MATA-BICHO

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POESIA
*
(Brevíssimo ensaio sobre o conceito de poema)
*
Brota da carne, acesa, este ilusório
Fruto do que se sabe, não sabendo
Se chega, ou não, a ter contraditório
Acerca do que pensa e vai dizendo.
*
Decerto, algo terá de meritório,
Apesar de, ao descrer do que vai crendo,
Não mais ser do que um esboço introdutório
De algo que cura ainda que doendo...
*
Poeta é mesmo assim; sente e consente
A cada poema a estranha primazia
De se afirmar poema quando é gente
*
Que entende entrar em estreita sintonia
Com o que ousar explanar e, de repente,
Renasce transmutada em poesia.
*
Maria João Brito de Sousa - 15.04.2016 - 16.08h
(Reformulado)
"Noite Estrelada" , Vincente Van Gogh

NÃO ME PEÇAS PRA SER QUEM NÃO SOU
*
Não me peças pra ser quem não sou,
Nem me colhas, de ramo enxertado,
Um só fruto dos frutos que dou
Sem que esteja tingido e dourado,
*
Tão maduro do sol que o dourou
Que se of`reça aos teus lábios, ousado,
Sem pôr culpas na mão que o cortou,
Nem remorsos por tê-la tentado.
*
Não me fales de sedes! Não cedo
A caprichos e sedes tão poucas;
De outra sede fecunda procedo
*
E se as sedes que trazes são loucas,
Também esta que cresce sem medo
Expressa as sedes de muitas mais bocas.
*
Maria João Brito de Sousa - 23.04.2016 - 22.09h
*
(Soneto em verso eneassilábico)
Imagem -"El Triunfo de la Revolución", Diego Rivera

DE MUSA - OU ESTRO - SOBRE CAVALO SELVAGEM
*
Pérolas eu daria, se as tivera,
A quem viesse ler-me e me escutasse,
Mas toda sou poema em desenlace
Que de lápide alguma fica à espera.
*
Serei a terra que alimenta a hera,
Ou pó que alguém sobre ela derramasse...
Que importa que a velhice me ameace
Se já tão longe estou da Primavera?
*
Porcos não tenho e pérolas, tão pouco...
Nada tenho pr`além de Musa... ou Estro
E - quem sabe? - um cavalo feito louco
*
Galope na vertigem que lhe empresto;
Sem saber se o acalmo ou se o provoco,
Faço o que posso pra negar-lhe amestro...
*
Maria João Brito de Sousa- 12.05.2021 - 10.04h

PRELÚDIO(S) & DESENLACE(S)
*
- Soneto e Sonata-
*
Vê, no soneto, que, ao tecê-lo, o escando
Como se em instrumento musical
O fosse, nota a nota, exp`rimentando
Até que me soasse menos mal.
*
Outros há que em mim explodem, reboando
Qual trovão que anuncia o temporal
Que, num crescendo, vem relampejando,
Impor-me uma Sonata acidental
*
Que não sei por que surge, nem sei quando,
Mas que sei, vez por outra, ser fatal
Nascer-me do que então estiver pensando,
*
Para, a seguir, deixar-me em estado tal
Que nem eu própria sei se a estou tocando
Ou se é dela o domínio instrumental.
*
Maria João Brito de Sousa - 01.06.2016

PREÇOS...
*
Que força tinha na ponta dos dedos!
Que firmeza e que humana lucidez
No quanto dissertou daquela vez
Em que evocou a vida e seus segredos...
*
Ah! Tudo quanto fez, fê-lo sem medos,
Nem sonhando que houvesse insensatez
Que confrontasse o tanto que então fez
E ousasse condená-lo a tais degredos.
*
Escreveu, tão só escreveu, nunca sonhou
Quanto iria custar-lhe o que criou
Ou quanto o não pensou quem deveria
*
E agora, amigos meus, nem sequer cria
Por culpa desse instante em que voou
E, depois, ao silêncio o condenou.
*
Maria João Brito de Sousa - Março, 2016
*
In A CEIA DO POETA (inédito)
*
Trabalho ligeiramente reformulado

