Maria João Brito de Sousa
SESSENTA E SEIS
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Faz anos que nasci. Mil novecentos
e, ao fim do quinquagésimo segundo,
quis o destino que eu viesse ao mundo
sem que a sorte travasse os seus intentos.
*
Corriam tempos negros e cinzentos,
dias de um medo líquido e profundo
mas, para mim, o tempo era fecundo;
Desconhecia ainda os seus tormentos.
*
Sessenta e seis já conto, conquistados
sobre um fio de navalha, à poesia...
Reconto os versos, muito bem contados;
*
São sempre menos do que eu quereria
poder somar aos dias já passados
quando não mais puder cantar, um dia...
*
Maria João Brito de Sousa – 04.11.2018 – 13.28h
publicado às 13:32
Maria João Brito de Sousa
À REVELIA DA MUSA
*
Se um verso meu veicula o que abomino,
ou não se expressa muito claramente,
nunca o que escrevo será transparente
no contexto do texto a que o confino.
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Não se adequa aquilo a que o destino,
enquanto verso, é pouco eficiente
e pode parecer-vos imprudente
gesto insolente, ou simples desatino...
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Peço desculpa. Escrevo à revelia
da velha musa, ausente em parte incerta;
Tudo quanto deixou foi rebeldia
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E a fresta da janela, entreaberta,
por onde se escapou toda a poesia
que quis segui-la, mal se viu liberta.
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Maria João Brito de Sousa – 03.11.2018 – 16.06h
Imagem retirada daqui
publicado às 16:54
Maria João Brito de Sousa
A HORA DO LOBO
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Sou um predador, mediano em tamanho,
que aguarda um rebanho, com ou sem pastor,
porque sei de cor que nada mais tenho
senão, desde antanho, estratégia e vigor.
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Sim, sou caçador. Sei que acharão estranho,
mas como me amanho se um dia o não for?
Não espero um louvor, que a aplausos desdenho;
Não venho ao que venho por ócio ou favor!
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Venho pela vida da minha alcateia
que não tem mais ceia do que a garantida
por rês que em corrida foge ao que receia;
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A fuga a norteia, nunca a acometida...
A história é sabida, mas esta odisseia
só raivas granjeia, se incompreendida.
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Maria João Brito de Sousa – 01.11.2018 – 13.05h
A Jiang Rong
Aos pastores da Mongólia
Aos lobos
publicado às 13:25