.UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
Quinta-feira, 31 de Agosto de 2017

COM PRAZO DE VALIDADE

URO-VAXOM.jpg

 

Algumas fomes têm data certa;

Uma, aos fins-de-semana e feriados,

Vai-nos deixando a porta entreaberta

Aos tormentos por vir, aos já passados



E aos que surgem duma descoberta

Das consequências de passos já dados

Que conduziram, muito embora alerta,

A sermos novamente condenados...



Quem fome sinta, logo o cinto aperta,

Mas outras surgem porque, aos medicados,

Vai faltando o remédio que os liberta



De sofrimento e morte antecipados,

Portanto uma outra fome em nós desperta;

Queremo-los todos comparticipados!



 

Maria João Brito de Sousa – 31.08.2017 -13.16h

 

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Quarta-feira, 30 de Agosto de 2017

NESTA PAIXÃO MAIOR CHAMADA GLOSA...

digitalizar0004.jpg

 



Nesta paixão maior chamada glosa,

Deixo o melhor de mim; encho-a de amor,

Mesmo sabendo que é tão caprichosa

Que dela nunca sei seja o que for,



Quando a ela me entrego um tanto ansiosa,

Como abelha a voar de flor em flor

Em busca da que entenda mais viçosa

Pr`a garantir-lhe ainda mais vigor.



Glosavam-se os poetas, lá por casa,

E, nas reuniões da Tábua Rasa,

Cheguei a ver a glosa acontecer,



Por isso vos confesso que me abrasa

A glosa, que é espontânea e não desfasa

Daquilo que não sei senão dizer...

 



Maria João Brito de Sousa – 30.08.2017 – 14.56h

 

(Reservados os direitos de autor)

 

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Terça-feira, 29 de Agosto de 2017

GLOSANDO JOÃO MOUTINHO II

Julio.jpg

 

SONHO SOLTO

 

Sento-me, só, no colo das ideias

Do verso branco que não sei parar…

Sinto o dilatar de todas as veias

Que pulsam em mim, sem me sossegar

 

Todos os elos, todas as cadeias,

Todas as ondas me vão navegar

E desaguar nas mesmas areias

Do mesmo sol-pôr, do mesmo luar

 

Cavalgo as marés da tua ternura

Nas dunas de pele que quero sorver…

Saciando a sede na tua candura

 

O sonho só solto ao anoitecer

No amanhecer da minha loucura

No verso de amor que não vou escrever

 

João Moutinho



POR ELA



“Sento-me, só, no colo das ideias”,

Enlaço-me nos braços da Razão

E, apagada a chama das candeias,

Confronto a minha humana condição;



“Todos os elos, todas as cadeias”,

Todas as formas de escravização,

São coisas que não sabes, mas premeias,

Não por palavras, mas por omissão.



“Cavalgo as marés da tua ternura”

Quando descanso e sempre que puder,

Mas assim que a Razão sonda e perfura



“O sonho só solto ao anoitecer”,

É por ela que aceito esta ruptura

E, por ela, só dela passo a ser.

 



Maria João Brito de Sousa – 28.08.2017 – 11.58h

 

 

Desenho de Júlio (irmão do poeta José Régio)









 

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Segunda-feira, 28 de Agosto de 2017

ESBOÇO EXPRESSIONISTA DA SERRA DE SINTRA

SINTRA.jpg

 

Ontem a serra estava tão bonita!

Da varanda onde estive, a pude ver

E por sobre ela uma pequena fita

Azul, como se enfeite de mulher,



Realçava-lhe a cor viva e bendita

Que de verde a cobriu, logo ao nascer

E, mantendo-se viva, lhe credita

A justa fama de a mais bela ser.



Mil vezes nesses verdes me perdi,

Mil vezes me encontrei nessa memória

Quando, em chegando a noite, não mais vi



No seu verde contorno, a sua glória;

Não a podendo ver, relato aqui

Aquilo que senti, mas nunca a história...





Maria João Brito de Sousa – 28.08.2017 – 10.36h

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Sábado, 26 de Agosto de 2017

O VIGÉSIMO QUINTO DIA

O VIGESIMO QUINTO DIA.gif

 

À pressa, sempre à pressa, tropeçou

No último degrau duma escadinha

E, na pressa de erguer-se, derramou

Da velha mala, tudo o que continha.



Foi ainda com pressa que a apanhou

E apressou-se mais porque a noitinha

Caía sobre a esperança com que ousou

Descer a escada à pressa, assim, sozinha.