Queira ter a bondade de ler aqui

QUANDO VIERES POR MIM
*
Coroa de Sonetos
*
Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
*
1.
*
Quando vieres por mim, logo à noitinha,
Com o teu negro manto aveludado,
O teu trágico ceptro de rainha
Não me achará tremendo ajoelhado:
*
Estarei escrevendo a derradeira linha
Do terceto final deste meu fado
Que mais ninguém lerá. Quem adivinha
O futuro de um verso assim negado?
*
- Volta num outro dia... ou mês, ou ano!
Olhar-me-ás atónita, bem sei,
Pois nada disto estava no teu plano...
*
Pressuporás que também eu sou rei
E partirás pra não causar-me dano:
Se dano houve, eu próprio o provoquei.
*
Maria João Brito de Sousa - 05.05.2021 - 13.12h
***
2.
"Se dano houve, eu próprio o provoquei"
morbidamente quase, quase louca...
Que sensação perversa que inventei
quando, em vez de beijar, mordi a boca.
*
E, com os lábios fechados, intentei
dizer palavras que tem eco a ôca
porque, sem ter pincel, assim pintei
as telas que da vida são já pouca.
*
Se querem ver-me apenas na roupagem
no corte de um cabelo, estilo pagem
e na curva da anca desnudada,
*
Recomendo que venham de passagem
porque eu sou vento, nunca fui aragem:
Voo sem asas seja bruxa ou fada.
*
Laurinda Rodrigues
***
3.
*
"Voo sem asas seja bruxa ou fada",
Far-te-ei levitar quando eu quiser
E quando me trespassa a tua espada,
Só por instantes me verás sofrer;
*
Terei morrido um pouco, um quase nada,
Pra noutro quase nada reviver...
Sei bem que voltarás, que é denodada
A tua força e enorme o teu poder.
*
Venci-te quatro vezes, mas sei lá
Qual de nós vence a próxima batalha...
Sei bem que não és boa nem és má,
*
Que, ao matar, não cometes uma falha,
A menos que te encontres com quem vá
Tecendo a própria Vida, malha a malha.
*
Maria João Brito de Sousa - 05.05.2021 - 15.50h
***
4.
*
"Tecendo a própria Vida, malha a malha"
é o que fazemos todos, distraídos...
Às vezes, serenidade é que nos falha
para saudar a morte, divertidos.
*
Tratam a morte como fora tralha
porque acabou o gozo dos sentidos;
mas afinal o corpo é que atrapalha:
o corpo é o centro dos gemidos.
*
Glorifiquemos, pois, a nossa alma
que tem, em si, potencial da calma
que atravessou o medo de morrer...
*
Não tratemos o medo como um trauma!
Olha a linha da vida em tua palma
e vais contar os anos para viver!
*
Laurinda Rodrigues
***
5.
*
"E vais contar os anos pra viver(!)"
Embora esteja, a minha, retalhada
E tão sumida que a mal posso ver,
Se bem que já não veja quase nada...
*
Só nestes dedos meus posso inda crer
Já que, encontrando a tecla procurada,
Vão imprimindo o verso que nascer
Da minha mente sempre apaixonada
*
Por palavra plasmada numa ideia
Cuja sonoridade ecoe em mim,
Depois... de novo a chama me incendeia
*
E tudo ocorre exactamente assim;
Qual borboleta em torno de candeia,
Vou viver deslumbrada até ao fim!
*
Maria João Brito de Sousa - 05.05.2021 - 20.53h
***
6.
*
"Vou viver deslumbrada até ao fim":
O caminho é tão belo, que antevejo
reencontrar, bem perto de mim,
aqueles a quem quisera dar um beijo.
*
E, numa dança nua, sem que o pejo
venha repudiar-me ser assim,
eu, a deslumbrada, só desejo
ter o perfume doce de um jasmim.
*
E, perfumada a flor, mesmo distante,
irão reconhecer-me nesse instante
porque a morte não mata a identidade.
*
Medo? Afinal, é medo de um mutante
que percorreu a vida como errante
sem saber até hoje O QUE É VERDADE.
*
Laurinda Rodrigues
***
7.
*
"Sem saber até hoje o que é VERDADE"
Vivemos todos nós, ó morte certa;
É, na verdade, eterna a descoberta
Desta nossa infinita insaciedade.
*
Quanto mais se procura mais se evade
Por uma porta que está sempre aberta;
Tentar segui-la é viver sempre alerta
E conquistá-la é dar-lhe liberdade.
*
Morta, a identidade é transmutada
No bolo alimentar da própria vida;
Só a memória fica, ou não, plasmada
*
Nos que vão adiando essa partida
Pró reino da matéria inanimada
Que, tarde ou cedo, é coisa garantida.
*
Maria João Brito de Sousa - 06.05.2021 - 11.02h
