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poetaporkedeusker

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UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) , autora no Portal CEN, e membro da Associação Desenhando Sonhos, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
01
Mar24

CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XIV

Maria João Brito de Sousa

1972 (1).jpg

Eu, fotografada por Abel Simões

*

Dos ilustres antigos que deixaram

tal nome, que igualou fama à memória,

ficou por luz do tempo a larga história

dos feitos em que mais se assinalaram.
*


Se se com cousas destes cotejaram

mil vossas, cada üa tão notória,

vencera a menor delas a mor glória

que eles em tantos anos alcançaram.
*


A glória sua foi; ninguém lha tome.

Seguindo cada um vários caminhos,

estátuas levantando no seu Templo.
*


Vós, honra portuguesa e dos Coutinhos

ilustre Dom João, com melhor nome

a vós encheis de glória e a nós de exemplo.
*


Luíz de Camões

***


Joões conheço alguns, mas Dom não têm

Senão os dons que a todos nós, humanos,

Vão cabendo à nascença e esperam anos

Até que um dia em chamas se incendeiem...
*


Coutinhos não conheço. Se provêm,

Ou não, dos mais ilustres dos decanos,

Não sei, Senhor... Ledos são meus enganos

E frágeis as memórias que os retêm...
*


Nestas vénias da verve não sou forte:

Admiro os nobres de uma outra nobreza,

Uma em que eu creia, nunca esta do porte
*


De quem tem servos pra servi-lo à mesa,

Corcéis de pura raça por transporte,

E botins importados de Veneza.
*

 

Mª João Brito de Sousa

01.03.2024 - 13.00h
***

 

O soneto de Camões foi transcrito do blog Sociedade Perfeita

29
Fev24

O SILÈNCIO DAS MUSAS

Maria João Brito de Sousa

cidade suspensa pinterest (2).jpg

Imagem Pinterest

*

O SILÊNCIO DAS MUSAS
*


Anda o demónio à solta em terras lusas:

Nunca tanto indeciso (in)decidiu

E alguns vão já temendo o que se viu

Nos anos do silêncio, até pra musas
*


Que muitas vi ao lado das reclusas

Do velho Aljube. A treva as consumiu,

Mas nunca delataram que as uniu

A mesma garra que as tornara intrusas...
*


Voaram quando Abril floriu em cravos

E só então choraram de alegria:

De novo o mel da vida abria em favos
*


E era o mesmo mel que eu recolhia

Pr`amenizar a dor dos desagravos

Que sobre elas choveram noite e dia.
*

 

Mª João Brito de Sousa

29.02.2024 - 21.00h
***

 

29
Fev24

CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XIII

Maria João Brito de Sousa

mar oriental pinterest.jpg

Imagem Pinterest

*

CONVERSANDO COM CAMÕES XIII
*


Doces lembranças da passada glória,

Que me tirou fortuna roubadora,

Deixai-me descansar em paz uma hora,

Que comigo ganhais pouca vitória.
*


Impressa tenho na alma larga história

Deste passado bem, que nunca fora;

Ou fora, e não passara: mas já agora

Em mim não pode haver mais que a memória.
*

Vivo em lembranças, morro de esquecido

De quem sempre devera ser lembrado,

Se lhe lembrara estado tão contente.
*


Oh quem tornar pudera a ser nascido!

Soubera-me lograr do bem passado,

Se conhecer soubera o mal presente.
*


Luíz de Camões
***


Se conhecer pudésseis o presente

Enquanto no passado o desdenháveis,

Vossos versos bem menos memoráveis

Seriam para mim... pra toda a gente
*


Que quem na glória vive ingloriamente

Memórias não terá porque improváveis,

Desnecessárias, loucas, impensáveis

Cousas que o vencedor sequer pressente...
*


Se hoje essa glória é cousa do passado,

Memorá-la cantando é bem maior

Do que ansiar condená-la a repetir-se
*


Lembrai-a pois! Um dia será Fado,

Cantado à noite quando o sol se for,

A renascer das águas, como Dirce.
*

 


