Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

poetaporkedeusker

poetaporkedeusker

UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
23
Nov20

COISAS DE TRAVESSEIROS

Maria João Brito de Sousa

travesseiros-e1509105282975.jpg


COISAS DE TRAVESSEIROS
*


Meu travesseiro não tem sumaúma,

Por isso não me dá conselho algum

Que a sintética fibra feita em espuma

É menos tagarela que um atum...
*

Se bem que de auscultá-lo não presuma,

Tem o meu travesseiro algo em comum

Com esse seu que inspira, mas não fuma;

Ambos emitem um ténue zunzum.
*

O seu é sábio e dá-lhe mil conselhos,

O meu, co`a singeleza dos mais velhos,

Não fala nem por força da tortura!
*

Dos dois, não sei dizer qual o melhor,

Nem qual dos dois terá maior valor;

Vou rechear o meu de serradura!

*

Maria João Brito de Sousa - 14.10.2020 - 20.43h
*
 
Soneto inspirado no poema "Conselhos de Travesseiro" de Luís Santos.



 

22
Nov20

VIAGEM - COROA DE SONETOS

Maria João Brito de Sousa

viagem.jpg

VIAGEM
*

COROA DE SONETOS

*

 

Laurinda Rodrigues e Maria João Brito de Sousa

*
1
*

Desço ao fundo de mim, ao inconsciente
onde dormem vivências esquecidas.
Sei que naquilo que sou já fui diferente
e que hei-de ser diferente noutras vidas.
*

Sou toda um Uni-verso entrelaçado
de peças materiais que vão expandindo.
Fico parada a olhar o céu alado,
sentindo uma pulsão que está abrindo.
*

Meu outro Ser perdurará na luz
que me envolveu na terra feita em cruz
que não pode fugir ao seu destino...
*

Mas é aqui e agora que me afirmo:
mesmo que o corpo caia no abismo  
a alma cantará, convosco, um Hino.
*

Laurinda Rodrigues
*

2
*

"A alma cantará, convosco, um hino"

Até depois da vida anoitecer

Enquanto se souber que fui menino,

Enquanto alguém lembrar que fui mulher
*

Na memória persiste o tal destino

Que bem longo será se alguém me ler;

Assim o vejo há muito, assim defino

Viagem, vida e espanto de viver.
*

De mim, da minha própria identidade,

Terá sobrado o verso que se evade

À decomposição inexorável
*

Do que foi o meu corpo passageiro;

Cigarro aceso à beira de um cinzeiro

De porcelana breve e descartável.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 19.10.2020 - 13.43h

*

3
*

"De porcelana breve e descartável"

ouço cair estilhaços pelo chão

e um riso perverso insaciável

atravessou o espaço da Razão.
*

Talvez seja o diabo em sintonia

com a nossa condição de ser mortais

ele é sempre julgado à revelia

no tribunal dos loucos amorais.
*

Mas não se iludam! Esse demo existe

bem no fundo de nós, onde persiste

uma história de erros, frustrações...
*

Afinal, a loucura pouco importa

se é, com ela, que o poeta exorta

o mundo turbulento das paixões.
*

Laurinda Rodrigues
*

4
*

"O mundo turbulento das paixões"

Faz do Olimpo um nada, uma sequela;

No palco dos heróis e dos vilões

Desta realidade paralela
*

Há gigantes que fogem dos anões

E a Fera é perseguida pela Bela

Enquanto os anjos brincam com dragões

E a bruxa se transmuta em Cinderela.
*

No mais fundo de mim, se o demo existe,

Procuro descobrir-lhe o vulto triste

Mas não lhe encontro rasto e nem o faro
*

Me dá qualquer sinal de outra presença

Que de mim mesma não seja pertença;

Será a sua ausência um caso raro?
*


Maria João Brito de Sousa - 19.11.2020 - 16.22 h
*

5
*

"Será a sua ausência um caso raro?"

ou o transporte ao Olimpo é de avião

e não viu lá de cima o exemplo claro

da luta do gigante com o anão?
*

É preciso esperar pousar na pista

sem muita turbulência na aterragem

para que o piloto hábil lhe resista

sem medo de entrar em derrapagem.
*

Porque isto de emoções tão reprimidas

que fogem ao arbítrio do Rei Midas

na decisão de ser um demo ou anjo
*

é, mesmo, o velho tema do destino

(porque nasceu mulher e não menino)

porque toca piano em vez de banjo?
*

Laurinda Rodrigues
*

6
*

"Porque toca piano em vez de banjo"

Quem no trompete ou na guitarra é ás?

