a Nobreza,

O Valor e o Saber pedindo vão

Ás portas da Cobiça e da Vileza;
*

Cá neste escuro caos de confusão

Cumprindo o curso estou da natureza.

Vê se me esquecerei de ti, Sião!
*


Luíz de Camões
***


Novas, Senhor, vos trago de Sião

Onde quem pode mais mais vai matando

E de onde os mísseis manam sibilando

Para cumprirem - diz-se - uma missão
*


Mas desta minha humana auscultação,

Dif`rentes novas vos quisera ir dando

E em vez mísseis jurar ver pousando

Medicamentos, plasma e água e pão...
*


Ah, "donde o puro amor não tem valia"

"Às portas da cobiça e da vileza"

Só gritos se ouvem. Gritos de agonia.
*


Novas só estas: morte, horror, tristeza...

Eis a missão na qual Sião porfia

Que se enche à custa desta guerra acesa.
*

 

Mª João Brito de Sousa

22.03.2024 - 15.00h
***

21
Mar24

SEM TÍTULO V

Maria João Brito de Sousa

A persistncia da Memória (1).jpg

A Persistência da Memória - Salvador Dali

*

 

SEM TÍTULO V
*


Persiste uma memória de futuro

A erguer-se sobre a purga dos mais fracos

Dos vulneráveis já feitos em cacos

E dos qu`inda agonizam no chão duro...
*


Certeza ou intuição? Não sei, nem juro

Que este futuro se encha de buracos

Dos quais as horas pendam como sacos

A derramar um visco em "chiaroscuro"...
*


Há porém quem desista e quem se esforce,

Quem algoritmos troque pelo Morse

E quem coma do chão quanto o chão der
*


Somos (ainda) bichos imperfeitos

E racistas, também, que aos preconceitos

Até o mais racista os nega ter.
*

 

Mª João Brito de Sousa

21.03.2024 - 20.50h
***

12
Mar24

DESOLAÇÃO - Reedição

Maria João Brito de Sousa

floresta de livros pint (3).jpg

Imagem Pinterest

*

DESOLAÇÃO
*


Choro quem parte e temo por quem fica:

Se a vida tem remédio, a morte não

E o mundo vai caindo em depressão,

Sem que se saiba tudo o que isso implica
*


Já que ao que tudo ou quase tudo indica,

Pouco nos deixa, esta devastação

Pr`além do rasto de desolação

Que diante de nós se multiplica
*


Como vírus que, entrando em mutação,

Corrói um mundo do qual não abdica

E lhe devora a carne feita pão.
*


Lá longe, ouve-se um sino que repica,

Uma voz que suplica a salvação

E outra que nega o que isso significa.
*


Maria João Brito de Sousa

03.03.2021 - 11.07h
***

Pág. 1/2

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Em livro

DICIONÁRIO DE RIMAS

DICIONÁRIO DE RIMAS

Links

O MEU SEBO LITERÁRIO - Portal CEN

OS MEUS OUTROS BLOGS

SONETÁRIO

OUTROS POETAS

AVSPE

OUTROS POETAS II

AJUDAR O FÁBIO

OUTROS POETAS III

GALERIA DE TELAS

QUINTA DO SOL

COISAS DOCES...

AO SERVIÇO DA PAZ E DA ÉTICA, PELO PLANETA

ANIMAL

PRENDINHAS

EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES

ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE POETAS

ESCULTURA

CENTRO PAROQUIAL

NOVA ÁGUIA

CENTRO SOCIAL PAROQUIAL

SABER +

CEM PALAVRAS

TEOLOGIZAR

TEATRO

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2016
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2015
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2014
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2013
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2012
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2011
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2010
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2009
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2008
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D

FÁBRICA DE HISTÓRIAS

Autores Editora

A AUTORA DESTE BLOG NÃO ACEITA, NEM ACEITARÁ NUNCA, O AO90

AO 90? Não, nem obrigada!