Mª João Brito de Sousa

29.02.2024 - 11.00h
***

O soneto de Camões foi transcrito do blog Sociedade Perfeita

28
Fev24

CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XII

Maria João Brito de Sousa

SNOWHITE (1).jpeg

Imagem fotografada de um velho calendário meu

*

 

CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XII
*


Pois meus olhos não cansam de chorar

Tristezas não cansadas de cansar-me;

Pois não se abranda o fogo em que abrasar-me

Pôde quem eu jamais pude abrandar;
*


Não canse o cego Amor de me guiar

Donde nunca de lá possa tornar-me;

Nem deixe o mundo todo de escutar-me,

Enquanto a fraca voz me não deixar.
*


E se em montes, em prados, e em vales

Piedade ainda mora e vive Amor

Em feras, plantas, aves, pedras, águas;
*


Ouçam a longa história de meus males,

E curem sua dor com minha dor;

Que grandes mágoas podem curar mágoas.
*

 

Luiz de Camões
***


E credes, meu Senhor, que a dor imensa

Curada possa ser por dor igual,

Ou que juntando um mal a outro mal

Possa sanar-se a dor? Que recompensa
*


Poderá receber quem assim pensa?

Se sofre o sofredor, de que lhe vale

Multiplicar-lhe a dor juntando sal

A gangrena que a si lhe não pertença?
*


Mas se, como dizeis, vos ouve o mundo,

Se há realmente amor em planta e besta

Ou nas águas do poço mais profundo
*


Segui-me! Amordaçai a voz funesta

Que vos condena à dor cada segundo,

E contemplai a Fantasia em festa!
*

 

Mª João Brito de Sousa

28.02.2024 - 11.15h
***

O soneto de Camões foi retirado do blog Sociedade Perfeita

27
Fev24

A FLORESTA - Reedição

Maria João Brito de Sousa

PÃ E A GRAVIDADE DA MAÇÃ VERDE - 1999.jpeg

A FLORESTA
*


Pintei, numa floresta, cogumelos

E árvores azuis, como Gauguin,

Preenchendo as neblinas da manhã

De violetas e de ocres muito belos
*


Fui colorindo o fundo de amarelos,

Sentei-me com Diana, abracei Pã,

Comi o verde polme da maçã

E entrancei folhas de hera nos cabelos...
*


Não houve nenhum sol, nenhuma lua

Que ousasse reclamar-me a sua posse,

Ou me reivindicasse o seu destino
*


Porque ela, omnipresente, agreste e nua,

De aspecto inacabado e sabor doce,

Foi fruto de um soneto em desatino
*

 

Maria João Brito de Sousa

25.09.2009
***

(Poema escrito para a Fábrica de Histórias e reformulado a 20.05.2015 -13.22h)

26
Fev24

FILHO DAS TEMPESTADES - Reedição

Maria João Brito de Sousa

 

Avô na casa de Algés.gif

António de Sousa fotografado por António Pedro Bito de Sousa

*

FILHO DAS TEMPESTADES
*


Andou perdido por remotas plagas

Sem bússola nem vela. Era a Paixão

Quem o mantinha à tona sobre as vagas

Do mar da sua imensa solidão
*


Cerrava as mãos. Fechadas como garras

As levava do leme ao coração

Quando da barca soltava as amarras

Aos primeiros sinais de um furacão
*


E assim se fazia à tempestade

Como à bonança os outros se faziam

Mal o vento amainava o seu furor
*


Pra si, porém, o vento é liberdade

E os raios são pendões que o desafiam

A vencê-los em espanto e garra e cor.
*

 

Mª João Brito de Sousa
21.02.2023 - 10.00h
***

 

Ao meu avô poeta

25
Fev24

CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XI

Maria João Brito de Sousa

camões xi pint.jpg

Imagem Pinterest

*

CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XI
*


Quando cuido no tempo que, contente,

vi as pérolas, neve, rosa e ouro,

como quem vê por sonhos um tesouro,

parece tenho tudo aqui presente.
*


Mas tanto que se passa este acidente,

e vejo o quão distante de vós mouro,

temo quanto imagino por agouro,

porque d’imaginar também me ausente.
*


Já foram dias em que por ventura

vos vi, Senhora (se, assi dizendo, posso

co coração seguro estar sem medo);
*


Agora, em tanto mal não mo assegura

a própria fantasia e nojo vosso:

eu não posso entender este segredo!
*

 

Luíz de Camões
***


Não cuideis tanto de tudo entender

que, às vezes, pode mais quem não sabendo

intui apenas sem ficar sofrendo

aquilo que dizeis estar a sofrer...
*

 

Porém... que digo eu, sendo mulher,

de nojo recoberta e, não vos vendo,

às lágrimas me entrego e só atendo

a quem, de vós, notícias me trouxer?
*


Haveis podido agora perceber-me?

