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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
28
Fev22

SONETO À "CHEF"

Maria João Brito de Sousa

SONETO À CHEF.jpg

SONETO À "CHEF"
*

(Sem jaleca, nem estrelinhas)
*

 

Sim, já usei palas, uma em cada olho,

Mas uma jaleca com direito a estrela,

Nunca usei nenhuma, nunca pude tê-la

Por não saber como... bringir um repolho!
*


Não tendo jaleca, estrelinhas não colho

Nem mesmo as que observo da minha janela;

Sou tão só poeta, escrevo à luz da vela,

Mal vou distinguindo espargos de restolho...
*

 

Quem me faz um prato com este soneto

Sem peixe, sem carne, nem sabor concreto?

E acabo eu de ouvir que de um bom cozinhado
*

 

Um "Chef" estrelado faria um poema...*

Que o faça, que eu provo! Salgou-lhe um fonema?

Faltou-lhe a mestria de um vate inspirado!
*

 

Mª João Brito de Sousa

27.02.2022 - 12.00h

***


* Chef Óscar Geadas na finalíssima do programa MasterChef Portugal

26
Fev22

AQUI - Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes

Maria João Brito de Sousa

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AQUI - Coroa de Sonetos
*

Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes


1.
*

Aqui, cada parede é nervo e pele

E os livros que reli vezes sem fim

Vão sendo o pasto fértil do corcel

Que o verso monta quando sai de mim
*


Aqui, a casa cumpre o seu papel

De irmã de pedra, de alma, de jardim

Ou berço improvisado por cinzel

Já transmutado em mão por ser assim...
*


Se um alter-ego tenho, é este espaço

Que mais do que uma casa é um abraço

Que a Musa nunca hesita em partilhar
*


Mas nem eu, nem a Musa voltaremos

A vislumbrar corcel no qual montemos

No instante em que esta Barca naufragar.
*


Mª João Brito de Sousa

25.02.2022 - 12.00h

***

2.
*

“No instante em que esta Barca naufragar”

Mas não vai naufragar que a tormenta

De vagas e mais vagas se alimenta

E no fim da tormenta vai vogar
*

E ao irmos nesse barco a navegar

Estende-se a visão que nos aumenta

O gosto de viver e nos sustenta

A força que nós temos para andar
*

E vejo, minha amiga, que alegria

Que lhe volta a visão e a mestria

E todo o brilhantismo a aparecer
*

E ver a companheira sem estorvo

Voltar a poetar aqui de novo

Que bom e que alegria, que prazer…
*

Custodio Montes

25.2.2022

***

3.
*

"Que bom e que alegria, que prazer"

Direi também ao ver que me responde

Com a espontaneidade que não esconde

E sem outras desgraças conhecer...
*


Vão afundar-me a Barca e vai doer...

Não sei exactamente quando e onde,

Mas minha Barca e tudo quanto a ronde

Está mais que condenada a perecer
*


Saí da cirurgia e logo após

Fui confrontada com o facto atroz

Da iminência de perder a Barca
*


Mas não quero afligi-lo, informo apenas

Que as horas, de tão poucas, são pequenas

E a minha inspiração vai sendo parca...
*


Mª João Brito de Sousa

25.02.2022 - 14.12h
***
4.
*

“E a minha inspiração vai sendo parca….”

Mas não lhe correu bem a cirurgia

Que nos trouxesse a nós essa alegria

E a beleza e o tom da sua marca ?
*


A amiga é sem dúvida a monarca

No reino do soneto e poesia

Que vendo mesmo pouco é na mestria

Aquela que entre nós mais longe abarca
*


Espero, faço votos, tenho crença

Que ultrapasse bem rápido a doença

E volte para nós em plenitude
*


E que o mal que na vista hoje traz

A deixe sossegada, a deixe em paz

E volte, amiga, cheia de saúde
*

Custodio Montes

25.2.2022
*

5.
*

"E volte, amiga, cheia de saúde"

