.UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2017

CONVERSANDO COM FLORBELA ESPANCA - Morte

alegoria da morte.jpg

 

DEIXAI ENTRAR A MORTE

Deixai entrar a morte, a iluminada,
A que vem para mim, pra me levar,
Abri todas as portas par em par
Como asas a bater em revoada.

Que sou eu neste mundo? A deserdada,
A que prendeu nas mãos todo o luar,
A vida inteira, o sonho, a terra, o mar,
E que, ao abri-las não encontrou nada!

Ó Mãe! Ó minha Mãe, pra que nasceste?
Entre agonias e em dores tamanhas
Pra que foi, dize lá, que me trouxeste

Dentro de ti?...pra que eu tivesse sido
Somente o fruto das entranhas
Dum lírio que em má hora foi nascido!...


Florbela Espanca



In, "Charneca em Flor"



****************************



ORDEM DE PRORROGAÇÃO DE SENTENÇA



Desvia essa gadanha, ó velha Parca,

Que por mais alguns anos ta dispenso,

Pois, se ontem te venci, melhor te venço

Enquanto em vida deixo a minha marca



E enquanto for levando a minha barca

Por entre um nevoeiro espesso, denso,

Prossigo nesta rota do bom-senso

Assim que a bujarrona se me encharca



Do sal marinho, quando o vento o traz

À minha barca que demanda a paz

No mar de um Sonho que em tempos me coube



E a todas as barreiras liquefaz;

Aos sonhos que me ficam para trás,

Não há, pr`a já, gadanha que mos roube!

 



Maria João Brito de Sousa - 14.02.2017 - 10.37h





 

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publicado por poetaporkedeusker às 10:45
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6 comentários:
De poetazarolho a 14 de Fevereiro de 2017 às 23:26
“Regressos”

O tempo não regressava
E no tempo se perdia
Enquanto nele pensava
O seu eco já não se ouvia

E as palavras foram ditas
Demóstenes as proclamou
Umas poucas, as proscritas
Algum demo as carregou

E a lua então aparece
Nesta estrofe não sei porquê
Talvez seja uma oportunidade

De regresso à reflexão
Suspenso não sei no quê
Mato o tempo sem ansiedade.

Prof Eta
De poetaporkedeusker a 15 de Fevereiro de 2017 às 07:45
Se ao tempo não for matando,
O Tempo me mata a mim,
Por isso o mato criando
Até que me chegue o fim.

Cada cigarro "esticando",
Pesa tanto, o Tempo, assim,
Que parece ir-me esmagando
Neste inferno, antes jardim...

Aos mestres da oratória,
Não quero, nem bem, nem mal...
Deixai-os ficar na história

Da grande História Mundial;
Não gasto a minha memória
Na palavra, quando oral.

Maria João

Cá vai o que me ocorreu, tal como a si lhe ocorreu surgir uma lua no início da terceira estrofe, Poeta.

Abraço grande.
De Rogério Pereira a 15 de Fevereiro de 2017 às 01:20
«Não há, pr`a já, gadanha que mos roube!»

Verso final,
parece uma declaração, enquanto lido
se declamado
parece grito

Florbela te invejaria
De poetaporkedeusker a 15 de Fevereiro de 2017 às 07:06
Bom dia, Rogério.

Obrigada pelas tuas palavras, mas foi apenas um desabafo e não acredito lá muito que Florbela me invejasse... ou talvez sim, mas apenas por teimar em viver...
Sobretudo por teimar em sobreviver nestas condições e por ainda ter conseguido escrever um soneto, apesar de todos estes "racionamentos" de visão, mobilidade, autonomia e... cigarros.

Fote abraço.
De poetazarolho a 15 de Fevereiro de 2017 às 23:20
“Estilhaços”

Transcende-te e dá a paz
Muito poucos o farão
Prova assim que és capaz
De estender a tua mão

Definha e dá a guerra
Caminho da facilidade
Que dessa forma encerra
Capítulo da humanidade

Numa perfeita harmonia
Com receita inquinada
Polvilhada de podridão

E assim não tarda o dia
Em que a paz estilhaçada
Resulte na tua explosão.
De poetaporkedeusker a 16 de Fevereiro de 2017 às 07:36
Transcendo-me a cada hora
Das manhãs em que, acordando,
Vejo que este mundo chora,
Cada vez mais vai chorando

E que, às vezes, se demora
Reflectindo, ou contemplando,
Quanto, ao passar-se "lá fora",
Bem por dentro o vai minando...

São estilhaços? Talvez sejam,
Ricochetando tormentos,
Reflexos que o não protejam

Das tempestades e ventos,
Ou de quanto os olhos vejam
Quando se olham mais atentos...

Maria João


Bom dia, Poeta. Cá vai com o abraço de sempre.

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