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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
22
Set08

9º, 10º e 11º SONETOS DA COROA

Maria João Brito de Sousa

NÃO SEI SE EXISTO MESMO OU SE ME INVENTO...

 

No sorriso do mar, ao qual assisto,

Há cometas que passam, há sereias,

Há sonhos transmutados em ideias,

Há loucas ilusões que enfim conquisto!

 

Há conchas delicadas e castelos,

(memórias do que ainda está por vir...)

Há coisas que me fazem reflectir

Sobre o que fiz (ou não...) p`ra merecê-los.

 

No muito que me diz esse sorriso

Encontro sempre aquilo que preciso

E disso os meus poemas vão crescendo.

 

Eu e o mar! Um só e afinal

Todo este meu tesouro é irreal...

Eu nunca sei se sou ou se me invento!

 

 

AS HORAS QUE ME ABRAÇAM

 

Eu nunca sei se sou ou se me invento

Nos poemas que escrevo e que semeio...

Talvez eu seja o fruto de um anseio

A germinar em forma de talento...

 

Ou talvez seja só habilidade

Este meu enlaçar-me nas palavras...

Talvez as minhas mãos sejam só escravas

De uma outra bem maior realidade...

 

Talvez seja a vontade colectiva

Urgindo em mim, tornando-me cativa

Das letras que aqui traço e que me traçam...

 

Só sei que mora em mim, inevitável,

Uma necessidade incontrolável

De vos falar das horas que me abraçam.

 

 

NO BARRO DESTA HUMANA IMPERFEIÇÃO

 

De vos falar das horas que me abraçam,

De vos cantar a terra em que nasci

De vos mostrar o mar que traz em si

Magias que a si mesmas se entrelaçam

 

No brilho de um céu mais prometedor.

E se nisso me sei, isso é quem sou:

Abraços de um cometa que passou

E que por cá deixou rastos de amor.

 

É nesta identidade controversa,

Que aqui vos deixo, em jeito de conversa,

Que está a minha essência e explicação.

 

Se existo de verdade, eu sou assim;

Sou expressão deste Deus que habita em mim

No barro desta humana imperfeição.

 

 

Imagem - "Puberdade"

                 Pastel de Óleo

                 Maria João Brito de Sousa, 1999

20
Set08

7º E 8º SONETOS DA COROA

Maria João Brito de Sousa

VIAJAR PARADA

 

Desta alma pendular e des-inteira

Eu amo as mil raízes que engendrei

Na vertical de mim, como sonhei!

Eu, dedicada à causa derradeira,

 

Às aves que em mim poisam, aos meus frutos,

Ao vento que me embala de mansinho,

À luz que vai rasgando o seu caminho

Na terra, a pecadores e impolutos,

 

Às mil formas de vida que me envolvem,

Aos sonhos que, em nascendo, me devolvem

A força que em mim trago e me foi dada,

 

Às estrelas que me olham lá de cima

À fé que cresce em mim e que me anima

A tanto viajar estando parada!

 

O SORRISO DO MAR

 

A tanto viajar estando parada

Chamar-lhe-ão loucura (e talvez seja...)

Mas eu amo esta terra que me beija

No dealbar de cada madrugada.

  

E estendo mais e mais estes meus ramos

E fico assim feliz se frutifico!

É assim que viajo enquanto fico

E corro muito mais que os próprios gamos!

 

Não páro de correr nem um segundo!

Espalho as minhas sementes pelo mundo

E dispersa no vento é que eu existo.

 

Em frente o mar sorri, chama-me barco...

Sorrio-lhe de volta. O que eu abarco

Do mar, nesse sorriso ao qual assisto!

 

Imagem - "Potro Radiculado"

                Maria João Brito de Sousa, 1999

19
Set08

ALMA DES-INTEIRA (6º soneto da Coroa)

Maria João Brito de Sousa

 

Desde o meu primeiríssimo começo

Fui mãos sobre papel, sonhando sonhos...

Olhos distantes, negros, mas risonhos

Sonhando o que, por norma, nunca peço.

 

O que li e escrevi! O que eu não fiz

De borco, sobre o chão, entre papéis,

Rodeada de lápis e pincéis

Eu fui (como hoje ainda) a mais feliz

 

De quanto ser humano conheci!

Foi nesse mundo que me construí

À imagem da árvore primeira,

 

A que me dava sombra, fruta e luz,

A que foi arrancada e se fez cruz

Desta alma pendular e des-inteira!

 

 

Imagem - "O Pequeno Mundo dos Criadores de

                 Afectos" - Acrílico sobre tela,

                 Maria João Brito de Sousa, 2006

 

18
Set08

4º E 5º SONETOS DA COROA

Maria João Brito de Sousa

 

...MAS SÓ DEPOIS!

 

Depois de mim, na paz de outra presença,

Quando de mim sobrar recordação,

Depois, não mais o sonho será vão.

Depois, quando eu morar na luz intensa.

 

Se, por enquanto, eu passo por aqui,

Virá depois o tempo de ficar

(só é preciso Tempo, ó Deus solar!)

Neste mesmo lugar em que nasci...

 

A Liberdade, agora, é o meu rumo!

Eu sou como o Poema em que me assumo

Nesta humana e teimosa condição...

 

Virá quando quiser... mas só depois!

Porque este estranho encontro entre nós dois

Será quando mo peça o coração.

 

DESDE O MEU PRIMEIRÍSSIMO COMEÇO

 

Será quando mo peça o coração,

Quando o corpo me diga que já basta,

Quando a Morte voltar, serena e casta,

E de novo tomar a minha mão.