Diz-me o amigo sem sequer sonhar

Que muito em breve ficarei sem lar

Ainda que a visão agora ajude...
*


Sim, sim, coloco as gotas amiúde,

Mas tenho o outro olho por op`rar

Com raios laser para eliminar

Uma camada opaca como grude
*


Mas não, não é por isso que estou triste,

Nem é por isso que a Musa desiste

De dar-me uma mãozinha enquanto escrevo
*


Esta tristeza é quase um desespero

Que me domina a escrita e que é sincero;

Não poderei pagar algo que devo.
*


Mª João Brito de Sousa

25.02.2022 - 17.10h

***

6.
*

“Não poderei pagar algo que devo”

A quem tanto educa e tanto ensina

Mas essa há-de ser a minha sina

Que nunca pagarei com o que escrevo
*


Eu quando escrevo, escrevo com enlevo

Mas não tive o condão de quem opina

Com o saber profundo e a doutrina

De quem desde menino tem relevo
*


E não me deixe só com minha musa

Que ela é preguiçosa e não usa

O que a sua lhe dá em profusão
*


Quero o seu desafio permanente

Para que eu me sinta mais contente

E force a minha musa a dar-me a mão
*


Custodio Montes

25.2.2022
***

7.
*

"E force a minha musa a dar-me a mão"

Ainda que na rua e sem abrigo

Me encontre exposta ao frio e ao perigo

Duma morte por pura inanição?
*


Mas já me fez sorrir e há gratidão,

Imensa gratidão no que lhe digo

Ainda que não creia, qu`rido amigo,

Que compreenda a minha situação.
*


Mas avancemos porque há pormenores

Que mais me doem do que as próprias dores

Nos quais não quero agora nem pensar
*


E com alguma sorte talvez morra (rsrsrsrs...)

Antes de ser lançada na masmorra

Dos que não têm casa pra morar
*


Mª João Brito de Sousa

25.02.2022 - 18.45h
***

8.
*

“Dos que não têm casa para morar”

Eu digo mal da sorte e tenho pena

Mas a amiga tem casa e casa amena

Muito bem situada em frente ao mar
*


E quando faz poemas, ao olhar

A vista alarga ao longe bem serena

E enche-se de brio e força plena

Ao vir a sua musa e poetar
*


Que belo ver os barcos sobre as ondas

Embrulhando-se alegres bem redondas

E ouvir o seu som e o seu bater
*


Tem casa onde mora e bem rica

E porque nela mora, nela fica

Assim o profetizo e tem que ser
*

Custodio Montes

25.2.2022
***

9.
*

"Assim o profetizo e tem de ser"

E eu, querendo que assim seja, nem replico,

Antes sinto das ondas o salpico

E fecho os olhos para o receber
*

Mais tarde pensarei no que fazer

Que agora é pelas ondas que me fico

E enquanto uma sopita depenico

Penso que bom que é voltar a ver!
*


À minha Musa, julguei-a perdida

E ela voltou embora combalida...

Por vezes nem eu mesma a reconheço
*


Porque ora se retira desistente,

Ora volta aguerrida e, de repente,

Mede em estatura bem mais do que eu meço...
*


Mª João Brito de Sousa

25.02.2022 - 20.00h

***

10.
*

“Mede em estatuto bem mais do que eu meço”

Por isso, continua sem parar

Olhando o Tejo e a ver o verde mar

Com rápidos poemas de sucesso
*


E eu, ao ver-lhe o estro, até lhe peço

Que ajude assim o meu a melhorar

Para ver no poema um versejar

Que tenha em sua senda algum acesso
*


Olhando e vendo-a ir pelo caminho

Aguço o meu engenho um pedacinho

E fico bem melhor ao vê-la a ela
*

Eu sinto esse canto, ouço-o bem

Gostava de cantar assim também

Com essa melodia alegre e bela
*

Custodio Montes

25.02.2022

***
11.
*

"Com essa melodia alegre e bela"