Quem lhe imporá tamanho desarranjo

Ao afastá-lo do que mais lhe apraz?
*

Nestas perguntas, mais tempo não esbanjo;

Não quero incomodar, sendo tenaz,

Quem disto saiba mais que quanto abranjo

E, em coisas destas, nunca fui sagaz...
*

Às emoções, porém, nunca reprimo

Que a toda a hora as rondo, sondo e esgrimo

Com grande habilidade e destemor
*

E aos temas nunca escolho. O meu escolhido

É sempre um som que aflora ao meu ouvido

E me enfeitiça e se me sabe impor.
*


Maria João Brito de Sousa - 20.11.2020 - 11.18h

*
7

"E me enfeitiça e se me sabe impor"

como uma vaga que cresce sem aviso

alerta o marinheiro para compor

o sentido que o leva ao paraíso...
*

Ele não está preparado mas aceita

deixar a onda desfazer na praia...

Não tem sabedoria nem receita:

o instrumento toca aquilo que ensaia.
*

Mas não esqueceu o tema desta vida:

"em frente camarada" destemida!

não há razão que te perturbe o Ser.
*

Músico ou poeta ou marinheiro

o canto das estrelas cabe inteiro

na mutação que vai acontecer.
*

 

Laurinda Rodrigues
*

8
*

"Na mutação que vai acontecer"

E vai acontecendo a cada instante

Do que a mãe-tecelã está a tecer

No seu velho tear desconcertante.
*

Decerto nos irá surpreender

A criatividade galopante

Que esse velho tear demonstra ter

Na sua actividade que é constante.
*

Viaja a tecelã no fio que fia

E viajamos nós em sintonia

Com trama fiada e por fiar,
*

Que é porfiando que tudo se cria

E a trama é tal qual uma melodia

Quer nasça de um piano ou de um tear.
*


Maria João Brito de Sousa - 20.11.2020 - 15.02h

*
9
*

"Quer nasça de um piano ou de um tear",

a mão, que tece, é sempre a mão que cria,

na inspiração do eterno respirar

de uma alma tremendo em fantasia.
*

Fantasia de fada ou de duende,

de uma ave canora ou imitação...

Aquele, que comunica, fogo acende

seja de amor sublime ou perversão.
*

Não é ardil nem sonho camuflado

de palavras subtis de um Ego inflado

pela competição de seus iguais...
*

O papagaio repete aquilo que ouviu

mas, se for transcendente, conseguiu

despertar o segredo dos mortais.
*

Laurinda Rodrigues
*

10
*

"Despertar o segredo dos mortais"

É dar-lhes um lugar nesta viagem

Na qual sempre há lugar pra muitos mais,

Ainda que alguns pensem ser miragem
*

Viajar-se nas lonjuras dos murais,

Nunca tentando agir como outros agem,

Perdendo o Norte aos pontos cardeais

E levando a Garcia outra mensagem.
*

O guia é sempre um ponto de partida

E nem sempre a viagem concebida

Naufraga em perfeição, tendo sucesso.
*

O que importa é cantar, que um hino à vida

Vem de uma voz que é tanto mais ouvida

Quão mais se perca durante o processo.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 21.11.2020 - 13.51h

*

11.
*

"Quão mais se perca durante o (seu) processo"

