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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
30
Abr21

CRIVO(S) & SENTIDO(S)

Maria João Brito de Sousa

crivos e sentidos.jpg

CRIVO(S) & SENTIDO(S)
*

Não me apontem sentidos quando vejo
Que sigo um rumo próprio e produtivo
E que vou mais além, se tenho ensejo
De enchê-lo das razões de que me privo
*

Quando, num verso, encontro o tal solfejo
E, num soneto o lanço, agreste e vivo!
De assim tão vivo o ver, logo o protejo
Quer passe, quer não passe, pelo crivo
*

De quem possa julgar que o não cotejo
- embora em gesto quase intuitivo... -
Enquanto o vou escrevendo, se o desejo
*

Como sempre o desejo; sensitivo,
Ritmado - claramente! - e, como o Tejo,
Ousado, impetuoso e compulsivo.

*

Maria João Brito de Sousa - 08.09.2016 - 13.48h

*

Imagem retirada daqui

29
Abr21

IREI AONDE A MINHA MENTE FOR

Maria João Brito de Sousa

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IREI AONDE A MINHA MENTE FOR
*


Eu que nunca saí do meu país,

Só por dentro de mim me faço ao mundo;

Se acaso no que afirmo vos confundo,

Perdão, mas não lamento o que não quis,
*

 

Nem anseio fazer o que não fiz...

Cá dentro, a Terra inteira, o mar profundo

E esta embriaguez de que me inundo

Quando o corpo me escapa, por um triz,
*

 

Ao mais escarpado pico da montanha,

Ou ao abismo mais assustador

Que no meu horizonte se desenha...
*


É só imaginar que sou condor,

Pardalito, que seja, ou mesmo aranha;

Eu vou aonde a minha mente for!
*

 

Maria João Brito de Sousa - 28.04.2021 - 15.43h
*

 

28
Abr21

BANCA(S)&MERCADOS

Maria João Brito de Sousa

bancas e mercados.jpg

BANCA(S) & MERCADOS
*

 

Leveda o verso. Há raios e coriscos
Nas veias e nos nervos do poeta
Sobre o qual chovem os cifrões dos fiscos
Com juro exponencial de acção directa.
*


No bar da esquina vendem-se os petiscos
Que cozinhou Benilde, a amada neta
Do saudoso Manel dos Olhos Piscos
Que, dizia-se, fora um grande atleta.
*


Na banca, apregoando o peixe fresco,
A ti Martina com seu ar burlesco
Escama garoupas, pargos e pescadas
*


E julgo ouvir ao longe os seus pregões
Sobrepondo-se ao medo, às convulsões
E ao Super de gestão “offshorizada”.

*


Maria João Brito de Sousa – 06.08.2018 – 19.49h
***

 

27
Abr21

ALTÍSSIMA TRAIÇÃO

Maria João Brito de Sousa

françoise gillot - picasso.jpg

ALTÍSSIMA TRAIÇÃO
*


Teus versos, réus de altíssima traição
No tribunal das causas mais sagradas,
Condenaram-me o corpo a tal paixão
Que as mãos se vão perdendo, atormentadas,
*

E não encontram já satisfação,
Nem rendidas me tombam de cansadas,
Pois vão de sensação em sensação,
Loucas por sensações não exp`rimentadas
*

E conduzem-me, toda frustração,
À tentação de as ver desnorteadas
Até à mais completa rendição,
*

Pois quanto mais perdidas, mais achadas
Nessa mais que (im)perfeita condição
De, por ti, terem sido atraiçoadas.
*


Maria João Brito de Sousa - Março, 2016
*

 

In A CEIA DO POETA (inédito)

*

 

Françoise Gillot, Pablo Picasso

26
Abr21

EM CARNE VIVA

Maria João Brito de Sousa

EU,2012.jpg


EM CARNE-VIVA
*

São como sal na f rida em carne-viva,
Estas estrofes que alheada escavo,
Curvada sobre a rima, o verso à d`riva
Sobre um destroço que antes fora um cravo
*

Mas, à rotina que me tem cativa
De criação de tão amargo travo,
Veio juntar-se, abrupta e punitiva,
A sanção relativa ao desagravo
*

