.UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
Terça-feira, 10 de Março de 2015

GEADA NEGRA

geada_26-09-12_510.jpg

 

 

(Soneto em verso hendecassilábico)

 

Perdoai-me agora porque mais não posso,

Estou já pele e osso, quanto a poesia...

Do carnudo fruto que antes produzia,

Mal distingo, agora, mirrado, o caroço,

 

Qual mero vestígio, qual simples destroço

Do que então criava, do que então escrevia,

Mesmo, em chão negado pela carestia,

Sendo um vago esquiço, sendo um mero esboço...

 

Vibram já machados sobre essa haste nua,

Sem um sol que a aqueça, sem que a esconda a lua,

Pois desta colheita contra-producente,

 

Sem mais flor que a anime, fruto que a alimente,

Fica só memória... quem sabe, a semente

De outra humana história que a tomar por sua?

 

 

Maria João Brito de Sousa – 10.03.2015 -16.21h

 

Nota – O meu primeiríssimo soneto em verso hendecassilábico.

 

 

publicado por poetaporkedeusker às 17:46
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28 comentários:
De poetazarolho a 10 de Março de 2015 às 23:38
“Sub poema”

Poema sem sentido
Sem alegria ou ferido
Sem rima, alma ou côr
De tristeza e tanta dôr
Desprovido de emoção
Espezinhado sem razão
Foi poema mal parido
Antes não fora nascido.

Zé da Ponte
De poetaporkedeusker a 10 de Março de 2015 às 23:52


Nasceu. Mesmo pobre e feio,
Mesmo sem sorte e sem esp`rança,
Que cresça e se faça ouvir
Sem vergonha e sem receio
De ser poema em mudança,
Se poema se sentir...


Maria João

Abraço, muito triste, mas grande, como sempre!
De poetazarolho a 10 de Março de 2015 às 23:40
Uma evolução seguramente, gostei.
E o que é hendecassilábico?
De poetaporkedeusker a 11 de Março de 2015 às 00:10
Olá, Poeta!

Não, não tem mesmo nada a ver com evolução... é apenas uma nova experiência, uma ligeira mudança na fórmula métrica, dentro do reduzido e delicado universo da métrica aplicável ao soneto...

Hendecassilábico é o nome que se dá ao verso composto por onze sílabas poéticas ou métricas. É exactamente o número de sílabas, bem como o posicionamento das sílabas átonas e tónicas, que lhe confere o inconfundível ritmo/cadência/melodia. ´É também exactamente por isso que o soneto se chama "soneto", do italiano "pequenina canção".

Obrigada e um abraço grande!
De poetazarolho a 11 de Março de 2015 às 00:17
O maestro Vitorino de Almeida falava do diabo na música, também o deve haver então no soneto ( pequenina canção ).

https://www.youtube.com/watch?v=z1XL6PV9p18
De poetaporkedeusker a 11 de Março de 2015 às 00:41
Sim, sim, há mesmo, Poeta! O soneto também é uma verdadeira sinfonia! Pequenina, sem dúvida, mas uma sinfonia!

O Maestro fala da sua música, a instrumental, e eu falo da "minha", a das palavras... o soneto é um perfeito exemplo da musicalidade da palavra, mas todas - todas, mesmo! - as palavras a têm e todas as línguas foram nascendo suportadas pela sua musicalidade/sonoridade... mas... agora é que reparei nesse pormenor do "diabo", eheheh. Olhe, eu nunca o vi... mas é capaz de haver mesmo um diabrete qualquer nos poemas "desafinados", eheheheh...

Obrigada pelo link para a quinta do Beethoven, Poeta!!!
De poetazarolho a 11 de Março de 2015 às 23:43
“Ruina moral”

Não sinto chegar o passado
Essa ponte para o futuro
E no abismo do presente
Vejo a humanidade ruir.

Záe da Ponte
De poetaporkedeusker a 12 de Março de 2015 às 09:53
Pouco mais vislumbrarei
De passados, de presentes,
Dos futuros que lá vêm
Mas, do que antes vislumbrei,
Ficam mil votos ardentes
(votos que ardem porque crêem...)

Maria João

Com o abraço de sempre, Poeta!
De heretico a 12 de Março de 2015 às 22:33
bela a tua "arte poética".... enorme talento o teu.

beijo
De poetaporkedeusker a 12 de Março de 2015 às 22:40
Obrigada, Heretico!

Como penso já te ter dito, estou impossibilitada de comentar todo e qualquer blog da Blogspot, mas visitarei o Relógio de Pêndulo.

Forte abraço!
De poetazarolho a 12 de Março de 2015 às 23:37
“Nós cidade”

Janela da minh’alma
Ao longe a felicidade

Não é espelho da cidade
Lá onde não reina calma
Nem impera fraternidade

Entristece-me a situação
Nós cidade sem coração
E sem alma na verdade.

