.UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
Domingo, 9 de Outubro de 2016

ANACRONISMO(S)

16082702.jpg

(a um bairro que deixou de se rever no seu próprio nome...)



Chama-se ainda Bairro das Palmeiras

O espaço onde eu as vi, de pequeninas,

Medrarem frescas, jovens, altaneiras,

Emulando um grupinho de meninas...



Uma só sobrevive às mil rasteiras

Da cupidez das larvas assassinas,

Mas até nessa as palmas sobranceiras

Sucumbem já - escavados como minas



os troncos dantes fortes quais pilares -

As promissoras palmas dos palmares,

Tombando, também elas, já sem vida



E nem a "minha" velha resistente

Que ousou reverdecer estando doente,

Ousa o que quer que seja, assim despida...

 



Maria João Brito de Sousa - 07.10.2016 - 12.14h

 

Imagem retirada do Google

 

 

publicado por poetaporkedeusker às 09:56
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18 comentários:
De Francisco Carita Mata a 9 de Outubro de 2016 às 16:21
Gosto muito do que escreve. Destaco o seu perfeccionismo. Aprecio, muito especialmente, quando se descentra de si mesma.
Gosto muito deste Poema sobre as Árvores, neste caso as palmeiras. O ser humano é muito importante. Os animais também. Ma que seria de ambos estes Seres se não houvera Árvores?! A Humanidade, globalmente entendida, não dá ainda o devido valor às Plantas. Mas de onde provem o Oxigénio indispensável à Vida?! Que seria da Terra sem Árvores?! Estas passam muito bem sem o Homem. Mas este passará sem o arvoredo?!
Também gosto de escrever sobre Árvores. Obviamente, sem a sua qualidade e perfeição.
http://aquem-tejo.blogs.sapo.pt/jacarandas-37784
Continue a maravilhar-nos com as suas inquietações.
De poetaporkedeusker a 9 de Outubro de 2016 às 16:32
... faço o possível por não errar, tem razão, embora tenha a consciência de que continuo a errar mais do que deveria, amigo Francisco Carita Marques...

Tem, também, toda a razão quanto às árvores, sem as quais pura e simplesmente não poderíamos continuar a existir. Vou já ver os seus jacarandás!!!

Grato abraço!
De batista_oliveira a 9 de Outubro de 2016 às 20:27
Oxalá o bairro mantenha o nome

Oxalá se mantenha o mesmo nome,
Pois bairro de palmeiras é bem lindo.
O belo palmeiral que a terra come
Vai renovar-se, nunca será findo.

Algumas haverá, que irão caindo,
sem das larvas matar ávida fome,
Mas veremos os troncos resistindo
E não haverá força que as dome.

Os troncos vão manter-se, quais pilares,
Apesar da avidez da bicharada
E, na rua, serão os calcanhares

De uma bela alameda de palmeiras
Que se manterá viva e renovada
Alheia às intempéries e lazeiras.

(batista_oliveira - 09/10/2016)
De poetaporkedeusker a 10 de Outubro de 2016 às 08:05
Já não resta nenhuma, infelizmente...
Soçobram uma a uma, apodrecidas;
Foram tombando e só a "resistente"
Brotava em palmas que hoje estão caídas,

Pois resistia, sim, mas tão doente
Que as jovens palmas tombam, carcomidas,
E os troncos das demais, cortados rente,
São só memórias de orgulhosas vidas...

Nem uma só palmeira vive ainda,
Das tantas que há trinta anos vi crescer
Sem conseguir dizer qual a mais linda

E a última acabou de perecer
Depois duma batalha longa, infinda,
Que quase acreditei estar a vencer...


Maria João

Infelimente, amigo Oliveira Batista, nenhuma palmeira sobreviveu, neste bairro... os troncos das palmeiras mortas foram cortados rentes e só uma parecia tentar contrariar a voracidade da praga... há bem poucos dias, olhando-a da minha janela, vi que a jovem coroa de palmas verdes que lhe brotava do topo, caíra palma a palma, como se lhe tivessem sido cortadas por uma faca de lâmina fina; o tronco, apodrecido pelas larvas do Rhynchophorus, deixou de poder alimentar de seiva as jovens palmas e elas soçobraram...