Passou-se o vinte e quatro e não chegou

A grandemente ansiada esmolazinha;

A conta por pagar, não a pagou,



Cigarros, emprestou-lhos a vizinha...

Repete-se, hoje, a angústia que a levou

A correr, estando quase entrevadinha.





Maria João Brito de Sousa – 25.08.2017 – 11.16h

 

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Quinta-feira, 24 de Agosto de 2017

MAPA MUNDI

MAPA MUNDI.jpg

 

Tentando refazer todos os passos

Da minha venturosa desventura,

Dei conta de me serem muito escassos

Os meios de encetar essa procura



Porquanto me faltavam força e braços...

Faltava-me, afinal, musculatura

E, de tabaco, tinha só dois maços

Que é coisa que, bem sabem, pouco dura...



Desisto da demanda! Se há mil espaços

Na nova dimensão de outra lonjura,

Porque hei-de desgastar-me em tais cansaços,



Porque hei-de submeter-me a tal tortura?

Deixo o meu Mar suspenso entre os sargaços

E, à Terra, engendro-lhe outra curvatura!





Maria João Brito de Sousa – 24.08.2017 – 11.28h

 

(Reservados os direitos de autor)

 

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O VIGÉSIMO QUARTO DIA

O VIGESIMO QUARTO DIA.jpg

 

A cada vinte e quatro, por instantes,

Enquanto subo e desço a escadaria,

Sinto o mesmo alvoroço dos amantes

E a extrema apreensão duma agonia,



Quando a seguir, com gestos hesitantes,

Tento pagar as contas que devia

Ter já saldado umas semanas antes

Do sempre ansiado e mencionado dia,



Por isso, as minhas náuseas são constantes;

Nunca a debilidade, a distonia,

Ou mesmo outras angústias semelhantes,



Me fariam sentir tanta euforia,

Seguida por horror, ao ver gigantes

Nas contas dos moinhos de energia...





Maria João Brito de Sousa -23.08.2017 – 14.28h

 

(Reservados os direitos de autor)

 

Imagem retirada da net, via Google

 

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Quarta-feira, 23 de Agosto de 2017

GLOSANDO A POETISA MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE - Poetas

heaven.jpg

 

QUERIA SER POEMA

 

Queria ser poema, não poeta

Poema que espalhasse afecto e amor

Por todos os recantos do planeta

Onde se dita a guerra, se faz dor

 

Poema que escorresse da caneta

De qualquer presidente ou ditador

Que ao assinar metesse na gaveta

Tal decreto com fim exterminador

 

Queria ser poema no luar

Para poder à noite iluminar

Quem nada tendo dorme na calçada

 

Poema só com versos de amizade

De alegria, prazer felicidade

Lidos em cada triste madrugada

 

 

MEA

14/08/2017



UNOS, AINDA QUE SÓS



“Queria ser poema, não poeta”,

E tantas, tantas vezes o sonhei

Que acabou por ser essa a minha meta

Quando, ao último verso, enfim cheguei.



“Poema que escorresse da caneta”

Como sangue da carne em que o gerei,

Que me deixasse grávida e repleta

Do tanto que perdi quando me dei.



“Queria ser poema no luar”,

Ou verso apenas, sob a luz solar,

Mas sempre sob um sol de todos nós.



“Poema só com versos de amizade”

Que nunca nos negasse a liberdade

De sermos unos, mesmo estando sós.





Maria João Brito de Sousa – 23.08.2017 – 10.21h

 

(Imagem retirada do Google)

 

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Terça-feira, 22 de Agosto de 2017

O INGREDIENTE PRINCIPAL

O INGREDIENTE PRINCIPAL - Pablo Picasso.jpeg

I

Um vinho tinto em vidro transparente,

Um caldo verde espesso, fumegando,

Um pão que sabe e cheira ao gesto quente

Das mãos que o vão partindo e partilhando.

 

II

Um copo que se entorna, de repente,

A sopa na terrina, já esfriando,

Brotam palavras da fornalha ardente

Dos gestos doces que as vão convocando.

 

III

Dois corpos que se enlaçam, se dobrando

Sobre uma mesa que já vai sobrando,

Matam a fome que se torna urgente,

 

Esquecidos, ambos, de que estão jantando,

Porque esse abraço foi-se transformando

No mais apetecido ingrediente.