Da voz canónica e repetitiva
Cujo "vibrato" foi ficando escravo
Do dogma e sua ilustre comitiva
*

Que lá do topo do seu desconchavo,
Em plena (dis)função judicativa
Decreta que o que leu "não vale um chavo".
*

 

Maria João Brito de Sousa - Março 2016

In A Ceia do Poeta (inédito)

 

25
Abr21

25 DE ABRIL - Relembro

Maria João Brito de Sousa

CRAVO.jpeg

 

 

RELEMBRO

*

Relembro um rio que em gesto resoluto

Cresce em caudal e soma em quantidade

A mesma urgência com que agora eu luto

E me dá força enquanto houver vontade;

*

 

Porque um poder perverso e dissoluto

Se nos impõe, esmagando a dignidade,

Sejamos fio de outro qualquer soluto

Que, em nos enchendo, engendre outra vontade!

 *

Relembro o sangue em veias indomadas

E esta emergência em nós, sempre crescente,

Que nos transforma as mãos mais desarmadas

 *

Em espada erguida sobre o prepotente

Que ensombra as águas vivas, libertadas,

Duma outra força antiga e sempre urgente!

 *

 

Maria João Brito de Sousa – 15.04.2014 – 10.39h

*

 

Ao povo português que, desobedecendo a uma ordem directa, invadiu as ruas em 25 de Abril de 1974 e transformou um golpe militar numa verdadeira revolução.

 

23
Abr21

NANO-TRAGICOMÉDIA

Maria João Brito de Sousa

nano tragicomédia.jpg

NANO-TRAGICOMÉDIA

*
Musa e Eu
*


Desta humana tragédia que vivemos

(que a Divina, afinal,  foi só comédia...)

Não sei se bem, se mal, retiraremos;

Que (des)humana mão encurta a rédea
*


Dos libertários sonhos que tivémos

Agora extrapolados pelos "media"?

Se vamos, afinal por onde iremos

Enquanto mergulhados nesta acédia?
*


E, neste exacto ponto, a Musa pára,

Retira tudo o que foi sendo dito,

Afasta-se de pronto e faz-se cara;
*


- "Nisto que dizes, não sei se acredito,

Mas se a verdade é tua, então declara

Que foste quem a quis deixar por escrito!"
*

 

Maria João Brito de Sousa - 23.04.2021 - 10.30h

 

22
Abr21

SINESTESIA(S) II - Coroa de Sonetos - Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes

Maria João Brito de Sousa

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SINESTESIA(S) II
*

Coroa de Sonetos
*

Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes

1.
*

Vem desvendar-me a cor destes sentidos,
Deslinda-me o compasso em descompasso,
Pressente os dedos hábeis e compridos
Das mais simples palavras que aqui traço...
*

Em ti, mesmo que apenas pressentidos,
Terão a dimensão do mesmo abraço
Com que, letra por letra concebidos,
Magicamente, ou não, se abrem num laço...
*

Ah, soubesse eu que podes decifrar-me
E que, por cada letra que te estendo,
Te aponto mil razões pra adivinhar-me,
*

Ou que pudesses ver, no que desvendo,
A cor dos sons que entendem visitar-me
Na paleta do verbo em que me acendo...
*


Maria João Brito de Sousa - Março, 2016

In A Ceia do Poeta - (inédito)
***

2.
*

“Na paleta do verbo em que me acendo...”

Escrevo a tinta azul como convém

Misturo o vermelho e também

As cores que me chegam e vou vendo
*

Depois à claridade vou cedendo

Em tons que vejo e apanho nesse além

Provindo do horizonte e que me vem

Das imagens que chegam e vou lendo
*

Palavras que componho em harmonia

Com tudo o que me vai no coração

À paleta dou luz, sinestesia
*

Envolta numa troca de oração

Tentando que esta minha poesia

Não me fuja nem entre em contramão
*

Custódio Montes

20.42021
***

3.
*

"Não me fuja nem entre em contramão"

Verso que das entranhas me nasceu,

Tal como das entranhas nasci eu,

De minha mãe, depois da gestação...
*

Há sempre um tom escondido na canção

Que a paleta dos versos prometeu

E canta cada cor que se escondeu

Na palma agora aberta desta mão.
*


As letras são pequenas criaturas

Que se juntam em grupos coloridos

Para formar orquestras e pinturas
*


Que são captadas pelos meus sentidos

E que ao som de invisíveis partituras

Subvertem mil princípios estatuídos.
*


Maria João Brito de Sousa - 20.04.2021 - 17.33h

***

4.
*

“Subvertem mil princípios estatuídos.”