Também a sua Musa vai cantando

E sei que à minha Musa convidando

Para cantar com ela e para ela :)
*


Aqui, a minha casa é barco à vela

E se esta a Barca é Onde, o Mar é Quando;

Vão-se as coisas, aqui, transfigurando

Conforme acontecia em tinta e tela...
*


A palmeira e as plantas suculentas

Falam comigo e ficam muito atentas

Aos gestos das mãos magras e doridas
*


Que aspergem água prás dessedentar

E de manhã bem cedo, ao acordar,

Sussurram-me palavras nunca ouvidas...
*

 

Mª João Brito de Sousa

25.02.2022 - 21.41h
***

12.
*

“Sussurram-me palavras nunca ouvidas…”

De certeza, de sonhos encontrados

Que vieram na noite transportados

Por versos amenos induzidos
*


E as palmeiras e os campos coloridos

Sobre o mar, sobre o Tejo espelhados

Trouxeram ao dormir, versos rimados

Com palavras e com sons nelas vertidos
*

Por isso, essas palavras encantaram

Seus ouvidos que nunca as escutaram

Trazendo-lhe depois inspiração
*


Muito bem, que a quero aplaudir

Agora, ao me deitar, que vou dormir

Manifestando a minha admiração
*

Custodio Montes

35.2.2022
***

13.
*

"Manifestando a minha admiração"

É de alegria, espanto e amizade

Que me encho quando o leio e na verdade

Já não sinto nem sombra de aflição...
*


Descanse amigo que eu não posso, não,

Deitar-me agora que o sono me invade

E afasto o sono à custa da vontade

De pôr as gotas no meu olho são...
*


À meia noite em ponto há-de soar

O alarme do relógio a recordar

A hora exacta da medicação
*


E não quero que os olhos ensonados

Se fechem e se esqueçam dos cuidados

Que me impõe a recente operação
*


Mª João Brito de Sousa

25.02.2022 - 22.56h
***

14.
*

“Que me impõe a recente operação”

Deixe lá que a não torno a maçar

Que a coroa está quase a terminar

Terminando também nosso serão
*


Mais uns versos a ter em atenção

Agora que voltei a acordar

Para ver se consigo completar

Os versos que aqui me ficarão
*


O sono já vem vindo bem depressa

Mas eu hei-de cumprir esta promessa

Sem que venha Morfeu e me interpele
*


Estou atrapalhado e não consigo

E vejo em cada canto só perigo

"Aqui, cada parede é nervo e pele"
*


Custodio Montes

25.2.2022
***

 

 

25
Fev22

AQUI

Maria João Brito de Sousa

LES RACINES - MJBS.jpeg

AQUI
*


Aqui, cada parede é nervo e pele

E os livros que reli vezes sem fim

Vão sendo o pasto fértil do corcel

Que o verso monta quando sai de mim
*


Aqui, a casa cumpre o seu papel

De irmã de pedra, de alma, de jardim

Ou berço improvisado por cinzel

Já transmutado em mão por ser assim...
*


Se um alter-ego tenho, é este espaço

Que mais do que uma casa é um abraço

Que a Musa não resiste a partilhar
*


E nem eu, nem a Musa voltaremos

A vislumbrar corcel no qual montemos

No instante em que esta Barca naufragrar.
*


Mª João Brito de Sousa

25.02.2022 - 12.00h

15
Fev22

NOTÍCIAS

Maria João Brito de Sousa

- oEIRAS, eVENTO NAS PALMEIRAS, POESIA, 2021.jpg

NOTÍCIAS
*

Queridos amigos e camaradas, a minha cirurgia à catarata do olho direito será efectuada já na próxima quinta-feira.

