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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
31
Jan21

NOVOS ÓPIOS

Maria João Brito de Sousa

via-lactea-667x376.jpg

NOVOS ÓPIOS
*

Fechados sobre nós próprios,
Todos nós somos saudade
Do tempo em que a liberdade
Dispensava microscópios.
*
Inventamos novos ópios
Pra vencermos a ansiedade
Destoutra realidade
De incerteza e estetoscópios.
*
Criamos caleidoscópios
Para enganar a vontade
De usarmos osciloscópios
*
Pra sondar quem nos invade;
Só dos grandes telescópios
Se vislumbra um céu que agrade.
*

Maria João Brito de Sousa - 31.01.2021- 13.00h

***

Imagem retirada daqui

29
Jan21

DESVARIO

Maria João Brito de Sousa

ESSÊNCIA.jpg


DESVARIO

*

Passa tranquila, a noite, acorda o dia

De cinzento vestido. Em pleno inverno

O cinzento é padrão comum, moderno,

Sem etiqueta mas com garantia
*

De chuva, de gelada ventania,

De um temporal que me parece eterno...

Aberto sobre o colo, o meu caderno

Pede, apesar do vento, a poesia.
*

Zune o vento e as palavras vão nascendo

Uma atrás de outra como um longo fio

Que as minhas mãos geladas vão estendendo
*

Num hábil gesto que resiste ao frio

E as encadeia como se tecendo

A tosca manta deste desvario.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 29.01.2021 - 13.59h

28
Jan21

MADEIRO A MADEIRO

Maria João Brito de Sousa

17201125_1490255597665716_7555104961541669530_n.jp*

MADEIRO A MADEIRO


*

Cerra-se a janela, abre-se o postigo

De um versejo antigo... talvez a sequela

Dessa caravela qu`enfrentou o perigo

Sofrendo o castigo no casco e na vela.
*

Que sina era a dela? Que estranho inimigo

Lhe negara abrigo durante a procela?

E perco-me nela, e levo-a comigo

Crendo que consigo em mim protegê-la.
*

Volto a reerguê-la. Madeiro a madeiro,

Moldo o casco inteiro. A vela enfunada

Contempla, encastrada, uma estátua de arqueiro
*

Que em gesto certeiro rasga a madrugada

Abrindo uma estrada. Finda o cativeiro

Em que o nevoeiro a deixara encalhada.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 28.01.2021 - 12.19h

27
Jan21

CORAGEM, JOAQUIM!!!

Maria João Brito de Sousa

eu e Joaquim, no Palmeiras.jpg

CORAGEM, JOAQUIM!!!
*

Coragem, irmão dos mil versos cantados!

Por todos os lados, erguidos do chão,

Estão hoje e estarão sempre os olhos focados,

Jamais resignados de uma multidão
*


De amigos armados de um só coração

De amor, de atenção e de infindos cuidados

Que os vírus malvados nunca afastarão;

Tu vais ficar são e nós aliviados
*


Dos dias passados, do temor sentido...

Sim, sempre é temido vírus tão tremendo

E eu vou estremecendo por ter percebido
*


Ter-te acometido um mal tão horrendo...

Bem sei, bem te entendo, meu amigo qu`rido;

Estás `inda dorido... mas passa correndo!
*

 

 

Maria João Brito de Sousa - 25.01.2021 - 11.54h

 

***

 

Ao meu amigo Joaquim Sustelo que há vários dias se encontra internado no HSM, vítima do SARS-CoV-2.

26
Jan21

COROA DE SONETOS - Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues

Maria João Brito de Sousa

dia-cinzento-wallpaper-21873.jpg

A SANGUE-FRIO
*

Longos, longos dias de cinza vestidos
São tão mais compridos quão mais são vazias
As horas tardias dos tempos perdidos
Sem versos corridos e sem melodias.
*

Sem fugas, sem vias, nem novos sentidos,
Alastram sofridos tédios, agonias,
Neutras sinfonias de sons repetidos
Tão só pressentidos, se acaso os ouvias.
*

Eis as pandemias tiranas e cruas
Que invadem as ruas, as casas, os quartos...
Medrosos mas fartos, lançamos-lhes puas,
*

Compramos gazuas, sonhamos com partos,
Sofremos enfartos gemendo em cafuas;
Ó almas já nuas, seremos lagartos?
*


Maria João Brito de Sousa - 23.01.2021 - 11.50h

***

2.