***
8.
*
"Que, tarde ou cedo, é coisa garantida"
pois, antes de nascer, quem perguntou
se eu queria ser um Ser no seio da vida
com forma do humano que é que sou!
*
Terei sido uma forma consentida
que qualquer outro Ser encomendou
e, de repente, viu-se de partida
para um ventre materno que o gerou?
*
Quero saber! Exijo que alguém diga:
tenho direitos que este mundo obriga
e o pensamento apenas não me basta!
*
Ouço uma voz, sem nexo, que desliga
entre ser uma águia ou ser formiga
como um` alma imortal que, em terra, pasta.
*
Laurinda Rodrigues
***
9.
*
"Como um` alma imortal que, em terra, pasta"?
Se é essa a tua busca, já foi minha
Quando era tão, mas tão pequenininha
Que mal recordo a minha imagem gasta...
*
Era uma cria humana, ingénua e casta
Filosofando como quem gatinha;
Não perguntava, lia! Quem detinha
Uma mente a quem nunca a crença basta?
*
Bem cedo o descobri; tudo é mudança!
Tudo é passagem, transitoriedade,
E apesar de ser uma criança
*
Abracei logo a relatividade,
Na evolução pus toda a confiança
E entendi que há um fim prá identidade.
*
Maria João Brito de Sousa - 06.05.2021 - 13.17h
***
10.
*
"E entendi que há um fim prá identidade"...
Mas que fim? que razão? onde a encontraste?
É só por seres diferente da unidade
que, em tantos outros tempos, reclamaste?
*
Olhando os demais seres que já olhaste
e aceitando a reciprocidade,
em que parte de ti tu validaste
que és um Ser diferente na verdade?
*
Pergunto tantas vezes o que somos
De onde viemos e porque nos impomos
o ver nos outros o que somos nós,
*
Que já nem sei se só seremos gnomos
ou, pior!, seremos tão só momos
de extra-terrestres com a nossa voz.
*
Laurinda Rodrigues
***
11.
*
"De extra-terrestres com a nossa voz",
Talvez irmãos da Fada-dos-Dentinhos,
Primos do Quebra-Nozes que, sem noz,
Desistiu de dançar pr` assaltar ninhos...
*
Podemos até crer em rios sem foz,
No Lobo Mau e até nos três porquinhos,
Mas eu prefiro crer que somos nós
Feitos de nervo e carne sobre ossinhos.
*
Nunca te impus aquilo que aprendi;
Crerás em quanto entendas poder crer
E eu crerei naquilo que escolhi.
*
Extra-terreste? Não, não posso ser!
Foi no planeta Terra que nasci,
Sou, portanto, terrestre até morrer.
*
Maria João Brito de Sousa - 06.05.2021 - 20.38h
***
12.
*
"Sou, portanto, terrestre até morrer"
mas sempre interligada com o luar
que me inspirou a Musa acontecer
sem que deixe de amar a luz solar.
*
Não faço caminhadas a correr
porque o meu corpo desistiu de andar:
estou aqui a cantar e a escrever
até deslumbramento terminar.
*
E, então, deixo invadir serenidade
no espaço do vazio dessa verdade
de ter amado tanto e ser amada...
*
Não tenho nem desejo, nem saudade:
sou toda uma expressão da eternidade
que, depois de se abrir, ficou calada.
*
Laurinda Rodrigues
***
13.
*
"Que, depois de se abrir, ficou calada"
Porque a morte é silêncio e paz imensa,
Mas, quando viva, deixaste pegada,
Como outro qualquer ser que sente e pensa
*
E nada disto é coisa imaginada
Que essa pegada é muito mais intensa
Do que o vôo ideal de qualquer fada
E nem o Tempo a torna menos densa...
*
Vês as marcas do Tempo no teu rosto?
Tal como a ti os anos te moldaram,
Também moldaste tu. Foi-te isso imposto.
*
Sem que o sonhasses, teus rastos ficaram;
Perduram, na alegria e no desgosto,
Os traços que os teu pés e mãos gravaram.
*
Maria João Brito de Sousa - 06.05.2021 - 22.32h
***
14.
*
"Os traços que os teus pés e mãos gravaram"
no chão imaginário da poesia,
mesmo depois de Ti no chão ficaram
porque de Ti ficou toda a energia.
*
Uma energia que os dias não contaram
porque não tem relógio a fantasia
nem há tempo para os traços que traçaram
a rede mágica, que ficou vazia.
*
Não há rosto com rugas no Outro Eu
que te acompanha como fosse céu
onde uma lua enorme se avizinha...
*
Olhas para mim? Para este corpo meu?
Achas que alguma coisa se perdeu
"quando vieres por mim, logo à noitinha"?
*
Laurinda Rodrigues
***
Trabalho em pré-edição
Reservados os direitos autorais