 

Virá, inevitável e seguro

Como o dia que um dia já passou,

Esse encontro final de quem ficou

Suspenso entre o Passado e o Futuro.

 

Se voltei foi por pura teimosia!

(talvez uma pitada de Magia

tivesse comandado o meu regresso...)

 

Quando partir será porque assim quis!

Por cá ficará tudo o que já fiz

Desde o meu primeiríssimo começo.

 

Imagem - "Os Guardadores de Luas"

                 Óleo sobre tela - 100x70cm

                 Maria João Brito de Sousa, 2006

16
Set08

EM DIRECÇÃO À MINHA NOVA VIDA (2º soneto da Coroa)

Maria João Brito de Sousa

Tão só por cá ficasse a minha pena,

Eu cantaria o Mar, a Terra, o Céu...

Depois, com esta voz que Deus me deu,

Ficaria por cá, seria eterna...

 

Tão só as minhas mãos fossem palavras,

Tão só a minha humana condição,

De súbito, ganhasse a dimensão

Quimérica, irreal das ondas bravas

 

E tudo em mim faria mais sentido

Pois valeria a pena ter vivido

mesmo passando aqui numa corrida...

 

Tão só tivesse as asas do meu sonho

Depois de abrir a porta que transponho

Em direcção à minha nova vida!

 

 

Imagem - "La Femme Qui Peint L´Enfant Éternel"

                 Acrílico sobre tela - 76x63 cm

                 Maria João Brito de Sousa, 2006

 

Nota -       Uma Coroa de Sonetos é composta por 14

poemas que têm a particularidade de se "entrelaçar" da seguinte forma:

Cada um dos catorze sonetos começa pelo último verso do poema anterior e têm uma continuidade temática.

 

Errata -      Na imagem da tela leia-se "peint" aonde diz "peinte".

14
Set08

TÃO SÓ POR CÁ FICASSE A MINHA PENA...

Maria João Brito de Sousa

Eu, por minha vontade, cantaria

A Vida até à hora derradeira!

Eu cantaria a Terra, toda inteira,

Desde o nascer do Sol ao pôr-do-dia!

 

Eu cantaria até tornar-me Terra,

Nesta alegria imensa de ser vida

E, embora doente e já vencida,

Eu cantaria a Paz vencendo a guerra...

 

Eu cantaria mais, tão só tivesse,

A força de o cantar, tão só pudesse

Transformar-me em palavra e ser Poema...

 

Eu cantaria, ainda que já morta,

Tão só viesse a morte à minha porta

Levar-me... e cá deixasse a minha pena!

 

 

Maria João Brito de Sousa - 14.09.2008 - 14.09h

 

À minha amiga Eva pela gentileza da publicação de um dos meus sonetos e porque nasceu da leitura de uma citação de Vinicius de Morais de que ela fez acompanhar esse soneto.

 

http://escritosdeeva.blogs.sapo.pt/

 

(imagem retirada da internet)

 

13
Set08

A CRUZ NO PAPEL

Maria João Brito de Sousa

Tracei a vertical de um sonho antigo

No branco do papel que me seduz.

Da linha horizontal nasceu a cruz

E, tudo o que fizer, a vós o digo...

 

Uma cruz no papel... e nasce a obra!

De um desenho imperfeito eu fiz poema...

(nada mais sei fazer, mas tenho pena

que assim me falte a mão... o sonho sobra!)

 

Eu sou esses dois traços no papel,

Traçados a caneta ou a pincel,

Como quem desenhando se descobre;

 

Dois traços definindo a vida inteira!

Na vertical de mim sou verdadeira

E, nessa horizontal, humana e pobre...

 

 

Imagem retirada da internet

 

 

12
Set08

DEPOIS DE MIM

Maria João Brito de Sousa

Estais cansados de ouvir a lenga-lenga

Daquilo que já fiz, do que não faço...

Que vos pode int`ressar o meu cansaço,

Este cantar-me até que a voz se renda?

 

Não podeis entender este feitiço

(meu estranho e voluntário cativeiro...)

De ser rica sem ter nenhum dinheiro...

Podeis olhar-me e ver um deus postiço,

 

Mas reparai; se sou quanto aqui escrevo,

Se o mundo, em mim, produz tão estranho enlevo,

Se este cantar-me é pura compulsão,

 

Podeis ler-me depois de eu ter partido,

No futuro, ideal mas pressentido,

Dos que depois de mim me seguirão...

 

Imagem - "O Filho do Homem" -

                 Acrílico sobre placa

                 Maria João Brito de Sousa -2006

10
Set08

MAR, CÉU E NATUREZA

Maria João Brito de Sousa

 

De quanta coisa neste mundo amares

Ama a centelha viva acesa em ti...

Nas coisas que estiverem por aqui,

Ama-te nos reflexos que encontrares,

 

Pois se te vês naquilo que conheces

O Mundo serás tu e tu o Mundo...

Em verdade te digo que confundo

O próprio Mundo com as minhas preces...

 

Se te encontrares no Céu, na Natureza,

Se o Mar amares serás, tenho a certeza,

Alguém que encontrou já o seu caminho

 

E, então, serás reflexo da beleza,

Desse estranho ideal que me tem presa,

E nunca mais te irás sentir sozinho...

 

Soneto dedicado ao meu amigo Fisga (Eduardo)

pois nasceu de um comentário feito por ele, em que afirmava amar o Mar, o Céu e a Natureza.

 

(Imagem retirada da internet)

 

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