Como tenho uma infinidade de consultas e exames, a partir de hoje e durante toda a corrente semana não é provável que consiga marcar presença nos blogs, no FB e no HP pois estarei todas as manhãs e uma boa parte das tardes no hospital.

Um GRANDE abraço para todos vós!

Mº João

13
Fev22

ABRAÇO - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Maria João Brito de Sousa

EU e O MEU PAI - Jardim Botânico.jpg

3.
*

“Te cubro inteiro quando estou feliz”

Mas na tristeza, claro, também quero…

Ouvi a entrevista e reitero

A beleza de ser um aprendiz
*


Se é tarde muito tarde não se diz

Que mesmo nesta idade ainda espero

Que a musa nos afaste o desespero

E nos dê outro rumo e directriz
*


Viver, viver, viver com alegria

Ouvir um canto mestre e a magia

De circundar o mundo sem problema
*


Andar pelo mar dentro, amar o Tejo

Ter em cada palavra um desejo

Girarmos sempre envoltos no poema
*


Custódio Montes

11.2.2022
***

4.
*

"Girarmos sempre envoltos no poema",

Irmos aonde o sonho nos levar,

Subirmos às alturas e pousar

Com elegância e sem que a voz nos trema
*


Na segurança de um qualquer fonema

Que surja sem sequer nos avisar;

Nada me seduz mais que improvisar,

Ainda que enfrentado algum dilema...
*


Abracemos a Vida enquanto há vida

Pulsando em nós enquanto a nós rendida;

Nenhum de nós pediu a eternidade,
*


Nenhum de nós quer mais do que poder

Abraçar cada verso que nascer

Deste exercício da nossa amizade.
*


Mª João Brito de Sousa

11.02.2022 - 14.40h
***

5.
*

“Deste exercício da nossa amizade”

Há-de resplandecer a nova aurora

Quebrando a escuridão que noite fora

Encobre mais e mais a claridade
*


Que o verso é só amor, é irmandade

É lágrima que sai e que se chora

Mas sem mágoa…alegria protectora

Carinhosa lembrança na saudade
*


Limites não os há e continua

A noite, o dia, o sol e mesmo a lua

E esta discussão tão criativa
*


Recuso-me a viver sem a palavra

Sem ela tudo morre tudo acaba

E no poema a gente encontra a vida
*

Custódio Montes

11.2.2022
***
6.
*

"E no poema a gente encontra a vida"

Que o mundo tantas vezes nos recusa

E quando a dor emerge, há sempre a Musa

Que mitigando a dor nos cura a ferida
*


E ela virá, ousada e decidida,

Pra retocar a estrofe, se confusa,

Ou pra tomar as rédeas, que ela abusa

E às vezes faz do verbo uma corrida...
*


Sem a palavra também eu não sei

Se sobreviveria ao que enfrentei;

Nela pus toda a força que me resta
*


E sem abraços destes... que tristeza!,

Bem mais me pesaria esta pobreza

Se nos abraços fosse mais canhestra.
*


Mª João Brito de Sousa

11.02.2022 - 17.10h
***

7.
*

“Se nos abraços fosse mais canhestra”

Mas não é, porque os gestos nada são

Se neles não couber a emoção

Que se define ao vir e nos sequestra
*


Não basta a conferência e a palestra

Faz falta revelar-se o coração

E termos no amigo um irmão

E ver em si, amiga, uma mestra
*


Por isso, dei-lhe o abraço merecido

E ao tê-lo aceite fico agradecido

Que até me respondeu mesmo doente
*


Paremos por aqui esta coroa

Para voltar a ela estando boa

E regresse depressa e mais valente
*

Custódio Montes

11.2.2022
***

8.
*

"E regress(o) depressa e mais valente" :)

