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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
20
Out22

PUDESSE EU SER O MAR

Maria João Brito de Sousa

Eu a nadar em Tomar, Hotel dos Templários (2).jpg

PUDESSE EU SER O MAR
*


Pudesse eu ser o mar em que navega

A minha Musa errática e distante,

Ou no mar naufragar seguindo avante,

Alcançar quanto a Musa me não nega...
*


Pudesse eu ver, conquanto estando cega,

Ao longe a minha Musa navegante

E estando surda ouvir o som cantante

Da partitura que hoje se me nega
*


Mas, vendo, nem sinal da Musa vejo

E, ouvindo, tudo o que oiço é o meu Tejo

A perder-se no mar onde eu, perdida,
*


Tento avistar ou Musa, ou partitura,

E nada encontro, tanta é a lonjura,

Tal a imensidão do mar da Vida...
*


Mª João Brito de Sousa

20.10.2022 - 12.00h
***
***

19
Out22

A MENTIRA

Maria João Brito de Sousa

ferreiro (2).gif

Imagem retirada daqui

 

A MENTIRA
*


Levo à bigorna o ferro incandescente

Da palavra mentira. A fundição

Que a fez chegar ao ponto de fusão

Tornou-a numa massa incandescente
*


Mas nem fundida se torna inocente

Pois veste a capa da contradição

E insiste em iludir-nos a razão

Ao afirmar sentir o que não sente
*


Que sempre que a mentira se agiganta

E deixa de ser pouca pra ser tanta

Que alastra e contamina a Terra inteira
*


Não há fogo, nem malho, nem bigorna

Que a possam anular, que ela retorna

E consegue passar por verdadeira.
*

 


Mª João Brito de Sousa

19.10.2022 - 10.30h
***

18
Out22

DESENCONTROS

Maria João Brito de Sousa

Eu, na praia com a Mafalda e a Catarina na barriga - 23.07.1976 (3).jpg

DESENCONTROS
*


Dormias nos meus braços fatigados

E, hoje, não me vês, não me conheces,

Não juntas os meus fios aos fios que teces,

Nem há lugar pra mim nos teus cuidados
*


É tarde, eu sei, pra redimir pecados

Ou pra saber se tens quanto mereces

E o que me dirias se pudesses

Relevar preconceitos recalcados
*

 

Mas se te move o mesmo que me move,

Segue em frente, não esperes que te prove

Que me sinto por fim realizada
*

 

Pois também para mim o tempo é pouco

E o mundo, minha filha, anda tão louco

Que tudo diz saber sem saber nada.
*

 


Mª João Brito de Sousa

In A CEIA DO POETA

Inédito
***

17
Out22

FOME(S) II

Maria João Brito de Sousa

Diego Rivera II.jpg

Pormenor de mural de Diego Rivera


FOME(S) II
*


Se tens fome do pão que ao rico sobra,

A força da razão está do teu lado

Quando acusas traído o resultado

De tudo o que é produto de mão de obra
*


E se, do que criaste, outrem te cobra

O fruto inteiro ou o maior bocado

E a ti te deixa pobre e esfomeado

Certo de que te cala e que te dobra
*


Mal sabe que te entrega a força toda,

Que essa força em ti cresce e se denoda

Para acender-se em chama renovada
*


Porquanto se agiganta, alastra em roda,

Incendeia-se toda e mais te açoda

Quando do que estuou lhe sobra um nada.
*


Mª João Brito de Sousa

In A CEIA DO POETA

Inédito

***

16
Out22

SUSPENSÃO

Maria João Brito de Sousa

orquestra.png


SUSPENSÃO
*


Negaram-me as razões pra ter razão

Sem qualquer atenção ao que não vendo

Não posso deduzir de uma equação

Que me não diz se a tenho, ou se a vou tendo...
*


E tendo mil razões para a tensão

Que essa equação gerar, sempre em crescendo,

Garanto não saber se há solução

Pra tudo quanto tento ir resolvendo...
*


Mas eis que surge um verso em suspensão

Na revolta que engulo e vou retendo

Pra dela desviar toda a atenção
*


E logo desse verso me suspendo

Suspendendo também a frustração,

Já que a um só compasso então me prendo.

*

 

Mª João Brito de Sousa

In A CEIA DO POETA

 

Inédito

***

14
Out22

FUSÃO

Maria João Brito de Sousa

O GATO.jpg

FUSÃO
*


Nas águas do meu rio, no ponto exacto

Em que o mar num abraço o recebeu

Me espelho e nesse amplexo me retrato

E sou muito mais rio do que sou eu
*


Mas sou também pinheiro, erva do mato,

Rochedo, alga marinha, azul do céu,

Vento que rodopia em desacato,

Molécula de ar puro, haste que ardeu...
*

 

Na terra em que nasci, se me relato

No que em mim nasce e no que em mim morreu

Ou no mais que de meu guarde em recato
*


Qual mastro vertical ou qual troféu,

É nessa (con)fusão que emulo o gato

Que morre a defender um chão que é seu.

*

 

Mª João Brito de Sousa

In A Ceia do Poeta

Inédito

13
Out22

E SE? II

Maria João Brito de Sousa

23031554_1738072219550718_7344119406047412652_n (1).jpg

E SE? II
*


E se em vez de eu ser eu fosse ninguém

Esta que reproduz, que engendra e escreve

Ou se antes de quem sou fosse eu tão leve

Quanto o ar que respiro e me sustém?
*


Na decadência do meu corpo, mãe,

Se a chama da vontade se me atreve

A consumir-me mais do que o que deve

E se engendra a partir do que nem tem
*

 

Talvez na persistência dessa chama

Resida eu mesma e tudo o que em mim clama

Por quanto desse fogo ousar nascer
*

 

Ou mesmo no poema quando emana

Do fel de cada dia da semana

E se faz  voz da voz que me couber.
*

 

Mª João Brito de Sousa

In A Ceia do Poeta

Inédito
***

11
Out22

ASAS DE AREIA - Reedição

Maria João Brito de Sousa

O ÚLTIMO ANJO DE MARIA 1999 (2).jpeg

ASAS DE AREIA
*


Dos meus antigos sonhos de menina,

Recordo a tempestade dos sentidos

A fustigar-me o corpo, em tempos idos,

Como se amor nascera em cada esquina
*

Por ti fui, na verdade, peregrina,

Cobri-me de paixão, vesti vestidos

Que prometiam gozos desmedidos

A essa minha essência feminina
*

Enredada na teia que teci,

Tentei perder-me em ti, fiz-me sereia,

Ou Ícaro-mulher ardendo em brasas
*

E ao tombar na praia é que entendi

Que as asas que moldara eram da areia

Com que as penas se moldam. Nunca as asas.
*

 

 

Mª João Brito de Sousa

03.03.08 - 07.05h
***

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