em conexão com outros peregrinos

que atravessam o mar do insucesso

por nunca recusarem seus destinos,
*

será uma montanha de ilusões

ascendendo no ar, quando nascer,

mas, quando o sol se esconde nos porões,

vai deitar-se na proa para morrer.
*

Reavalia, então, o ofuscamento

que fez da sua vida esse tormento

de tanto querer e ter como pessoa
*

E vê pontos de luz que vão chegando

à sua consciência, decifrando

o mal que tanto fez e não perdoa.
*

Laurinda Rodrigues
*

12
*

"O mal que tanto fez e não perdoa",

Porque não nasce, o mal, pra perdoar,

Mas pr`aumentar a dor do que já doa

Mesmo antes desse mal se anunciar.
*

Mal fica quem viaja e fica à toa,

Mas pior ficará quem nunca ousar

Seguir o tal tal apelo que destoa

Do que é tido por norma ou por vulgar.
*

Só não se atreve quem de si não gosta

Ou quem é surdo e cego e tudo aposta

Numa rota alheada e comedida;
*

Esse, que à tempestade sempre arrosta,

Pode - quem sabe? - nem chegar à costa,

Mas até no naufrágio encontra vida.
*


Maria João Brito de Sousa - 21.11.2020 - 15.53h
*

13
*

"Mas até no naufrágio encontra vida"

escolhendo livremente naufragar

sem nunca desejar contrapartida

por ter salvo outro ser de se afogar.
*

Com humildade, enfrenta a turbulência

desse vento feroz, que não esperava

destruísse o sentido da existência

a quem só na matéria acreditava.
*

E aporta o barco no porto criador

escondendo na rocha a sua dor

pela dor de outro Eu sobrevivente.
*

E, apelando à coragem e à união,

deixa no mar os restos da ilusão

que possa a humanidade ser diferente.
*

Laurinda Rodrigues
*

14
*

"Que possa a humanidade ser diferente",

Mais justa, igualitária, equilibrada

Do que a que hoje se curva ao prepotente

E que despreza quem já não tem nada.
*


Mas há que navegar, seguir em frente,

Fazer um esforço, dar outra braçada...

Enquanto um sopro houver, há vida, há gente,

Há a luta, há a esp`rança renovada.
*


Homem que navegando naufragaste

Mas que a qualquer destroço te agarraste

Tentando retardar o teu poente,
*


Não há eternidade que nos baste;

No breve instante que à morte roubaste

"Desço ao fundo de mim, ao inconsciente".
*

 

Maria João Brito de Sousa - 21.11.2020 - 21.37h

 

 

 

 

 

20
Nov20

AFÁVEL-MENTE

Maria João Brito de Sousa

Afável mente.jpg

AFÁVEL-MENTE
*


Ó minha amada mente, afavelmente

Empenhada em sondar e desvendar;

Sente e deduz, que existes pra criar

Toda a beleza que a voz te consente.
*

Se é certo que outra mente te desmente,

Menos certo não é não te importar

Que exista quem te queira desviar

Da musicalidade em ti presente.
*

Amavelmente, ó mente, irás cantar

Enquanto fores fiel e coerente

Com essa forma de ser e de estar;
*

 

Imprevisível és, provavelmente,

Mas tão certeira quanto o despontar

Do fruto que antes foi mera semente.
*

 


Maria João Brito de Sousa - 20.11.2020 - 13.41h

 

*

 

Imagem retirada daqui

19
Nov20

A MUSA E EU

Maria João Brito de Sousa

Clio-Mignard.jpg

A MUSA E EU
*

Brincando aos Desentendimentos
*

 

Da distraída musa em que me invento

Fiz alter-ego; a culpa é toda dela

Se o vento amaina e não me enfuna a vela,

Se o bote encalha e o verso nasce lento.
*

Dela é o ponto fraco. O que é talento

Também, a bem dizer, lhe cabe a ela...

Se assino no final, quase à cautela,

É sempre com algum constrangimento.
*

Tropeça um verso coxo e sonolento

Na esquina em que uma rima se afivela

Por falhar-lhe uma nota, um mero acento?
*

Está perdida a toada tagarela

De compasso cantante e turbulento...