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 21.08.2017 – 16.26h

 

(Resevados os direitos de autor)

publicado por poetaporkedeusker às 09:50
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Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017

GLOSANDO MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE - Barquito/Jangada

JANGADA DE SONHOS.jpg

UM BARQUITO NO TEJO



Lá ao longe nas águas cor de prata

Onde o sol se refresca ao fim do dia

E onde o Tejo convida uma fragata

Vai um barquito, só...sem companhia

 

Vai sereno na sua passeata

Deslizando em reflexos de poesia

Sob a ponte onde a água é mais pacata

Quando a tarde é já cor de fantasia

 

Parece quedo ali ao meio do rio...

Somente o balouçar lento e macio

Denota que ele vai a navegar

 

De vela içada segue o seu destino

E ao leme leva um sonho de menino

Feito de sol de brisas e de mar

 

MEA
20/08/2017



********

JANGADA DE SONHOS



“Lá ao longe, nas águas cor de prata”,

Flutua uma jangada aventureira

Humilde, porque toda se recata,

Sem âncora, sem rumo e sem fronteira.



“Vai sereno/a na sua passeata”,

Ao sabor das marés voga ligeira;

Só nas cristas das ondas se retrata

E só no azul do céu se espelha inteira.



“Parece quedo/a, ali, ao meio do rio”,

Onde não passa mais nenhum navio;

O mar que a espera é seu, de mais ninguém!



“De vela içada segue o seu destino”

Deixando atrás de si o rasto fino

Do sonho com que ousou deixar Belém.





Maria João Brito de Sousa – 21.08.2017 – 10.44h

 

 

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Domingo, 20 de Agosto de 2017

O CONVITE II

CONVITE PARA JANTAR.jpg

 

(Soneto de métrica imperfeita/irregular)



Porque chegaste desequilibrado,

Porque partiste sem te equilibrar

E, tropeçando em teu passo apressado,

Me convidaste sem me convidar?



Porque me deste um beijo descuidado,

Porque me amaste sem nunca me amar,

Porque deixaste este cheirinho a fado

E bossa-nova, quase a combinar?



Se foi convite, chegou-me atrasado,

Se foi adeus, esqueceu-se de acenar

E foi-se embora quase envergonhado



Para não ter de ouvir-me perguntar;

Como é que pode alguém, sem ter voltado,

Dar-me esta sensação de por cá estar?

 



Maria João Brito de Sousa – 19.08.2017 – 08.31h

 

 

publicado por poetaporkedeusker às 09:00
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Sábado, 19 de Agosto de 2017

GLOSANDO CHICO BUARQUE

MENINA SENTADA - PORTINARI.jpg

 

SONETO



Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono?

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo?

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída?

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio?



Chico Buarque



SONETO II



Porque vieste assim, louco e sem dono,

Falar-me de mil coisas nunca ouvidas

E me afagaste com mãos decididas,

“Quando eu estava bem, morta de sono?”



Porque bateste à porta, manhã cedo,

E me ofuscaste em luz, na luz que entrava

Por essa mesma porta que eu fechava,

“Quando eu estava bem, morta de medo?”

 

Porque é que me quiseste dividida,

Se inteiro preencheste este meu rio

“E me deixaste só, com que saída?”



Porque foi que sorveste cada fio

Duma água que jamais fora bebida,

“Quando eu estava bem, morta de frio?”





Maria João Brito de Sousa – 18.08.2017 – 19.41h



(Neste segundo soneto, todos os versos que se encontram entre aspas são da autoria de Chico Buarque)

 

"Menina Sentada" - Portinari

 

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Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017

SE EU PUDESSE, NÃO PODIA

digitalizar0045.jpg

 

(Soneto em decassílabo heróico)



Se eu pudesse despir-me de razões,

Minhas asas ao vento deitaria

Ou, mesmo desasada, voaria

Sem rumo, sem destino e sem paixões.



Mas tem, este meu “se”, contradições;

Eu sei lá se a paixão me moveria

Nesse acto de voar, nessa ousadia

De rebelar-me contra as convenções?



Confesso que já houve ocasiões

Em que qualquer paixão me perderia

E, não fora a razão, despir-me-ia



Cedendo às ilusórias tentações...

Mas vem pôr-me, a razão, novas questões

E, afinal, se eu pudesse... não podia!

 



Maria João Brito de Sousa – 18.08.2017 – 11.23h

 

publicado por poetaporkedeusker às 11:43
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