O GRANDE FESTIM
*
Pegaram numa ideia muito em voga,
Levaram-na a jantar à luz de velas,
Vestiram-lhe uma longa e branca toga,
E ofertaram-lhe incensos e pagelas.
*
Bem perto, uma outra ideia dialoga
Usando frases curtas e singelas
Com alguém que, na altura, a interroga
Sobre a longevidade das estrelas...
*
Era o grande festim espiritual
Na mesa do planeta efervescente;
Já se tornara, então, habitual
*
Celebrar-se a palavra omnipresente
E não mais se distingue o que é banal
Daquilo que se atreve a ser dif`rente.
*
Maria João Brito de Sousa - 07.05.2021 - 09.22h

Imagem retirada daqui
NÃO ME ACORDES
*
Não me acordes agora, que os acordes
Que não soubeste ouvir, são feiticeiros
Uivando como lobos verdadeiros,
Ainda que de mim sempre discordes...
*
Se lobo te imaginas e me mordes,
Ferir-me-ás de morte e des-inteiros
Terão ficado os versos companheiros
Do espanto naufragado em que me abordes.
*
Não, hoje não me acordes nem me tomes
Por escrava das crenças que são tuas!
Não quero, nem consinto que me domes
*
A vontade que trago nas mãos nuas
E assim que aos versos do meu sonho assomes,
Mais não verás que sóis gestando luas.
*
Maria João Brito de Sousa - 05.05.2021 - 10.54h

QUANDO VIERES POR MIM
*
Quando vieres por mim, logo à noitinha,
Com o teu negro manto aveludado,
O teu trágico ceptro de rainha
Não me achará tremendo ajoelhado;
*
Estarei escrevendo a derradeira linha
Do terceto final deste meu fado
Que mais ninguém lerá. Quem adivinha
O futuro de um verso assim negado?
*
- Volta num outro dia... ou mês, ou ano!
Olhar-me-ás atónita, bem sei,
Pois nada disto estava no teu plano...
*
Pressuporás que também eu sou rei
E partirás pra não causar-me dano;
Se dano houve, eu próprio o provoquei.
*
Maria João Brito de Sousa - 05.05.2021 - 13.12h