Isto que sofro nunca foi segredo

muito embora teimeis em desdizer-me
*


E, sim, de vos perder me perde o medo:

Enquanto não voltardes, só render-me

me vai restando face a tal degredo!
*

 

Mª João Brito de Sousa

25.02.2024 - 11.50h
***

 

O soneto de Camões foi transcrito do blog Sociedade Perfeita

 

24
Fev24

CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO X

Maria João Brito de Sousa

camões x (1).jpg

Imagem Pinterest

*

CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO X
*

 

Se de vosso fermoso e lindo gesto

nasceram lindas flores para os olhos,

que para o peito são duros abrolhos,

em mim se vê mui claro e manifesto:
*

 

pois vossa fermosura e vulto honesto

em os ver, de boninas vi mil molhos;

mas se meu coração tivera antolhos,

não vira em vós seu dano o mal funesto.
*

 

Um mal visto por bem, um bem tristonho,

que me traz elevado o pensamento

em mil, porém diversas, fantasias,
*

 

nas quais eu sempre ando, e sempre sonho;

e vós não cuidais mais que em meu tormento,

em que fundais as vossas alegrias.
*


Luíz de Camões
***


Cuidais que de tormentos cuido apenas?

Bem enganado estais! Cuidai então

De não voltar a dar-me um tal sermão

Ou muito aumentarão as vossas penas
*

 

As que afirmais não serem tão pequenas

Que às fantasias não derrubem, não...

E chamais-me funesta? Maldição!

Mais mentiroso sois do que as hienas!
*


Ide com vossas loucas fantasias

E vossos elevados pensamentos,

Mas deixai-me sozinha! Ide veloz
*


Que não me cabe a mim achar as vias

Pr`ó mal de que sofreis: vossos tormentos

São tudo o que engendrais se estais a sós!
*

 

Mª João Brito de Sousa

24.2.2024 - 15.00h
***

 

O Soneto de Camões foi transcrito do blog Sociedade Perfeita

23
Fev24

MEUS CAMINHOS - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Maria João Brito de Sousa

caminhos eu e custodio montes.jpg

Imagem Pinterest

*

MEUS CAMINHOS
*

Coroa de Sonetos
*

Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*

1.
*

Um túnel, uma estrada, um caminho

Que vão dar ao destino que me apraz

Outrora fui menino, fui rapaz

Andava noutras sendas de adivinho
*


Agora vou direito sem espinho

Em frente sem voltar de novo atrás

Outrora ia aonde era capaz

Sem medo pelos montes e sozinho
*


Na busca dos meus sonhos à deriva

Bem cheia a alma que era criativa

Sem raias no amor, na inspiração
*


Agora meus caminhos espaçados

São largos para mim mas apertados

Nas sendas que percorre o coração
*


Custódio Montes
(Sonetos)
*

2.
*

"Nas sendas que percorre o coração"

Quando a maturidade o auge atinge

Não ficamos parados como a esfinge,

Mas não corremos por qualquer razão
*


E serenamos em compensação

Porque evitamos tudo o que restringe

O verso manso que em chegando cinge

Nossa cintura, como se uma mão...
*


Devagar vamos, mas debalde não,

Que cada passo dado em comunhão

Com algum companheiro de poemas
*


Nunca poderá ser um passo vão...