Que menos treme agora a minha mão

E já bate a compasso o coração

Que há pouco latejava loucamente
*


Temi que rebentasse de repente

De espanto, de surpresa e comoção

Por saber que a ansiada operação

Se irá realizar tão brevemente...
*


Agora, entre contente e receosa,

Conquanto a Musa penda para a prosa,

Devolvo à Poesia o nosso abraço
*


Ela virá depois, conheço-a bem,

Atrás do ritmo que o poema tem;

Nunca resiste a Musa ao seu compasso!
*

 

Mª João Brito de Sousa

11.02.2022 - 21.10h
***

9.
*

“Nunca resiste a musa ao seu compasso”

Ainda bem. Então, continuamos

Que enquanto nesta azáfama andamos

Damos continuidade ao nosso abraço
*


Enchemos a coroa espaço a espaço

Florimos o caminho e atapetamos

E quando para ela nós olhamos

Sentimo-nos alegres, sem cansaço
*

 

E tem-se mesmo até a ilusão

Que a doença se foi e o corpo são

Renova como o faz a primavera
*


E volta a alegria e até se pensa

Que se foi a moléstia e a doença

E volta a gente a ser como antes era
*

Custódio Montes

11.2.2022
***

10.
*

"E volta a gente ser como antes era"

Pois se em verdade uma criança houver

Em cada um de nós, pode até ser

Que esteja a Primavera à nossa espera
*


Onde o verso renasce e prolifera

E ao verbo aponta o rumo que entender...

Se assim for por instantes, quero crer

Ser gentil, ser graciosa e ser sincera
*


A criança que nunca envelheceu

Que mora em nós, que (somos?) tu e eu

Neste abraço e nos tantos que já demos
*


Mas se um de nós afirma que a perdeu

Algures, num tempo em que a desconheceu,

Não a perdeu um só, que os dois perdemos.
*

 

Mª João Brito de Sousa

12.02.2022 - 00.20h
***

11.
*

“Não a perdeu um só, que os dois perdemos”

Isso só em hipótese poética

Que lendo-se o que diz, a sinalética

Indica que um e outro a mantemos
*


Velhos são os trapos bem sabemos

E seguindo o discurso, a dialética

Entendo que nem mesmo em fonética

A criança que fomos já não temos
*


Quem anda por jardins a colher flores

Tem dentro da sua alma só amores

E é com eles que pula e que avança
*


O inverno há-de vir mas não chegou

E não chega a quem tanto sempre amou

Que não mais deixará de ser criança
*


Custódio Montes

12.2.2022
***
12.
*

"Que não mais deixará de ser criança"

Quem de velho e menino cultivar

O melhor que um e outro possam dar

De alegria, de espanto e de confiança
*


A que se vem juntar serena a esp`rança

(a última a morrer, a primeira a lutar),

Que viver, meu amigo, é conquistar

Dentro de nós o que a vontade alcança
*


E se a vontade pede, de repente,

Humano abraço que aproxime a gente

Dessoutra gente que abraçar não sabe
*


Faça-se-lhe a vontade que a Amizade

É transversal a toda a humanidade

E não há monstro que com ela acabe!
*


Mª João Brito de Sousa

12.02.2022 - 11.50h
***

13.
*

“E não há monstro que com ela acabe”

Sim, era o que faltava que acabasse

Porque quando a amizade terminasse

Como seria o mundo ? Não se sabe
*


Havia em toda a parte o seu entrave

A raiva, como o ódio, era impasse

Sem respeito algum por cada classe

Com as portas trancadas e sem chave
*


Mas ao falar sentimos a amizade

Como há dias senti, com claridade,

Nessa entrevista dada eu me enlaço
*


Gostei bem do que é e da razão

De ter o Tejo e o mar no coração

Por isso, lhe renovo o meu abraço
*

Custódio Montes

12.2.2022
***
14.
*

"Por isso lhe renovo o meu abraço"

Que recebo e, sentindo-me abraçada,

Um outro lhe devolvo alvoroçada;