QUIMERAS, NÃO
*
Coroa de Sonetos
*
Custódio Montes e Maria João Brito de Sousa
***
1.
*
Quimeras não mas astro que flameja
Entre astros que alumiam cintilantes
Com luzes bem visíveis divagantes
Que vencem com valor toda a peleja
*
Nos temas que enuncia e que verseja
Tão claros, tão ricos, importantes
Sentimo-nos poetas militantes
Nas causas que nos traz e nos enseja
*
Não diga mal de si, diga a verdade
Mostrando no poema a realidade
Que toda a gente ao lê-la adivinha
*
As coisas que nos diz na poesia
Só nos trazem prazer e alegria
E o condão do poder duma rainha
*
Custódio Montes
***
2.
*
"E o condão do poder duma rainha"
Que a ser rainha sempre se recusa,
Já que obreira quer ser. E de alma lusa,
Tecedeira sem fuso ou roca ou linha
*
Com que remende a dor da terra minha
Que, desde o berço, de mim fez reclusa;
Quimera me achei hoje e logo a Musa
Veio acudir, tal qual fada-madrinha
*
Vestindo a pele de um homem, desta vez,
Exigindo-me alguma sensatez
E negando a Quimera em que me espelho
*
Porém, se num repente, assim me vi,
Foi no olhar de quem eu concebi
Que encontrei, reflectido, este assemelho...
*
Maria João Brito de Sousa - 02.05.2021 - 22.34h
***
3.
*
“Que encontrei, reflectido, este assemelho”
Se olhar com atenção, repare bem,
Em tudo o que lá vê, verá também
Mas veja ao pormenor, limpando o celho
*
Que aquilo que reflete o seu espelho
É sim a tal rainha que lá tem
E que bem lá no fundo o que contém
É uma mestre a dar-nos seu conselho
*
Porque aquilo que observa e nos diz
No conteúdo e forma é tão feliz
Artístico e ledo e até com gana
*
Que toda a gente vê e não só eu
Até mesmo que olhada por plebeu
Vê bem que a sua escrita é soberana
*
Custódio Montes
3.4.2021
***
4.
*
"Vê bem que sua escrita é soberana",
Embora ela se sinta a mais plebeia
De todos os plebeus, já que a norteia
O leme firme de uma mão humana.
*
Ainda que, em quimera, surja insana
E crua para o mundo que a rodeia,
Não passa de um reflexo. Quem cerceia
O amor paradoxal que dela emana?
*
De mim não falarei; só da Quimera,
No reflexo fugaz que se apodera
Dos versos de um soneto inesperado
*
No qual se reconhece por segundos
Como se fera vinda de outros mundos
Reflectidos em espelho embaciado.
*
Maria João Brito de Sousa - 03.05.2021 - 12.40h
***
5.
*
“Reflectidos em espelho embaciado”
Muitos egos eu vejo suceder
Aqui eu vejo um ego a merecer
Louvores e um trajecto consagrado
*
Quimera porque não que é versado
Aquele que tão bem sabe escrever
Inventa meio mundo e o saber
Nos seus versos está bem espelhado
*
Um astro só se mostra e sabe estar
Sem que seja preciso demonstrar
A luz que lhe irradia ao seu redor
*
Falar de si, falar de poesia
A gente sente logo esta magia
De ver à nossa volta só esplendor
*
Custódio Montes
3.4.2021
***
6.
*
"De ver à nossa volta só esplendor"
Tal qual nos versos seus eu vejo agora;
De si a poesia se enamora
E até canta a Quimera o seu amor...
*
Bate as asas de drago ou de condor
E retorna ao seu mundo que é de outrora;
Por cá fica a poeta, a que labora,
A que ao soneto of`rece o seu melhor,
*
Sem honras de rainha, que as não quer,
Nem jóias, nem tesouros, nem poder
Que não seja poder escrever assim,
*
Compondo imaginárias sinfonias
Plenas de conteúdo, não vazias,
Porque não há vazios dentro de mim!
*
Maria João Brito de Sousa - 03.05.2021 - 14.50h
***
7.
*
“Porque não há vazios dentro de mim!”