"Ó almas já nuas, seremos lagartos?"

Porque subvertemos o quente no frio?

Porque, dos abraços, já ficamos fartos?

Porque esvaziamos as horas a fio?
*

Temos inda alma, que gerou os partos

de belos poemas, que falam do rio

que corre para o mar, sem medo de enfartos,

porque enfrenta a vida como um desafio.
*

E, todas as noites, que cruzam as ruas,

onde corpos sonham com as almas nuas

e contam relatos de um segredo eterno,
*

são esboços de luz em pinturas cruas

de mãos que procuram encontrar as tuas

para apagar o mal que vem do inferno.
*

Laurinda Rodrigues

***

3.

"Para apagar o mal que vem do inferno"

No castigo eterno, supremo e total,

Deduzo, afinal, que esse vírus hodierno

Seja o subalterno de algo mais letal.
*

Procuro um sinal neste gélido inverno

Manchando o caderno de esboços sem sal...

Não mais que o normal de um sorriso fraterno

Que às vezes alterno com algo irreal
*

E um astro ideal, um lampejo, um fulgor

Engendra o calor onde o frio era a lei!

As coisas que eu sei transformar em amor
*

Retomam vigor como tanto esperei

Assim que as soltei sem ter medo ou pudor...

O inferno era a dor à qual não me verguei!
*


Maria João Brito de Sousa - 23.01.2021 - 16.03h

***

4.

"O inferno era a dor à qual não me verguei"

com força subtil, que cresceu num espaço

no qual fui nascida e mais tarde testei

lutando com a mente para criar o laço
*

com a humanidade, a quem sempre honrei,

mesmo quando, só, lhe pressinto o passo

à beira da casa, onde pernoitei,

quando, dentro dela, não havia espaço.
*

E assim caminhando, sem saber porquê,

para onde me leva a minha amargura

de aqui estar parada e quase não vê...
*

Sou ainda luz numa noite escura

que ouve o destino, porque não o lê,

bebendo-lhe o sangue, de tanta secura.
*

Laurinda Rodrigues

***

5.

"Bebendo-lhe o sangue, de tanta secura"

Que cresce e matura deixando-a exangue;

Mesmo que se zangue com tanta tortura,

Nenhum mal tem cura se é qual bumerangue...
*

Perdida no mangue apenas procura

Fugir à loucura, escapar-se do gangue;

Derrama o seu sangue por medo ou bravura?

Não sabe ser dura, por mais que se zangue
*

E ainda que o mangue seja o seu abrigo,

Ao ver-se em tal perigo, procura a saída;

Fará pela vida, com ou sem castigo!
*

Rejeita o jazigo, despreza a jazida

Que lhe era devida. Espreitou ao postigo

Quando o inimigo perdeu a corrida.
*


Maria João Brito de Sousa - 23.01.2021 - 19.05h

***

6.

"Quando o inimigo perdeu a corrida"

tu estavas presente, com aclamações:

tinhas uma túnica de negro vestida

e, ao peito, flores, símbolo de brasões.
*

Brilhavas ao sol, como divertida

embora sofrendo loucas emoções

e fazias versos de elegia à vida

onde, resguardadas, vibravam paixões.
*

A tua alma dança num desejo ardente

de voltares a ser Aquela que eras

num corpo sadio e olhar diferente...
*

Que não teme pragas que se tornam feras

e arroja para longe os dramas da gente

porque entoa a voz das grandes Esferas.
*

Laurinda Rodrigues
*
7

"Porque entoa a voz das grandes Esferas"

Fruindo as esperas, desfazendo os nós,

Descobrindo os prós nas contra-quimeras,

Sondando outras eras, voando em cipós,
*

Guiando os trenós por atalhos de feras,

Fintando as panteras que em salto veloz

Serão teu algoz se as não vês, nem superas;

Tão só te esconderas e a sorte era atroz...
*

Mas nós somos nós! Em catorze versos

Há mais universos dos que os já sonhados,

Que os sonhos são fados nos astros dispersos
*

E às vezes imersos vulcões conturbados

Do chão levantados; gigantes perversos,

Ou crias em berços recém conquistados?
*


Maria João Brito de Sousa - 24.01.2021 - 18.30h

***

8.