E onde é que a culpa mora se não nela!?
*

 

Maria João Brito de Sousa - 19.11.2020 - 15.24h

 

 

18
Nov20

CONVERSAS À JANELA - (entre sonetistas)

Maria João Brito de Sousa

Paul Klee.jpg

CONVERSAS À JANELA
*

(entre sonetistas)
*


Grafando letra a letra e lentamente,
Compões o teu soneto extraordinário,
Ditado por tu'alma, o santuário
Onde germina a imortal semente.
*

E nesse curto espaço inconsistente,
Tu dás a dimensão de um grã-sacrário
Com a pedra angular num campanário
Tangente em vibrações que a alma sente
*

Com a grandiosidade do que dizes,
Tendo a semente com suas raizes
Na alma e os sobranceiros, grandes ramos
*

Nossas almas sombreiam, com matizes
Tão multi-coloridos quão felizes
Nós nos tornamos quando o escutamos!
*

Laerte Tavares

*********

Falham-me os olhos, vão falhando os braços
E até o coração me vai falhando
Inda que sobre as teclas vá teimando
Em ser mais forte do que os meus cansaços.
*
Se galopa o soneto em seus compassos,
Este, coitado, nem sequer trotando
Se soube construir. Foi-se apoucando
Na lentidão dos débeis ou madraços...
*
Mas lá se construiu, pese este peso
Que o prende a tudo aquilo que eu desprezo,
Rastejando, talvez, mas não vergado
*

Ao que assim o tornou fraco, indefeso;
Arriscou tudo e, enfim, chegou ileso
À praia em que julgou ter naufragado.
*

Maria João Brito de Sousa - 17.11.2020 - 13.10h
*

 

Imagem- Tela de Paul Klee

16
Nov20

SONETO CONTRA-NATURA

Maria João Brito de Sousa

CONTRA NATURA.jpg

SONETO CONTRA-NATURA
*


Burile-se o soneto qual escultura

Mas só depois de impresso. Quando brota

Deve ser jorro em natural ruptura

Com a extrema prudência que denota.
*

Curto tamanho, pequena estatura

Tem o soneto e escolhe a própria rota

Ainda que ela o leve à sepultura

Rindo de si pra não fazer batota.
*

Mas se em tão curto espaço cabe inteiro

Nem sempre o que contém é tão ligeiro

Quanto o do que hoje trago e que desmente
*

Quanto quero dizer e só desdigo

Na pequenez do pouco que consigo

Grafar letra por letra, lentamente.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 16.11.2020 - 13.59h

13
Nov20

ARTIMANHA - Coroa de Sonetos

Maria João Brito de Sousa

L`IMPORTANT C´EST LA ROSE.jpeg

ARTIMANHA
*

Coroa de Sonetos
*

Laurinda Rodrigues e Maria João Brito de Sousa
*


1
*

O mal faz-se sempre anunciar.

Às vezes, disfarçado, nem se nota.

Poeira venenosa envolve o ar

e um cheiro nauseabundo fica à solta.
*

Não há palavras, gestos ou imagens

que emudeçam, na alma, o medo insano

São sendas de pavor como paisagens

que atravessam a terra e o oceano.
*

Impõe-se a solidão. Ficarmos presos.

É essa a solução para estar ilesos

de um ataque fortuito que nos espreita...
*

Não vale a pena dizer "sim" ou "não":

tudo aquilo que se diz é sempre em vão,

se a confusão lançada é tão perfeita.
*

Laurinda Rodrigues
*

2
*

"Se a confusão lançada é tão perfeita"

Que aos mais sábios confunde e desatina,

Cremos, então, que o Mal está sempre à espreita

Atrás de cada porta, em cada esquina
*

São coisas de que a Manha se aproveita;

Bem sabemos que a Manha, essa ladina,

Se quer fazer passar por insuspeita

E aquilo que prescreve, nunca assina.
*

Mas passe a Arte a bem ou passe a mal,

Contorna os riscos e enfrenta o medo

Que a ameaça de forma desleal;
*

Abre as janelas de manhã bem cedo

Bebe do Sol a força universal,

Reduz o Mal a peças de brinquedo.

*

Maria João Brito de Sousa - 09.11.2020 - 12.29h

*

3
*

"Reduz o Mal a peças de brinquedo"

mas - cuidado! - que o sol é enganador:

faz de conta que é Pai e mete medo

quando os filhos lhe estragam o fulgor.
*

Mas, afinal, o sol é apenas estrela

entre tantas estrelas que há no céu

e, quando esta verdade se revela,

uma outra dimensão aconteceu.
*

Juntando as peças, que temos na memória,

vemos que "chefes-sóis" fizeram história

que lhes servem a eles, sem discussão...
*

E, usando o globalismo como lema,

garantem, no poder, o seu sistema,

impondo, sem destrinça, esse padrão.
*

Laurinda Rodrigues
*

4
*

"Impondo, sem destrinça, esse padrão"

Que a Maga-lua acorre a transformar;

Assim que o Sol se rende à escuridão

Impõe-lhe ela o seu manto de luar
*

E assim concede ao mundo a sedução

Que o Chefe-sol se nem lembrou de dar,

Quem sabe se por pura distracção,

Se por puro capricho de mandar...
*

Amo o Sol e concedo-lhe o perdão

(ou penso que o consigo perdoar...)