Ah, que me importa ser idosa, então,

Se assim puder voar como os fonemas?
*


Mª João Brito de Sousa

22.02.2024 - 16.42h
***

3.
*
“Se assim puder voar como os fonemas”

Bem juntos uns aos outros conjugados

Andando no poema irmanados

Em ordem como firmes teoremas
*


Parte-se dum princípio e vários temas

Agrupam-se um a um organizados

Ficamos, quando os vemos ordenados,

Contentes e felizes, sem problemas
*


Encontram-se veredas ou caminhos

Que nos trazem lembranças e carinhos

Que tivemos na nossa mocidade
*


Seguimos passo a passo sempre a andar

E pomo-nos assim a recordar

Lembrando, passo a passo, a nossa idade
*

Custódio Montes
22.2.2024
***

4.
*
"Lembrando, passo a passo, a nossa idade"

Que tem também momentos de beleza

Pois chegar-se à velhice é já proeza,

Nem todos têm essa f`licidade...
*


Alguns aspiram à eternidade

Mas eu confesso com toda a franqueza

Não aspirar sentá-la à minha mesa

Por lhe não ter sequer grande amizade
*


Seja suave ou espinhoso este caminho

Nenhum de nós o vai fazer sozinho

Que é sempre bom escutar ao nosso lado
*


Os passos compassados de um amigo

Que te saúda e segue a par contigo,

Talvez ambos cantando um velho fado...
*


Mª João Brito de Sousa

22.02.2024 - 21.10h
***

5.
*
“Talvez ambos cantado um velho fado…”

Mas temos que arranjar uma guitarra

Da letra e da canção não basta a garra

O fado tem que ser acompanhado
*


Mas que este assunto fique bem ao lado

Que na coroa isso não se agarra

Prefiro ser formiga e não cigarra

Trabalho no poema atarefado
*


Sigo esse meu roteiro com mestria

Introduzo palavras de alegria

E mando esse tal fado passear
*


Trabalho na coroa em andamento

E tudo o mais se vai voando ao vento

Incluindo o dito fado e o seu cantar
*


Custódio Montes
22.2.20024
***

6.
*

"Incluindo o dito fado e o seu cantar",

Tudo hoje lança ao vento e vou temendo

Que a mim também me afaste... e me arrependo

De em fado ter falado sem pensar...
*


Sei que perdi a voz. Desafinar

Em fado que se cante é tão tremendo

Que logo me calei, a voz doendo,

E as pernas também, de tanto andar...
*


Pouco me importa agora a afinação

Que não volto a cantar. Não volto, não,

A menos que um remédio milagroso
*


Me cure desta imensa rouquidão

E eu possa enfim cantar uma canção

Às verdejantes terras de Barroso.
*


Mª João Brito de Sousa

22.02.2024 - 23.10h
***

7.
*
“Às verdejantes terras de Barroso”

Também as canto agora se puder

Mas é noite e não basta eu querer

Se pudesse ficava bem famoso
*


Levava até Oeiras orgulhoso

O meu rincão alegre para ver

A grande poetisa, essa mulher

Que tem um canto belo e valoroso
*


Ficaria encantado este meu monte

Ao ver aí o belo horizonte

Que cerca e rodeia esse lugar
*


Se a afinação das vozes fosse boa

Passávamos por cima de Lisboa

Para depois à porta lhe cantar
*

Custódio Montes
23.2.2024 (alvorada)
***

8.
*

"Para depois à porta lhe cantar"

Mas só o meu amigo... eu calaria

Porque a minha voz rouca assustaria

Lisboa e o Tejo inteiro até ao mar...
*


Fugiria a gaivota a esvoaçar,

O velho cacilheiro afundaria

E o Cais das Colunas julgaria

Que algum monstro o estaria a ameaçar...
*


Caminharia, sim, mas caladinha

Que voz que agora trago não é minha,

É a de um elefante a barritar
*


E eu que quando cantava era soprano,

Mal abro a boca, agora, causo dano,

Por isso é que não vou nem exp`rimentar!
*


Mª João Brito de Sousa

23.02.2024 - 09.50h
***


9.
*
“Por isso é que não vou nem exp’rimentar”

Mas nessa altura apenas ia ouvir

Eu e mais o meu monte a confluir

Na dita serenata e a cantar
*


Tem muito que fazer: acompanhar

As dores da Mistral e o seu carpir

O que há à sua volta e a ouvir

As ondas do seu mar a altear
*


Deitada a descansar no seu sofá

Talvez fosse melhor ou menos má

Ouvir a serenata - o nosso canto
*


Que o canto do meu monte é de tenor

E juntando-se ao meu fica melhor

E sentiria, então, algum encanto
*


Custódio Montes
23.2.2024
***

10.
*

"E sentiria então algum encanto"

Que o canto do seu monte é fascinante

Enquanto o meu, de tão tonitruante,

Esgotaria a paciência a qualquer santo
*


Caminho e já vislumbro o verde manto

Desse seu nobre monte inda distante...

