OITAVAS MUITO SOLTAS
Queira ter a bondade de ler aqui
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Queira ter a bondade de ler aqui

1969
Ao tremor de terra assinalado
Na ocidental praia lusitana,
Cujo epicentro o mar trouxe agitado
E tanta gente fez sair da cama
*
Uns sem vestido, muitos sem calçado,
E outros que até foram de pijama
Para a rua, fugindo ao sismo irado
Mais do que prometia a força humana,
*
E, sob intensa chuva, se arriscaram
A sucumbir às gripes que apanharam,
Eu canto e espalharei por toda a parte
*
Que a natureza em fúria, a “desancar”,
Bem mais sinistra foi que Salazar,
Por muito que pr´algoz lhe sobrasse arte.
*
Maria João Brito de Sousa – 28.02.1969
*
(Escrito no dia do grande sismo, aos quinze anos.
Primeira tentativa de soneto - e última até Abril de 2007 - ainda com versos eneassilábicos misturados com decassilábicos heróicos)
Imagem retirada daqui

ENTRA MOSCA OU SAI ASNEIRA
*
“Não entra mosca em boca bem fechada”
Sem duvidar que seja verdadeiro
Este paternalismo conselheiro,
Não obedeço a sorte assim ditada
*
E aceito esse risco, pois calada
Jamais irei ficar, a tempo inteiro,
Que me entra, olhos adentro, um nevoeiro
Capaz de me deixar, a mim, “moscada”.
*
Peço desculpa, caso saia asneira
Em vez de entrar a mosca varejeira
Que anuncia o prazer de uma visita...
*
Não aceito a mordaça por fronteira;
Nunca aprendi a ser de outra maneira
E, se tentar mudar, vou ver-me aflita.
*
Maria João Brito de Sousa – 14.11.2018 - 06.59h

A CARAVANA
*
Passa uma caravana. É bem visível,
nessa agónica marcha, o desespero,
pois diz-me a caravana o que não quero
sequer sonhar que possa ser possível.
*
Deixa uma caravana o ponto zero
e vence, metro a metro, um chão sem nível
do espaço que faltar pra que, invencível,
alcance a meta. Em nada me supero
*
Se apenas a descrevo e sou sensível
à voz que vou ouvindo e que me esmero
por traduzir e por tornar audível.
*
Avisto ao longe um mar que considero
ser de gente temente e não temível
e ladra um cão que me olha, enquanto a espero.
*
Maria João Brito de Sousa – 13.11.2018 – 11.22h
Imagem retirada daqui. Ler por favor.

TEIMEI...
*
Dormi por vinte horas seguidas, ou quase,
que estou numa fase de eternas demoras...
Decerto deploras que tanto me arrase,
mas tenho por base restricções motoras
*
E, às aves canoras, nunca sei se as case
com versos de envase, com rimas, com escoras...
Senhores, senhoras, que ninguém me atrase;
esgotei-me, ou estou quase. Não vejo melhoras.
*
Teimo e teimarei em ser como fui
e disto se intui que hoje não cantarei
segundo a tal lei do compasso que flui
*
E se o ritmo rui, eu culpada serei...
Sabê-lo, bem sei; nunca um poema se frui
se se substitui só por teima. E teimei!
*
Maria João Brito de Sousa – 12.11.2018 – 09.37h
(Soneto em verso hendecassilábico com rima intercalada)
Queira ter a bondade de ler aqui, se faz favor.

HISTÓRIAS DE CASAS
*
Não se alongasse tanto esta demora
do vento transformado em ventania
que açoita a velha casa já vazia
das lágrimas passadas, que não chora
*
E não se erguesse a chama que devora,
nem se infiltrasse o frio, que hoje arrepia,
a casa duraria e duraria
mais uma eternidade, a cada hora.
*
Contam histórias, as casas mais modestas,
quando as rajadas sopram pelas frestas
das janelas fechadas que estremecem
*
E, a cada sopro, um novo capítulo
Sugere, a quem lhes queira dar um título:
Bem mais são as casas do que o que parecem...
*
Maria João Brito de Sousa – 09.11.2018 – 10.48h

REGISTO PONTUAL DE UM FUTURO NÃO TÃO IMPROVÁVEL
QUANTO POSSA PARECER
*
Lembrar-te-ás do tempo em que os humanos,
pensando por si mesmos, concebiam
esboços de coisas qu`inda nem sabiam
que haveriam de vir, passados anos?
*
Lembrar-te-ás dos seus convictos planos,
da prática do amor, quando o sentiam,
das complicadas vestes que os cobriam,
dos danos que causaram? Quantos danos...
*
Bem sei que pode ser que não te interesse,
mas terão sido os nossos ancestrais,
segundo se acredita. Reconhece
*
Que ficaste a saber um pouco mais
sobre a espécie já extinta, ao que parece,
que, em tempos, foi matriz dos nossos pais.
*
Maria João Brito de Sousa – 08.11.2018 – 11.42h
Fotografia de António Pedro Brito de Sousa

PROCURO UM VERSO
*
“Procuro por um verso em qualquer canto”,
estranhando o verso não me vir chamar,
que as mais das vezes basta-me acordar
pra que um verso me acenda em puro espanto.
*
Hoje impõe-se a procura e, no entanto,
faz-se o verso difícil de encontrar,
talvez apenas pra me provocar,
talvez pra me deixar banhada em pranto...
*
Se não te encontro, por ti esperarei,
verso volúvel que te fazes caro,
mas não sabes metade do que eu sei,
*
Nem podes suspeitar deste meu faro
pr`achar, em quantos versos nem busquei,
um soneto completo, exacto e claro.
*
Maria João Brito de Sousa – 07.11.2018 – 11.28h
*
Soneto escrito a partir do verso inicial de um soneto homónimo, da autoria de MEA (Maria da Encarnação Alexandre)

AINDA ALGUMAS PERGUNTAS AO DEUS DE ESPINOZA,
QUANDO RESPONDE; “Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno. “
*
Com Espinoza fala, o deus de Espinoza
Que debita em prosa razões que não cala...
Ambos fazem gala da “ratio” preciosa
E habilidosa que de ambos se exala
*
E quase os iguala. Justa e primorosa,
sem espinhos, qual rosa, cresce e não resvala...
É doce escutá-la. De tão amorosa,
Convence Espinoza a nem questioná-la,
*
Mas eu não entendo que as falas respondam
Aos justos que tombam sem ninguém estar vendo.
Respostas pretendo, daquelas que assombram
*
E que correspondam a quem, não podendo,
Nem escolha foi tendo. Que nada me escondam,
Porque estas, sim, sondam quem for respondendo.
*
Maria João Brito de Sousa – 05.11.2018 – 15.18h
*
(soneto em verso hendecassilábico com rima intercalada)
Fotografia retirada daqui
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