Fico-lhe muito grata pelo soneto repleto de uma esperança que também eu mantive durante um bom tempo, mas que a realidade veio contrariar.

Fraterno abraço!
De batista_oliveira a 10 de Outubro de 2016 às 08:32
Desconhecia, sou doutras lonjuras, mais a norte.
Lamento pelas árvores e também por quem as adorava ver no quotidiano.
Obrigado pelo soneto e pela informação.
Abraço amigo
De poetaporkedeusker a 10 de Outubro de 2016 às 08:43
Nem pode imaginar quão desfeada e descaracterizada ficou esta alameda em que vivo, amigo Batista Oliveira.

Sabendo de antemão que esta praga está a vencer todas as batalhas contra as palmeiras e que seria inútil tentar plantar novas mudas que imediatamente ficariam infectadas, tenho esperança de ainda poder ver este Passeio Vitorino Nemésio coberto de verde por outras árvores não susceptíveis à praga...

Abraço amigo!
De poetazarolho a 10 de Outubro de 2016 às 23:18
“Sinopse da revolução”

Esperança baleada
Mas nada subsistia
Continuou p’la calada
Onde nada resistia

Em plena madrugada
Nada não se extinguia
Depois já feito em nada
Tudo num instante eclodia

Tudo foi uma promessa
Sem a substância moral
Pois aos homens pertenceu

Tudo desvaneceu depressa
Sem que nada fosse igual
E tudo depressa morreu.
De poetaporkedeusker a 11 de Outubro de 2016 às 18:09
Sinopse das "mazelas do dia"


Tudo tem princípio e fim
E, entre os dois, se traça a vida,
Quer pr´a si quer para mim
Que estou c`uma recaída

E, farta de estar assim,
Tão de "entrada por saída";
INR num frenesim,
Todo em fase de subida...

Nem sei se acordada estou,
Enquanto lhe vou contando
Das mazelas do meu dia

Que já quase se findou,
Pois vai-se o Sol ocultando
E a noite parece fria...

Maria João

Peço desculpa, Poeta, por mais uma vez transformar o meu sonetilho numa muito sintética narrativa do meu dia, mas estou tão cansada que não deu para ir muito mais longe do que isto. Teria de acordar às cinco, para ir para o hospital, mas, por acaso, acordei às quatro,, e tive receio de não ouvir o despertador se voltasse a pegar no sono... fiquei acordada, portanto, desde essa hora.

Abraço grande!
De vERA a 11 de Outubro de 2016 às 22:05
Muito lindo seu poema das palmeiras.
A morte delas é uma dor que não tem fim não é?
Quando penso em retirar pés de rosas que minha mãe plantou, meu coração dói, mas um dia será preciso, pois deverei fazer reformas no quintal. Porém, farei de tudo para replantar boas mudas.
Até um poema nasceu:

Lembrança

Hoje, acordando lhe vi!
Na bela rosa que ontem plantou.
Longe, senti o perfume que exalava, e sorri,
Rosa vermelha, no pé também desabrochou.

É primavera, estão muito perfumadas!
Diariamente perdem suas folhas.
Transformam para serem amadas,
E na próxima viagem farão mais escolhas...

A vermelha que mais floresce!
É nela que sempre sinto
Sua presença; quando amanhece,
É certamente no nosso recinto.

Rego-as diariamente ao pôr-do-sol!
Com imenso chilrear dos passarinhos.
Provavelmente, veja do alto como farol,
E sua Luz resplandece com os anjinhos.

Jamais esquecerei quem me deu a Luz!
E à todos, o amor imenso deixou...
O perfume da rosa que bastante traduz
Seu amor depois que desencarnou!