Lá chegarei, que sigo sempre avante

E mesmo fraca ainda posso tanto...
*


A Mistral dorme agora sossegada,

Não vai fazer comigo a caminhada

Pois tem de descansar pra ficar bem
*


Quanto me falta ainda pra chegar

Ao monte que tão bem sabe (en)cantar

E que vou vislumbrando ao longe... além!?
*

 

Mª João Brito de Sousa

23.02.2024 - 11.10h
***

11.
*
“E que vou vislumbrando ao longe….além!”

Olha, vejo andorinhas a voar

E um verde deslumbrante a emoldurar

Um cantinho que fica ali tão bem!
*

Um monte como este ninguém tem:

A urze e a giesta a ondular

A água cristalina a borbulhar

Da fonte luminosa donde vem
*


É lindo o mar de Oeiras espalhado

Nos dias de verão mais descansado

Que canta alto agora, no inverno
*


Mas este monte aqui que agora alcanço

É todo o ano lindo e traz descanso

Que jóia de beleza e quão terno!
*


Custódio Montes
23.2.2024
***

12.
*

"Que jóia de beleza e quão terno"

É o altivo monte que alcançou!

Tento correr mas meu pé tropeçou

Num lenho que não foi nada fraterno
*


E quase me fez crer  ver o inferno

Na excruciante dor que me causou...

Ergo-me já que a dor quase passou,

Mas esse belo monte é sempre eterno
*


Tal como eterno é o mar de Oeiras,

Inda que alvoroçado e sem maneiras

Se mostre neste Inverno algo incomum...
*


Mas agora é pra Norte que caminho

Embora a coxear, devagarinho,

Pra não haver mais tropeção nenhum!
*


Mª João Brito de Sousa

23.02.2024 - 12.30 h
***

13.
*

“Pra não haver mais tropeção nenhum!”

Mas ande, não se esqueça do caminho

Ande mais devagar, devagarinho

Não corra muito, os passos um a um
*


Assim, no seu andar que é comum

A quem procura um ovo no seu ninho

Vai andar de certeza com jeitinho

Para que o seu prazer seja algum
*


Que os caminhos seguidos sejam belos

E os passos que vá dar sejam singelos

Para lhe darem muita animação
*

 

Lembrando todo o tempo lá detrás

Como era a juventude dum rapaz

Sem contrariedade ao coração
*


Custódio Montes
23.2.2024
***

14.
*

"Sem contrariedade ao coração"

E com a dor sanada, continuo

Que a cada passo da beleza fruo

Deste caminho que não sigo em vão
*


Até aonde alcança esta visão

Parece que levito ou que flutuo

E sigo em frente e sei que não recuo

Porque caminho em sua direcção
*


E vejo agora o jovem de que fala

Estranhando um pouco ver-me de bengala

E a caminhar assim, devagarinho
*


Para alcançá-lo faltam nem cem metros

Sem pedras nem ravinas, que são rectos,

"Um túnel, uma estrada, um caminho"...
*

 

Mª João Brito de Sousa

24.02.2024 - 14.40
***

 

 

23
Fev24

CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO IX

Maria João Brito de Sousa

baleia voadora pinterest (1).jpg

Imagem Pinterest

*

CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO IX
*

Nunca em amor danou o atrevimento;

Favorece a Fortuna a ousadia;

Porque sempre a encolhida cobardia

De pedra serve ao livre pensamento.
*


Quem se eleva ao sublime Firmamento,

A Estrela nele encontra que lhe é guia;

Que o bem que encerra em si a fantasia,

São umas ilusões que leva o vento.
*


Abrir-se devem passos à ventura;

Sem si próprio ninguém será ditoso;

Os princípios somente a Sorte os move
*.