Mas sem essas palavras que seria

Nada mais que um montão, cacofonia

Sem grandes pensamentos construídos
*


Agrupadas em tons bem coloridos

As palavras contêm a melodia

Que ouvimos e nos trazem alegria

Mantendo-nos no sonho embevecidos
*


As letras são as cores das palavras

Que enfeitam a conversa e a nossa vida

São sementes que crescem entre as lavras
*

Pintada a palavra é colorida

Nunca deteriora ou escalavra

O tema (em) que, com cor, fica inserida
*

Custódio Montes

20.4.2021
***

5.
*

"O tema (em) que, com cor, fica inserida"

Transmuta-se em cenário ou em paisagem

E faz, cada palavra, uma viagem

Em direcção à terra prometida
*


Que é um soneto quando ganha vida

E, embora formal, vibra selvagem,

Metade som e outra metade imagem

Numa duplicidade garantida...
*

Minh` âncora é também isto que faço

E a minha barca, que nasceu comigo,

Faz-se num dia ao mar e noutro ao espaço
*

Sem ter destino nem porto de abrigo;

Mil sensações nascendo em cada traço

E esta semi-cegueira - o meu castigo!
*


Maria João Brito de Sousa - 20.04.2021 - 18.49h
***

6.
*

“E esta semi-cegueira - o meu castigo”

Mas eu nessa cegueira vejo luz

E ao ver tudo tão claro isso seduz

E corro sem saber se o consigo
*

Mas se falhar, amiga, é cá comigo

Porque esta desgarrada que propus

A novas árias lindas me conduz

E corro indiferente no perigo
*

O jogo das palavras traz encanto

Alumia a candeia ao pensamento

E ao vir a ideia então eu me levanto
*

Afasto as amarguras e o tormento

E fico tão contente no meu canto

Que sou muito feliz nesse momento
*

Custódio Montes

***
7.
*
"Que sou muito feliz nesse momento"

Em que o verso me nasce e, sem travões,

Bem mais depressa voa que os tufões

Não causando, contudo, sofrimento
*


Que o verso é sábio, mago e tem talento;

Por tudo e nada se exalta em paixões

E arrebata os nossos corações

(embora o meu já esteja sonolento...)
*


Como é dif`rente escrever devagar

De escrever a galope, à rédea solta...

Amanhã voltarei a galopar!
*


Sumiu-se-me a visão. Hoje não volta,

Mas amanhã, assim que eu acordar,

Renascerá, embora em névoa envolta!
*


Maria João Brito de Sousa - 20.04.2021 - 21.05h
***

8.
*

“Renascerá, embora em névoa envolta!”

Às vezes com um olho é-se rei

E mesmo assim governa ele a grei

E anda toda a gente à sua volta
*


A palavra é assim e anda à solta

Mas ordenada bem como é de lei

É monumento em si como logrei

Ver na forma tão bela como a escolta
*


Queixume muitas vezes é a mais

A névoa não impede o seu valor

A palavra consigo tem ramais
*


Que expressam pensamentos com fulgor

Em poemas que são monumentais

Em tudo que lhes dá com tanto amor
*


Custódio Montes

20.4.2021
***
9.
*

"Em tudo que lhes dá com tanto amor",

E em dobro cada verso lhe devolve

Quando em doçura infinda se dissolve

No poema a que empresta o seu sabor.
*


Queixume? Não, pois não cedi à dor,

Cedi a uma névoa que me envolve

Quando nem mesmo o esforço me resolve

Esta impotência que já sei de cor...
*


Por tempo limitado sei vencê-la

Juntando as letras, em vez de soltá-las,

Mas quando a noite chega, ganha-me ela;
*


Só vejo nebulosas, baças, ralas,

Manchas indecifráveis sobre a tela...