Mais forte é a amizade que o cansaço
*


E vence esta amizade um longo espaço

Transformando um ecrã numa jangada,

Numa canoa ou numa barca alada,

Consoante a destreza do meu traço...
*


Ao longe, junto à praia, uma gaivota

Parece ter escolhido a mesma rota,

Talvez nesse teu cais venha a pousar...
*


Perco-lhe o rasto, fica-me o talvez,

E em cada Abraço/Fado português

"O Tejo passa em frente para o mar"...
*

 

Mª João Brito de Sousa

12.02.2022 - 16.10h
***

 

 

 

 

 

 

 

 

 

08
Fev22

SEM TÍTULO IV

Maria João Brito de Sousa

ÉDIPO - 1999.jpeg

SEM TÍTULO IV
*


Deram-lhe o Futuro dentro de um pacote

De cartão prensado em forma de esfera

No topo enfeitada por um laçarote,

Por dentro vazia pra guardar-lhe a espera
*

 

Deram-lhe o embrulho, negaram-lhe o dote,

Por isso o poeta não soube que o era;

A Musa agastada recusou-lhe o mote

E afastou-se à pressa, tal qual duma fera
*


Estivesse fugindo, em vez de um poeta

Prestes a queimar-se como borboleta

Que ao tocar na chama julgasse salvar-se
*


Aguarda o poeta que tão só pondera,

Mas em vão aguarda que se não supera;

Não conhece a dor, nem faz a catarse.
*

 

Mª João Brito de Sousa

08.02.2022 - 13.30h
***

 

07
Fev22

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA - Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes

Maria João Brito de Sousa

 


ENSAIO SOBRE

A CEGUEIRA
*

Coroa de Sonetos
*

Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes
*

1.
*

Num rio de uma gota, numa gota só,

Viriam banhar-se a mulher de vapor,

O homem sem corpo, sem suor, sem dó,

E a dor sem tamanho de quem não tem dor
*

 

De quem foi esmagado pela grande mó,

De quem foi comprado por nenhum valor

Que a realidade, se desfeita em pó,

Ao vendar-te os olhos, lança-te em torpor
*

 

E eu, inda que cega, rasgo essoutra venda

De rosada seda rematada a renda,

Entro nas fileiras da luta de classes
*

 

Que também tem sonhos, ideais concretos

Que são bem mais belos mas que estão repletos

Da crua dureza dos grandes impasses.
*

 

Mª João Brito de Sousa

05.02.2022 - 14.15h
***
2.
*

“Da crua dureza dos grandes impasses”

A luta medonha que se vai travar

Difícil será mas temos que a ganhar

Contra quem nos rouba, malditos rapaces
*


Se quando tu vias bem melhor olhasses

Agora bem vias só a recordar

Não vês o que queres mas imaginar

É mais criativo talvez te ultrapasses
*


Que o ver vem de dentro lá da nossa alma

E ao trazê-lo à luz ganhar-se-á a palma

Se o que nós dissermos for lindo ao lê-lo
*


Então nossos olhos por dentro rirão

Sentindo o poema com o coração

E mesmo não vendo vai senti-lo belo
*

Custódio Montes

6.2.2022
***

3.
*

"E mesmo não vendo vai senti-lo belo"

E talvez entenda que é mais importante

Que essoutra beleza que há no Sete-Estrelo

Por muito que seja pungente e brilhante
*

 

O "homem sem corpo" não saberá lê-lo

E a "mulher de nuvens" `stará tão distante

Que não mais verá que um ponto singelo,

Pequeno, ilegível e algo intrigante,
*


Mas o operário da escura oficina

E o mineiro em risco nos túneis da mina,

Conseguirão lê-lo, irão decifrá-lo
*

 

Sob a luz que é parca mas que os ilumina

E a vida que é dura mas que tanto ensina...

Quem os calaria se eu, cega, o não calo?
*

 

Mª João Brito de Sousa

06.02.2022 - 12.30h
***


4.
*

“Quem os calaria se eu, cega, o não calo?”