Autor: Vera Lucia Jacintho.
De poetaporkedeusker a 12 de Outubro de 2016 às 11:43
Olá, Vera!

Bonito poema às tuas rosas e à tua mãe que, neste teu Lembrança, nos aparece representada pela rosa...

Sim, tens razão, dói muito ver cair estas velhas companheiras... são mais de trinta anos de amadurecimento em conjunto, quase me sentia como uma delas... identifiquei-me, sobretudo, com esta última resistente, bem em frente da porta de entrada do meu prédio. Muitas vezes disse para mim mesma, como se ela me pudesse ouvir, que estávamos ambas doentes, mas ambas haveríamos de "dar luta" antes de partirmos... quando a vi ganhar uma novíssima coroa de palmas no topo, quase me convenci de que ela conseguiria resistir mais uns aninhos, apesar de ter verificado que estava infestada pelo Rhynchophorus ferrugineus, mas... não resistiu e a coroa de palmas jovens caiu de uma só vez, apodrecida de raiz...

Nunca esquecerei estas palmeiras, mas sou realista e aprendi/entendi, desde muito pequenina, o "modus operandi"das pragas naturais que visam determinada espécie; ou são detectadas e erradicadas precocemente, ou destroem completamente todos os membros dessa espécie, sendo que um ou outro desses elementos encontrará forma de lhes resistir. Infelizmente são sempre muito poucos, os elementos que resistem, e isto é tão verdadeiro para as palmeiras, quanto para nós, humanos...

Na verdade, esta praga manter-se-á activa neste país enquanto restar uma Phoenix canarensis (esta espécie de palmeiras) de pé e, depois, ou acabará de vez, ou tenderá a "evoluir" e passará a alimentar-se de outras espécies de palmeiras, até hoje não vulneráveis ao escaravelho vermelho...

De qualquer forma, não mais haverá palmeiras nesta alameda... só espero que outras espécies de árvores venham a ser plantadas pela Autarquia porque este Passeio Vitorino Nemésio, que era um espaço lindíssimo, está completamente desfigurado pela ausência de árvores e tornou-se um espaço árido e nada, mesmo nada bonito e acolhedor...


Um abraço grande para ti, Vera!
De ADÍLIO BELMONTE a 11 de Outubro de 2016 às 23:33
Vossos sonetos dia a dia se tornam mais realistas ao transmitirem o amor e a saudade.
De poetaporkedeusker a 12 de Outubro de 2016 às 10:55
Não sou, poeta amigo, uma pessoa que se possa caracterizar como saudosista, acredite, por mais que , neste específico soneto, confesse que tenho saudades das palmeiras deste bairro...
A nostalgia dos espaços verdes, essa sim, está profundamente enraizada em mim, em conjunto com a profunda consciência de quão importantes as árvores são para a sobrevivência de todas as outras espécies... e há amor em tudo isto, sim, claro está!

Outro grande abraço, poeta amigo!
De ADÍLIO BELMONTE a 12 de Outubro de 2016 às 00:06

PALMEIRAS DA VIDA

Quão difícil é falar de palmeiras,
Pois elas são robustas heroínas
Que se postam por vezes altaneiras
No meio do deserto e das ruínas.

Nenhuma alma de fêmea é tão forte
Como a palmeira sempre maltratada
E que é exposta aos ventos da sorte
Tal qual a mulher só e destratada.

Mas no silvo valente de um vento
Ela recebe um beijo de amor,
Passando outra vez a viver feliz.

E num mundo de tanto desalento,
Onde muitos vegetam em clamor,
Essa árvore renasce como o Fênix.
De poetaporkedeusker a 12 de Outubro de 2016 às 10:29
A Dura Realidade...

Poeta, o seu poema é quase abraço;
Consola-me essa esp`rança que agradeço,
Mas jaz morta a palmeira - esse bem escasso... -
E nem posso sonhar-lhe o recomeço...