Mas há a completude e a firmeza
Que nos revela bem essa certeza
De ver nos seus escritos um jardim
*
Com flores glamorosas de jasmim
Vermelho escarlate framboesa
Espelhados à volta com beleza
Histórias e contos de Aladim
*
Poemas de rainha inaltecidos
Que nos levam ao céu engrandecidos
Mostrando-nos veredas e as metas
*
Para ficarmos juntos e andar
Com musa ou sem musa e a sonhar
Os sonhos que nos mostram os poetas
*
Custódio Montes
(3.5.2021)
***
8.
*
"Os sonhos que nos mostram os poetas"
São bastas vezes lírios, dos campestres,
Ou são arbustos de amoras silvestres,
Torgas erguidas como linhas rectas,
*
Rubras papoilas, frágeis violetas
E flor`s de ortiga belas, mas agrestes...
Das mais modestas coisas nascem mestres
Grandes no traço e ricos nas paletas.
*
Não sei qual foi a Musa que nos coube
E só a mencionei porque não soube
Melhor explicar o fluir do face-a-face
*
Entre os seus versos e os que vou compondo
Até fechar-se o aro bem redondo
Que é, da Coroa, o grande desenlace.
*
Maria João Brito de Sousa - 03.05.2021- 17.24h
***
9.
*
“Que é, da Coroa, o grande desenlace.”
A coroa é nome nada mais
E sem poemas não o é jamais
Os poemas é que mostram sua face
*
Os temas esses dão-lhe o seu realce
E quando escolhidos dão sinais
Do belo, sendo às vezes doutrinais
Num rumo que se tenha e se trace
*
A musa vem às vezes outras não
E quando assim for o poeta então
Terá que lançar mão do improviso
*
E noutras tem então que disfarçar
Para a sua fraqueza não mostrar
E dá todas as voltas que é preciso
*
Custódio Montes
3.5.3021
***
10.
*
"E dá todas as voltas que é preciso",
Mas se é preciso voltar à quimera,
Deixemos de a tratar como uma fera
Com três cabeças e nenhum juízo
*
Cujo significado anda indeciso
Entre mostrengo e fantasia mera;
Pode ser quanto a nossa mente gera
Tal como Eva e Adão no Paraíso...
*
Assim volta a quimera a estar connosco,
Não mais na forma de um mostrengo tosco,
Pois redimida do seu estranho aspecto
*
Passou agora a mito ou fantasia,
Coisa irreal que qualquer mente cria
Mas que é muito dif`rente de um projecto.
*
Maria João Brito de Sousa - 03.04.2021 - 20.13h
***
13.
*
“Do que afogar no mar a tua mágoa!”
Dizer é muito fácil, desespera
O poeta parado assim à espera.
Quando a musa me foge eu vou e trago-a
*
Agarro-a à jangada na lagoa
Mesmo que ela se faça uma fera
Depois digo com jeito: quem me dera
Que, em vez de má, amiga, fosses boa
*
Abraça-me então logo de mansinho
Eu entoo-lhe um fado com carinho
E volta ela cheia de magia
*
Gosta do tom da voz que lhe ofereço
E logo ela tece no que eu teço
Com sonho com quimera e poesia
*
Custódio Montes
*
3.4.2021
***
14.
*
"Com sonho com quimera e poesia"
Se vão tecendo as coroas, uma a uma,
Sem que nenhum de nós sequer presuma
Quão fortes laços a palavra cria
*
Nem de quem são os fios que a Musa fia
Para obter a leveza de uma pluma
E a brancura da onda feita em espuma
Que com doçura of`rece à melodia...
*
Esforço-me um pouco mais e descortino
Em cada verso um compassado hino
Que me pede que o oiça e sinta e veja
*
E, de repente, a música de fundo
Vem sobrepor-se aos sons banais do mundo;
-"Quimeras não mas astro que flameja!"
*
Maria João Brito de Sousa - 04.05.2021 - 00.00h
***
Imagem - "LÌMPORTANT C`EST LA ROSE", Maria João Brito de Sousa, 1999
(pastel de óleo e acrílico s/ papel montado em tela)
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