Ninguém, penso eu, o que diz é verdade

Mas eu continuo que a claridade

Tê-la sem os olhos é bem um regalo
*


Paramos às vezes tendo um intervalo

E vemos as coisas com realidade

Com gosto acrescido e mais à-vontade

Não é tudo a vista melhor é pensá-lo
*


A amiga bem sabe que ser-se pujante

Como é nos poemas de modo brilhante

É ser-se completa, uma grande artista
*


Por isso, não deixe aqui tanto lamento

Que tudo o que escreve é um monumento

Pare, não lamente ter tão pouca vista
*

Custódio Montes

6.2.2022
***

5.
*

"Pare, não lamente ter tão pouca vista";

Assim o farei porque alguma me resta

E à miséria, a essa, há quem não resista,

Que a miséria é dura, cruel e funesta
*


Mas é necessário que o tema persista

Pois é a cegueira que o tema me empresta

Pra tecer a c`roa e pra dar-me uma pista

Sobre algo que dura, que humilha, que empesta
*


O homem explorado sobre este planeta

Que tanto trabalha e tão pouco colecta;

Migalhas das mesas dos grandes senhores
*


São tudo o que sobra e as sobras não bastam

Prós tornar pessoas. Assim pouco gastam

E são humilhados os trabalhadores!
*

 

Mª João Brito de Sousa

06.02.2022 - 14.45h

 

6.
*

“E são humilhados os trabalhadores”

E os que os humilham são todos tratantes

Uns são manda-chuvas, outros governantes

Que lhes levam tudo e armam-se em doutores
*


Porque se sentissem todas essas dores

De pão não o terem nem outros sobrantes

De passarem fome e outros males restantes

Não seriam eles tão exploradores
*


Mas prendem-se muito à sua avareza

Que nunca reparam em tanta pobreza

São homens avaros de toda a maneira
*


Cegos, maltrapilhos são uma cambada

Pensam-se importantes mas não valem nada

Não vêem por perto com tanta cegueira
*

 

Custódio Montes

6.2.2022
***
7.
*

"Não vêem por perto com tanta cegueira",

Só a si se vêem contando a riqueza

Que outros produziram numa vida inteira

De trabalho duro, de extrema pobreza
*


Subindo a calçada, descendo a ladeira

De casa ao trabalho, do trabalho à mesa

Pra comer à pressa, talvez sem cadeira,

Um caldo apurado na lareira acesa...
*


E, do outro lado, é tanta a abundância

Que nem causa inveja, causa repugnância

O imenso abismo que as classes divide
*


Que sempre assim foi, dir-me-ão sorrindo

Os que estando "a meio" não o estão sentindo...

Mas o Povo, um dia, será quem decide!
*


Mª João Brito de Sousa

06.02.2022 - 17.30h

***

8.
*

“Mas o Povo, um dia, será quem decide”

O povo é cego ou então não quer ver

Prometem-lhe tudo mas já no poder

É só propaganda como o sabão Tide
*


Mesmo assim o povo no erro incide

Apenas elege quem nunca vai ter

Pena da pobreza… quer enriquecer.

É assim o povo e nunca progride
*


Vejo bem as coisas que eu não sou cego

O homem só quer alimentar seu ego

Dá pouca importância a cada irmão
*


Não pensa na fome, não vê a miséria

Só pensa no corpo e na vil matéria

Às vezes sem alma e sem coração
*

Custódio Montes

6.2.2022
***

9.
*

"Às vezes sem alma e sem coração"?

Só se ambos tiverem sido confiscados,

Que tudo nos levam (até a paixão!)