Venceu-a a praga... ainda, ocupa espaço,
Mas tomba, palma a palma, um bem sem preço...
Já podre, o velho tronco, é vulto baço;
Da sua companhia, eu me despeço...

Agora há que enfrentar a realidade;
Não mais a "resistente" irá ter vida...
Observando a alameda com saudade,

Vejo quão triste fica, assim despida,
Por obra de uma praga, sem maldade,
Que apodrece as palmeiras, por comida...

Maria João

Poeta amigo Adílio Belmonte, muito, muito grata lhe fico pelo seu soneto que ecoa como um apelo à esperança, mas... a verdade é que todas as palmeiras morreram e foram já cortadas... restava esta que parecia estar a resistir até, há bem poucos dias, eu reparar que a coroa de palmas jovens que lhe crescia no topo, estava, também, tombada e apodrecida...

Resta-me alguma esperança de ainda poder ver esta alameda coberta de verde, mas não poderão ser palmeiras, as próximas árvores a serem plantadas nos canteiros desfigurados, ou seriam imediatamente reinfestadas e teriam a mesma triste sorte das suas predecessoras...

Pelo menos a "Phoenix canarensis", a espécie mais vulnerável ao "Rhynchophorus ferrugineus", não poderá voltar a florescer neste país, sob pena de ter um curtíssimo "reinado", pois tanto quanto sei, a epidemia atingiu Portugal de Norte a Sul...

Envio-lhe um grande, grato e fraterno abraço, poeta amigo!


Maria João
De poetazarolho a 12 de Outubro de 2016 às 01:17
“Inversão do abismo”

Loucura no topo do mundo
Em termos de surrealismo
Tão real quanto profundo
Nesta inversão do abismo

Cais a pique no imundo
Utilizas o teu vedetismo
Cavas o sucesso a fundo
Fazes uso do secretismo

E tudo assim transparente
Num vai vem mudo e calado
Torna a loucura fundamental

O abismo assim diferente
Faz-se topo aprofundado
Deste mundo que é surreal.

Prof Eta
De poetaporkedeusker a 12 de Outubro de 2016 às 09:14
... outro atalho...

Metáfora "bem esgalhada",
A deste "abismo invertido"
Cuja projecção, sondada,
Traz o mundo convencido

De ir percorrendo uma estrada
Que não tem mais que um sentido...
Anda esta malta enganada;
Cai, mas julga ter subido...

Cada buraco, um degrau!
Pé que o suba, é passo atrás...
Eu faço o percurso a vau,

- mais alguma gente o faz... -
Que este atalho é esconso e mau,
Mas desemboca na Paz...


Maria João

Cá vai Poeta, com o abraço grande de sempre!
De poetazarolho a 12 de Outubro de 2016 às 23:27
“Gravitamos”

Sob o manto da verdade
Tudo se pode esconder
Em doses de crueldade
Que todos fingem não ver

Chegados à atrocidade
Fazemos por não perceber
Branqueia-se tod’a maldade
Neste universo a ferver

Onde gravita poeira
Que chamam humanidade
Sem humanidade ter

E a humanidade inteira
Assiste com passividade
Por humanidade não ser.
De poetaporkedeusker a 13 de Outubro de 2016 às 08:13
Efeitos "colaterais" dos excessos emocionais


O excesso de informação
Levado ao espectacular,
Tem, afinal, a função
De a tal nos habituar...

Caada um faz tal gestão
Conforme ao seu processar;
Quando a "sobrelotação"
Quase o começa a esmagar,

Crê não haver solução
E o melhor é nem pensar,
Pois pensar parece em vão,

Melhor é "deixar andar"
Apenas dando atenção
Se não racionalizar...

Maria João

Poeta, estou quase de saída para mais testes. Aqui fica outro parecer sobre uma outra perspectiva da passividade humana. Pode ser parcial, mas também há que ter em conta que este "excesso" de acontecimentos induz numa confusão generalizada da qual o ser humano necessita de se proteger, por perfeita incapacidade de processar racionalmente tanta informação. Abraço grande!

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