Não me deixa, essa névoa, decifrá-las.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 21.04.2021 - 11.15h
***

10.
*

“Não me deixa, essa névoa, decifrá-las”

Mas sempre vê aquilo que pretende

Alcança e é sagaz como um duende

Que salta tudo em frente e até valas
*


Princesa que passeia pelas salas

E olha em redor e tudo entende

Navega sobre as ondas, não ofende

E vence sem mostrar festas e galas
*

Na cor é um matiz de muito enfeite

Adorna o seu palácio de beleza

Que olhado no seu todo é um deleite
*

Eu gosto desse tom de realeza

Nessa cama deixe, amiga, que me deite

A sentir e a olhar essa grandeza
*

Custódio Montes

21.4.2021
***

11.
*

"A sentir e a olhar essa grandeza"

Que, amigo, só no verso é bem real;

Eu sou tão pequenina e tão banal

Quão banal possa ser qualquer burguesa...
*


Mas, sim, terá lugar na minha mesa

Desde que a refeição seja ideal;

Sirvo a palavra coberta do sal

Que colho nas salinas da pobreza.
*


Se vir beleza nisto que lhe of`reço,

Ficarei tão feliz por convidá-lo,

Que da minha pobreza até me esqueço
*


E este repasto irá ser um regalo;

Aguarde-me um minuto enquanto aqueço

O manjar com que irei presenteá-lo.
*


Maria João Brito de Sousa - 21.04.2021 - 14.25h
***

12.
*

“O manjar com que irei presenteá-lo”

Amiga, que prazer em aceitar

Sentados sobre a areia junto ao mar

À tarde, à noite até cantar o galo
*

Delícias que já vejo e de que falo

E sem o condimento me escapar

Uma pinga de Dão a terminar

Só desta vez vai ver que é um regalo
*

Nas doenças nem pense que a alegria

Compensa-nos queixumes e mazelas

Junto ao mar nós os dois com a magia
*

Das ondas a vogar sob as estrelas

Do enlevo do sonho e poesia

Com odes e cantigas das mais belas
*

Custódio Montes

21.4.2021
***

13.
*

"Com odes e cantigas das mais belas"

Iremos celebrar a poesia

E ainda a singular sinestesia,

À luz das ondas e ao som das velas...
*


Saber-nos-á, esse manjar, a estrelas,

Crescerá a maré quando vazia

E arredondar-se-á a maresia

Num círculo perfeito, em nossas telas.
*


O Dão também será imaginário

E embora imaginado, embriagante;

Não mais que um golo será necessário
*


Pra trazer até nós o céu errante

Que este sistema em código binário

Engendrou para unir quem está distante.
*


Maria João Brito de Sousa - 21.04.2021 - 19.23h
***

14.
*

“Engendrou para unir quem está distante.”

E pinta na paleta as suas cores

Num quadro enfeitado com as flores

Mais belas e de aroma inebriante
*


Eu pinto as tuas mãos em tom sonante

Em ilha que me leva onde fores

A ilha desvendada dos amores

Sinestesia sim dialogante
*


E ouço uma guitarra e uma canção

Que soa suavemente aos meus ouvidos

Em decibéis que vêem e se vão
*


E este entrecruzar de sons queridos

Se os não vês a pulsar no coração

“Vem desvendar-me a cor destes sentidos”
*

Custódio Montes

21.4.2021
***

 

 

 

 

 

 

20
Abr21

SINESTESIA(S) II

Maria João Brito de Sousa

sinestesias II.jpg

SINESTESIA(S) II


Vem desvendar-me a cor destes sentidos,
Deslinda-me o compasso em descompasso,
Pressente os dedos hábeis e compridos
Das mais simples palavras que aqui traço...
*

Em ti, mesmo que apenas pressentidos,
Terão a dimensão do mesmo abraço
Com que, letra por letra concebidos,
Magicamente, ou não, se abrem num laço...
*

Ah, soubesse eu que podes decifrar-me
E que, por cada letra que te estendo,
Te aponto mil razões pra adivinhar-me,
*

Ou que pudesses ver, no que desvendo,
A cor dos sons que entendem visitar-me
Na paleta do verbo em que me acendo...
*


Maria João Brito de Sousa - Março, 2016

In A Ceia do Poeta - (inédito)

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