Atrever-se é valor e não loucura;

Perderá por cobarde o venturoso

Que vos vê, se os temores não remove.
*


Luiz de Camões

***

Removei, pois, Senhor, vosso temor:

Se me atrevo a convosco conversar

Não posso ao vosso tempo recuar

Mas sempre terei dado o meu melhor
*


Atrevida serei, mas... por favor,

Vede bem que tentei não macular

O verso heroico puro e exemplar,

Em que vos expressais, Mestre e Senhor.
*


Não sei se a vossa estrela alcançarei

Nem se ouvireis aquilo que vos digo,

Mas posso-vos jurar que o tentarei
*


E ainda que tentá-lo seja um p`rigo,

A esse p`rigo nunca o temerei

Se em vós, Senhor, achar um bom amigo
*

 

Mª João Brito de Sousa

23.02.2024 - 11.50h
***

 

O soneto de Camões foi transcrito do blog Sociedade Perfeita

 

22
Fev24

CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁIO VIII

Maria João Brito de Sousa

menina com pombas pinterest.jpg

Imagem Pinterest

*

 

CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÀRIO VIII
*


Pensamentos, que agora novamente

cuidados vãos em mim ressuscitais,

dizei me: ainda não vos contentais

de terdes, quem vos tem, tão descontente?
*


Que fantasia é esta, que presente

cad’ hora ante meus olhos me mostrais?

Com sonhos e com sombras atentais

quem nem por sonhos pode ser contente?
*


Vejo vos, pensamentos, alterados

e não quereis, d’esquivos, declarar me

que é isto que vos traz tão enleados?
*


Não me negueis, se andais para negar me;

que, se contra mim estais alevantados,

eu vos ajudarei mesmo a matar me.
*

 

Luíz de Camões
***


Pra preservar-vos, pensamentos meus

que sois dos meus sonetos a matriz,

far-me-ei mais liberta e mais feliz

do que as aves que cruzam estes céus
*


Mas s`inda assim teimais em ser incréus,

moldar-vos-ei dos ramos à raiz

pois se bem o pensei, melhor o fiz:

Serei juiz e vós sereis os réus!
*


Ah, não me negareis o que não nego

ao meu direito de permanecer

enquanto não for surdo e mudo e cego
*


De vós farei aquilo que entender:

se vos não confiar talento e  Ego

serei eterna... enquanto não morrer!
*

 

Mª João Brito de Sousa

22.02.2024 - 13.00h
***

 

O soneto de Camões foi transcrito do blog Sociedade Perfeita

21
Fev24

CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO VII

Maria João Brito de Sousa

eu de fedra (1).jpg

Imagem Pinterest

*

CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÀRIO VII
*


Fiou se o coração, de muito isento,

de si cuidando mal, que tomaria

tão ilícito amor tal ousadia,

tal modo nunca visto de tormento.
*


Mas os olhos pintaram tão a tento

outros que visto tem na fantasia,

que a razão, temerosa do que via,

fugiu, deixando o campo ao pensamento.
*


Ó Hipólito casto, que, de jeito,

de Fedra, tua madrasta, foste amado,

que não sabia ter nenhum respeito:
*


em mim vingou o amor teu casto peito;

mas está desse agravo tão vingado,

que se arrepende já do que tem feito.
*


Luís de Camões
***


Fedra não sou e Hipólito tão pouco,

Mas tanto me tocou vosso cantar,

Que Fedra tentei ser e fui buscar

À ida juventude o anseio louco...
*


Inábil na vingança, não dei troco

Ao que Teseu pudesse imaginar

E em vez de por vingança me matar,

Ao desejo matei, de um golpe, "in loco"...
*


A Hipólito menti. Para o salvar,

Jurei que nunca, nunca o tinha amado,

Que nem desejo tinha de o beijar
*


E a venenosa carta, o vil pecado,

Não a escrevi, não fosse a mão negar

O que o bom senso havia perdoado...
*

 

Mª João Brito de Sousa

21.02.2024- 17.00h
***

 

O soneto de Camões foi transcrito daqui

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