"Ou crias em berços recém conquistados"

onde vão dormir um sono tranquilo

no abraço doce desses seres alados

cantando baladas para ensaiar o trilo.
*

Crias que nasceram como namorados

escondidos à noite dentro do seu silo

cheio dos perfumes por elas suados

quando de mãos dadas quiseram abri-lo.
*

Quem nos dera ser como as crias puras

que, recém nascidas e de olhos abertos

não aceitam males, nem dores, nem torturas,
*

e caminham fortes mesmo nos desertos

onde a vaguidão provoca tonturas

a todos os seres que dormem despertos.
*

Laurinda Rodrigues
*

9

"A todos os seres que dormem despertos"

Decerto encobertos, esquecidos por Ceres,

Sem quaisquer poderes, sem estarem libertos,

Deixo os desconcertos dos meus afazeres.
*

Ele há tais prazeres a ser descobertos

Por olhos abertos que, por os não teres

Se assim o escolheres, nunca os tens por certos;

Outros, mais espertos, terão quanto queres.
*

Por desconheceres, por tua vontade,

O que a liberdade te pode of`recer

Pouco irás saber sobre a humanidade
*

E que qualidade pode vir a ter

Quem olha sem ver pois de ver se evade

E nem a verdade tenta conhecer?
*

 

Maria João Brito de Sousa - 24.01.2021 - 20.30h

***
10.

"E nem a verdade tenta conhecer"

pois, o que é verdade? Alguém o afirma?

De olhos abertos mas sem poder ver

sem ouvir os sons dos versos que rima?
*

Ou será que a alma a conduz e mima

com dons invulgares que acabo de ler

quando, em conjunção, vêm ao de cima

as grandes virtudes de amar e sofrer.
*

Trago ainda dúvida se devo ser Eu

com a multidão que recusa alguém

só por não rezar os sermões do céu...
*

E, entre risadas, que o medo contém

numa confraria de rendas e véu,

agarro na cruz e levo-a pr' Além.
*

Laurinda Rodrigues
***

11.
*

"Agarro na cruz e levo-a pr` Além"

Daquilo que vem desses dias sem luz...

Não sei onde a pus! Será que outro alguém

Pensou que era um bem de valor, que seduz?
*


Maria! Jesus! Quem perder, nada tem!

Ninguém viu? Ninguém? Como vou fazer jus

Ao que me propus se não tenho vintém

E se julgo, também, que ao vê-la me expus?

*

Se a tal se reduz a tonteira que fiz,

Serei infeliz ou serei distraída?

Às vezes a vida, esquecida a raiz,
*


Faz tal qual eu fiz, deixa a gente perdida

No lar sem saída de um génio-aprendiz...

Ou fui eu que o quis e por mim fui traída?
*


Maria João Brito de Sousa - 26.01.2021 - 15.33h
***

12.
*

"Ou fui eu que o quis e por mim fui traída?"

Serei o carrasco e também a vítima?

Projeto no tempo a vida esquecida

para o meu presente ser apenas rima?
*

Rima de destino com raiz roída?

com tronco curvado na parte de cima?

com folhas caídas, com copa despida?

numa tempestade que sempre me anima?
*

Não sei as respostas. Não ouso sabê-las.

Que me importa o tempo! A glória, o poder!

