.UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2016

GLOSANDO ANTÓNIO CODEÇO

flor murcha.jpg

 

 

FEL



Aceito haver o fraco, haver o forte,

A negra morte, o nada, a breve vida

O Sol a desaparecer na despedida

A Lua à noite viúva entregue à sorte.

 

Aceito aquele que anda já sem norte

O que não encontra a porta de saída

O que vive do vício da rapina

O que sucumbe sem ter passaporte.

 

Aceito o vento como obra do acaso

A cobra fria que usa letal veneno

Entrando num jardim que não é o seu

 

Aceito a flor que morre em seco vaso

A dor de ser mortal, de ser pequeno

Mas esse fel que provas não é meu

 

 

António Codeço, 2016

 

 

NEM TUDO FEL, NEM TUDO MEL...

 

"Aceito haver o fraco, haver o forte,"

Nascer, da sombra, a luz dum Sol intenso,

Queimar, até à cinza, um pau de incenso,

Ou quanto tempo reste, antes da morte...

 

"Aceito aquele que anda já sem norte",

E o outro, o que o descobre e torna imenso,

Mas mal me aceito a mim, se fico tenso

De tanto ir aceitando e, de tal sorte,

 

"Aceito o vento como obra do acaso",

Mas nunca meço o fluxo entre as pressões

Que, de alta para baixa, vão soprando,

 

"Aceito a flor que morre em seco vaso",

Mas duvido que aceite as distracções

Dos que a viram murchar, nunca a regando...

 

 

 

Maria João Brito de Sousa - 11.08.2016 -01.43h

 

publicado por poetaporkedeusker às 23:30
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4 comentários:
De poetazarolho a 20 de Dezembro de 2016 às 04:05
“Do verbo e do abismo”

Era o tudo e era o nada
No início do estado verbal
E uma aparência desfigurada
Contra o bem e contra o mal

Essa realidade percepcionada
Seria em todo o caso fatal
Pois a parte descodificada
Viria a revelar-se-nos letal

Faz parte do relativismo
Inerente à mente humana
No processo de descodificação

O verbo oculta o abismo
Numa lógica cartesiana
Mas o abismo resulta da acção.
De poetaporkedeusker a 20 de Dezembro de 2016 às 08:53
Se tomados como extremos
Vida - Bem e Morte - Mal,
Tal e qual nos mantivemos,
Tudo continua igual

E apenas inquiriremos,
Através do som verbal;
Nesta vida, o que fizemos
E o que fazer, afinal?

Mas tem o verbo função;
Serve pr`a comunicar
E é na comunicação

Que as coisas podem mudar,
Tendo sempre em atenção
Que viver é renovar.

Maria João


Cá vai, Poeta, com o abraço de sempre e, caso nos não encontremos por aqui antes do Natal, Feliz Natal para si e toda a família!
De fashion a 20 de Dezembro de 2016 às 10:32
Que dupla maravilhosa. Adoro os poemas do António e os seus. Muito, muito bons!!
De poetaporkedeusker a 20 de Dezembro de 2016 às 10:38
Obrigada, pelo que cabe às minhas glosas, Fashion!

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