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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
23
Jan09

O SEGREDO

Maria João Brito de Sousa

Sabia que teria de fazer aquela caminhada. O corpo recusava-lha, antecipando as dores, a vontade negava-se-lhe como se, repentinamente, quisesse tomar o controle de si. Mas impunha-se-lhe aquela caminhada e ela meteu pés à calçada apesar das pontadas incipientes, do frio e da chuvinha constante, irritante, teimosa.

 

No início caminhou sem maiores dificuldades do que a de sentir o corpo invadido pela teimosia da chuva que se lhe colava à roupa, num primeiro e insistente aviso. Depois foram as poucas forças que se foram gradualmente recusando a mover-lhe os passos e, logo a seguir, as dores que vieram coroar esta sinfonia de desconforto. Tornava-se-lhe o corpo pesado como uma árvore que, a cada momento, ganhasse raízes mais e mais fundas, que mais e mais profundamente a prendessem ao chão. Ah! E havia, ainda, o Segredo. O Segredo que constantemente bailava em torno dos poços de palavras - agora confusas - que lhe inundavam o corpo inteiro e lhe pediam para nascer. Não trouxera o caderninho de sonetos, mas não seria por isso… chovia demasiado para que o pudesse utilizar, de qualquer forma. Até o cheque que levava na carteira preta que trazia ao ombro, começava a perder o aspecto de coisa estéril, acabada de imprimir, deformando-se num rectângulo irregular, sob a humidade. Aconchegou ao corpo o pequeno saco negro, esperando salvar o bendito cheque daquela chuva que tudo ensopava, que começava a sentir na carne e que quase, quase a desesperava.

O cheque, - ao menos o cheque! - não poderia ficar inutilizado!

Afinal fora por ele que se metera ao caminho, apesar da chuva, das dores, do cansaço e do Segredo.

 

 

Agora eram os músculos que pareciam dormentes, entorpecidos. Nada lhe obedecia naquele corpo exausto! Fixou os olhos nas pedras da calçada e, num derradeiro e absurdo esforço, imaginou-lhes o auxílio. Observava-as enquanto caminhava. Quereria ser pedra. Quereria que as pedras com ela partilhassem a sua dureza. A angústia pareceu dissolver-se parcialmente. As palavras voltavam-lhe apesar do Segredo. Talvez exactamente por causa do Segredo.

 

Já não via as pedras nem sentia a chuva que a ensopava até aos ossos porque eram as palavras que, agora, nasciam, estranhamente negras sobre o fundo claro da calçada. Nasciam e cresciam continuando-se umas às outras, encadeadas, quase homogéneas como a ribeira zangada que corria, do lado direito daestrada que galgava a custo.

 

 Passou pela ribeira e as palavras continuaram como um outro rio. Não sabia como nasciam elas, não sabia como nascera o Segredo que ora se deixava vislumbrar com a mansidão das coisas benéficas, ora lhe surgia em lampejos de algo que quase a assustava e não sabia, por isso, definir.

 

Continuavam a fluir, em grafismos negros e distintamente traçados pelas mãos de ninguém e só o cansaço parecia, de quando em vez, sobrepor-se a elas. Não fugiam depois de surgirem. Ficavam. Permaneciam como se estivessem gravadas no espelho molhado da calçada, nos ossos que quase anestesiavam, no corpo que negava o desconforto da chuva.

Avançava agora ao ritmo dos grafismos que lhe iam nascendo, embora pontualmente cambaleasse, lhe parecesse que o chão-papel lhe fugia debaixo dos pés ou que o horizonte se lhe balançava na linha que os olhos podiam atingir.

Mais passos, mais letras. Um rio de letras, de palavras, de frases, de orações semi-conscientes. Um texto inteiro.

 

O Banco, ponto de destino, estava finalmente perto. Eram os últimos passos do último parágrafo.

A porta abriu-se automaticamente à sua aproximação e ela parou, indecisa, por segundos. Faltavam-lhe meia dúzia de letras que rapidamente se vieram juntar ao caudal daquela caminhada. Respirou fundo, retirou a bolsinha preta de sob o casaco ensopado e entrou. As pedras da calçada, a imagem da ribeira enfurecida, as raízes da árvore em que quase se transformara (ah, não fora o banco, não fora o cheque…) e o rio de palavras entraram com ela. Como uma multidão de pequenos mas irredutíveis raios de sol, entrou, também, o Segredo. A porta fechou-se. Automaticamente.

 

 

Maria João Brito de Sousa - 23.01.2009

 

"Caminhado" em direcção à http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/

 

 

Imagem retirada da internet

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