Porque me acende a imaginação,
*

Porque a todos se entrega sem cobrar,

Porque - confesso! - me enche de paixão

E porque, enfim, assumo; sou solar!
*

 

Maria João Brito de Sousa .
*

5.
*

"E porque, enfim, assumo; sou solar"

presa na rota do ciclo de estações,

mesmo, sem canto, encanto à luz lunar,

esquecendo que há, na lua, mutações.
*

Cresce a lua no céu, depois de prenhe

que o sol, na fase "nova", engravidou,

para correr o "quarto" e se despenhe

na "cheia" exibição que a culminou.
*

Podemos ser solares enquanto humanos

mas é como lunares que cultivamos

o caminho perfeito da união...
*

Nada no cosmo existe sem sentido

e é o olhar do poeta, destemido,

que faz, da lua e sol, inspiração.
*

Laurinda Rodrigues
*
6
*

"Que faz, da lua e sol, inspiração"

E que com Arte e Manha lhes dá voz

Porque Arte quer dizer rebelião

E Manha há sempre um pouco em todos nós.
*

Rebeldes, inventamos a paixão,

Manhosos, transformamos algo atroz

Num enredo ideal cuja ilusão

Nasce purpúrea da explosão de uns pós...

*

Triangulamos Terra, Sol e Lua,

Num passe de magia. A Arte, nua,

Por um momento veste os nossos mantos
*

Para, logo a seguir, mostrar-se crua;

Despindo os astros, muda-se em falua

E faz-se ao Mar, explorando outros encantos.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 10.11.2020 - 12.54h

*
7
*

"E faz-se ao Mar, explorando outros encantos"

porque, se a Arte é arte, é a expressão

seja em poesia, dança, sons ou cantos

do tempo, que traduz a mutação.
*

E a mutação prevê-se nas estrelas

no para além deste planeta terra,

mesmo que tentem colocar-nos trelas

na desculpa de que Isto é uma guerra.
*

Seremos sábios, mas sábios disfarçados

de humildes servidores desnaturados,

que aceitaram nascer para mendigar...
*

E, enquanto os Reis solares clamam razão,

os pobres servidores vão dando a mão

prosseguindo a arte e manha de os calar.
*

Laurinda Rodrigues
*

 

8
*

"Prosseguindo a arte e manha de os calar"

Sempre que as ordens se tornam brutais,

Semeamos a flor que há-de brotar

Nos prados, nos canteiros, nos quintais
*

 

Da Terra inteira, do céu ou do mar

No qual nadam os peixes e os corais

Proliferam, ainda, sem parar;

Nada, pra si, será longe demais
*

 

Porque a Arte não cuida de barreiras

E há-de passar por todas as fronteiras

Mais forte a cada palmo que conquista.
*

 

Escapar-se-á por fendas e soleiras

Mimetizando as coisas costumeiras;

Ninguém pode impedir que ela subsista!
*

 


Maria João Brito de Sousa - 11.11.2020 - 19.24h
*

9
*

"Ninguém pode impedir que ela subsista"

mesmo vendo que a arte é maltratada

e não é com protestos que resista

a tanta confusão já instalada.
*

Na solidão imposta, versejamos

criando a ilusão que vale a pena...

Mas se, por mero acaso, fraquejamos

as imagens cruéis voltam à cena.
*

Atados ao visor dos aparelhos

que são agora os nossos novos espelhos

retratando o olhar da rendição,
*

talvez ainda sobreviva o sonho

de que este pesadelo tão medonho

se transforme num sonho de paixão.
*

Laurinda Rodrigues
*

10
*

"Se transforme num sonho de paixão"

O que hoje nos parece uma utopia

E a mais que condenada aspiração

De algum idealista em distonia
*

 

E surdo, face a esta distorção,

Ou cego, face a esta pandemia...