Zé da Ponte
De poetaporkedeusker a 13 de Março de 2015 às 10:56
Auscultemos,
então,
debruçando-nos
do humano
parapeito da vontade,
o pulsar
do coração possível
na cidade grande...


Maria João


Abraço grande, Poeta!
De poetazarolho a 15 de Março de 2015 às 19:42
“Perfeitamente”

Imperfeição perfeita
Pela crítica está sujeita
À perfeita contradição
Que lhe atribui a perfeição
Mas de imperfeição não passa
Por muito qu’a gente faça
Só o olhar apaixonado
Pode pôr a imperfeição de lado.

Zá da ponte
De poetaporkedeusker a 16 de Março de 2015 às 00:12
Perfeccionista...

Perfeição... conceito vago,
mas sempre a meta a alcançar,
tempera os versos que eu trago
sem, contudo, os contemplar

Com a beleza de um lago
numa noite de luar,
nem com truques de bom mago,
ou com ceifeira a ceifar,

Mas, por muito inalcançável
que eu o saiba e reconheça,
teimo em torná-lo viável,

Letra a letra e peça a peça,...
(como se achando provável
que isso um dia me aconteça...)

Maria João

Cá vai, Poeta, com o abraço grande de sempre!

De poetazarolho a 16 de Março de 2015 às 23:12
“Ruína”

O orçamento eu lamento
Não chega para asfalatar
O orçamento eu lamento
Não chega para tratar
O orçamento eu lamento
Não chega para educar
O orçamento eu lamento
Não chega para alimentar
O orçamento de momento
Só chega para matar.

Zé da Ponte
De poetaporkedeusker a 17 de Março de 2015 às 11:39
Mata... e mata devagar,
sem ter comiseração!
Não tem pressa de matar,
mas prepara de antemão
cova pr`a nos enterrar...

(estou já pronta pr`acabar,
mas não me falta a razão...)


Maria João

Cá vai com o meu abraço de sempre, Poeta!
De poetazarolho a 16 de Março de 2015 às 23:12
RETRATO-ÉVORA-2015.03.14

PRAÇA do GERALDO sem pavor

A esfregar as mãos frias,
Pela porta giratória,
Entra a história sem nobreza
E a nobreza sem história.
Sentam-se à mesma mesa,
Soam as avé-Marias
Na igreja, ali do lado
Pela mesma giratória
Sai a história com a nobreza
E conversam sobre a estória
Lida no editorial
Dum pasquim amarrotado
Com pretensões a jornal.
Em cima da mesma mesa,
Duas chávenas vazias
Que verteram o seu calor
Nos Geraldes sem pavor.

Eduardo
De poetaporkedeusker a 17 de Março de 2015 às 11:29
"Prendeu-me", este seu poema aos Geraldos sem Pavor... quase, quase pude visualizar os homens lendo o seu jornal, bebendo o seu café, trocando impressões e saindo depois pela porta giratória... muito obrigada, amigo Eduardo!

O meu fraterno abraço!
De poetazarolho a 18 de Março de 2015 às 06:39
“Notícia fresca”

Toda a notícia é ruído
E todo o ruído é notíca
Toda a verdade é verdade
E toda a mentira também
Toda a mentira é mentira
E verdade só se convém.

Zé da Ponte
De poetaporkedeusker a 18 de Março de 2015 às 11:56
Todo o ruído é notícia?
Não o é... vai ser filtrado
mas, de forma subreptícia,
mesmo ao ser posto de lado,
vai deixando, com malícia,
o leitor gasto e cansado...

Maria João

Com o abraço de todos os dias Poeta!
De poetazarolho a 18 de Março de 2015 às 23:36
“Revelação”

Pôr do sol ao fim do dia
Na manhã o recomeçar

Dias há que ao terminar
Com a vontade desfeita

Só a longa noite espreita
Parecendo não terminar

Vontade ao regressar
Revela a manhã perfeita.

Zé da Ponte
De poetaporkedeusker a 19 de Março de 2015 às 13:45
Se perfeitas as manhãs,
na conquista de outros dias,
nunca, nunca, hão-de ser vãs,
nem trazer monotonias...

Quando imperfeitas, malsãs,
trazem tais melancolias
que nos prendem nos divãs
das mais tristes agonias...

Mas pior, pior que o resto,
são as faltas da pobreza
que gritam; "será que eu presto?

Ou não ter nada na mesa,
nem côdea no velho cesto,
não são razão pr`a tristeza?"


Maria João


Foi o que me ocorreu, Poeta por isso segue com um abraço grande!

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