Dormi ao relento coberta de estrelas...
*

E, tendo entre os dedos teclas a escrever,

Navego em imagens, que servem de velas

para toda a viagem que a vida tecer.
*

Laurinda Rodrigues
*

13.
*
"Para toda a viagem que a vida tecer"

Eu hei-de colher a folha, a fruta, a vagem,

Cada qual imagem do projecto SER

A corresponder com a minha mensagem,
*

Que isto de coragem tem de se viver

Pra se conhecer o que houver na bagagem;

Finte-se a sondagem venha o que vier

E a quem não quiser, faça-se a triagem!
*

Depois da drenagem das águas libertas

Nas folhas abertas dos livros malquistos,

Cresce a olhos vistos a tensão. Alertas,
*

Faces encobertas, mimetizam xistos

Os velhos Mephistos* de intenções incertas;

Ressonam despertas as mães dos ministros.
*


Maria João Brito de Sousa - 28. 01.2021 - 19.00h

***

* Mephisto - ver aqui, sff- https://pt.wikipedia.org/wiki/Mephisto_(aut%C3%B4mato)

***

14.
*

"Ressonam despertas as mães dos ministros"

de barriga cheia de falácias gordas

rezam orações aos pobres dos cristos

que mal podem ler as mensagens tordas.
*

Numa podridão de intenções das hordas

onde, já nascidas, cultivam os quistos

que vão projetar em todas as bordas

pedaços de estrume coroado de xistos,
*

É aqui e agora que renego o traço

que tentaram por-me colado aos sentidos:

não vou fraquejar nem tenho embaraço...
*

Olho no horizonte os sonhos vertidos

que vão relembrando, no imenso espaço,

"longos, longos dias de cinza vestidos".
*

Laurinda Rodrigues
*

("tordas" = bebedeiras

"hordas" = famílias)

 

 

 

 

 

 

25
Jan21

UM SONETO POLITICAMENTE (IN)CORRECTO, OU NÃO.

Maria João Brito de Sousa

barata.jpg

UMA BARATA NO CELEIRO
*


Não fora a barata rondar-me o celeiro,
E o maldito cheiro que assim a delata...
Ah, peste que mata! Ah, bicho rafeiro
Que destróis inteiro meu trigo! Que lata!
*


E a fava, a batata, o meu belo sobreiro?
Roeste-os, matreiro? Tornaste sucata
A nata da nata de um pão tão guerreiro?
Se de ti me abeiro, não falha a chibata
*


E se isto retrata aquilo que sinto,
Vais corrido a cinto, bicho virulento,
Vil verme sebento que quero ver extinto!
*


Não senhor, não minto, nem disfarçar tento
O que vai cá dentro, mostrengo faminto
A quem não consinto um só contra-argumento!
*


Maria João Brito de Sousa - 25.01.2021 - 09.10h

23
Jan21

A SANGUE FRIO

Maria João Brito de Sousa

komodo-dragao.jpg

A SANGUE-FRIO
*

 

Longos, longos dias de cinza vestidos
São tão mais compridos quão mais são vazias
As horas tardias dos tempos perdidos
Sem versos corridos e sem melodias.
*

Sem fugas, sem vias, nem novos sentidos,
Alastram sofridos tédios, agonias,
Neutras sinfonias de sons repetidos
Tão só pressentidos, se acaso os ouvias.
*

Eis as pandemias tiranas e cruas
Que invadem as ruas, as casas, os quartos...
Medrosos mas fartos, lançamos-lhes puas,
*

Compramos gazuas, sonhamos com partos,
Sofremos enfartos gemendo em cafuas;
Ó almas já nuas, seremos lagartos?
*

 


Maria João Brito de Sousa - 23.01.2021 - 11.50h

22
Jan21

TODAY`S DARK, DARK SONG

Maria João Brito de Sousa

darkness.jpg

TODAY`S DARK, DARK SONG
(reboot)

*
Two men lost in space and time,
Hungy, thirsty and confused,
In a hidden golden mine
Took a path they didn`t choose
*

There, the sun would never shine
Nor the moonlight could have use;
Night and day just formed a line
They might not forget or loose.
*

Lost their words, they`d be no more,
Though some ghosts along the shore
Sing old songs to make them sleep
*

`Cause when beasts wake up and roar,
There`s no now, there`s no before,
Nor a dream to share or keep.
*

Maria João Brito de Sousa

21.01.21 - 21.30h

 

 

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