E eu, que sou povo, estou entre os visados...
*


Não falei das urnas nem da votação,

Falei dos futuros povos libertados,

Dos que já caminham nessa direcção

Inda que tropecem nos erros passados
*

Porque ao que foi escrito não retirarei

Nem uma palavra, pouco mais direi

Que o sono já pesa mais do que a vontade
*


E assim desarmada, sonolenta e tonta,

Só diria coisas de pequena monta,

Só faria versos de má qualidade...
*


Mª João Brito de Sousa

06.02.2022 - 22.30h
***


10.
*

“E faria versos de má qualidade”

Se fosse outra gente vivendo no espaço

Lá longe lá longe sem desembaraço

Sem ter qualquer jeito nem ter liberdade
*


Se a vejo a rimar com todo esse à vontade

Eu não acredito só se por cansaço

Tiver de parar. Já sei é o que faço

Paro e recomeço com fraternidade
*


É sobre a cegueira que a coroa versa

Vamos ao assunto mude-se a conversa

Que siga o poema por sobre esse embate
*


Doutra forma penso talvez, se calhar,

Quem a ler nos venha nos possa acusar

Que em vez de coroa se faz disparate
*

Custódio Montes

6.2.2022
***


13.
*

"Que em vez de coroa se faz disparate"

E em boa verdade os faço amiúde

Se meio da frase ou no seu remate

Me falha a memória ou me falta a saúde...
*


A Morfeu me oponho; que não me arrebate

Prá terra dos sonhos a que agora alude,

Que a Musa, mais forte, sobre mim se abate

E exige-me garra, lucidez, virtude...
*


Assim me proponho não render-me ainda

À branca cegueira que não é bem-vinda

Porquanto os tercetos não estão terminados
*


E se me proponho, não torço, nem cedo!

Tropeço, gaguejo, mas num arremedo

Termino sem gralhas nem ossos quebrados
*


Mª João Brito de Sousa

07.02.2022 - 00.26h

***

12.
*

“Termino sem gralhas nem ossos quebrados”

Então aproveito a sua correria

Por ver no poema tamanha alegria

Que se descortina nos versos rimados
*


Fomos progredindo meios ensonados

Disse que parava até vir o dia

Foi-se-lhe a cegueira enquanto eu dormia

E só se enganou nos versos numerados
*


O seu é o onze sendo o meu o doze

E só faz mais um e eu farei o catorze

Termina a coroa e acaba a cegueira
*

Esta sugestão que agora aqui trago

Não é novo ensaio - o do Saramago

É cá entre nós mais uma brincadeira
*

Custódio Montes

7.2.2022
***

13.
*

"É cá entre nós mais uma brincadeira"

Das nossas, humanas, que sabem a pouco...

Quem dera acabasse de vez a cegueira

E o mundo dos homens não andasse louco
*


Com tanta clivagem, tanta roubalheira

E mil teorias que soam a ôco...

Porém, pouco a pouco - assim Homem queira! -,

Verá quem é cego, ouvirá quem é mouco!
*


Não é nova a obra, nem nova é a tela

Que há mais de vinte anos pintei para ela,

Mas o que traduz é bem contemporâneo
*


E eu, meio cega, ceguinha de todo

Não estou com certeza; bem vejo esse lodo

Que aspergem - disfarçam!- com "sprays" de gerânio
*


Mª João Brito de Sousa

07.02.2022 - 10.50h
***

14.
*

“Que aspergem - disfarçam!- com "sprays" de gerânio”

Não tem fim a luta que há muita ganância

“Eles comem tudo” não dão importância

Engordam o corpo sem nada no crânio
*


Querem mostrar graça, mas em sucedâneo

Apenas ostentam muita ignorância

Olhando à volta com a petulância

De reles amigos do seu conterrâneo
*


E à volta a miséria sempre a alastrar

Sem que a gente veja que vai acabar

Tudo mesmo tudo desfeito em pó
*

 

Labutam os homens e é só miséria

A banhar-se em vida sem rumo sem féria

“Num rio de uma gota, numa gota só”
*


Custódio Montes

7.2.2022

***

magritte 2.jpg

Tela de René Magritte

***

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