É o sonho, contudo, evolução

E a essa nenhum vírus contraria.
*

 

Com Arte e Manha enfim se concretiza

O sonho que ninguém desenraíza

Do ser humano que em si próprio o traz
*

 

E que de quase nada se improvisa

Quando sobre si mesmo profetisa

E acerta, pois de tudo ele é capaz!
*

 


Maria João Brito de Sousa - 11.11.2020 - 22.53h

*

11
*

"E acerta, pois de tudo ele é capaz":

salta barreiras com a mente adormecida

porque, na noite, o sonho dorme em paz

diferente da vigília consentida.
*

Das trevas do profundo inconsciente

compõe lembranças do aqui e agora

e, às vezes, quando o corpo está doente

a alma criadora ri e chora.
*

A confusão, que alastra, não entrava

que faças com teu sonho a tua lavra

numa terra de fértil energia...
*

Não fiques agarrada à voz macabra!

talvez seja o silêncio que nos abra

os sonhos mais proféticos da poesia.
*

Laurinda Rodrigues
*

12
*

"Os sonhos mais proféticos da poesia"

Nascem-me assim que acordo e fico alerta;

A Manha é pouca, mas a Arte cria

A partir de uma mente bem desperta
*

Que a toda a voz macabra repudia,

Nem a ouvindo que outra é descoberta

Nos tons cantantes de uma melodia

Que sobre mundo e vida se concerta.
*

É dum sossego desassossegado,

Talvez silêncio de pronto quebrado,

Que o verso nasce e depois se compõe.
*

Mas só em força nasce se acordado;

Se dorme, nasce tão desafinado

Que nem percebe ao certo o que propõe.
*

 

Maria João Brito de Sousa - 12.11.2020 - 11.35h

*

13.

"Que nem percebe ao certo o que propõe"

seguindo em linha a voz dos ditadores

que a todos nós a submissão impõe

para, depois, nos tratar como traidores.
*

Antigamente três "fs" suportavam

a perda, raiva, medo e frustração;

mas, agora, nem "fs" aguentavam

os espaços vazios da solidão.
*

Todos falam. Ninguém percebe nada.

Fazem-se regras apenas para fachada.

Mais tarde se verá quem vai mandar.
*

Pobre consolação em grande estilo!

Cantam melhor o galo, o melro, o grilo

que a gente entende, mesmo sem escutar.
*

Laurinda Rodrigues
*

14
*

"Que a gente entende, mesmo sem escutar"

Porque esses sabem sempre como e quando

E até entendem que comunicar

É bem mais que dar ordens de comando
*

Pois também será forma de exaltar

A própria vida que lhes vai pulsando

Nos pequeninos corpos, a vibrar,

Enquanto a Terra inteira vai girando
*

E eu, aqui sentada, vou glosando,

Apesar de uma mão me estar sangrando,

Os versos que me deste pra glosar.
*

Enquanto alguns de nós vão acordando,

Outros, sem Arte e Manha, vão tombando;

"O Mal faz-se sempre anunciar".
*

 

Maria João Brito de Sousa - 12.11.2020- 15.26h

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Em livro

Links

O MEU SEBO LITERÁRIO - Portal CEN

OS MEUS OUTROS BLOGS

SONETÁRIO

OUTROS POETAS

AVSPE

OUTROS POETAS II

AJUDAR O FÁBIO

OUTROS POETAS III

GALERIA DE TELAS

QUINTA DO SOL

COISAS DOCES...

AO SERVIÇO DA PAZ E DA ÉTICA, PELO PLANETA

ANIMAL

PRENDINHAS

EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES

ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE POETAS

ESCULTURA

CENTRO PAROQUIAL

NOVA ÁGUIA

CENTRO SOCIAL PAROQUIAL

SABER +

CEM PALAVRAS

TEOLOGIZAR

TEATRO

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

FÁBRICA DE HISTÓRIAS

Autores Editora

A AUTORA DESTE BLOG NÃO ACEITA, NEM ACEITARÁ NUNCA, O AO90

AO 90? Não, nem obrigada!