.UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
Sábado, 10 de Janeiro de 2009

UMA ESTRELA NO PONTO EM QUE SE CRUZAM REALIDADE E FICÇÃO

Decidira não morrer ainda. Ninguém lhe deu muito crédito. Afinal coubera-lhe a sorte de nascer com quatro patas e locomover-se na horizontal dos caminhos, embora com uma graciosidade que fazia inveja a muito boa gente. Mas com ou sem alheios créditos, decidira não morrer ainda.

E depois havia a Estrela. Aquela que mais parecia um cometa porque desenhava, no seu rasto, a exactíssima fronteira onde a Realidade se encontra com a Ficção.

Nesse momento pouco lhe interessava que que outros a conhecessem. Bastava-lhe partilhá-la com aquela humana que com ela coabitava.

Não fora de ânimo leve que tomara a decisão e, com o distanciamento dos dias e anos, parecia-lhe evidente que jamais a teria tomado se não fosse a tal Estrela...

Sentia e, naquele imenso universo de sensações que compunham a parte não palpável mas sensível do seu pequeno ser, surgiu, nítida, a memória de ter cumprido o seu papel de mãe. Não-biológica, é facto, mas a Estrela dos Acasos trouxera até si um filhote de alheia paridura do qual cuidara como se seu fora. Recordava-o - à sua maneira, mas recordava! - o filhote que lhe chegara cor-de-fantasma, de olhos ainda fechados às alegrias da vida, e que viera depois a desabrochar em Siamês. Mas esses pormenores pouco ou nada lhe interessavam. Fora "o seu menino lindo" durante o espaço de tempo que medeia entre o nascimento e uma adolescência que lhe conferira autonomia, força e beleza. Certo é que o aleitamento ficara por conta da outra. Da que tinha duas pernas e caminhava na perpendicular dos seus passos, mas o restante trabalho fora muitíssimo seu.

Claro que houvera períodos menos fáceis, como em todos os percursos dos sensientes. Certos momentos em que a saúde teimara em fugir-lhe com a velocidade da nortada em dia de temporal. Certos momentos em que se sentira francamente mal e invariavelmente recolhera ao seu esconderijo debaixo da cama. Estivera, mais do que uma vez, á beira da desistência... mas era teimosa. Uma autêntica cópia felina da humana que lhe dera abrigo. E havia a Estrela. Aquela que, no último momento, brilhava sempre  no ponto exacto onde se cruzam Realidade e Ficção.

Olhou-se. Ou melhor, sentiu-se. Estava fraca e vivera já mais de sete anos humanos. A maldita doença mais uma vez a atingia com o duro golpe das coisas que não sentem.

Além, um pouco além, no tal ponto onde não havia ainda chegado, a Estrela de sempre brilhava ainda. A vida apeteceu-lhe.

Sacudiu-se, deitou-se e confirmou a sua decisão de não morrer ainda.

 

 

Escrito no veterinário e nascido de uma colisão frontal da Realidade com a Ficção para a

 

http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/

 

sinto-me :
publicado por poetaporkedeusker às 00:06
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28 comentários:
De poetaporkedeusker a 10 de Janeiro de 2009 às 13:56
Obrigada, meu amigo Eduardo! E ela está mesmo melhor, embora ainda tenha um longo tratamento pela frente. Eheh... até está "esganadita" de fome, como se quisesse compensar os dias que esteve sem comer nem beber.
Um grande abraço!
De Fisga a 19 de Janeiro de 2009 às 18:43
Olá amiga João Então e como está a E. T. Espero que bem melhor. Abraço Eduardo.
De poetaporkedeusker a 20 de Janeiro de 2009 às 00:11
Está melhor, amigo, obrigada! Tem um longo tratamento pela frente e ainda não garantem nada, mas vê-se que está melhor.
Abraço grande!

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